Posthumous – La Iglesia, São Paulo/SP (23/08/2025)
Produção: Be Magic Produções e Malevolent Produções
Texto e fotos por Matheus “Mu” Silva
Prestando homenagem à música e ao legado de Marcos Masiero, ex-vocalista da banda paulistana Genocídio, membros e ex-membros do grupo, além de amigos de longa data, realizaram um evento na tradicional casa La Iglesia, em São Paulo, no último sábado. O show percorreu os álbuns que marcaram a trajetória de Marcão na banda. Com produção da Malevolent Produções em parceria com a Be Magic! Produções, o evento foi idealizado para celebrar o apreço que músicos e amigos próximos tinham por ele, bem como a influência e a marca que deixou na história do metal nacional.
Marcos Masiero, conhecido como Marcão e também pela alcunha de Cyborg, foi uma figura importante para o metal brasileiro. Com o Genocídio, lançou álbuns fundamentais para o desenvolvimento do metal extremo no país, como os clássicos Depression (1990) e Hoctaedrom (1993), materiais impactantes que marcaram época, trazendo seu característico vocal gutural cavernoso — influência para diversas bandas que surgiram posteriormente. Após um período afastado, retornou para gravar One of Them… (1999) e um dos álbuns mais importantes da banda, Rebellion (2002), deixando o grupo definitivamente pouco tempo depois. Em 14 de setembro de 2024, infelizmente, Marcão faleceu aos 58 anos de idade. Seu legado para a música pesada brasileira jamais será esquecido, e sua influência permanece viva até os dias de hoje.
O evento iniciou às 20h15, com o baixo que Marcão costumava usar posicionado no palco em sua homenagem. Neskau Magnarello (Sensimilla Dub, ex-Insane Hell) foi o mestre de cerimônias, apresentando os músicos ao longo da noite. A primeira formação a se apresentar contou com Rodrigo Malevolent (vocal, Malevolent Age), Armando (guitarra, Mystifier), Vak (guitarra, Homeless) e Spaghetti (bateria, Homeless, ex-Ratos de Porão). Eles executaram duas faixas do lado B do primeiro EP autointitulado do Genocídio, de 1988: Bestial Vengeance e Pact of Blood. Thiago Anduscias (Amazarak) participaria como baixista nessas músicas, mas, devido a imprevistos, Rodrigo assumiu o baixo e os vocais. Assim, essa primeira formação se apresentou como quarteto, celebrando o início da trajetória de Marcão no Genocídio.
Após a execução, Neskau contou histórias sobre os primórdios da banda, lembrando que o primeiro disco, lançado pela Heavy Metal Maniac Records, chegou a ser classificado como Black Metal por revistas especializadas da época, quando os gêneros ainda estavam em formação no Brasil.
A apresentação seguiu com uma nova formação: Rodrigo permaneceu no baixo, acompanhado de Murillo Leite (vocal, Genocídio), Rafael Orsi (guitarra, Malevolent Age, ex-Genocídio), Frank Gasparotto (guitarra, Sacrifix) e Alex Destroyer (ex-Genocídio). Eles tocaram um dos maiores clássicos da banda, Rebellion (2002), último álbum com Marcão no vocal. O momento foi especial também por marcar o retorno de Alex a essa música após mais de 20 anos sem tocá-la. Ao final, um minuto de silêncio foi dedicado em memória de Marcão, na presença de toda sua família.
Em seguida, veio um dos momentos mais diferenciados da noite: com Rodrigo no baixo, Rafael na guitarra e Murillo assumindo a outra, Roger Lombardi (ex-Goatlove) nos vocais e Fábio ‘Jô’ Moysés (Sacrifix, Malevolent Age, Chaosfear, ex-Genocídio) na bateria, a banda tocou um cover de Black Planet, do The Sisters of Mercy. A faixa integra Posthumous (1996), disco em que o Genocídio flertou com o Post Punk e o gótico. Os vocais de Roger deram um toque especial à execução, já que seu antigo grupo, Goatlove, tem forte influência nesse estilo.
Mantendo o clima de homenagem, o trio Rodrigo, Murillo e Jô executou Only a Solution (Depression, 1990), respeitando a formação da época — Marcão (baixo/vocal), Perna (guitarra) e Juma (bateria). Logo após, Murillo passou ao baixo e aos vocais, enquanto Jô permaneceu na bateria, para receber Fernando Boccomino (guitarra, Chaosfear) e Junior (Terrorcult). Juntos, tocaram Heredity, do clássico Hoctaedrom (1993). Na sequência, com Rodrigo assumindo baixo e vocal, veio uma das faixas mais conhecidas do Genocídio, Uproar, também desse álbum — muito lembrada pelo videoclipe lançado na época, o primeiro da banda, que se tornou um ponto alto da noite. Rodrigo chegou até a reproduzir alguns maneirismos de Marcão no clipe, de forma natural e respeitosa.
Houve ainda um momento especial para homenagear Paulo Castro (Paulão), conhecido intérprete de Gene Simmons (Kiss), falecido recentemente. Com Fernando nos vocais, Frank e Rafael de volta às guitarras, Rodrigo no baixo e Jô na bateria, tocaram War Machine (Creatures of The Night, 1982), uma das músicas mais marcantes na voz de Gene, emocionando o público.
No último bloco, permaneceram no palco Rodrigo, Murillo, Rafael e Jô. Executaram uma dobradinha de Posthumous (1996) com Pilgrim e Condemnation. Um momento curioso ocorreu quando, por empolgação, os músicos emendaram as faixas sem a entrada de Frank na segunda guitarra, o que gerou risos entre banda e público. Além disso, Jô, aniversariante do dia, foi parabenizado por todos, celebrando a data da melhor forma: tocando metal cercado de amigos.
A sequência final incluiu Numbness Sunshine (Hoctaedrom, 1993) e Sphere of Nahemah (Posthumous, 1996). Em seguida, Neskau finalmente assumiu os vocais para prestar sua homenagem a Marcão com The Grave, primeira faixa do EP de estreia do Genocídio (1988). Para encerrar, todos os músicos voltaram ao palco para um cover de um clássico eterno do Venom, Countess Bathory (Black Metal, 1982), transformando o encerramento em uma verdadeira celebração coletiva.
A música é sobre legado, influência, trajetória, criatividade e, acima de tudo, importância. Marcão conseguiu deixar tudo isso marcado na história do metal brasileiro. Quase um ano após sua partida, sua obra foi reverenciada com a homenagem que merecia, por aqueles que continuam aqui perpetuando sua música. Obrigado, Marcão. Seguimos acreditando no metal e no impacto que ele pode gerar, assim como você deixou sua marca para todos nós. Descanse em paz — sua música continua ecoando em nossos ouvidos e nos palcos da vida.

