Maya – “Egophilia” (2018)
Independente
#ClassicRock, #HardRock, #StonerRock
Para fãs de: Led Zeppelin, Gov’t Mule, Zakk Wylde
Nota: 10
Gimmy Maya e eu nunca fomos amigos de sair juntos ou frequentar a casa um dos outro, mas ainda estávamos no ensino médio quando nossos caminhos se cruzaram pela primeira vez. Nossas bandas na época se apresentaram nas mesmas casas, tocando repertórios bem parecidos — como era divertido ouvir “Paranoid” de três a cinco vezes num mesmo evento! — sob palcos feitos de pallets ou engradados de refrigerante. Tocar por tocar, pelo simples prazer não remunerado de sorrir e fazer sorrir, era motivo o bastante para manter a guitarra em dia e, conforme o tempo permitisse, se aprimorar no estudo da música.
Muitos de nossos contemporâneos trilharam outros caminhos profissionais — eu mesmo tive o meu momento de dizer “chega dessa merda” e trocar os acordes pelas palavras —, mas Gimmy permaneceu entre aquela meia dúzia que continuou levando a coisa a sério. A banda que leva o seu sobrenome foi o passo natural e esperado, e nos últimos anos não foram poucas as vezes que se apresentou em lugares melhores, para públicos maiores e, como “Egophilia” exibe com tamanho primor, aprimorou o seu som para além das raias do classic rock, gênero-base da formação musical de seu líder.
A extensão do álbum pode até assustar — 20 faixas, totalizando mais de 70 minutos —, mas basta entender o conceito para concluir que seria impossível ser mais sucinto. O objeto de estudo aqui é o ego, em todas as suas variações internas e externas, presenciais ou digitais, e como as pessoas se deixam levar, às vezes até inconscientemente, pelo lado ruim da vaidade. Só essa sensibilidade já destaca o Maya de seus pares, colocando-os um patamar acima no quesito maturidade; as letras, que vão da crítica velada ao esculacho público, não me deixam mentir. Enquanto “Attention Whore” pisa no calo daqueles que visam à ascensão na chamada lacrosfera através de exibicionismos digitais, “Uneasy” aborda os reveses desse fracasso e a frustração ante às reviravoltas da vida. Já “Seeds of Suicide” nos leva a pensar: se de fato somos aquilo que comemos, estamos ferrados sim ou com certeza? No fim das contas, a resposta a todas as reflexões propostas é a mesma: está tudo em nossas mãos, cabe a nós escolher. Se for para errar, que erremos cada vez melhor. Uma hora vai.
Com tantas frentes a serem exploradas, é aceitável que o som incorpore diversas influências, e é aí que Gimmy e os outros mostram que, além de um vasto vocabulário musical, possuem excelente gosto para a timbragem de seus instrumentos. Pense em órgãos a la Deep Purple, whammy a la Rage Against the Machine e uma pegada que você não sabe se é mais Jimmy Page com esteroides ou Zakk Wylde numa camisa de força, ou ainda Warren Haynes, o rei da improvisação que pouca gente conhece. Pense em complexidade sob medida. Pense em pontes e tempos inesperados. Blues, psicodelia, Rob Zombie, Guarapari, Búzios, minha arte… CARALHO! Se você gosta de rock — esqueça os malditos subgêneros e rótulos —, meu amigo, “Egophilia” é para você. Vale citar que quem assina a produção é Tércio Marques, outro “da minha época” que desde os intervalos das aulas já mostrava talento para a coisa.
Aos que menosprezam o formato físico, saibam que “Egophilia” conta com um belíssimo encarte contendo as letras e artes assinadas por Aroldo Lima; coisa que reforça a velha ideia de simplesmente parar para ouvir música, dando à audição uma suficiência que parece ter sido perdida conforme o advento do digital. Se tiver como, adquira o CD, e pare por uma hora e pouco para apreciar esse combo. E não perca a chance de ver o Maya na estrada. O torcicolo é garantido.
Marcelo Vieira
