
Porão Do Rock 2018 (Segundo dia – Palco Pesado)
Bandas: Korzus, DFC, Pense, Device, Devotos, Totem, Bruto, PUS, Damn Youth, Never Look Back
Local: Estacionamento do Estádio Monumental, Brasília/DF
Data: 30/09/2018
Texto, fotos e vídeos por Victor Augusto
O segundo dia do festival Porão do Rock repetiu a boa interação de bandas de Hardcore e Metal. O sol e o calor castigaram menos dessa vez e uma breve ameaça de chuva não espantou o público, que ficou até o final do evento, até altas horas em pleno domingo.
De diferente, eu notei que houve a mudança de alguns PA e o som estava mais alto em comparação ao dia anterior. A pontualidade de cada show foi cumprida a risca.

Never Look Back (DF)
O Never Look Back é uma banda formada, inicialmente, como projeto paralelo de músicos de outras bandas da cidade, mas que acabou ganhando força, apesar de seu pouco tempo de existência. Com uma boa experiência de shows, incluindo turnê fora do país, o grupo mostrou o seu som mais voltado para o Metalcore, com um baixo bem presente e bastante peso.
Há espaço para algumas melodias, tanto no vocal, quanto em algumas passagens de guitarra, que remetem ao Hardcore melódico. O sol das 16 horas, novamente, castigava o pouco público e pegava diretamente nos músicos. Claro que isso não desanimou a nenhuma das partes que estavam lá. Só achei ruim não ter mais pessoas para prestigiar o show. Mesmo assim, o vocalista Kenji Matsunaga foi bem simpático ao agradecer de estar tocando no Porão do Rock, já que estar ali é o sonho da maioria das bandas de Brasília e falou de nunca desistir dos seus objetivos, anunciando a música “Never Surrender”.
Ao término do show, Kenji falou da chance de mudar o país nas eleições que iriam acontecer no final de semana posterior ao do Porão do Rock e saíram do palco sem muitas despedidas.

Damn Youth (CE)
A nuvem negra que passava sobre o palco, junto a um vento forte, parecia dar sinais de uma boa tempestade, mas que gerou precipitação somente nos bairros vizinhos e livrou o público de um belo banho de chuva durante a apresentação dos jovens do Damn Youth. Vindos de Caucaia (CE) e representando a força do Nordeste no Metal, me pareceu que nem eles botavam muita fé que agradariam tanto, devido às poucas pessoas e a ameaça de chuva que rolou. Porém, bastou uma música para uma galerinha colar na grade e ficar impressionada com o som deles.
O quarteto toca um Thrash bem no estilo D.R.I., sem frescuras e com muita presença de palco, o que agradou bastante aos que lá estavam. Música como “Revenge”, mostra bem a ideia dos garotos. O vocalista tem algumas tiradas engraçadas, como falar que a música “Skate in Hell” é para quem gosta de cagar na porta da delegacia. Com essa simpatia e um rolo compressor de riffs, que em alguns momentos lembrava até o Slayer, fizeram um curto set e animaram bastante.

PUS (DF)
Os velhos conhecidos do P.U.S. retornaram as atividades em meados deste ano e já é possível perceber um entrosamento maior, após alguns shows deste então. Neste momento do festival, já havia um bom número de pessoas para presenciar essa banda de Death Metal, que teve uma importante história no cenário brasileiro em décadas anteriores.
O que me chamou a atenção no show foi o peso da guitarra de Sara Abreu e sua forma furiosa de tocar. Ao mesmo tempo, ela demostrou ser muito simpática, trocando algumas palavras com o público e agradecendo aos seus alunos de 10 anos que foram presencia-la. Ela comentou que eles têm uma banda apesar da pouca idade. Daniel Moscardini é outro que impressiona pelas complexas viradas em várias partes e pelo bumbo duplo.
Ronan Meireles desempenha bem o seu papel de frontman e fica fazendo suas próprias rodas no palco. Ele dedicou a “Comando Vermelho” ao produtor Carlos Eduardo Miranda e comentou da participação de Chico Science nela. A banda fez um set curto, contando com as clássicas “Luxury”, “The End of The Line” e fecharam a boa apresentação com a “Mosh”.
Ninguém sabe ao certo se a banda ficará somente com shows de reunião, ou se futuramente irão trazer material inédito, mas essas apresentações são uma boa oportunidade para os mais novos presenciarem o que o P.U.S é.

