Monsters Of Rock – Allianz Parque, São Paulo/SP (05/04/2026)

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Monsters Of Rock – Allianz Parque, São Paulo/SP (05/04/2026)

Produção: Mercury Concerts
Assessoria: Catto Comunicação

Texto por Héverton Souza
Fotos por Ricardo Matsukawa
Fotos (Guns N’ Roses) por Guns N’ Roses

Depois de uma edição icônica em 2025, com Stratovarius, Opeth, Queensrÿche, Savatage, Europe, Judas Priest e Scorpions, o Monsters of Rock trouxe em 2026 seu line-up mais fraco em todas as suas 9 edições.

Bandas como Jayler e Dirty Honey, ainda desconhecidos do grande público (e não estamos falando de um festival que trabalha com o underground), Halestorm, uma banda já com sua base de fãs, mas ainda aquém do padrão Monsters Of Rock, e até a presença do guitarrista sueco Yngwie Malmsteen, que, apesar de ser um veterano do rock, trouxe questionamentos entre o público presente sobre se não caberia uma outra atração em seu lugar.

Aí fica a pergunta: isso impediu o evento de lotar um estádio? Não! Extreme, Lynyrd Skynyrd e, principalmente, o Guns N’ Roses garantiram o sucesso de mais essa edição do festival.

ESTRUTURA

O Allianz Parque já é consolidado como uma casa de shows, seu foco, na verdade, nem são os jogos de futebol de seu clube de origem, mas sim os megaeventos, então os caras já sabem de trás para frente o que deve ser feito. Mesmo assim, tivemos uma falha grave: a qualidade do som.

Entendam: a Pista Premium tinha qualidade de som impecável, as Cadeiras Inferiores, as únicas às quais nossa reportagem conseguiu acesso, tinham uma qualidade de som boa, agora a pista estava bem abaixo. Som embolado, sobravam graves e vocais chegavam baixos. Estamos falando de um setor cujos ingressos mais baratos, aqueles de meia-entrada que se esgotam em segundos, custavam quase R$ 375, mais de 20% do salário mínimo do trabalhador brasileiro CLT, sendo que a maioria dos que ali estavam pagaram o valor da inteira, de R$ 750. Agora imaginem a possível frustração em custear tais valores e ainda ter uma qualidade de som ruim.

Ao menos, a instalação de um telão vertical cobrindo a parte de trás da área técnica, que toma parte da pista e da visão, foi uma solução inteligente e muito bem-vinda.

Os preços elitizados já são costumeiros nesses grandes eventos e beiram o absurdo! Um simples churro estava entre os alimentos mais em conta, pela bagatela de R$ 19. Que tal uma camiseta do festival ou de alguma das bandas? Apenas R$ 200.

E, em meio a isso, a água que é fornecida em copos nos poucos Pontos de Hidratação (Lei nº 18.913/2025-SP) já havia acabado por volta das 17h, deixando esse fornecimento gratuito apenas em alguns poucos bebedouros para quem tinha um recipiente para abastecer.

Outra questão foi a área de cadeirantes: longe do palco, já depois da Pista Premium, e baixa, com suas cadeiras ficando na altura de pessoas que passavam caminhando em frente. Ou seja, estavam ali vendo pouco, às vezes nada do palco — que não era muito alto — e, ainda assim, pagando para assistir aos shows basicamente pelos telões. Acredito que esse público merecia algo realmente mais acessível e melhor posicionado. Fica a dica, pessoal!

E, veja bem, tudo o que foi citado aqui são críticas construtivas também para todos os megaeventos, pois do jeito que as coisas vêm sendo estruturadas, a situação é preocupante. A Mercury Concerts sempre primou pela eficiência e excelência em seus eventos, e acredito que, com esse tipo de apontamento, os próximos festivais possam evoluir ainda mais na questão de acessibilidade, conforto e experiência do público como um todo, corrigindo falhas importantes que impactam diretamente a vivência de quem paga para estar presente.

Agradecimentos à toda equipe da Mercury Concerts e sua assessoria Catto Comunicação, pela parceria de sempre.

