Mr. Bungle – Cine Joia, São Paulo/SP (26/01/2026)
Produção/Assessoria: 30e
Texto por Johnny Z.
Fotos gentilmente cedidas por 30e (Ian Rassari – @ianrassari)
Plena segunda-feira, um dia nada convencional para um evento na capital paulista, marcado pelo caos do trânsito, pela correria dos horários, pela muvuca constante e pelo transporte público sempre superlotado. Ainda assim, lá estávamos nós, com um sorriso de orelha a orelha, prontos para assistir à banda do grande maestro do caos, Mike Patton, e sua trupe estelar no Mr. Bungle, em um local fechado e com um repertório completo.
Pela segunda vez no país — após a estreia no Knotfest em 2022 — a capital paulista recebeu, na noite de 26 de janeiro de 2026, uma das apresentações mais impressionantes, insanas e brutais do calendário musical recente. O tradicional Cine Joia, no bairro da Liberdade, foi o local escolhido para essa performance praticamente intimista da banda, que, no fim de semana seguinte, ainda atuaria como atração de abertura do Avenged Sevenfold em duas datas no gigantesco Allianz Parque.
Para a abertura desse que foi um daqueles acontecimentos que extrapolam a ideia convencional de show, tivemos o barulhento duo paulistano Test, tarefa cumprida com intensidade e personalidade, embora não tenha agradado a todos os presentes — e me incluo nisso. Formado por João Kombi (baixo e vocal) e Barata (bateria), o Test é um nome conhecido do underground paulistano justamente por sua abordagem nada convencional.
Com uma sonoridade crua, ruidosa e altamente experimental, que transita entre crust, noise, grindcore, lisergia e uma ambiência corrosiva, a dupla aposta em estruturas fragmentadas, muitas vezes dissonantes, e em uma execução visceral. Mesmo com um set curto, entregaram um show barulhento no sentido mais literal da palavra, que agradou aos fãs desse tipo de proposta e desagradou muitos que não conseguiram se conectar com a experiência — novamente, este que vos escreve entre eles.
Por mais que eu aprecie diversas bandas de grindcore, com todo respeito, não consegui curtir o som do duo. São mestres nesse tipo de abordagem? Sem dúvida. Mas, como dito anteriormente, quem não é do rolê precisa ter estômago de mamute para encarar essa ambientação carregada de tensão, ruídos, uma bateria repleta de blast beats, explosões rítmicas, pausas estratégicas e uma gritaria infernal. Juro que tentei entender e absorver.
O grande destaque ficou por conta do baterista Barata, dono de uma técnica nada convencional, pegada forte e execução precisa. Ele se mostrou um dos bateristas mais técnicos que já vi dentro de uma proposta sonora tão extrema. O som do Test não tem absolutamente nada a ver com o do Mr. Bungle — talvez apenas a afinidade pelas maluquices —, mas a apresentação foi recebida com curiosidade e respeito, cumprindo bem o papel de preparar o público para uma noite fora do comum.









Com um pequeno atraso de cerca de 15 minutos, o Mr. Bungle finalmente tomou o palco, diante de um Cine Joia completamente lotado, e despejou todo o seu peso extremo, rifferama afiada, humor corrosivo, misturanças sonoras, sinergia, adrenalina e um nível técnico raramente visto em palcos brasileiros. Houve também espaço para covers completamente nonsense, arrancando risos gerais do público — algo absolutamente típico de um ser humano (tenho minhas dúvidas) completamente fora da curva.
Sim, Mike Patton, o homem das mil vozes, dos mil ruídos e dos gostos absolutamente excêntricos, é louco. Mas é, sem discussão, um dos maiores frontmen da história do metal. Aceitem — dói menos.
Um show do Mr. Bungle é sempre fora da curva, mesmo agora, com a banda apostando em um crossover/thrash metal nervoso que remete aos bons tempos de S.O.D. Antes mesmo de o grupo subir ao palco, o som ambiente já deixava claro o espírito da noite, com a execução de músicas completamente fora da bolha, incluindo baladas pop românticas, coisas totalmente inesperadas, esquisitas e afins. Quem não conhece a história do Mr. Bungle e de Mike Patton provavelmente estranharia a situação e poderia até achar que estava no lugar errado (risos).
