
Banda principal: Sisters Of Mercy
Banda de abertura: The Secret Society
Local: Grupo Tom Brasil, São Paulo/SP
Data: 09/11/2019
Produção: Top Link Music
Texto por Wallace Magri
Fotos por Pati Patah
Tem algum lugar em que o glam, a música gótica e a eletrônica se encostam de maneira promíscua lá pelos idos dos anos 80 – muita fumaça, muita purpurina, poeira pra todo lado e bandas como Billy Idol e Sisters Of Mercy pareciam transitar muito bem por todas estas esferas – com a diferença básica de que o primeiro apostava na formação convencional de banda de rock, enquanto o Sisters apostou em limar a bateria acústica, substituindo-a por uma Drum Machine (chamada Doktor Avalanche) e, assim, flertar mais intensamente com ritmos dançantes.
Foi assim que a banda, liderada por Eldritch, fez fama ao longo da década de 80 e deitou na cama de seu sucesso ao longo das décadas seguintes, sempre oferecendo releituras de seus antigos hits, sem se importar em criar e gravar música nova. O careca Eldritch é o único da formação original, completando atualmente o lineup Ben Christo e Dylan Smith, nas guitarras, poses, caras e bocas.
Nesta noite fria de sábado, o público saudosista foi chegando aos poucos e, como num toque de mágica, acabou enchendo a casa na hora da apresentação da banda, sendo o público formado basicamente de quarentões, cinquentões, e seus filhos, distribuídos no confortável ambiente do Tom Brasil.
Secret Society:
Esta foi a terceira vez que vi o Secret Society se apresentando neste ano. A primeira vez foi abrindo para o Dee Snider, aqui mesmo no Tom Brasil. Naquela vez, ainda que tenha achado o som dos caras meio deslocado para a ocasião, certamente havia algo ali que me cativou – presença de palco bem trabalhada, tecnologia multimédia aplicada ao show. E nada de forma chutada, dava para notar um compromisso com o profissionalismo e muita disposição para mostrarem seu trabalho.
A segunda vez, rolou quando fui pesquisar as bandas que eu cobriria no Horror Fest, eis que o nome The Secret Society apareceu na lista novamente. Agora já familiarizado com o estilo Gótico/Pós Punk dos caras, com uma boa regada de peso e aclimatação sombria, entrei na intensidade da proposta da banda.
Desta vez, parece que eles finalmente encontraram a banda ideal para tocar na mesma noite, haja vista a evidente proximidade entre o som do The Secret Society com a do Sisters. Infelizmente, nesta noite, não puderam contar com o telão de fundo exibindo imagens no esquema desenho noir alinhado com a temática obscura das músicas da banda – todas elas presentes em seu álbum recém-lançado nas plataformas digitais, “Rites Of Fire”.
O power trio, formado por Guto Diaz (baixo e vocal), Fabiano Cavassin (guitarra) e Orlando Custódio (bateria) está muito afiado ao vivo, abrindo a apresentação com “Mephistofaustian Trasnluciferation”, baseada em riffs de guitarras e profundamente obscura, oscilando entre Sabbath, The Cult e Rush.
As tendências mais góticas/pós-punks tendem a predominar, como é o caso de “Rites Of Fire”, que me lembra uma levada no estilo do The Cult, dos tempos de “Dreamtime”, talvez por conta das guitarras.
Nesta noite, decidem fechar a apresentação com um cover de Iggy Pop, “Cry Fo Love”, bem fiel à versão original e que parece ter caído como uma luva, animando o pessoal que ia chegando aos poucos para a apresentação dos ingleses. Quem não chegou a tempo de assistir ao The Secret Society certamente perdeu a oportunidade de conferir uma das bandas mais promissoras do cenário alternativo nacional. Parece que o pessoal da produção do Sisters Of Mercy também gostou do que viu, pois a banda foi convidada para toca novamente com eles no Chile!
Setlist The Secret Society:
Mephistofaustian Transluciferation
Beyond The Gates
Fields Of Glass
Rites Of Fire
Mercy
The Final Cut
The Architecture Of Melancholy
Rubicon
Cry For Love
Sisters Of Mercy:
Meu lance com a música eletrônica começou a se tornar intenso realmente apenas por volta de 1993, quando comecei a mergulhar em Nine Inch Nails, e aí fui voltando um pouco no tempo para descobrir Ministry, Skinny Puppy, Front 242, New Order, The Mission e, claro Sister Of Mercy. Daí para ouvir com outros ouvidos Bauhaus e Joey Division foi um pulo, sendo essa minha conexão com este estilo musical, acompanhado por noites e mais noites no Madame Satã, que acho que naqueles tempos se chamava D&D.
Foi justamente aquele clima de Madame Satã que o Sisters Of Mercy fez acontecer quando as luzes se apagaram e começou a soar nos auto falantes os primeiros acordes de “More” – Ben Christo e Dylan Smith cheios de estilo e presença de palco metricamente calculada, para entreter o público e cobrir os espaços o tempo todo, enquanto Eldritch incorpora uma persona quase extraterrestre atrás de seus óculos escuros, cabeça raspada e movimentos intensos, sem, no entanto, trocar uma palavra sequer com a plateia – do mesmo modo age o resto da banda.
Os sequenciadores dão conta de dar fluência à ambientação gótica eletrônica, que caracteriza o som da banda, ao longo de toda a apresentação, oscilando entre momentos mais pesados (“Crash and Burn”), com outros mais amenos, guiados por violões, como em “Marian”, hino gótico básico. Vale mencionar o show à parte que foi a iluminação nesta noite. Só tinha visto algo parecido no DVD “And All That Could Have Been”, do Nine Inch Nails. Realmente de impressionar, criando uma sensação visual de profundidade no palco, e dando mais significação para as músicas, ao realçar certas tonalidades, ora violeta (“Show Me”), se tornando azulada quase verde em “First, Last and Always” e, enfim, totalmente verde em “Temple Of Love”, com diversas variações ao longo da apresentação, que durou cerca de 90 minutos.
O ponto alto da noite, sem dúvidas, foi o encore, com aquela que eu considero a melhor dos caras, “Lucretia My Reflection”, seguida de “Vision Thing”, “Temple Of Love” e encerrando de maneira magistral com mais um hit (de um show composto apenas de hits), “The Corrosion”, com o público fiel totalmente vidrado e acompanhando tudo o que se passava no palco e aproveitando para dançar noite adentro.
Talvez Eldritch esteja certo em não se importar em lançar novas músicas nestas três últimas décadas, sendo que no website da banda – onde o mal humorado tem uma enorme entrevista prévia pronta, com todas as perguntas possíveis e imagináveis respondidas – ele diz que não vê motivos para lançar álbuns com 2 boas músicas e um monte de porcarias para justificar a venda de produtos. Além disso, diz que tem outras coisas para fazer de sua vida (sexo, descanso, etc.).
Do meu ponto de vista, considerando o setlist da maior parte das bandas veteranas de que me recordo, elas acabam realmente tocando seus grandes sucessos dos anos 80, tentando encaixar alguma música nova, para o bocejo dos fãs ali presentes. Se a proposta é nostalgia, o Sisters Of Mercy sabe exatamente como fazer!
Set List Sisters Of Mercy:
More
Ribbons
Crash And Burn
Doctor Jeep / Detonation Boulevard
No Time to Cry
Alice
Show Me On The Doll
Dominion / Mother Russia
Marian
Better Reptile
First And Last And Always
Kickline (instrumental)
Something Fast
I Was Wrong
Flood II
Lucretia My Reflection
Vision Thing
Temple Of Love
This Corrosion