Bruto (DF)
O Bruto já tem algum tempo de estrada no DF, com um Thrash/Death bem pegado e letras bem ácidas e em português. O grupo despejou vários sons de seu único álbum. O “mundo Destruído” (2010) e alguns sons que estão no DVD ao vivo de mesmo nome.
O vocalista Kbça se movimenta bastante no palco e é sempre engraçado nos seus curtos papos com a galera, quando anuncia uma música. Entre uns palavrões e outros, ele disse que recitaria um poema de amor e começou a falar um refrão carinhoso “Vou botar pra te foder, vou botar pra te esfolar…” e a banda tocou a pesadíssima faixa dessa bela poesia.
O já antigo parceiro de Kbça, o baterista Sávio, sempre impressiona pela brutalidade nos blasts beats e viradas. Reparei um bom entrosamento entre os guitarristas também e mais uma vez, o Bruto deixou a sua marca no palco do Porão do Rock.

Totem (DF)
Entre várias bandas de Hardcore ou Metal, o Totem foi umas das que roubaram a cena com seu Rock de muita pegada. Posso descrever a banda com riffs muito bem pensados e tocados por Fábio Marreco, além de seus solos bem criativos e técnicos. Como aliado dele, teve o grande Gustavo Rosa, que nitidamente tocava seu baixo com muita garra e empolgação de estar ali. Isso sem dúvidas trouxe a plateia para eles.
Régivei é uma figura e confesso que demorei algum tempo para entender a sua inteligência em suas letras poéticas, sobre tantas coisas do cotidiano. A sua presença de palco é sempre intrigante, com seus trejeitos e sem frescuras de se jogar ao chão ou recitar poemas entre uma música e outra. Falta de interpretação e interação com o público é algo que ninguém pode reclamar da banda. Ao fundo o baterista Thiago Totem consegue se manter preciso e presente diante de todo esse cenário.
Músicas como “Nojanta” e a pesadíssima “Lei de Tabuleiro”, do disco “Vale Quanto Pesa” (2011) foram umas das faixas que empolgaram bastante aos presentes. Para mim o Totem foi quem mais fugiu do som tradicional que escutamos na maioria das bandas do cast. Justamente essa criatividade e vontade de fazer um grande show que cativou e fez deles um dos grandes destaques do festival.

Devotos (PE)
Uma grande surpresa para mim, foi ver o Devotos no palco do Porão do Rock e devo afirmar que eu conhecia alguns sons, por meio de colegas do ensino médio que moraram em Recife (PE) na década de noventa. O tipo de Punk que a banda faz lembra as bandas mais antigas do estilo. Claro que há um teor político nas letras, não sendo direcionado especificamente para algum setor, mas há uma forte abordagem regionalista, tanto no ritmo, como nas menções de lugares tradicionais de uma cidade que tem um lado artístico extremamente forte e rico.
Sonoramente, o Punk tradicional deles tem algumas quebradas breves no Reggae. O trio mandou bastantes sons de seu último trabalho, “O Fim Que Nunca Acaba” (2018), como a “Chama Padre Quevedo” e a pesada “De Andada”, com uma interessante base rítmica, lembrando um pouco de Maracatu.
Eu sou suspeito para falar, pois sempre os achei muito foda e de uma simplicidade como pessoas, fato que sempre me atrai a uma banda. Além da excelente apresentação, eles encerraram o show com um breve discurso de votar consciente e mandaram a clássica “Punk Rock Hardcore Alto José do Pinho”, alegrando aos fãs e adoradores de uma boa música, direta e sem frescuras. Aos mais jovens que ainda não conheciam o Devotos, eu espero que tenham virado fãs dessa forte nome do Punk Rock nacional.

Device (DF)
O Device é outra banda do DF que, merecidamente, voltou ao palco do Porão do Rock, depois de 10 anos desde a sua primeira apresentação nesse festival. Se naquela época eles tinham somente um EP e se preparavam para lançar o disco que definiria a cara da banda, o “Antagonistic” (2010), dessa vez a banda voltou muito mais madura e com uma pegada bem crua e visceral, como escutamos no recém-lançado EP “Godless”.
O quarteto estava com sangue nos olhos e mandaram uma metralhada de sons, desde a nova “Silenced By Blood”, como a mais antiga “Under The Cross”. O vocalista Italo Guardiero não escondia a sua euforia, fazendo uma atuação impecável no vocal gutural e na sua presença de palco. O Baixista Daniel Gonçalves teve o seu som bem destacado e não parou de bater cabeça um segundo. Fiquei muito impressionado como o Guitarrista Marco Mendes manda palhetadas rápidas, ao mesmo tempo em que faz uma divisão de voz com Italo, indo para tons mais rasgados. Outro que impressiona é o baterista Diego Campos, parecendo uma britadeira. O que ele manda de blast beats e bumbo duplo é surreal. Eu só via o jogo de pratos sendo surrado por ele e isso realmente empolgou a todos.
Com pouco tempo para conversa, a banda priorizou não dar tréguas entre uma música e outra e somente falaram alguns poucos temas de cunho político. Sem muitas enrolações, fecharam a brilhante apresentação com o cover do Ratos de Porão, “Igreja Universal”, que também está no seu mais novo EP. O Device mostrou que estão mais vivos do que nunca e já são um nome respeitado na cena local.