Sim, muitos fãs de Faith No More estavam presentes e, ao que tudo indica, uma possível volta da banda parece cada vez mais distante. No entanto, no Mr. Bungle, Mike Patton entrega aos espectadores ainda mais maluquice, agora potencializada por muito mais peso e uma carga de metal ainda mais intensa.
A formação estelar do Mr. Bungle conta, além de Patton nos vocais, com Trey Spruance (guitarra, ex-Faith No More), Trevor Dunn (baixo), Scott Ian (guitarra, Anthrax, S.O.D.) e Dave Lombardo (bateria, ex-Slayer, Testament) — ou seja, uma escalação que, por si só, já impõe respeito. No palco, isso se traduziu em uma execução precisa, agressiva e, ao mesmo tempo, lúdica, em que a brutalidade do thrash metal e a energia do hardcore conviveram com passagens quase caricatas e mudanças abruptas de dinâmica.
Ainda divulgando o pesadíssimo, brutal e excelente The Raging Wrath of the Easter Bunny (2020), o show foi majoritariamente baseado nele, mas outras surpresas da discografia mais excêntrica da banda também foram apresentadas em um formato totalmente metalizado.
Com um som excelente e uma iluminação agradável, o grupo transitou com naturalidade entre faixas autorais e covers improváveis, sempre tratados com personalidade própria e muito humor. A abertura com um cover de “Tuyo”, de Rodrigo Amarante, reinterpretada de forma desconcertante, com todos sentados como se estivessem em um luau, deixou claro que a lógica do Mr. Bungle não segue padrões previsíveis — longe disso, chega a ser completamente (de novo) nonsense e engraçadíssima. Particularmente, achei desnecessário; poderiam ter tocado mais músicas próprias, que era o que todos queriam ouvir. Mas segue o baile.
Musicalmente, o grande destaque ficou para o desempenho coletivo. Dave Lombardo, em especial, conduziu a apresentação com uma bateria cirúrgica e explosiva, um verdadeiro rolo compressor, sustentando com autoridade as constantes quebras de ritmo. No entanto, por conta da logística do Cine Joia — com o palco posicionado de canto —, o baterista passou praticamente todo o show fora do campo de visão do público, aparecendo apenas ao final, quando surgiu para arremessar as baquetas à plateia.
As guitarras de Trey Spruance e Scott Ian alternaram uma rifferama digna do thrash metal da Bay Area com precisão impressionante. As músicas dessa atual fase do Mr. Bungle, embora pesadas e brutais, são repletas de construções complexas e arranjos mirabolantes, que mudam abruptamente do caos à calmaria, retornam ao peso extremo e, não raro, terminam em uma inesperada cantoria a cappella (risos).
Trevor Dunn manteve o baixo como um elemento fundamental da sonoridade, embora mais contido ao fundo do palco, já que Mike Patton e toda a sua parafernália cênica — sintetizadores, computadores, mixers, microfones, megafones e uma infinidade de objetos produtores de ruídos dos mais variados tipos — ocupavam boa parte da área central. Até mesmo Scott Ian, conhecido por sua postura expansiva, manteve-se relativamente contido, sem sair de seu espaço durante toda a apresentação.
Ainda assim, que mão direita esse cara tem — pelo amor de Deus! A palhetada é absurda de tão precisa, facilmente comparável à de outros pesos-pesados do metal como James Hetfield (Metallica), Gary Holt (Exodus) e Eric Peterson (Testament). Trey Spruance também não fica atrás: dono de uma pegada pesada, técnica e muito particular, vale lembrar que foi ele o responsável pelas guitarras do álbum mais pesado do Faith No More, King for a Day, Fool for a Lifetime, lançado em 1995.
Durante toda a apresentação, Mike Patton manteve a plateia nas mãos. Sempre comunicativo, tirador de sarro e demonstrando que suas vozes (sim, no plural) continuam impecáveis, o frontman conversou e brincou o tempo todo em português, inglês e até em portunhol. Agradeceu várias vezes à banda de abertura e, em um dos momentos mais emblemáticos da noite, pediu respeito ao público ao perceber vaias desnecessárias direcionadas aos músicos do Avenged Sevenfold, que acompanhavam o show do mezanino. Não gostar de uma banda é perfeitamente válido; desrespeitar, porém, é simplesmente deselegante.
