Mortiis – La Iglesia, São Paulo/SP (16/10/2026)
Realização: Caveira Velha Produções e Chamuco Prods.
Texto e fotos: Paula Jabur
Mortiis mostra em São Paulo porque é o rei do dungeon synth
Em show direto e coeso, Mortiis apresentou clássicos de “The Smell of Rain”, além de singles e músicas de seu lançamento recente, “Ghosts of Europa”.
A atmosfera no La Iglesia, em São Paulo, era de expectativa desde a abertura das portas, às 20h. Apesar da chuva, a casa encheu rapidamente. Além disso, o público não enfrentou longos momentos de silêncio graças à sacada genial do mestre dos teclados Lord A, da banda Verloren, responsável pela abertura da noite. Antes mesmo de subir ao palco, o músico apresentou um set temático que, dessa maneira, ajudou a criar o clima para as apresentações.
Pontualmente, às 20h30, a Verloren, banda brasileira formada em 2023, deu início a um show bem amarrado. Na ocasião, o grupo apresentou seu dark synthwave com toques de industrial goth autoral, que remete a influências clássicas como Blutengel e Depeche Mode. Ainda assim, a banda preservou a própria identidade.
Além da sonoridade, a estética do grupo também chamou a atenção. Suas máscaras em estilo dark steampunk enriqueceram a temática do trabalho autoral, construído em torno de temas como cyberpunk, mitologias egípcia e grega, civilizações antigas, ficção científica, futuros possíveis e vida extraterrestre. Nesse contexto, a identidade visual complementou a proposta musical e reforçou a atmosfera criada no palco.
A recepção do público, que lotava a casa, foi a melhor possível. Afinal, ninguém ficou parado durante o set, que, além das composições próprias, trouxe o cover de “Star by Star”, da banda norueguesa The Kovenant.
A presença de palco e o entrosamento dos músicos eram notáveis. Por isso, a Verloren não deixou nada a dever a atrações internacionais do gênero. Entre os destaques, esteve a participação de Tyta, vocalista da banda Moonwhisper, nos backing vocals femininos. A cantora, que colabora com o grupo desde 2025, acrescentou outra dimensão à apresentação.
A formação da Verloren conta com Lord Raven (vocal), Lord A (sintetizadores, efeitos e backing vocals) e Arth (guitarras e backing vocals).
Setlist – Verloren
Schwarz Stern (intro)
Black Constellation
Abduction
From the Stars
Star by Star (The Kovenant cover)
Nightfall
Poisoned
Gimme Your Blood
Mortiis revisita “The Smell of Rain”
Na sequência da programação, os primeirs acordes de “Ghosts of Europa”, faixa do lançamento mais recente de Mortiis, começaram a soar pontualmente às 21h30. Sem teclados ou sintetizadores no palco, o músico norueguês optou pelo uso de VS e contou com o acompanhamento do baterista Jon Siren e do guitarrista Nero Bellum.
Logo na entrada, Mortiis surgiu com a cabeça coberta, assim como no videoclipe da faixa. Desde os primeiros momentos, demonstrou domínio dos timbres e das vocalizações. Com isso, estabeleceu a atmosfera que guiaria o restante da apresentação.
Sem grandes pausas, o show conduziu a plateia ao universo de The Smell of Rain, álbum lançado em 2001 que marcou a aproximação de Mortiis com uma sonoridade mais próxima do darkwave. A escolha do repertório, portanto, colocou em evidência uma das fases mais particulares de sua trajetória.
A sequência foi especialmente celebrada pelos fãs. Na ocasião, “Marshland”, “You Put a Hex on Me”, “Flux / Mental Maelstrom”, “Monolith” e “Parasite God” apareceram em sequência, formando um dos momentos mais fortes da apresentação.
Musicalmente, a execução foi precisa, fluida e orgânica. Ao mesmo tempo, Mortiis demonstrou estar em excelente forma ao revisitar um repertório que representa uma transformação importante em sua trajetória artística. Dessa maneira, a apresentação valorizou tanto as composições quanto a interpretação ao vivo.
Nero Bellum rouba a cena
Outro destaque da noite foi a performance de Nero Bellum. Carismático e experiente, o guitarrista ocupou o palco com naturalidade e interagiu constantemente com a plateia durante as músicas.
Além de sua presença marcante, Nero ajudou a imprimir uma dinâmica mais física à apresentação. Assim, sua atuação equilibrou a natureza eletrônica e atmosférica do repertório de Mortiis, acrescentando intensidade à experiência ao vivo.
Do lançamento recente aos singles de 2016
Após a extensa passagem por The Smell of Rain, Mortiis voltou brevemente ao material mais recente com “Tundra, Heart of Hell”. A inclusão da faixa ampliou a representação de diferentes fases da carreira no repertório.
Em seguida, o músico surpreendeu ao apresentar dois singles de 2016: “Demons Are Back” e “Doppelganger”. Com essas escolhas, a apresentação percorreu diferentes momentos de sua discografia sem perder a unidade sonora.
Para encerrar a noite, veio uma escolha praticamente inevitável: “Smell the Witch”. A música fechou o repertório em alta e, consequentemente, deixou o público claramente à espera de mais.
Apesar da expectativa da plateia por um bis, a banda não retornou ao palco. Ainda assim, a ausência de uma música extra não apagou a força da apresentação.
No balanço final, o show cumpriu sua proposta com precisão. Afinal, revisitou uma fase fundamental da carreira de Mortiis, trouxe material de diferentes períodos e reafirmou a força de sua combinação de atmosferas, sintetizadores e estética sombria no universo do dungeon synth e de suas ramificações.
A apresentação foi realizada por Caveira Velha e Chamuco Produções.
Em síntese, São Paulo não recebeu apenas uma retrospectiva de The Smell of Rain. Pelo contrário, o público acompanhou Mortiis revisitando a própria história em uma apresentação coesa, precisa e construída para quem acompanha essa trajetória há décadas.
Setlist – Mortiis
Ghosts of Europa
Marshland
You Put a Hex on Me
Flux / Mental Maelstrom
Monolith
Parasite God
Tundra, Heart of Hell
Demons Are Back
Doppelganger
Smell the Witch

