Artista Principal: Paul Di’Anno
Bandas de abertura: Electric Gypsy e Noturnall
Local: Carioca Club Pinheiros, São Paulo/SP
Data: 04/02/2023
Produção: Estética Torta
Texto, foto e vídeo por Johnny Z.
Já digo de antemão que você vai ler comentários sobre uma CELEBRAÇÃO A UM LEGADO e não uma simples resenha de um show qualquer.
Devido a compromissos particulares, só cheguei após o show da Eletric Gypsy (Hard Rock), prestes ao início do show da Noturnall.
Confesso que não estou familiarizado com som de ambas, mas o Noturnall me surpreendeu positivamente. Entrando no palco pontualmente às 21h, mostrou que é, sem sombra de dúvidas, uma banda afiadíssima, com som de primeira e com músicos competentíssimos (demais!). Como disse, seu som nunca me chamou atenção até então, só que nesse show a coisa mudou totalmente de figura, e bastante, por ser pesado, moderno e atual, o que gosto muito. Claramente, temos bastante de Prog Metal, mas também o peso do Groove Metal de bandas como Adrenaline Mob, Five Finger Death Punch e Distubed.
Eu tinha – e ainda tenho – alguns ‘poréns’ com bandas que, de alguma forma, vivem no AngraVerso (não é um comentário pejorativo, ok?), apenas pelo tipo de som melódico que não me agrada mais atualmente. Só que me enganei profundamente em relação ao Noturnall por, mais uma vez assumo a culpa, puro preconceito achando que era ‘mais do mesmo’ (risos). Vivendo e aprendendo, mesmo beirando os 50 anos de idade. Leo Mancini (ex-Shaman, Tempest), substituindo Mike Orlando (ex-Adrenaline Mob) na guitarra, é um monstro! Como toca esse cara! Jesus! E é de uma simpatia tão grande quanto sua qualidade no instrumento. E estendo isso ao vocalista Thiago Bianchi (ex-Shaman, ex-Karma), que esta cantando muito e tem uma presença de palco fabulosa, os também monstruosos Saulo Xakol (baixo) e Henrique Pucci (bateria), que indiscutivelmente formam uma das ‘cozinhas’ mais coesas do metal nacional que vi ao vivo nos últimos anos. Nem mesmo o probleminha no microfone de Thiago na faixa “Try Harder” estragou a apresentação, já que a banda parou, esperou tudo se resolver e voltou ao palco com o maior profissionalismo!
Sim, meus caros, só tenho elogios! Conquistaram um (velho) fã novo e não tenho vergonha nenhuma de falar que me enganei redondamente em relação ao que achava deles, então, se você não conhece, vá atrás, pois não vai se arrepender.
Meus destaques foram para “No Turn at All”, “Fight The System”, “Wake Up”, o belíssimo, o eletrizante cover de “Thunderstruck” (AC/DC), que colocou o meio parado Carioca Club nos trilhos e “Scream For Me”, faixa do novo trabalho da banda “Cosmic Redemption”. Meu único ponto ‘negativo’ vai para a faixa “O Tempo Não Para”, cover de Cazuza, na qual a banda gravou e estúdio com Ney Matogrosso, que – me perdoem a sinceridade – achei deslocada, sem sal e desnecessária.
Com um atraso considerável de quase 45 minutos – o que prejudicou quem foi de metrô, como esse quem vos escreve -, e um DJ ou som mecânico medonho que não tinha a menor noção do público ali presente, para acalmar os ânimos dos que estavam já meio apreensivos, o escritor croata dos livros sobre o Iron Maiden – todos sendo lançados pela Editora Estética Torta aqui no Brasil – e quem ajudou no tratamento de Paul, custeando e amparando Paul na croácia, Stjepan Juras, deu algumas palavrinhas, sendo uma delas que toda essa turnê estava sendo gravada para um documentário.
Vale ressaltar que, o atraso se deu devido ao problema ocorrido com o Noturnall no início do seu show, sendo encerrado em torno das 22h, tal horário que Paul deveria começar o seu set, transformando tudo numa bola de neve, mas quem estava ali só tinha um propósito: CELEBRAÇÃO e não se ouviu absolutamente NENHUMA HOSTILIDADE.

Após mais alguns minutos, eis que as luzes se apagam e a introdução de “The Ides Of March”, explodiu nossos ouvidos, dando início não a apenas um simples show, mas sim uma celebração a vida, a nostalgia, as nossas memórias afetivas, aos clássicos atemporais do passado, e, principalmente, ao legado de Paul Di’Anno. Tudo que ele passou nos últimos 5 anos – ou mais, vai saber – em relação a sua saúde, culminando no tratamento na Croácia, cirurgias etc, realmente sensibilizou muita gente. Ver o estado que Paul se encontrava, ver suas pernas maiores que a de um mamute e sua saúde definhando, era de cortar o coração.
Essa turnê é de longe para se querer dar tapinhas nas costas, elogios ‘falsos’ e lambeções de saco, mas sim AJUDAR Paul Di’Anno a continuar custear seu tratamento e, principalmente, CONTINUAR VIVO! O que deveria entrar na cabecinha de bagre de muito imbecil por aí que defeca pela boca falando asneira. Sim, Paul está fazendo um esforço sobre-humano para cantar, se locomover na cadeira de rodas, e até a viver, e isso é nítido em sua expressão ao dar tudo de si no palco. Muitas vezes, ou melhor, entre TODAS as músicas apresentadas, além de ter a ajuda de todos os presentes cantando e mandando boas vibrações ao ícone, ele abaixava a cabeça e se desculpava por não estar bem o suficiente para dar o seu melhor. Mas, para quem estava lá pelo motivo certo, sabe que Paul deu o seu melhor, numa humildade incrível e, mesmo não conseguindo cantar metade das músicas, isso não foi um problema. Pelo contrário, todos viam nos seus olhos o quanto ele estava grato ao calor e ao amor que seu público jogava de volta para ele.
