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Setembro Negro 2022 – Carioca Club, São Paulo/SP (2-3-4/09/2022)

Setembro Negro 2022
Local: Carioca Club, São Paulo/SP
Data: 02, 03 e 04 de setembro
Produção: Tumba Productions
Assessoria: LP Metal Press
Fotos por Luciano Piantonni

O festival Setembro Negro já se tornou mais do que tradicional, e podemos dize, que virou obrigação cívica para qualquer amante do Metal. Não importa sua vertente preferida, lá você irá se divertir do começo ao fim e terá muitas “figurinhas carimbadas”, mas o mais importante é que presenciará muitas bandas debutando em nosso país, até mesmo algumas que você sempre sonhou em assistir, como também muitas que nunca nem soube de sua existência.

É justamente essa mescla entre velhos e novos conhecidos que o festival chama atenção desde a sua primeira edição há muitos anos. A 14° edição deveria ter acontecido há 2 anos, mas uma tal de pandemia atrapalhou os planos, até que finalmente aconteceu nesta primeira semana de setembro. Por se tratar de um festival longo, com início muito “cedo”, os deveres no trabalho atrapalharam um pouco os planos da cobertura total dos 3 dias.

SEXTA-FEIRA:
Texto por William Ribas

A cidade de São Paulo é complicada por si só, numa sexta-feira, o final da tarde se torna algo a beira do apocalipse no transporte público. Tudo resolve travar: o trem à frente não anda, a energia do metrô cai e nisso a ansiedade de se chegar a um local que você tanto quer acaba com o nosso psicológico. Infelizmente, adentrei a casa basicamente no final da apresentação da banda inglesa Conan, e nesse pouco de tempo percebi que o trio fazia um som extremamente pesado como uma bigorna despencando bem no meio de uma sala vazia. Presenciei apenas 15 minutos de sua apresentação, mas que me deixaram extremamente satisfeito com jeito arrastado e brutal de sua sonoridade.

A espera foi rapida para a próxima atração, aliás, literalmente a produção trabalhou como um relógio britânico, sem falhas e sem atrasos durante todo o festival. As 18h40, era chegada a hora do Brujeria. Quem já assistiu alguma vez a banda sabe que a diversão é mais que garantida. Inquietos e sempre incitando público, o grupo comandado pelos vocalistas Juan Brujo, Pinche Peach e Fantasma fizeram o Carioca Club (um pouco mais cheio) berrar diversas músicas, ter rodas e mais rodas, quase que se fosse proibido estar parado. Fora pouco mais 40 minutos de apresentação, com o foco no lindíssimo e cultuado álbum “Raza Odiada”, tocado de cabo a rabo. O show dos “mexicanos” é uma ‘purificação’ e o momento perfeito para deixarmos toda a merda que nos rodeia para fora — mais uma vez viscerais e inesquecíveis.

Seguindo o protocolo rápido, era chegado a hora de um dos próximos nomes que vêm ganhando o underground mundial — Harakiri for the Sky. A banda austríaca entrou muda e saiu calada, preocupando-se a tocar e apenas tocar seu Black Metal climático, com algumas doses de Prog Metal e faixas longas (às vezes intermináveis). Com 11 anos de estrada e 5 álbuns de estúdio, a banda aproveitou bem a sua estreia no nosso país, ganhando vários fãs e elogios ao final de sua apresentação.

As 21h, era chegada a hora de ouvir um dos ex-membros do Manowar em ação: Ross The Boss. Nunca me interessei pela sua ex-banda, mas trabalho é trabalho. O guitarrista foi membro fundador e gravou os 6 primeiros álbuns do grupo americano, então foi nesses trabalhos – logicamente – que o show foi calcado. Foi interessante ver a devoção e irmandade dos fãs, onde por diversas vezes vi gente se abraçando e cantando as músicas unidos. Heavy Metal é paixão e o espetáculo foi exatamente fixado nisso, no amor do fã. Clássicos como  “Dark Avenger”, “Kill The Power”, “Black Wind, Fire and Steel”, “Fighting the World” e “Hail and Kill”, só para citar algumas músicas, estiveram no set.

Primeira noite foi de saldo positivo. Bandas e público apaixonados e unidos pelo “barulho”.

 

SÁBADO:
Texto por Juliano Pereira Soares

Sábado, garoa e um frio de deixar até os mais ferrenhos paulistanos acostumados ao clima, congelados, mesmo as 11 horas da manhã quando os portões foram abertos ao público. Infelizmente, por conta de compromissos familiares, só consegui chegar ao Carioca Club final da apresentação da banda de Viking Black Metal Helheim, que pelo pouco que presenciei me lembrou muito de bandas como Enslaved, Borknagar e até Bathory. Muito bacana, pena que só vi praticamente a última música de seu set.

