Mosh Metal Fest, Teatro Mars, São Paulo/SP (20/05/2023)
Bandas: O Cara do Metal, Vazio, The Troops of Doom, Crypta, Incantation e Dorsal Atlântica
Local: Teatro Mars, São Paulo/SP
Data: 20/05/2023
Produção: Mosh Productions
Assessoria: LP Metal Press
Texto por Ricardo L. Costa
Fotos por Belmilson Santos
Foto Dorsal Atlântica por Antônio Marques (Lado Direito do Palco)
Mosh Metal Fest! Nome sugestivo de coisa boa, de som pesado de qualidade, e foi exatamente isso que encontramos nesse belíssimo evento realizado no último sábado, 20/05/23, no Teatro Mars, em São Paulo.
Após um longo hiato em virtude da pandemia (meu último evento desse tipo foi a apresentação de aposentadoria do Slayer em outubro de 2019), fui escalado, ainda que como eventual colaborador, pelo meu querido Metal Na Lata para efetuar a cobertura do festival, incumbência essa que aceitei de imediato com muito orgulho, afinal, o headliner seria o Incantation (se bem que teve o Dorsal Atlântica encerrando as apresentações, no entanto, ao menos para mim, na hierarquia metálica extrema, o Incantation é hegemônico soberano), e também pelo apreço que tenho por todos desta indústria vital, que sempre me acolheram e me consideraram como membro desta grande família.
Seis bandas foram escaladas para compor o elenco, e teve um pouco de tudo: O Cara do Metal, Vazio, Troops of Doom, Crypta, Incantation e Dorsal Atlântica e, dentro do contexto, agradou os mais variados fãs do Heavy Metal. Duas das atrações eu mal conhecia, mas eventos assim servem principalmente para enriquecer nosso “cancioneiro metálico”, ampliando nossos horizontes musicais. Bom, chega de papo, e vamos ao que interessa!

Quando li no cartaz de divulgação do festival uma formação chamada “O Cara do Metal”, no mínimo fui acometido por uma lombalgia no palato duro, seguida de uma cefaléia no lobo caudal do ventrículo esquerdo. “Que caralhos é isso”?, logo imaginei. Mais uma banda engraçadinha usando como pano de fundo o nosso sagrado e incorruptível Metal? Exatamente, contudo, apesar do nome pouco ou nada convidativo, o pessoal até que é bem familiarizado com o gênero, praticando e desenvolvendo um som interessante, obviamente nada muito além daquilo que se espera de um grupo ainda jovem que parece estar na fase de moldar e personalizar sua sonoridade. O quarteto canta em português, num emaranhado de influências que vão do Metal tradicional, passando pelo Thrash e algum resquício até de nuances mais extremas, como Death e Black Metal. No momento da apresentação, o pequeno e aconchegante local ainda estava praticamente vazio, mas os poucos ali presentes pareciam estar curtindo.
O guitarrista e vocalista (que é o cara do metal, chamado Ian Garbinato) se mostrou muito simpático e comunicativo, além de demonstrar boa técnica em seu instrumento. A presença de palco é muito condizente com a proposta, bem como sua performática vocalista, Luana Cruz, toda trajada de couro e se movimentando frenética e vigorosamente enquanto evidenciava seus dotes vocais. Foi um set muito breve, mas serviu de leve aquecimento para o que ainda estava por vir. Se não foi tão bom, pelo menos não comprometeu como eu conjecturava.
A seguir, o recinto fora tomado por uma densa e lúgubre atmosfera. O caos e a destruição personificada em formato de pérfidas notas musicais!

O Vazio (que eu confundo vertiginosamente com o Velho) estava na área, instaurando literalmente uma sensação de profundo e inexorável vazio existencial. Qualquer resquício de felicidade ali presente acabava de ser dissipado. Há algum tempo atrás, eu havia conhecido a banda e me interessei muito por sua proposta musical: o bom, rude e implacável Black Metal escandinavo, mas não esse BM de butique que anda tão em voga ultimamente.
O Vazio presta tributo à gênese do estilo! Aquele som feio, imundo, soturno e maléfico perpetrado por bandas como Mayhem, Darkthrone, Immortal, Dark Funeral, entre outros. É a mais impura raiz abissal presente em cada momento do quarteto, forjando uma música crua, visceral e aterradora.
Chega a ser assustador presenciar tão de perto toda aquela massa sônica blasfema! Sem conversa, interação ou introduções desnecessárias, o quarteto composto por Daniel Vecchi (bateria), Nilson Slaughter (baixo), Renato RG (vocal e guitarra) e Eric Nefus (guitarra) estava lá com um único propósito: subjugar o público – que a essa hora já era mais numeroso -; com toda beligerância e malignidade de sua obra.
É latente a visceralidade do grupo ao vivo, o que confere às composições uma brutalidade quase palpável. O som também estava mais alto e nítido, e era comum sentir o impacto dos graves no peito nesse momento.O grupo executou um rápido apanhado geral de sua ainda breve carreira, com destaques para “Sob a Noite Espectral”, “Escuridão Seja minha Guia” (com o título repetido diabolicamente “ad eternum”) e o encerramento catártico com “Eterno Vazio”. Seguramente uma das três melhores atrações da noite (as outras duas, vocês saberão a seguir).