Sem brincadeira ou exageros, Paul me tirou lágrimas ao pedir tantas desculpas ali, naquela situação, sentado numa cadeira de rodas. E como ele mesmo disse, “Nada vai me parar, NADA!”. E venhamos e convenhamos, o Brasil foi o lugar certo para dar o que Paul precisava: carinho, força e respeito. Esse país é uma merda em se tratando de governantes, mas não adianta, salvo exceções, nosso povo esbanja carinho, respeito e positividade aos seus ídolos.
Respeito foi uma das coisas que mais vi durante toda a apresentação de Paul, que teve em sua banda membros das bandas de abertura Noturnall e Electric Gypsy, onde deram um show de execução. Léo Mancini, Nolas e Chico Brown nas guitarras, Saulo Xakol no baixo e Henrique Pucci na bateria, claramente deram algumas escorregadas nada comprometedoras, longe disso, mas mesmo com elas foi ótimo, pois ninguém estava ali para prestar atenção em erros, problemas de voz, falta de músicas ou qualquer merda que fosse! Todos estavam ali por Paul e pela causa, e todos deram um show junto ao cantor inglês, que mesmo alegando ser torcedor do Corinthians aqui no Brasil, provou que ninguém é perfeito (risos).
Poder ver, ao vivo e a cores, o cara que cantou nos primeiros trabalhos do Iron Maiden, até mesmo para quem o viu já inúmeras vezes por aqui, sempre é de um valor incalculável. Sem essa baboseira de Bruce Dickinson x Paul Di’Anno x Blaze Bayley, vamos crescer um pouco e dar o devido valor/respeito a todos eles!
Logicamente que, um show de Paul sem algumas presepadas não é um show de Paul, certo? Após a entrada fulminante com “Wrathchild”, o cantor deu algumas palavrinhas, agradecendo a presença de todos e dando início a sua jornada de pedidos de desculpas. Até aí, tudo bem, mas ele foi apresentar a próxima música gritando como: “Wrathchild”, de novo, causando risos gerais (risos). Paul, você pode tudo!
Era nítido que sua voz estava rouca e que ele mal conseguia respirar, sempre dando ao público para continuar e o ajudar. Ninguém se opôs a isso, e não vi nenhuma – ainda bem – pessoa ali presente que achou ruim ou ficou falando groselha, pelo contrário, Paul só de estar ali na frente, mesmo que sentado na sua cadeira de rodas, já bastava, nem precisava ter cantando tudo que cantou na noite. Ninguém estava preocupado com qualidade de voz, interpretação mirabolante, nada disso, todos queriam vê-lo VIVO, com gás para continuar o tratamento e melhorar.
Algumas músicas Paul conseguiu cantar quase que em sua totalidade, como foi o caso, por exemplo, de “Sanctuary” e “Drifter” (só faltaram os ‘io-io-io-io’ dos anos 80), mas mesmo outras como “Remember Tomorrow”, dedicada aos amigos, músicos e ex-parceiros de Paul que se foram Paulo Turim (Battlezone, Dianno) e Clive Burr (Iron Maiden), transbordou emoção e muitos ciscos caíram nos olhos dos presentes.
Durante a onipresente e fabulosa “Killers”, alguns presentes elevaram um cadeirante para perto do palco assustando a todos, inclusive Paul que pediu para descerem o rapaz. As rodas de tiozinhos e jovens foram se formando por todo Carioca Club, o que foi muito interessante de se ver um monte de grisalho, cabelo branco se ‘matando’ (risos). O Metal e o Rock são atemporais, não adianta! Uma vez entra no seu coração, não sai nunca mais!
Enfim, só espero que todo esse amor que nós brasileiros estamos passando a ele nessa turnê enorme faça-o mudar algumas atitudes com sua saúde e que ele consiga, dessa maneira, se curar completamente. Será difícil? Sim, mas depende agora, também, dele querer! E sim, vamos “cobrar” o show gratuito que Paul prometeu que daria assim que se restabelecesse!
Sobre o setlist não temos nem o que dizer! Se você que esta lendo isso aqui não cantou TODAS AS MÚSICAS, ou não as cantaria até de trás para frente, sinto lhe dizer que estava no lugar errado. “Purgatory”, “Murders In The Rue Morgue”, “Charlotte The Harlot”, a soberba “Phantom Of The Opera”, as instrumentais “Transylvania” e “Genghis Khan” que deram mais um descanso para Paul (pena que acendeu um cigarrinho nelas hein Sr. Paul!), “Running Free”, “Prowler” (como eu amo essa música) e fechando com “Iron Maiden”, mesmo com um Paul já praticamente sem voz, valeu cada minuto de se estar li.
O esforço valeu a pena Paul, produção, bandas de abertura, público que lotou a casa, equipes etc.! Que noite! Que noite! Se você que leu até aqui tinha dúvidas se deveria ou não ir a algum show dessa turnê, espero que tenha elucidado que é seu DEVER estar presente!
Emocionante foi apelido! Saí de lá de alma lavada!
Obrigado Estética Torta pelo credenciamento, parceria de sempre e pela noite memorável!
Setlist Paul Di’Anno:
The Ides Of March (Intro)
Wrathchild
Sanctuary
Purgatory
Drifter
Murders In The Rue Morgue
Remember Tomorrow
Genghis Khan
Killers
Charlotte The Harlot
Transylvania
Phantom Of The Opera
Running Free
Prowler
Iron Maiden