Os thrashers gregos do Suicidal Angels entraram na sequência com os dois pés no peito, agitando todos os presentes apaixonados por uma boa e velha rifferama cheio de palhetada, um certo groove e muita pancadaria. O Carioca que já tinha um público razoavelmente cheio se esbaldou do começo ao fim com verdadeiros rolos compressores como “Born Of Hate”. Creio que dessa ‘nova’ leva de bandas Thrash, mesmo sabendo que não são tão novinhos assim, o Suicidal Angels pode ser colocado como um cabeça de chave no “campeonato”. Vale destacar a qualidade de som que estava impecável, onde escutávamos nitidamente tudo.

A banda seguinte, Weedeater, é longe de ser ruim, pelo contrário, faz um Stoner Metal cheio de influências do Doom e Sludge, na minha humilde opinião deveria ter vindo em outro dia ou numa outra posição no cast. Vir depois do Suicidal Angels foi uma espécie de anticlímax para aqueles que tomaram uma verdadeira “surra” no show dos gregos. Ok, daquela aquela “relaxada” (se é que vocês me entendem?) durante o show dessa banda, até que – de certo modo – valeu a pena (risos). Fizeram uma apresentação despojada, descompromissada e extremamente de bom gosto, principalmente para os adoradores da erva daninha.

Enfim, era hora de duas bandas clássicas do Thrash Metal, uma seguida da outa: Heathen e Vio-Lence! Ou seja, thrashão técnico, denso, brutal, rifferamas, palhetadas, bay area e muita porradaria. O Heathen veio o primeiro, e logo no início do show percebemos que estavam desfalcados de Lee Atus (também guitarrista do Exodus) por motivos familiares e particulares. No seu lugar veio o guitarrista canadense Kyle Edissi da banda Invicta, e não fez feio, pelo contrário, mandou muitíssimo bem! Apresentando um set focado mais nos dois últimos álbuns da banda, os poderosos “The Evolucion Of Chaos” (2010) e “Empire Of The Blind” (2020), com destaque para a clássica “Goblin’s Blade” e as mais recentes “Dead And Gone”, “Arrows Of Agony” e “Dying Season” que foram muito ovacionadas pela plateia sedenta. Valem dois destaques pessoais aqui: Kragem Lum (guitarra) e David White (vocal) deveriam ser estudados. O primeiro por ter uma pegada monstruosa e uma mão direita que se eu fosse ele colocaria no seguro, o segundo com uma voz que difere de 99% de todos os vocalista de Thrash Metal por ser mais melódica, clara e nenhum pouco suja. Sensacional ver esses monstros ao vivo, mesmo sentindo falta da ‘persona’ de Lee Altus ali no palco.

Setlist:

This Rotting Sphere
The Blight
Empire of the Blind
Arrows of Agony
Goblin’s Blade
Blood to Be Let
Dying Season
Sun in My Hand
Death by Hanging
Hypnotized

O Vio-Lence, que também veio desfalcado de Phil Demmel que preferiu abandonar sua banda nessa primeira aparição no Brasil da carreira e ir ao Rock In Rio tocar com o Metal Allegiance no dia anterior. Não julgo as circun$tancia$, mas que pegou bem mal pegou, já que pegar um avião do Rio e vir a São Paulo não arrancaria pedaço e seria bem respeitoso com todos, produção, fãs pagantes e parceiros de banda. Phil, mandou mal nessa! Para seu lugar chamaram o veterano Ira Black (ex-Heathen, ex-Lizzy Borden, ex-Vicious Rumors) que simplesmente arregaçou e ganhou ainda mais respeito de todos. Do começo ao fim do set, tivemos uma aula de Thrash Metal clássico, daqueles de fazer esquecer os cabelos brancos, as dores nas costas e se jogar no meio da roda como se tivéssemos 18 anos novamente. Uma verdadeira nostalgia ouvir petardos como “Eternal Ninghtmare”, “Serial Killer”, “Kill On Command”, “Mentally Afflicted”, “Phobophobia”, “I Profit” e “World In A World”, por exemplo, junto a cacetadas do novo EP da banda, “Let The World Burn” que não deixa a desejar em nada ao material clássico. Espero que não demorem mais para voltarem e que Phil Demmel crie vergonha na cara em não abandonar os amigos e fãs, independente de grana ou não, pois isso NÃO SE FAZ. Nós brasileiros não esqueceremos, tá?

