Negativus – “Invidia” (2026)
Best Foe Records
#DeathMetal #GrooveDeathMetal
Para fãs de: Entombed, Obituary, Dismember, Six Feet Under, Gorefest
Texto por Johnny Z.
Nota: 10
O Negativus, banda paraibana de Death Metal, retorna com INVIDIA, seu segundo álbum de estúdio, apostando em riffs cortantes, peso sufocante e groove demolidor. Além disso, transforma a decadência humana em combustível para uma obra visceral, sarcástica e repleta de personalidade.
Lançado após Detestabilis (2024), o novo trabalho evidencia uma evolução perceptível na sonoridade do quarteto. Embora tenha deixado parte da aspereza anterior pelo caminho, a banda preserva sua essência brutal, sem recorrer a fórmulas modernosas para amenizar a pancadaria.
A sonoridade combina o Groove Death Metal de pegada sueca com a agressividade característica da escola norte-americana dos anos 1990. Dessa forma, as guitarras palhetadas assumem o protagonismo, enquanto a cadência transforma os riffs em verdadeiros golpes contra o ouvinte.
Embora algumas passagens possam remeter ao Death ‘N’ Roll, a proposta segue outra direção. Enquanto aquele estilo frequentemente privilegia uma sujeira arrastada e visceral, o Negativus aposta em um peso encorpado, com mudanças de andamento e ataques rítmicos galopantes e precisos.
Essa abordagem fica ainda mais evidente na produção de Victor Hugo Targino, responsável pela gravação, mixagem e masterização. O resultado equilibra definição e brutalidade, mantendo guitarras, baixo e bateria distinguíveis mesmo nos momentos de maior intensidade.
O baixo estala sob as guitarras, acrescentando profundidade às composições, enquanto a bateria conduz o massacre sem sufocar os demais instrumentos. Em “Todos Contra Todos”, faixa de abertura, essa interação estabelece imediatamente o padrão sonoro do álbum.
Além disso, as melodias seguem caminhos sombrios, reforçando a atmosfera hostil sem depender exclusivamente da velocidade. Portanto, ouvir INVIDIA com fones de ouvido permite perceber detalhes que enriquecem uma experiência já marcada por riffs pesados e uma cozinha extremamente coesa.
Outro diferencial está nas letras em português, presentes desde o primeiro álbum do grupo. A escolha aproxima a violência musical de situações cotidianas e reforça a personalidade de uma banda que não precisa recorrer ao inglês para soar extrema.
A comparação com o Brujeria surge naturalmente pela combinação de provocação, linguagem direta e humor ácido. Entretanto, o Negativus desenvolve uma identidade instrumental própria, sustentada por riffs mais elaborados e uma abordagem rítmica que transita entre a cadência esmagadora e a velocidade controlada.
Nas dez faixas de INVIDIA, Eduardo Jarry transforma a realidade em matéria-prima para suas letras. Em vez de recorrer às narrativas tradicionais de horror, o vocalista explora a decadência humana, expondo sentimentos como ódio, inveja, egoísmo, desprezo, rancor e vingança. Ou seja, cospe tudo com ódio e sem dó (risos).
O sarcasmo, o cinismo e a provocação completam essa abordagem, especialmente em composições como “Alma Sebosa”, “Inveja”, “Eu Não Te Devo Nada” e “Hoje Vá Se Foder”. Aqui contastamos claramente que as letras frequentemente orientam a construção dos próprios riffs.
“Todos Contra Todos” abre o repertório com a combinação de peso, groove e clareza que sustenta o disco. Na sequência, “Alma Sebosa” acelera o andamento, mas logo recupera o balanço característico da banda, provocando aquela vontade irresistível de acompanhar os riffs com movimentos violentos de cabeça.
“Eu Não Te Devo Nada” representa uma das sínteses mais eficientes da proposta do álbum. As passagens aceleradas flertam com o Death/Thrash, enquanto os riffs palhetados evocam o Deicide dos primeiros álbuns, com ataques secos e agressividade descomunal. Uma das melhores do álbum!
Já “Inveja” segue uma direção igualmente destrutiva, combinando velocidade controlada, peso e uma temática repulsiva. A lembrança de Maximum Violence, do Six Feet Under, aparece na maneira como o grupo transforma estruturas diretas em uma sequência de golpes sonoros.