Agora vamos falar de música, que é – e sempre será – o nosso principal foco.

JAYLER e DIRTY HONEY

As duas responsáveis por aquecer o público em um sábado já quente, com temperatura que bateria na casa dos 30ºC, fizeram sua parte, mesmo sem atrair muito a atenção do público.

A inglesa Jayler é bem nova, formada em 2022, e chegou a viralizar nas redes sociais por suas semelhanças sonora e de figurino com o Led Zeppelin. Criar algo intencionalmente tão parecido com ídolos considerados verdadeiros ícones da música é mesmo um grande risco, e só o tempo dirá se, para o Jayler, foi um risco válido.

Seu set de apenas 45 minutos trouxe músicas do EP de estreia, “A Piece in Our Time”, lançado em 2023, assim como seu mais recente single “Riverboat Queen”, de 2025, uma das melhores ali ouvidas, por sinal, bastante swingada. Também merece destaque “Over the Mountain”, mostrando toda a potência vocal de James Bartholomew. Mas, ao fim da apresentação dos caras, tudo que se ouvia falar era “Led Zeppelin”.

O Dirty Honey não estava muito longe disso, trazendo um hard rock setentista, a influência de Jimmy Page e cia. também era notada em seu som, mas não a única e muito menos tão escancarada. Formada em 2017, a banda americana já traz um pouco mais de identidade, de maturidade musical, agradando fãs de nomes como Black Crowes, por exemplo.

Enquanto “When I’m Gone” deu peso ao show, “Heartbreaker” mostrou um lado mais southern rock e “Lights Out” a bela técnica vocal de Marc LaBelle, que segurou uma nota alta por bons segundos, arrancando aplausos, fora todo o carisma de quem inclusive deixou o palco em parte do show para ir cantar com o público da grade. Boa banda em técnica, em feeling, mas ainda aquém do peso da marca Monsters of Rock.

YNGWIE MALMSTEEN e HALESTORM

Aqui já entramos numa disparidade absurda! Enquanto um faz música para músico, a outra beira o lado mais comercial do rock em muitos momentos. Enquanto um tem uma carreira nichada, a outra vem numa crescente em popularidade.

O nome de Malmsteen também era questionado por parte do público, não por não ser um “monstro do rock” — e ele é —, mas por não ser uma atração de massa para um festival. Porém, quem conhece o guitarrista sabe que ele não dá a mínima para isso. Sobe ao palco com sua banda sempre como absoluta coadjuvante e faz seu show entre arpejos fritados com a influência da música clássica e seus malabarismos com a guitarra.

O guitarrista ainda foi estratégico, começando seu show com “Rising Force”, com Nick Z. Marino cantando e executando os teclados, ou seja, começar com música vocal foi uma bela sacada, e assim ele seguiu com “Fire and Ice”. Estranhamente, Malmsteen brinca com “Smoke on the Water” em parte do show, tocando e cantando. E, quando falo estranhamente, é porque, pelo padrão Malmsteen, o clássico do Deep Purple tem algumas dezenas de notas a menos a se tocar.

Mas não foi a única graça do músico. “Trilogy Suite Op: 5” teve um trecho de nada menos que “Bohemian Rhapsody” (Queen) e, para os fãs de conservatório, foi o momento ápice do show; para os fãs apenas de um bom heavy metal, isso ficou por conta do poderoso refrão de “I’ll See The Light Tonight”.

Com o som da banda de apoio mais abafado e sua guitarra brilhando, Malmsteen entregou ao todo uma hora de técnica impecável em suas seis cordas, para quem ama e para quem odeia.

Às 15h15, estávamos na metade do evento com a chegada do Halestorm.

Apesar de ativa desde 1997, a banda só teve sua estreia discográfica em 2009, o que a mantém associada a algo “novo”. E seu som vem evoluindo claramente ao longo de seus seis álbuns lançados, com um ápice exatamente no disco “Everest”, lançado em 2025, com peso e muita maturidade musical, sem aquela nítida busca por públicos de FMs (streamings hoje em dia), e deu certo, pois a banda mantém sua base de fãs e vem conquistando novos.

