Ícone do site METAL NA LATA

Mercic – “MERCIC_7_2021” & “MERCIC_8_2021” (2021)

Mercic“MERCIC_7_2021” & “MERCIC_8_2021” (2021)
UNP Music
#IndustrialMetal, #HarshIndustrial, #Avantgarde

Para fãs de: Nine Inch Nails, Ministry, A Perfect Circle

Nota: 10

Venho acompanhando os lançamentos do Mercic desde 2017, fase em que integrei a equipe fixa do Metal na Lata. Lembro-me que, entre os lotes intermináveis de lançamentos para resenhar, o álbum “MERCIC_4_2018” me chamou de imediato maior atenção, uma vez que, além de adotar o gênero Industrial Metal (que eu adoro), já apresentava músicas fora do padrão convencional do estilo. Percebi de imediato que se tratava de uma banda com DNA próprio.

Na verdade, não é exatamente uma banda, mas um projeto de um homem só, Carlos Maldito, que pode ser descrito como um artista, meio gênio maluco, que, contando com a colaboração de alguns músicos, se enterra em seu computador e uma DWA (Digital Audio Work Station), a fim de reproduzir seus sentimentos e visões de mundo através de música distorcida, beats eletrônicos, camadas de sequenciadores, intervenções de violas e pianos, enfim, músicas com muita riqueza de detalhes, por cima das quais o poeta manda seu recado – de maneira direta e contundente. Foi que ouvi também em “MERCIC_5_2019” e “MERCIC_6_2020” (todos indicados como melhores do ano, nas minhas listas para o Metal na Lata).

Fiquei muito feliz de revisitar o Metal na Lata, para resenhar o lançamento duplo do MERCIC, e decidi fazer a resenha dos dois álbuns de uma vez só – porque se complementam, como seria de se esperar em um lançamento simultâneo desta grandeza. E, o que presenciamos aqui é o aprimoramento do trabalho que a ‘one-man-band’ vinha desenvolvendo, alcançando, o que eu costumo chamar de ‘estado de arte’ – acima da crítica literária, portanto.
Não se trata de um lançamento duplo com pretensões de narrar um feito épico, nada disso. Os álbuns representam duas construções musicais diversas, cada uma com uma proposta, que acabam por se complementar, ao final da audição integral de “MERCIC_7_2021” e “MERCIC_8_2021.

O álbum #7, propositalmente, é todo cantado na língua-mãe de Carlos Maldito – o português, no caso, com acento de Portugal, país de origem do músico. Seguindo a tradição dos primórdios da música Industrial, que surgiu como uma espécie de poesia experimental falada, envolta em ruídos, tirados de ferramentas de metal, instrumentos musicais desafinados e sons eletrônicos perturbadores e repetitivos, como um bate-estaca interferindo em uma composição musical, para destruir e fragmentar suas melodias.

Claro que esta proposta originária do Industrial, lá dos anos 70, está devidamente atualizada e repaginada aqui, adotando influências de Ministry – como em “Batalha de Egos”, que já começa o álbum em ritmo eletrônico, marcial, denso – e também do mestre da programação Industrial, Trent Reznor (Nine Inch Nails) – principalmente da fase “The Fragile”, como fica ressaltado na bela “Sê Audaz”, influência musical que dá a tônica da maior parte do andamento do primeiro álbum. A sensação é de que Carlos foi capaz de trazer para os tempos de hoje o que o Throbbing Gristle faria, caso a música Industrial surgisse em 2021.

O álbum #7, como eu disse anteriormente, carrega também em si uma narrativa poética, que se desenvolve entre a tensividade entre momentos de saturação sonora – “Se Pequeno For Teu Pensamento Jamais Serás Grande em Algo”, que deixa clara outra influência do Mercic, que é o Reverendo Manson, ao fazer alusão ao compasso de “Beautiful People” e adoção de samples sombrios, dando aquele clima de filme de terror à ambiência sonora, a fim de preparar o terreno para a declamação da sua poesia contundente.

Por falar nas letras, me pareceu que Carlos compôs uma poesia extensa, em versos livres e as dividiu em cada uma das músicas. E, apesar da ambiência soturna e distópica proporcionada pelos elementos de Harsh Industrial, no final das contas, o que se lê é um chamado ao ouvinte (a poesia é um diálogo entre o EU lírico com o TU ouvinte) a retomar sua autoconsciência e tratar de uma vez por toda de sentimentos assustadores, que teimamos fingir não nos assolar: manipulação; medo; abandono; revolta; libertação!

Agora, o que falar de “MERCIC_8_2021”? A primeira coisa que me veio à mente é que Metaleiro Fundamentalista certamente não terá preparo musical para entender a proposta das 10 músicas instrumentais que compõem o álbum (fica o alerta que, apesar de duplo e com várias músicas, a audição completa de ambos os álbuns não leva mais do que 1 hora).

O álbum #8 é um ‘opus’ ao ataque à apatia dos seres humanos escutada no álbum #7, com uma pegada mais etérea, oscilando entre densidade obscura e melodias claras e agradáveis – pode pegar a sequência “The Determinant Rising” (Harsh Industrial trevoso), “The Ruinous Damage” (violas e aquele tom de lamento meio fado/flamenco) e “The Extermination of What You Thought to Be” (com aquele clima soturno de trilha sonora de passagens vertiginosas de filmes de David Lynch). A sugestão aqui é ouvir o álbum #8 de ponta a ponta, como uma música completa, dividida em ‘pedaços’ para permitir seu consumo pelo mercado musical e, ao longo da riqueza musical dispersa entre as faixas, refletir sobre o que foi dito no álbum #7.

Por fim, outra coisa que posso dizer é que Trent Reznor pode seguir tranquilamente com seus projetos de criação de trilha sonora para filmes e séries (pelas quais o gênio norte-americano é premiado sequencialmente pela indústria do entretenimento, diga-se de passagem), pois o legado do Harsh Industrial/Electro Avantgarde está em ótimas mãos com o Mercic.

O detalhe que ainda não contei é que Carlos Maldito, além de ser um maestro da música eletrônica, também é um multi-instrumentista de mão cheia – toca bateria, guitarra, violão e piano muito bem, com excelente noção de composição musical. Assim sendo, aproveite este lançamento duplo, que é, para parafrasear/adaptando James Joyce: um retrato do artista quando foge; e volta, com coisas muito ricas para compartilhar com o ouvinte.

Wallace Magri

Sair da versão mobile