Pense (MG)
Diretos de Belo Horizonte (MG), o Pense é uma banda de Hardcore melódico, que lembra algo de CPM22 em sua sonoridade. Inicialmente achei que era uma levada mais tranquila e devagar nos primeiros acordes, mas logo eles mostraram que presam por bastante velocidade e melodias em seu som.
As letras em português ajudaram na interação com a plateia, que desceu em massa para prestigiar banda, além de o estilo sonoro ser algo mais acessível a um público maior. Assim como o foco em assuntos políticos estavam em alta, devido a proximidades das eleições, a banda também comentou que estavam voltando, depois de um ano parados e dedicaram à música “Revitalizar” a esse retorno, encerrando assim uma apresentação que cativou muito aos fãs de Hardcore.

DFC (DF)
Veteranos do Hardcore nacional, o DFC mais uma vez participou do Porão do Rock e eles são uma banda que você pode assistir mais de 50 vezes, mas nunca vai enjoar. Desde shows abertos e de graça, em praças de skate, até grandes palcos, o DFC toca com a mesma intensidade e empolgação.
Tradicionalmente, eles abriram com o berro “DFC, Hardcore, Brasília” e o empolgante riff e bateria da “Pau No Cu do Capitalismo em Posições Obscenas” surgem no palco. Poucos segundos foram suficientes para a galera ir à loucura e sem dar folgas, a banda costuma emendar umas três músicas de uma vez, antes de dialogar com os fãs. O vocalista Tulio sempre tem comentários bem humorados ao anunciar o nome da música, chegando a falar do preconceito de ser headbanger e ir trabalhar com camiseta do Venom. Ele convidou o Rafael Megera, que não se preocupa com esse tipo de preconceito visual, para cantar a “Respeito é Bom e Conserva os Dentes”.
Além dos clássicos “Vírus Do Peculato” e “Vai Se Fuder No Inferno”, o grupo mandou a “Venom”, som do novo disco, “Sequência Animalesca De Bicudas E Giratórias” (2016). Chegando ao fim do show, a faixa “Vou Chutar a Sua Cara” foi anunciada com mais uma balada romântica e a clássica “Molecada 666” encerrou essa empolgante apresentação desse grupo que fez história no underground brasileiro.

Korzus (SP)
Fechando a edição de 2018 no palco pesado, o Korzus veio para, mais uma vez, mostrar que são um dos maiores nomes do Thrash Metal nacional e mundial também. Com um backline diferenciado e um som extremamente alto e equalizado, o grupo iniciou a devastação com a pesada “Guilty Silence”, do “Ties of Blood” (2004) e não teve um fã, que se preze, sem bater cabeça com essa, que é uma das melhores músicas do grupo. Antônio Araújo estava, nitidamente, querendo ver o sangue jorrar e puxava os fãs o tempo todo para o show, pedindo rodas e olhando nos olhos dos que ainda sobreviviam à devastação sonora. Heros Trench é muito técnico e se movimenta em algumas horas, sempre acompanhado de seu cigarro. Rodrigo Oliveira uma destruição na bateria e assim como Heros, toca algumas músicas com seu cigarro sempre presente.
Marcello Pompeu faz a sua interpretação das músicas e por várias vezes descia nos PAs da frente do palco. Em alguns momentos ele conversou com o público, agradecendo por quem estava num domingo, à meia noite, esperando pelo Korzus. Ele comentou também do desrespeito que vemos na internet sobre vários assuntos, quando temos opiniões diferenciadas sobre algum tema e dedicou a “Respect” para isso.
Faixas mais novas como a “What Are You Looking For”, “Discipline Of Hate” e “Correria”, tiveram o mesmo impacto quanto “Guerreiros do Metal” e “Catimba”. Do mais recente disco, as faixas “Vampiro”, dedicada aos amigos ou familiares sanguessugas, e faixa título “Legion”, que encerrou o show, tiveram espaço nesse set bem abrangente.
Ao final da apresentação, Dick Siebert desceu do palco para abraçar e tirar fotos com os fãs. O Korzus mostrou o motivo de ser uma banda tão respeitada, não só pelo Thrash Metal de alto nível, mas pelo profissionalismo e dedicação no Heavy Metal nacional.
Parabéns Porão do Rock, por mais uma edição com um palco voltado a música pesada e pelas variedades de estilos do line up. Se alguns percalços surgiram em outros anos, em 2018 o evento foi muito bem organizado, primando pela pontualidade e um suporte técnico impecável a todas as bandas.




