Silver Mammoth – “Western Mirror” (2020)
Oebuicaota Records
#ClassicRock, #HeavyMetal, #SouthernRock
Para fãs de: Black Sabbath, Black Label Society, Led Zeppelin
Nota: 9,5
O novo álbum do Siver Mammoth pode ser apreciado sob diversas perspectivas, e isto em si já é um atrativo diferenciado no meio das mesmices que poluem o mercado fonográfico mundial.
Em primeiro lugar merece todos os elogios o cuidado com que a obra é embalada: capa dupla, preta e prateada, de extremo bom gosto e totalmente alinhada com a proposta da banda, que se identifica com a logo do Mamute Prateado, quase que instantaneamente; além disso, o encarte é todo caprichado, com informações técnicas, fotos dos integrantes, afora as letras das músicas, com direito a tradução livre para o português.
Sendo assim, com um encarte completo desses em mãos, você pode se recostar na poltrona e, como nos velhos tempos (para alguns), curtir a audição das 12 músicas do álbum prestando atenção nas letras – que começa de maneira proverbial na intro “For Whom The Bells Cry”, citando versículo da Bíblia Sagrada ( Lucas 6,39-45), o qual se relaciona com o tema de “Like A Blind Man” e a narrativa de um homem cego e solitário que se transporta pelo mar, pelo vento e pelos sonhos e sensações das pessoas. Em “Beethoven’s Dark Side”, as metáforas e provocações criam versos que tratam de traição, falsidade, manipulação. Vale também destacar a letra de “Roll Blues”, que presta reverência aos fundadores do Blues e do Rock, tais como Chuck Billy, Muddy Waters, Robert Johnson, Mick Jagger e Keith Richards, tratando do que está na essência deste estilo: a dor que se transforma em ritmo!
Outra leitura possível de “Western Mirror” é identificar o recorte do álbum em duas partes distintas: a primeira mostra a banda em uma roupagem bem diversa daquela que vinha usando nos álbuns anteriores, apostando mais no peso, modernidade estilística, com o pé fincado na aura grave do Black Sabbath, como fica claro na sequência “For Whom The Bells Cry”, “Like A Blind Man” e “Beethoven’s Dark Side”, seguindo nessa linha até a versão de “Sympton Of The Universe”, quando Marcello Izzo, enfim, rende homenagem direta à sua maior influência: Ozzy Osbourne; na segunda parte, a banda frequenta suas origens, com temas mais pautados na psicodelia com sonoridades próprias do Southern/Classic Rock dos anos 70, com direito a regravação de “Natural Love”, do primeiro álbum da banda, além da versão mais inusitada de todos os tempos para uma música do Mötorhead, “White Line Fever”.
E é justamente esta outra possível leitura do álbum: uma compilação que inclui o single “Rise Up” (lançado em 2019 e que já apontava, sobretudo no peso de seu riff, os novos caminhos que a banda trilharia), a já mencionada regravação de “Natural Love”, além dos covers (que saíram nos respectivos álbuns tributos, que contam com bandas brasileiras), em que a banda não se propõe simplesmente a executar de maneira fiel os clássicos de grandes nomes do Hard/Heavy: nas mãos do Silver Mammoth, elas são reinventadas desde sua estrutura básica, transformando-as, especialmente em “Jailbreak” (AC/DC) e na já citada “White Line Fever”, praticamente em outra música – embora a essência da versão original mantenha-se estranhamente preservada. “Sympton Of The Universe” é a que mais se aproxima da original, ainda assim com permissão para viajar grandão na parte final, num improviso doideira, com destaque para os arranjos de teclado (órgão).
Por fim, você pode simplesmente ouvir o álbum de ponta a ponta, sem o encarte na mão e, certamente, terá aquela boa sensação de contemplar músicas que funcionam muito bem em sequência, tornando a audição completa do trabalho uma viagem por diversas sonoridades, todas elas demonstrando um cuidado raro com arranjos, produção e mixagem. “Western Mirror” é uma música diferenciada, que anda lado a lado com Power Ballads clássicas, como um Iron Maiden num encontro épico com as melodias do Queensryche de “Empire”. Não sei ao certo se já tinha ouvido uma música com tamanha qualidade criada por uma banda aqui do Brasil!
A balada “Let’s Find The Sun Together” tem aquela ambiência Led Zepplin II impagável, que me fez voltar no tempo, quando eu não parava de ouvir “Ramble On”, “Lemon Song” e “Thank You”, valendo o alerta de que, na pegada do Silver Mammoth, a veia Southern Rock ganha evidência.
Tendo acompanhado a carreira do Silver Mammoth de perto a partir de “Mindlomania” (2015) em diante, e também visitando seu catálogo de álbuns anteriores, a conclusão a que chego é que a banda atingiu seu ponto alto em “Western Mirror”, que sintetiza o que vinham fazendo desde 2013, quando lançaram seu álbum de estreia, até chegar neste trabalho, em que, mesmo prestando reverência à sua história, permite-se flertar com novas sonoridades, tanto do passado, quanto do presente, moldando o som que acompanhará o estilo da banda no futuro, já estabelecida como o grande nome do Classic Rock do Brasil.
Wallace Magri