E o set foi mesmo desde seu passado, com músicas como “Mz. Hyde”, “I Miss the Misery” e a ovacionada “Love Bites (So Do I)” até “Rain Your Blood on Me”, “Watch Out!” e “Everest”, passando ainda por faixas como “Like a Woman Can”, oferecida a todas as mulheres ali presentes, “Wicked Ways” e até “Familiar Taste of Poison”, que infelizmente teve apenas um trecho executado.

A performance da banda toda é impecável, mas não há como não destacar a do baterista Arejay Hale, que teve até um breve solo de bateria, e de sua irmã Lzzy Hale. A vocalista, mesmo se dividindo na guitarra durante o show inteiro, não deixou de se movimentar, interagir, conduzir seu público e cantar muito, por vezes com gritos impressionantes. Sem dúvida, um show com status de “Monstro do Rock”, mostrando que isso não se aplica somente aos clássicos veteranos.

EXTREME

O relógio batia 16h45 quando o quarteto de Boston chegava ao palco. O Extreme era uma das atrações mais aguardadas do evento e abriu seu set com “It (‘s a Monster)”, talvez intencional pelo nome do festival, seguida já do clássico “Decadence Dance”. Gary Cherone entrou no palco claramente acelerado e, aos poucos, foi baixando a voltagem e entrando no clima do restante da banda. “#Rebel” no peso do aclamado álbum “Six”, assim como “Thicker Than Blood”, que teve até erro do baterista Kevin Figueiredo, perdendo uma entrada de refrão. Sim, os mestres também erram!

“Play With Me” ainda contou com um trecho de “We Will Rock You” (Queen), dentro dessa pegada mais rápida e pesada. Uma breve chuva ameaçou estragar a festa, porém não foi adiante, e os momentos apoteóticos do show ainda viriam com o hit “Hole Hearted”, com direito a Nuno Bettencourt fazendo seu clássico solo de violão em seguida, e “More Than Words”, com o estádio já cheio cantando (e muitos chorando) em peso.

A banda ainda nos brindou com a fodástica “Get the Funk Out” e toda a fritação de guitarra de Nuno, e fechou a rápida apresentação com “Rise”, talvez a música mais pesada do álbum Six, senão de toda a carreira do Extreme.

E vocês não leram errado, acabou aqui, sem “Rest in Peace”, e ninguém entendeu nada com a ausência dessa que é uma das mais conhecidas e mais importantes músicas da carreira da banda.

LYNYRD SKYNYRD

Há seis décadas, os rednecks do Lynyrd Skynyrd são uma instituição do rock, um legado mantido até hoje, mesmo sem mais nenhum membro original, já que Gary Rossington, membro fundador que nos deixou em 2023, era o último remanescente do line-up que iniciou a banda. Mas quem ficou não desonra o nome desses mestres do southern rock.

Pouco mais de 18h, noite tomando o céu e o estádio lotando cada vez mais. Com esse cenário, ao som de Panama (Van Halen) saindo pelos PAs, quase um time de futebol veio ao palco e o Lynyrd Skynyrd abriu seu show com “Workin’ for MCA”, diretamente de 1974. A sequência veio com a canastrona “What’s Your Name” e “That Smell”. O que se viu daqui por diante foram veteranos tomando conta do palco sem esforço algum e, consequentemente, do público. Verdadeiros clássicos do rock arrancaram lágrimas de muitos presentes.

Em palco, uma banda coesa, liderada pelo frontman Johnny Van Zant, irmão de ninguém menos que o vocalista original da banda, Ronnie Van Zant, um dos homenageados no palco entre os nomes do acidente histórico de avião que matou cinco pessoas, três delas músicos do grupo. E ainda houve homenagens a uma legião de músicos que passaram pela banda nessas seis décadas; entre essas homenagens, as mais emocionantes delas só poderiam ser para o fundador Gary Rossington, que recebia do público aplausos e lágrimas com suas imagens no telão ao fundo da banda.

