O Chamado do Negro Bode – La Iglesia, São Paulo/SP (20/09/2025)
Produção: Storm Productions | Na Lâmina da Foice
Texto e fotos por: Matheus “Mu” Silva
Anteriormente previsto como um show da banda Unaussprechlichen Kulten (Chile), a produtora Storm Productions, em parceria com o canal Na Lâmina da Foice, transformou o evento no festival “O Chamado do Negro Bode”, realizado no último sábado (20), na tradicional casa de shows La Iglesia, em São Paulo. Além dos chilenos, a programação também traria Spiritual Hate, Obscure Relic, Blasphemaniac e Lalssu. Porém, devido a problemas logísticos da atração principal, houve uma substituição de última hora: a banda Velho assumiu a posição de headliner. Confira o que rolou!
Às 18h30 iniciou-se a apresentação da Lalssu. Formado em 2011, o projeto solo de Fernando Iser — um dos músicos mais prolíficos da cena paulista — fez sua última manifestação ao vivo no evento. Com fumaça tomando o ambiente e criando um clima soturno, Iser subiu ao palco apenas com um sintetizador e uma guitarra, trazendo sua musicalidade fortemente influenciada pelo Black Metal helênico. Foram 30 minutos de apresentação com faixas de toda sua discografia, como “Ethereal” (The Elements, 2020), “Monos Stin Avissos” (Σκέψις, 2011), “Hanpa Winds” (The Death of a Star, 2016), além de duas de seu derradeiro material “To Telos” (2025): “Time and Distance” e a faixa-título. Alternando riffs pesados com ambiências atmosféricas, Iser entregou um show hipnótico e digno para encerrar sua história com o projeto.

Às 19h30 foi a vez do Spiritual Hate. Vivendo um dos melhores momentos da carreira, a banda de Blackened Death Metal de Diadema/SP é hoje um dos principais destaques do gênero no Brasil, fortemente influenciada pelos austríacos do Belphegor. Divulgando seu mais recente EP “Malvm Perpetvm” (2024), a banda se apresentou com uma mudança de última hora: o baterista Junior não pôde participar por questões pessoais, e Jack Ferrante assumiu as baquetas, mesmo com apenas dois ensaios prévios. Ao lado de Fabiano Blackmortem (guitarra/vocal), Mobbirum (guitarra) e João Ribeiro (baixo), Ferrante entregou uma performance impecável. O set de 40 minutos incluiu praticamente todo o EP, com “Regie Sathanas”, “Malvm Perpetvm”, “The End is Now” e “Merciless and Abyssal”, além de faixas já conhecidas como “Awating Fucking Jesus” e “Behind The Lies of God”. Para encerrar, um cover matador de “INRI”, do lendário Sarcófago. A noite foi ainda mais especial por coincidir com a véspera do aniversário do baixista João Ribeiro, comemorado junto ao público, reforçando a energia da apresentação.

Às 20h40, a carioca Obscure Relic subiu ao palco. Formada em 2019, a banda pratica um Black Metal extremo que remete ao Dark Funeral dos anos 90: ríspido, intenso e agressivo. Entre os músicos, destacam-se Thiago Caronte (vocais) e Thiago Splatter (bateria), que também integram o Velho. O set de 30 minutos trouxe faixas do álbum “Black Sorcery Devotion” (2021), como “Ride The Winged Serpent”, “Satan, Victorious!” e “The Last Storm of Winter”, além de um cover avassalador de “Satan My Master”, do Bathory. A performance, brutal e direta, mostrou por que a banda é hoje um dos nomes mais promissores do Black Metal carioca, sendo ovacionada pelo público.

Às 21h45 foi a vez do Blasphemaniac, de Atibaia/SP. A banda de Black/Thrash entregou um dos shows mais enérgicos da noite, com direito às primeiras rodas de mosh. Em um set de 40 minutos, executaram músicas como “The Call of The Black Goat”, “The God’s Mother Rape”, “C.I.J.D. (Christian, Islamic & Jew Devastation)”, “Bestial Occult Ceremony” e a marcante “Hell’s Eternal Fire”, entoada em coro pelo público. Em meio à fúria do show, o vocalista rasgou uma bíblia no palco, atirando as páginas sobre a plateia, que respondeu em delírio. A performance consolidou a banda como uma das mais incendiárias da noite.

Às 23h, o Velho assumiu o palco como novo headliner. A escolha se mostrou acertada, já que a banda goza de enorme prestígio junto ao público paulistano. Com seu Black Metal gélido, cantado em português, e sonoridade old school, o grupo segue divulgando o álbum “Vingando as Bruxas” (2025), do qual tocaram faixas como “Reunindo as Matilhas”, “Destruindo os Mandamentos” e “Renascendo Pelo Ódio”. Também revisitaram momentos importantes da carreira, como “A Marca Invisível de Lúcifer” (O Retorno da Mesma Lua, 2019), “Cadáveres e Arte” e a já clássica “Satã, Apareça!” (Decrepitude e Sabedoria, 2015), cantada em uníssono pelo público. O encerramento ficou com “O Único Caminho”, de seu EP de estreia “Vida Longa ao Primitivo” (2009), coroando 45 minutos de um set caótico e destruidor.

O festival “O Chamado do Negro Bode” reuniu nomes relevantes do underground extremo nacional em uma noite de peso e brutalidade. Mesmo sem a atração internacional, o evento manteve sua força, e a substituição por um dos grandes nomes do Black Metal brasileiro trouxe ainda mais significado. A primeira edição mostrou-se um sucesso, com bom público, organização eficiente e um cast selecionado a dedo, consolidando-se como uma verdadeira celebração do metal feito com dedicação e paixão.





