Soulfly – “Chama” (2025)
Nuclear Blast Records | Shinigami Records
#GrooveMetal #ThrashMetal #TribalMetal
Para fãs de: Fear Factory, Nailbomb, Sepultura, Cavalera Conspiracy
Texto por Johnny Z.
Nota: 9,5
Antes de mais nada, é preciso deixar uma coisa bem clara: Max Cavalera é uma máquina não apenas de criar riffs, mas um verdadeiro mestre do metal mundial. Tudo em que ele põe a mão é — no mínimo — espetacular. E isso não é opinião de fã cego, e sim puro realismo.
“Chama”, décimo terceiro álbum do Soulfly, foi divulgado como um retorno às raízes espirituais e culturais que moldaram sua trajetória, especialmente à sonoridade dos primeiros anos da banda. No entanto, após algumas audições, ficou claro para mim que esse “retorno” não é exatamente como foi anunciado.
Produzido soberbamente por Zyon Cavalera (bateria) e Arthur Rizk — este último um dos nomes mais respeitados da produção no metal contemporâneo —, o álbum apresenta uma brutal e pesadíssima vitalidade, ainda mais intensa e agressiva do que nos últimos trabalhos do grupo, desta vez incorporando fortes influências de Fear Factory e Nailbomb. Sim, diversas passagens tribais, espírito indígena e a conexão latino-americana que Max quis resgatar está presente, mas a sonoridade está longe daquela dos primórdios, quando o Soulfly tinha quase os dois pés fincados no nu metal.
O nome “Chama” significa literalmente “Flama” ou “Fogo” e simboliza a vitalidade do espírito humano, a força dos ancestrais e os elementos da natureza que conectam o homem ao ritmo da terra. A cara do Max (risos).
O disco abre com “Indigenous Inquisition”, uma introdução carregada de simbolismo e força política que remete instantaneamente ao Nailbomb, com aquele som industrial carregado e denso. Max recita os nomes de tribos americanas extintas, em um tributo às populações exterminadas pela colonização, evocando um espírito de resistência e justiça. A faixa seguinte, “Storm the Gates”, primeiro single extraído do álbum, representa um verdadeiro grito de guerra contra controle e opressão, com riffs cortantes, vocais inflamados e um groove que lembra vagamente, em seu início, “Ratamahatta” — só que com um peso muito mais brutal.
“Nihilist”, com participação de Todd Jones (Nails), é dedicada ao falecido L.G. Petrov (Entombed) e surge como uma das músicas mais agressivas e intensas do álbum. Aqui já começamos a entender o quanto Max é uma máquina de riffs escandalosamente brutos. Imagine uma boa mistura de Killer Be Killed, Sepultura, Fear Factory e o lado mais intenso do Meshuggah? Pois bem, tirem as crianças da sala!
Falando em Fear Factory, temos “No Pain = No Power”, com a participação de Dino Cazares, num turbilhão de peso e precisão que explora o conceito de força através da dor. Imagino essa grosseria sendo executada ao vivo bem no meio do show, com rodas de puro caos e massacre. Fica a dica, Max!
A curta “Ghenna”, com parcos 1m55s de duração, conta com guitarras leads de Michael Amott (Arch Enemy), trazendo um equilíbrio entre brutalidade e melodia e seguindo na vibe do Fear Factory, com aquela pulsante marcação de riffs técnicos e compassados. Já “Black Hole Scum” continua batendo forte nos ouvidos com uma pressão impressionante, enquanto os vocais de Max beiram um desespero, urgência e ódio que há tempos não se ouvia. O vovô está cantando demais!
“Favela/Dystopia” — escrita em parte com Igor Amadeus Cavalera — combina crítica social à realidade urbana brasileira com um olhar distópico e uma sonoridade bem calcada no Nailbomb, uma das principais impressões que tive ao longo de todo o álbum, mas trazendo também algo de Ministry. Já a cadenciada “Always Was, Always Will Be…”, com Max soltando frases em português, soa como uma sobra de um elo perdido entre “Chaos A.D.” e “Roots”, sendo “abençoada” por Al Jourgensen (Ministry) (risos).
Aí temos a famigerada instrumental “Soulfly XIII”, que funciona como um momento meramente contemplativo — com todo respeito, compreensível, porém dispensável — antes da faixa-título “Chama” encerrar o álbum como um manifesto espiritual e combativo, trazendo novamente a máquina dos riffs em ação. Porém, da metade para o fim da faixa, há uma mudança completa de rumo, como uma espécie de transe. Sinceramente — e mais uma vez, não quero soar desrespeitoso, pelo contrário — achei desnecessário. Enfim, coisas de Max (risos).
Além de Igor Amadeus no baixo e na coautoria de letras, a formação traz Mike DeLeon (Flesh Hoarder, Phil Anselmo & The Illegals) estreando oficialmente em estúdio, contribuindo com solos frenéticos e texturas experimentais que lembram muito — vocês sabem quem (risos) — a fase “Chaos A.D.”, do Sepultura.
Vale destacar que Zyon Cavalera, há mais de uma década na banda, assumiu pela primeira vez não só a bateria, mas também a produção e a direção criativa do disco, imprimindo uma energia renovada e uma abordagem mais ousada e atual, sem perder o peso. E põe peso nisso: o trabalho é realmente brutal.
Musicalmente, “Chama” reafirma o domínio de Max Cavalera sobre o groove metal. Riffs tribais, batidas rituais, agressividade rítmica e momentos espirituais se entrelaçam com naturalidade. Há um equilíbrio maduro entre brutalidade e introspecção, trazendo um rejuvenescimento e uma inspiração quase palpáveis.
Uma coisa precisa ser dita: com “Chama”, Max e cia vão trazer de volta aqueles fãs mais antigos, manter os atuais empolgados e, possivelmente, conquistar muitos novos. Entenderam agora o motivo de eu chamá-lo de “verdadeiro mestre do metal mundial”?
Se você gosta de groove tribal, peso brutal, rifferama, caos, alma, punch e nostalgia, eis o seu álbum!