Aliás, lágrimas foi o que mais se viu pela combinação do Lynyrd entre homenagens e músicas que tocavam a plateia em um Allianz Parque já lotado, como “Tuesday’s Gone” (dedicada a Gary) e “Simple Man”, oferecida aos brasileiros.

Mas nem era só choro, afinal “Sweet Home Alabama” arrancou até dancinha de cowboy entre alguns mais ousados. O clássico de 1974 só não seria mais ovacionado que a épica “Free Bird”, essa sim com homenagens a todos os demais músicos que já passaram pela banda e nos deixaram. Destaque absoluto ao trabalho de guitarras do trio Rickey Medlocke, Damon Johnson e Mark Matejka! E desde já pode-se dizer que foi o melhor show dessa edição do festival, mas ainda teria a grande atração em seguida.

GUNS N’ ROSES

Já se passava das 20h30 quando o estádio estava lotado para receber a banda hard, que esteve em turnê no Brasil ainda em 2025. Pensando nesse cenário, não parece fazer sentido os caras ainda lotarem um estádio como headliners de um festival, mas foi exatamente o que ocorreu, pois milhares de pessoas foram ali apenas para ver a banda — ou rever também.

Vendo o setlist do show, incluindo novidades como “Bad Apples”, não executada pela banda desde 1991, “New Rose”, cover do The Damned cantada por Duff McKagan, ou “Junior’s Eyes”, lado B do Black Sabbath que até Ozzy se surpreendeu em ver a banda tocando, como comentou o líder Axl Rose ainda no palco, o restante do set não teria como ser muito diferente, já que a passagem anterior da banda aqui foi apenas em outubro.

Na verdade, foram sentidas as ausências de “Don’t Cry” e “Patience”, mesmo com quase três horas de show. E o que se pode dizer dessa apresentação já é o que vem se repetindo há anos: banda impecável, sempre com destaque para Slash e sua performance, mas a voz de Axl…

O que muitos talvez nunca tenham se dado conta é que, possivelmente, aquela voz aguda que ouvimos hoje do vocalista sempre foi sua voz, com a diferença de ele não conseguir mais implementar o drive, uma espécie de efeito de “sujeira” que é uma técnica vocal. Em momentos mais graves, como “Mr. Brownstone” e o cover de “Slither” do Velvet Revolver, ele se sai muito bem.

Mas o que a maior parte das músicas da banda pede mesmo são os agudos, e aí a coisa é sofrida. Para quem estava na pista convencional, uma vantagem: como os vocais chegavam mais baixos, ouvia-se menos o sofrimento do Sr. Rose. Mas é bem verdade que, mesmo para quem estava colado ao palco, grande parte do público parecia não ligar. Hoje, com a internet, redes sociais e streamings, não existe qualquer surpresa em como um músico performa ao vivo, então as pessoas estavam ali cientes, curtindo a banda, a energia, a presença e o carisma. E isso Axl ainda carrega. Faz até piadas, como antes de “Double Talkin’ Jive”, quando disse que os músicos estavam discutindo entre si o que iriam tocar e ele teria sugerido a “Macarena”.

Alguns momentos foram extremamente ovacionados, como “Civil War” e a chatice de FMs “Sweet Child O’ Mine”. E é impressionante como músicas longas e épicas da banda ainda prendem a atenção de centenas de pessoas, como se pode ver em “Estranged” e “November Rain”. E entre as com mais reação do público, “Live and Let Die”, “Knockin’ on Heaven’s Door” — impressionante como o Guns coloca identidade em covers —, e “You Could Be Mine”, com toda sua nostalgia cinematográfica.

É fato que uma apresentação do Guns N’ Roses já não é mais apenas um show de uma banda clássica do rock. E, mesmo sem grandes artifícios ou pirotecnia, nada além de músicos, palco e imagens, o show dos caras é um evento, um grande evento capaz de lotar um estádio e ainda salvar o casting mais fraco do maior festival voltado ao classic rock, ao hard rock e ao metal que temos no país desde 1994.

Que tenhamos uma edição 2027 com nomes mais atraentes, sem precisarmos contar com um herói sem voz para salvar o dia.

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