O The Troops of Doom é certamente uma das melhores coisas surgidas na música extrema nacional nos últimos tempos. Pronto, falei! E é incontestável, afinal, seu líder/fundador é alguém que praticamente ajudou a criar todo um cenário acerca disso, cenário este que ajudou a pavimentar tantos outros por aí ao redor do mundo. Jairo Guedz (Jairo “Tormentor” para os mais íntimos), é um sujeito incansável, pois mesmo após sua saída de um Sepultura ainda embrionário, permaneceu forte em suas convicções musicais, mantendo-se ativo em uma série de bandas e projetos até culminar neste que é certamente sua maior – e melhor – cartada.
O nome da banda já escancara qual a proposta do grupo: Thrash/Death Metal de raíz, traduzido para os nossos tempos, porém sem perder a aura underground de outrora, e acredite: é sensacional! Música extrema, suja, pesada, blasfema, e tudo quanto é adjetivo obscuro que você quiser incluir; assim sendo, ninguém melhor para abrir para o Incantation. Era certamente uma das apresentações mais esperadas da noite, correspondendo a expectativa de todos os presentes. Casa praticamente cheia, era hora de mostrar a que vieram.
“The Devils Tail” é o tiro inicial, seguida imediatamente de “Between the Devil and Deep Blue Sea”. Alex Kafer (vocal/baixo) saúda os presentes, sendo quase que ovacionado. É disso que o povo gosta! E tome “Altar of Delusion” e “Far From Your God”, uma sequência matadora de riffs, bateria veloz e vocal profano pra ninguém botar defeito. Meu Deus do céu (ops!), isso, sim, é show na definição mais acertada do termo. A banda é de uma coesão absurda, com Marcelo Vasco e Jairo despejando uma tonelada de riffs e solos densos e cortantes como navalhas, contando com um baterista que mais parece uma artilharia anti-aérea para dar o suporte necessário que o Troops tanto precisa. Alexandre Oliveira espancou aquela bateria como se não houvesse amanhã, mas houve.
O repertório próprio é soberbo, mas na execução de “Bestial Devastation” é que ocorreu a divisão entre homens e meninos. Na roupagem deles é que percebemos como essa música é impactante, visceral, orgânica e muito, muito pesada. O mal puro e genuíno em forma de arte.
O Sepultura é uma banda consolidada e respeitada no mundo todo até hoje, mas essa fase é a melhor. Não tem pra ninguém! “The Monarch” e a faixa título que nomeia seu primeiro ep, “The Rise of Heresy”, ainda botou muita gente no mosh pit, onde um emaranhado de cabeças, braços e pernas emoldurava um cenário de guerra, um campo de batalha, porém de pessoas felizes e realizadas. Nesse momento, Jairo chega ao microfone e diz que vão tocar uma música muito antiga, não tanto quanto ele, mas ainda assim antiga, que fora dedicada ao seu mais novo amigo John McEntee (guitarrista e vocalista do Incantation). “Morbid Visions” atropelou a todos como um blindado em todo seu poder e magnitude destrutivos!
Você, que não é muito conhecedor do cenário e precisa de uma única música para lhe definir o que é o Death Metal e o Thrash tradicional oitentista, basta ouvir essa música repetidas vezes. Tem tudo que você precisa lá. A essa hora, a plateia já estava exaurida, com os ouvidos e corpos destroçados, no entanto, um último ato era necessário, e ele veio na forma da música que define a porra toda: “Troops of Doom”. Aí o circo pegou fogo, meu amigo.
Após a clássica introdução cadenciada, o pau comeu sem piedade! Posso afirmar que alguém se feriu seriamente naquele meio. Só acho! Essa composição define de forma soberba o estilo que tanto adoramos, a música que rege nossas vidas. É algo mágico, transcendental! Quase nomeio esse o melhor show da noite, sério! Foi por muito pouco.

