Rot/Facada – “Em Sincronia com o Fim do Mundo” (Split 2025)
Black Hole Productions
#Grindcore
Para fãs de: Napalm Death, Nasum, Terrorizer, Brutal Truth
Texto por Ricardo Leite Costa
Nota: 9,5
Duas das principais formações do underground extremo nacional unem esforços no lançamento deste split que mais parece um artefato de destruição em massa do que propriamente um registro fonográfico.
Em Em Sincronia com o Fim do Mundo, os paulistanos do Rot e os cearenses do Facada proporcionam ao ouvinte entusiasta de sonoridades que desafiam e transpõem as fronteiras da violência sonora (leia-se Grindcore) um genuíno massacre de proporções medievais.
Ambas as bandas são adeptas da vertente mais primitiva e direta do subgênero e fazem questão de demonstrar isso em cada uma das 22 faixas que compõem o material. Sendo assim, esqueça o passeio dominical em campos floridos num belo dia ensolarado. Aqui temos um cenário caótico, uma zona de guerra completamente devastada por um inimigo com poderio bélico infinitamente superior.
Em Sincronia com o Fim do Mundo reflete exatamente o que o título sugere: desolação, angústia e desespero como emoções preponderantes agindo em sinergia para o inevitável. A primeira parte do disco é protagonizada pelo Rot, banda do saudoso baixista/vocalista Alexandre “Bucho” Strambio (falecido precocemente em 2021). Veteranos do cenário extremo nacional, o quarteto traz aquilo que todos nós esperamos: composições diretas, embasadas em peso e velocidade, tendo como pano de fundo uma nevrálgica e abrasiva crítica social.
São responsáveis por 14 faixas de pura ode à violência sonora, à dissonância e à distorção como forma de arte e protesto genuíno. É o Grindcore escancarando sua face mais letal e intimidadora, numa trilha sonora rumo à desesperança. Objetivos e fulminantes como um AVC, entregam uma pancadaria implacavelmente poderosa com “Pathetic White People”, início mais que devastador numa composição que nem chega aos dois minutos.
Dando sequência aos destaques, temos “Past, Present and No Future”, “Your Negligence, Our Death”, “Our Destiny Is the Tomb” e outras, num repertório que é, sonora e esteticamente, a personificação do pessimismo — e seria de estranhar se não o fosse.
O Facada vem a seguir, colaborando e encerrando o trabalho com oito faixas de uma brutalidade quase palpável. Em muitos momentos, a banda soa ainda mais intransigente em sua função do que seus colegas de CD. É uma grosseria, podridão e degradação tão exacerbadas (e acredite: aqui esses adjetivos são no sentido positivo, se é que isso é possível), que vão soterrar metaforicamente o ouvinte em mazelas e fazê-lo chafurdar em sua própria desilusão.
O peso e a velocidade das composições vão de acordo com tudo aquilo que se espera de um trabalho focado nesses moldes. A violência não faz concessões: já chega com todo impacto e urgência em “Muito Pouco Incomoda Muito”, “Instagrinder” (mais atual, impossível), “Demente a Deus” e até no inesperado reggae que conclui a obra, “Lapso, Colapso”.
Ambas as formações compartilham uma ótima qualidade sonora (claro, para os padrões do estilo), sendo possível compreender toda a desgraça que se instaura no ato de colocar o disquinho pra tocar. Um trabalho duríssimo, contundente e inexorável, assim como nossa desoladora realidade. Se essa é a sonoridade que te cativa, vá sem medo de ser feliz!