“Serpente”, primeiro single do álbum, acrescenta sujeira e imprevisibilidade à fórmula. Embora mantenha a base groovada, a faixa apresenta mudanças de andamento e momentos de pura quebradeira, fazendo do caos uma parte fundamental de sua identidade.
Em “Outro Traidor”, a mistura da tríade Deicide, Entombed e Obituary ganha força por meio de riffs que remetem à velha escola norte-americana. As guitarras evocam especialmente a fase dos irmãos Hoffman no Deicide, enquanto a cadência reforça o caráter esmagador da composição.
Entretanto, meu grande destaque pessoal é “Hoje Vá Se Foder”. A faixa combina inquietação, caos e uma pegada Death/Thrash vibrante, culminando em um refrão que transforma indignação em um grito contra a mesquinhez e a hipocrisia cotidianas. Impossível você não querer bater na pessoa ao lado ao ouvir essa música, ainda mais se essa pessoa é um lixo de gente (risos).
A força da música vai além do título provocativo. Afinal, a letra parece traduzir a exaustão diante de comportamentos que merecem desprezo, enquanto os riffs sustentam uma explosão sonora que torna difícil permanecer indiferente.
“Mundo Pequeno” apresenta uma das mudanças mais interessantes do repertório. A releitura de uma composição do Cobayo, antiga banda de Eduardo Jarry, resulta em uma mistura improvável de Ratos de Porão, Dead Kennedys, Brujeria e Dismember. E funciona!
Os riffs destoantes e a atmosfera particular aproximam a faixa do Death Metal e do punk extremo. Consequentemente, essa incursão amplia o repertório sem descaracterizar a agressividade que define o Negativus.
Em “Falso”, o grupo retorna ao Death Metal mais tradicional. Os harmônicos de guitarra acrescentam personalidade aos riffs, enquanto a execução mantém a música em uma tempestade sonora direta, sem abrir mão da precisão.
Por fim, “Morto e Enterrado” encerra o álbum com uma introdução sombria de baixo e guitarra. Aos poucos, a tensão desemboca em riffs cortantes e construções melódicas que revelam um cuidado especial com o início e o desfecho da composição.
Nessa reta final, surgem referências ao Cannibal Corpse da fase de Chris Barnes e novamente ao Deicide, porém tudo com muita originalidade. A combinação resulta em uma despedida de grosseria máxima, enquanto as mudanças instrumentais acrescentam dramaticidade à composição.
No campo vocal, Eduardo Jarry apresenta uma interpretação que, em determinados momentos, remete a Glen Benton, do Deicide. A semelhança reforça a ligação com a escola clássica do Death Metal, sem apagar a personalidade das letras em português.
Junto a Eduardo Jarry, temos os exímios músicos Deathmetrius na bateria, Eduardo Amorim no baixo e Thyago Trajano na guitarra, que parecem como uma avalanche death metal. Além disso, os músicos acumulam experiências em bandas como Foraneo, Omago, Abracadaver, Metacrose, Behaviour, Soturnus, Somberpath, Mystifier e Dissidium.
INVIDIA mostra um Negativus mais definido, capaz de combinar influências reconhecíveis com composições que valorizam o peso, o groove e a personalidade. Embora a evolução em relação a Detestabilis seja perceptível, o grupo não abandona a sujeira e a agressividade que sustentam sua identidade.
O mérito está justamente em compreender que Old School Death Metal não depende de uma gravação abafada ou de uma produção precária para preservar sua autenticidade. Afinal, é possível soar brutal, orgânico e ameaçador sem transformar a nostalgia em uma prisão estética.
Com produção cuidadosa, riffs esmagadores e letras que expõem o lado mais mesquinho da humanidade, o Negativus entrega um álbum que merece atenção dos admiradores do Death Metal tradicional. Aqui, a brutalidade não é apenas uma questão de velocidade ou distorção: ela nasce da combinação entre execução, groove, atmosfera e indignação.
Death Metal como deve ser! E é do Brasil e 100% Paraibano! Um trabalho impecável como esse não merecia menos que a nota máxima!

