
Napalm Death – “Throes of Joy in the Jaws of Defeatism” (2020)
Century Media Records | Xaninho Discos
#Grindcore, #DeathMetal
Para fãs de: Terrorizer, Brutal Truth, Repulsion, Extreme Noise Terror
Nota: 8,0
Apesar de serem condecorados como os pais do Grindcore como o conhecemos, o Napalm Death nunca ficou aprisionado aos limites impostos pelo gênero, sempre tentando moldar sua sonoridade conforme a necessidade e o período pelo qual passavam, tanto é verdade que, no decorrer de seus mais de 30 anos de trajetória nos meandros do extremismo sonoro, transitaram por pelo menos três fases distintas. Dito isto, seria ingenuidade de minha parte esperar um novo trabalho baseado em toda a retórica Grindcore tradicional, mas confesso que tinha uma esperança ainda que discreta.
“Throes of Joy in the Jaws of Defeatism” segue a tradição dos títulos impactantes e já demonstra que a verve sócio-política nunca esteve tão latente. Seu novo trabalho requer uma audição atenta e, ao mesmo tempo, despretensiosa. Disco de difícil absorção num primeiro momento, vai se firmando e se construindo no seu decorrer, tendo duas linhas de frente muito bem definidas: a fase “Napalm raíz”, que perdura mais ou menos até o meio do repertório, e a fase mais experimental e tresloucada, onde os caras simplesmente tocam aquilo que lhe convém no momento, sem se preocupar com o hype que nós, pobres fãs mortais, estamos inflando.
“Fuck the Factoid” mantém as coisas em seus devidos lugares, configurando em uma das aberturas mais brutais dos últimos tempos, com o Grindcore colidindo com o HC, lembrando atos de pura violência presentes em “Smear Campaign” ou “Utilitarian”. Um começo próspero e digno de uma formação desse gabarito.
Outros capítulos de esfacelar o periósteo craniano na quina da mesa se fazem presentes, todos com o DNA da extremidade herdados de sua época mais selvagem e primitiva, tais como “Backlash Just Because” e até mesmo “That Curse of Being in Thraw”. Definitivamente, uma seqüência que evidencia e imprime a mais pura essência do quarteto de Birmingham para o momento atual. Até aqui e um pouco mais adiante transcorre tudo bem, aliás, bem até demais. É Napalm Death, amigo. O que pode dar errado?
Pois bem, nesse caso, a transição é progressiva e calculada. “Contagion” e “Joie de Ne Pas Vivre” já trazem uma atmosfera diferenciada, principalmente a segunda. Algo mais cadenciado, elaborado e, de certa forma, estranho, mas até aí é o que se espera. O Napalm nunca foi uma banda convencional, sempre explorando o máximo de possibilidades com os moldes que lhe foram oferecidos.
A meu ver, Barney e companhia, na tentativa de fugir da estagnação – o que é louvável, diga-se – adentram em terreno perigoso muitas vezes (vide “Diatribes”, “Inside the Torn Apart” e “Words From the Exit Wound”. Bons álbuns, mas um tanto desconectados com a proposta original do grupo), podendo arregimentar novos fãs, mas também detratores em igual escala.
E quando eu digo “arregimentar detratores”, “Invigorating Clutch” parece ter sido concebida para incomodar, pois é sedimentada numa atmosfera meio industrial, meio hipnótica, onde a cadência mais arrastada é a protagonista. “Zero Gravitas Chamber” surge a seguir pra botar as coisas nos eixos novamente. Uma paulada!
“Fluxing of the Muscle”, a faixa título, e “Acting in Gouged Faith” são composições que depõem a favor da banda, e se tivéssemos terminado por aqui estaríamos de alma lavada, com mais um grande álbum para contabilizar na coleção com orgulho, porém, como nem tudo são flores nessa vida cruel, “Amoral” e “A Bellyful of Salt and Spleen” surgem para dar aquela quebrada forte no clima. Obviamente, não serei injusto a ponto de condenar o mais novo trabalho de uma de minhas bandas do coração só por conta de duas faixas que não me agradaram, mas só Deus sabe como eu queria cravar um 10 com orgulho no final. Ambas são cansativas, repetitivas e enfadonhas, perfazendo o grande ponto negativo deste tão aguardado retorno.
“Throes of Joy in the Jaws of Defeatism” é um álbum sombrio como os dias atuais, acrescido de uma densidade e agressividade sólidas, que quebra paradigmas e cutuca a mais profunda e dolorosa ferida. Não é o disco perfeito e nem o ponto alto da carreira da banda, mas sendo quem são, acaba soando melhor do que 80% de tudo que vem sendo lançado por aí, o que, definitivamente, não é pouca coisa.
Ricardo L. Costa (Colaborador)