Setlist:

Eternal Nightmare
Serial Killer
Calling in the Coroner
Officer Nice
I Profit
Flesh From Bone
Kill on Command
Mentally Afflicted
T.D.S. (Take It as You Will)
Upon Their Cross
Phobophobia
World in a World

 

DOMINGO:
Texto por William Ribas

Último dia de shows, mais uma vez perdi as primeiras bandas. Conversando com algumas pessoas, ou até acompanhando pelas redes sociais antes de chegar ao festival, foram unânimes os elogios para os grupos que tiveram a difícil missão de abrir o dia. Muito se falou na qualidade e no tesão que demonstraram mesmo com uma casa ainda com poucos presentes.

A banda americana Skeletal Remains pratica um Death Metal que une bastante o lado técnico e a porrada em um único pacote. É até difícil fazer a escolha bater cabeça ou simplesmente ficar babando na versatilidade dos músicos! Fizeram um show coeso e que agradou bastante os presentes.  A próxima banda a se apresentar, a minha maior surpresa e o show que mais bati cabeça, foi a banda Mork. Praticando um Black Metal cantado em norueguês, o grupo desfilou um instrumental rápido, com doses de virtuosismo durante todo o seu set. Além de possuir músicas “pegajosas”, ainda carregam simpatia demonstrando felicidade em estar no Brasil pela primeira vez — que voltem logo para cá!

Após o ataque blasfemo, era chegada hora de algo mais clássico e tradicional: Raven. Acredito que alguns grupos nasceram para estar na estrada, em cima do palco e detonando, e esse é o caso dos ingleses. Do instante que colocaram os pés no palco até o fim da apresentação parece que foi instalado pilhas ‘duracell’ no power tio, pois eles não pararam nenhum um momento sequer. De um lado ao outro do palco, fazendo caras e bocas, subindo notas, “bangeando”, tudo serviu para declararmos que a apresentação foi irretocável! “Take Control”, “The Power”, “Rock Until You Drop”, “On and On”… só coisa fina! Palmas para os ingleses que continuam vibrantes e dedicados ao que fazem a tanto tempo.

Após a adrenalina do Raven, o Tribulation teve uma tarefa difícil que era de manter o público eletrizado, e conseguiram! Um som soturno e hipnotizante, cheios de histórias medonhas e com um vocal cavernoso deixou tudo muito interessante. Uma banda com cara de mau que mostrou-se muito profissional e feliz por estar tocando para o público brasileiro, mesmo com os perrengues que tiveram com suas bagagens extraviadas.

Voltando ao clássico e tradicional, temos que ser corretos: parte da fórmula do Metallica passa pelos riffs de Brian Tatler e seu Diamond Head. Encerrando a noite e o festival com chave de ouro, podemos dizer que a banda só está na ativa até hoje por conta do apoio de Lars Ulrich. Quem sabe a história entenderá. Quem não sabe, procure saber (risos). Brian diversas vezes declarou isso, mas quem discorda de um fato? O sucesso do Metallica é o que fez e faz o Diamond Head ainda estar excursionando mundo afora, e que sorte a nossa deles terem entrado no cast.

Assim como Raven, Brujeria, Mork, o Diamond Head fez um show impecável daqueles que devem entrar para história. Energético, cativante, cheio de classe, bom gosto e com uma paixão gigantesca. Quase todo o set foi baseadou no maravilhoso “Lightning to the Nation”. “The Prince”, “Sucking My Love”, “It’s Eletric”, “Helpless”, “Sweet and Innocent”, a faixa título e o encerramento monumental com — “Am I Evil?” (ah vá?). Foi lindo sentir como essas músicas soam ao vivo, com mais de 40 anos de vida e no seu estado ‘quase original’ já que a banda original se desfez quase por completo. Mesmo assim, ainda são carismáticas e mostram o que era e é o heavy metal, que não existe o passado, e sim, o presente e futuro. Não existiria melhor banda para fechar um final de semana onde o headbanger somente ganhou.

A cada edição, o festival Setembro Negro se torna melhor e maior, e  já estamos na espera pela edição de 2023.

 

Pedimos nossas sinceras desculpas por não conseguirmos chegar a tempo de fazer a cobertura das primeiras atrações por fatores fora de nosso controle, mas nosso muito obrigado a todos os envolvidos nesse grande festival, principalmente Edu Lane, Tumba Productions e Luciano Piantonni (LP Metal Press), pela parceria e respeito de sempre! Trabalho impecável como sempre! Que venha o próximo em 2023!

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