Um dos momentos mais viscerais da noite foi a execução do cover de “Refuse/Resist”, do Sepultura, acompanhada do já clássico coro de “porra, caralho”, que Patton adora — e todos nós também — puxar quando está em terras brasileiras (risos). Em plena São Paulo, no coração do Brasil, ver uma banda estrangeira atacar esse clássico é praticamente um convite para que a casa venha abaixo — e foi exatamente o que aconteceu. Mike Patton e Scott Ian mantêm uma longa amizade com os integrantes do Sepultura e já colaboraram com a banda em diferentes momentos, o que tornou essa conexão brasileira ainda mais intensa.
Já presenciei inúmeros covers dessa música ao longo dos anos, em diversos shows, mas a versão apresentada naquela noite foi, sem exagero, uma das mais brutais que já vi. Um golaço de placa.
Além das faixas de The Raging Wrath of the Easter Bunny, que por si só já causam um estrago descomunal, outras execuções igualmente brutais e bastante interessantes foram “State of Oppression”, cover do Raw Power; “Speak English or Die”, do S.O.D., aqui rebatizada de “Speak Portuguese or Die”; e “Fuck USA”, do The Exploited. Nesta última, o que se via na plateia eram inúmeros dedos do meio erguidos, em clara reação ao cenário mundial atual. Como já era esperado, alguns desavisados ainda tentaram emendar xingamentos direcionados a políticos brasileiros, mas foram prontamente ignorados. O momento definitivamente não pedia palanque político; quem procura comício está no lugar errado.
Diversos mosh pits violentos se formaram na pista durante praticamente todas as faixas da banda, especialmente nos covers citados anteriormente. Era impossível ficar alheio a uma vibração dessas, e até este que vos escreve, já beirando os 50 anos, resolveu entrar na brincadeira. Saí de lá com a alma lavada, exausto, todo torto, mas completamente satisfeito e me sentindo novamente como um adolescente nos anos 1990.
E o encerramento? Veio com “All By Myself”, o improvável e bizarro cover de Eric Carmen, cantado de forma impecável, diga-se de passagem, mas rapidamente convertido em um coro coletivo de “Toma no Cu”, com a casa inteira mandando ver no dedo do meio mais uma vez. Caos absoluto, do tipo que só o Mr. Bungle sabe provocar.
Confesso que, por algumas horas, fiquei esperando — e torcendo — por um trecho de “Hell Awaits”, do Slayer. Não aconteceu, infelizmente. Ainda assim, reclamar seria quase um pecado diante de tudo que presenciei.
No fim das contas, o que aconteceu no Cine Joia escapou completamente da definição tradicional de espetáculo e ficará na minha memória para sempre como um dos melhores shows que vi na minha vida, um verdadeiro atropleto! O Mr. Bungle impôs sua lógica própria, conduzindo a noite como quem manipula fios invisíveis entre técnica absurda, ironia corrosiva e violência sonora milimetricamente calculada. Nada soou gratuito, apesar da aparência anárquica.
Foi um choque frontal, intenso e transformador, daqueles que deixam o corpo exausto e a mente em curto-circuito. Ao apagar das luzes, ficou evidente que o Mr. Bungle não se limita a tocar músicas: a banda cria universos instáveis, desafia expectativas e reafirma, a cada apresentação, que ainda existem experiências musicais capazes de surpreender, confundir e, acima de tudo, marcar quem esteve ali. E como me marcou!
Obrigado a toda equipe da 30e e sua assessoria pela parceria e credenciamento!
Setlist:
Tuyo (Rodrigo Amarante cover)
Grizzly Adams
Anarchy Up Your Anus
Bungle Grind
I’m Not in Love (10cc cover)
Eracist
Spreading the Thighs of Death
Retrovertigo
State Oppression (Raw Power cover)
Hypocrites / Speak Portuguese or Die
Glutton for Punishment
Fuck USA (The Exploited cover)
Raping Your Mind
Hopelessly Devoted to You (John Farrar cover)
My Ass Is on Fire (with Funkytown by Lipps Inc. and Pepto Bismol tag)
Sudden Death
Refuse/Resist (Sepultura cover)
All by Myself (Eric Carmen cover)





















