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Nuclear Assault – Sesc Belenzinho, São Paulo/SP (25/04/2019)

Banda principal: Nuclear Assault
Local: Sesc Belenzinho, São Paulo/SP
Data: 25/04/2019
Organização: Sesc | MP Tour Entertainment

Texto e fotos por Ricardo L. Costa

Nós só temos a real dimensão da expressão “lenda” quando de fato nos deparamos com uma. O Nuclear Assault nunca foi anfitrião de mega eventos ou lotou estádios ao redor do mundo, mas é de uma relevância que transcende apenas o espectro musical. A banda nunca figurou no primeiro escalão do Thrash mundial, mas você já deve ter lido por aí o conceito de “seminal”, não é mesmo? Exatamente, o Nuclear Assault é a personificação disso.

Atingindo contornos de banda cult no decorrer dos anos, e possuindo em suas fileiras um sujeito que ajudou a sedimentar o underground americano juntamente com suas “trocentas” bandas (alguém ainda não sabe a quem me refiro?), o Nuclear sempre foi uma banda que me aguçou o interesse por unificar estilos, homogeneizando a estrutura Thrash com preceitos de Hardcore e Crossover, se transformando em uma enorme e idolatrada entidade deste subgênero.

Apesar de já terem nos visitado umas tantas vezes, este foi o dia deste jovem senhor que vos escreve debutar nesta arte e me incluir no seleto grupo das pessoas que um dia tiveram a inenarrável oportunidade de presenciar o massacre perpetrado por esses senhores. O local escolhido, ao menos para mim, soara inusitado. O Sesc Belenzinho sediou a banda em seu restaurante, portanto, foi no mínimo insólito imaginar aquele tanto de mesas que poderiam se tornar objetos seriamente contundentes quando a cobra começasse de fato a fumar. Mas isso foi só devaneio psicótico desta mente cansada e carente de férias com regularidade.

O espetáculo estava previsto para ter início às 21:30, o que de fato rigorosamente aconteceu. Pontualmente neste horário a banda foi anunciada e aí, meu amigo, a cobra não só fumou, como se entorpeceu. “Rise From the Ashes” surge como um bom chute nos fundilhos, iniciando salutarmente a nossa seção de espancamento sonoro. A banda estava visivelmente satisfeita em estar ali e o vocalista/guitarrista John Connelly, com seu jeitão de tiozão piadista de churrasco de domingo, agradecia efusivamente aos presentes.

O que você faz quando escuta e vê a poucos metros de distância petardos como “Brainwashed”, “F#” e “Vengeance” sendo executados ferozmente? Fica atônito, embasbacado, sentindo cada cm cúbito de seu peito sendo socado inexoravelmente pelo baixão gordo de Dan Lilker. E por falar em gordo, Nicholas Barker (Lock Up) substitui o veterano Glenn Evans na bateria, não sei se provisoriamente ou definitivamente, porém, o que sei é que com toda sua técnica e pegada monstruosa, as músicas pareciam ainda mais pesadas e encorpadas.

O carismático vocalista John Connelly ia se comunicando com a platéia, ora em inglês, ora em um espanhol pra lá de macarrônico, além de cumprimentar cada desajustado que mergulhava do palco para a pista (sim, stage diving estava liberado). É perceptível que o cara está nessa pela diversão e não pra ser um rock star arrogante e presunçoso.

E que calor, hein? Claro, pois não há sistema de ar condicionado que de conta de uma turba ensandecida abastecida pelo melhor Thrash Metal. Que o digam as icônicas “After the Holocaust”, “New Song”, “Critical Mass” e “Game Over”, apresentadas na sequência e quase sem intervalo. É como eu digo: isso é Thrash Metal, o resto é catálogo da Avon.

A noite ainda reservava muitas surpresas personificadas na forma de brutalidade visceral e crescente. Um desfile de clássicos escolhidos a dedo figuraram em um set list memorável. A banda toda, principalmente Dan Lilker e John Connelly, tem uma disposição invejável, agitando e se movimentando freneticamente pelo palco, incentivando a plateia a fazer o mesmo. Foi mais ou menos neste momento que John lembrou aos presentes que aquela era uma data muito especial, não só por estarem tocando em nosso país, mas também por ser aniversário do baterista Nicholas Barker. Nessa hora, um integrante da equipe entra no palco com um belo bolo com velas para o músico apagar.

Tava na cara que isso não ia dar muito certo, o que de fato ocorreu, pois Nick tratou de apagar as velas, agradeceu ao público pela homenagem, e tratou de enfiar a cara no bolo, espatifando a iguaria, que quase imediatamente foi arremessada para a cara dos presentes. Além disso, seu kit de bateria e seu rosto precisaram ser limpos antes de voltarem ao trabalho. Um momento hilário e descontraído, que serviu para arrefecer os ânimos para a próxima etapa. E que próxima etapa!

Vai vendo: “Butt Fuck”, “Stranded in Hell”, “Sin”, “Betrayal”, “Analogue Man in a Digital World”. Tudo isso ressuscitou aquela aura nostálgica tão saborosa, onde nos divertíamos com muito pouco: música boa, amigos por perto e bebida gelada. Era mais que suficiente. Já assisti a muitos espetáculos do gênero em minha vida, mas o Nuclear Assault foi mágico!

Ainda tivemos mais alguns minutos (que poderiam ser horas que ninguém reclamaria!) de puro entretenimento Thrash old school underground, onde a banda, sem muita cerimônia, ainda destrinchou mais algumas pérolas da devastação sonora da estirpe de “F# Wake Up”, “When Freedom Dies”, a Grindcore “Hang the Pope” e outras. A essa hora, a adrenalina já se esvaía pelas coronárias. Um espetáculo dos mais intensos e impactantes que presenciei.

O encerramento se deu com a empolgante “Trail of Tears”, onde a banda nos agradece e diz adeus. Pouco mais de uma hora de show e só me restava me recuperar para retomar o caminho de casa. Ouvidos moídos, corpo surrado, mas plenamente satisfeito com tudo que acabara de presenciar. São bandas como o Nuclear Assault que preservam em nós essa paixão por esse tipo de música totalmente inacessível para uns, mas apaixonante e viciante para outros. Obrigado, senhores Lilker, Connelly, Barker e Burke. Aguardo ansiosamente pelo próximo “assalto”.

Setlist:

Rise From the Ashes
Brainwashed
F#
Vengeance
After the Holocaust
New Song
Critical Mass
Game Over
Butt Fuck
Stranded in Hell
Sin
Betrayal
Analogue Man in a Digital World
F# (Wake Up)
When Freedom Die
My America
Hang the Pope
Lesbians
Trail of Tears

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