O pouco que conheço do Crypta, preciso admitir que não me agradou muito. Além da música genérica e sem grandes atrativos, aquele vocal estilo Schmier/Dani Filth da Fernanda Lira é extremamente irritante aos meus ouvidos, no entanto, fora a primeira vez que as vi ao vivo e sejamos justos: a performance de palco das moças é brutal! Realmente excelente! Porém, desde o início do set do grupo, percebia-se uma queda considerável na qualidade do som, que infelizmente só se agravou no decorrer da apresentação, culminando posteriormente numa interrupção do show, pois estava simplesmente inaudível para o público.
Definitivamente, esse fato comprometeu sobremaneira o desempenho da banda. Até o meio do set conseguiram levar, com boa resposta do público e a performance selvagem das guitarristas, principalmente de Jéssica Falchi, chamava a atenção. A menina incorporou o Gary Holt (Exodus) com vigor! Impressionante!
Fernanda Lira agradecia e interagia com a plateia a todo momento, demonstrando visivelmente a satisfação de estarem ali, porém ela mesma anunciou a necessidade de parar, pois estava insustentável para todos.
Algum tempo depois, alguém da organização do evento veio ao público informar que o problema seria sanado em poucos minutos, o que de fato ocorreu, mas o dano já havia sido causado. É difícil enumerar destaques pelas razões já mencionadas, mas em “Death Arcana” e “Kali” a coisa estava mais inteligível. Torno a ressaltar a performance de palco, que de fato é uma das melhores que já vi. Quanto à sonoridade, vou ouvir o disco mesmo para captar melhor, pois ao vivo, infelizmente, foram muito desfalcadas nesse dia. Uma pena!

Era chegada a hora da grande atração da noite. Os anfitriões da festa ali estavam para demolir o restante das estruturas. O Incantation é uma força da natureza em termos de Death Metal americano, contando com uma sonoridade diferenciada ao transitar entre o Death e o Doom com igual maestria. Essa mistura traz um peso e um vigor únicos, algo assombroso e diabólico, bem como seu lirismo blafesmo e recheado de referências ocultistas. Pacote completo, em suma.
Eu estava bastante ansioso em vê-los, afinal sou um entusiasta da banda já há muito tempo e a idéia de poder presenciar todo aquele massacre ao vivo satisfazia sobremaneira o coração desse velho banger. A essa hora o pequeno salão já estava com quase a capacidade máxima, todos ávidos por uma aula de Death Metal da velha guarda, e fomos prontamente atendidos. John McEntee saúda a todos e já emenda “Pest Savagery” e “Carrion Prophecy” logo na sequência.
O peso e a densidade sonora chegam a assustar. Problemas técnicos foram sanados, por isso o som parecia estar mais alto que anteriormente, comprometendo minha acuidade auditiva em no mínimo 70%, mas quem se importa? “Entrails of the Hag Queen” esbofeteou os presentes ensandecidos com fúria. Uma das melhores faixas de seu último álbum, “Sect of Vile Divinities”, com certeza! Banda afiada, executando tudo com muita precisão, num peso que parecia crescer exponencialmente. Assustador!
John McEntee é um sujeito muito simpático, interagindo conosco a cada faixa, chamando a todos de “motherfuckers” como se fossemos velhos conhecidos da época de escola. Um clima acolhedor, de intimidade e morbidade ao mesmo tempo.
O horário ia avançando, mas quem se importa. Queríamos entretenimento, e tivemos! “Deliverance of Horrific Prophecies”, “Rites of the Locust” e “Lead to Desolation” perfizeram a tríade da aniquilação. Estávamos apenas alguns minutos do início do set, porém os efeitos devastadores já eram evidentes. E ainda vinha muito mais pela frente (ainda bem!).
Tínhamos ainda o Dorsal Atlântica para encerrar o evento, mas quem se importa depois do massacre perpetrado pelo quarteto americano? Tome mais uma dose de “Disciples of Blasphemous Reprisal” e relaxe em sua poltrona favorita! Dificilmente o que viesse posteriormente ao Incantation sobreporia a magnitude dos mestres. Queríamos mais, e tivemos: “Fury’s Manifesto”, “Desecration (of the Heavenly Graceful)”, a clássica “The Ibex Moon”, ufa!
É difícil suportar tamanha brutalidade concentrada! Show perfeito, som e luzes perfeitos, performance impecável. O terço final da apresentação estava chegando. Todos já cansados, porém satisfeitos e de alma lavada. Ainda teríamos uma sequência aniquiladora com “Once Holy Throne”, “Impending Diabolical Conquest” e “Profanation”, com a banda explanando quase toda sua carreira num set que beirou a perfeição.
Era perceptível que havíamos chegado ao final, o que de fato ocorreu, quando John anuncia “Siege Hive”, concluindo um set que, se não foi o mais incrível e impactante que já presenciei, foi um dos mais com certeza. Banda se despede, num misto de tristeza e satisfação simultâneos da nossa parte.

Já era meia-noite e, por conta disso e de eu estar a pé e longe de casa, não foi possível acompanhar o show do Dorsal Atlântica. Peço desculpas à banda, aos caros leitores e a toda produção, mas realmente eu dependia de transporte público. Tenho certeza que deve ter sido um showzasso!
Mais um festival concluído. Esperamos por uma nova edição para o ano que vem (será que rola?). Meus sinceros agradecimentos a todos os responsáveis pela realização, à produtora pelo credenciamento, aos amigos Luciano Piantonni e Valtemir Amler. Até a próxima!





