Local: Manifesto Bar, São Paulo/SP
Data: 30/09/2017
Bandas de abertura: Siriun e Gestos Grosseiros
Produtora: Dark Dimensions
Texto e fotos por Ricardo L. Costa
A distância era longa e o incidente pluviométrico (leia-se chuva) tornava o trajeto até o local ligeiramente mais complicado, mas para prestigiar um evento protagonizado por uma das maiores bandas do Death Metal mundial, valia qualquer sacrifício.
O Manifesto Bar, famoso point roqueiro da capital paulista, seria palco de mais um massacre perpetrado pelo Suffocation. Duas ótimas bandas foram escaladas como atos de abertura: os cariocas do Siriun e os guarulhenses do Gestos Grosseiros. Ambas bastante competentes e profissionais, iniciando os trabalhos conforme estipulado no cronograma.
O Siriun executa uma mistura interessante de Death Metal com Thrash, em uma sonoridade variada e marcada por muito groove. A ótima acústica local jogou a favor do quarteto, que se mostrava muito empolgado em um set breve, mas muito bem conduzido. Agradecendo efusivamente o apoio dos presentes, apresentaram algumas composições de seu álbum de estréia, entre elas “Intent” e “Infected”, emendando na sequência com o bom cover de “Spheres of Madness” (Decapitated), onde demonstraram grande comprometimento com a técnica. Encerraram com “Transmutation”, causando uma ótima impressão no ainda escasso público presente. Ótima banda.
Setlist Siriun:
Intent
Mass Control
Infected
Spheres of Madness (Decapitated cover)
In Chaos We Trust
Transmutation
O Gestos Grosseiros já pode ser considerado um veterano do cenário e honrou a tradição com louvor em um set brutal e pesado. Black e Death Metal coexistindo na mesma sentença, em total comunhão, fizeram a festa dos sedentos por destruição. O vocalista e baterista Andy Souza, aos moldes de Chris Reifert (Autopsy), conduziu o espetáculo com precisão, interagindo sempre com o público, incentivando a união e manutenção da cena underground.
A banda ao vivo obtém a proeza de ser ainda mais rude do que nos registros de estúdio, e proporcionou um belo aquecimento para os anfitriões da festa. Destaques para “The Ambition” e “Crushing the Cross”, ambas presentes em seu mais recente álbum, “World’s Hypocrisy” (2017), que são um autêntico tiro de escopeta de cano serrado na cara dos hipócritas, e o medley de “Human Destruction”/ “Countdown to Kill”, de seu disco de estréia de 2007, que foi uma ótima escolha, com uma complementando a outra e forjando uma pequena pérola da brutalidade misantrópica. Ganharam o coração e a alma desse velho banger castigado pelo tempo.
Setlist Gestos Grosseiros:
The Antichrist
The Ambition
Crushing the Cross
Slaves of Imagination
Human Destruction/Countdown to Kill
Intellectual Death
In the Name of God
E o Suffocation, hein? Pois bem, era chegada a hora de ver e ouvir do que são capazes ao vivo. O último álbum de estúdio, o brilhante “…of the Dark Light” (2017), vem colecionando críticas favoráveis ao redor do mundo, e seria muito interessante poder constatar o poder das novas composições ao vivo. A banda adentra ao palco e algo não corresponde à expectativa: onde diabos estava Derek Boyer (baixista)? O Suffocation se apresentou como um quarteto, sem a presença do baixo, gerando um certo estranhamento inicial. Certamente, por conta deste “pormenor”, o show levou alguns minutos para engrenar, mas cacete, é Suffocation. Os caras conhecem, e muito, o terreno onde pisam.
A ausência de Frank Mullen (vocal) já era esperada, afinal, é de conhecimento de todos sua atribulada rotina profissional. Kevin Muller (ex-Pyrexia) foi recrutado em seu lugar e se mostrou à altura pra ocupar o posto de frontman. Muito carismático, comunicativo, e visivelmente empolgado por estar ali, saúda a todos e iniciam a chacina sonora com vontade. “Thrones of Blood” tem o mesmo impacto de um chute bem projetado na boca do estômago. O peso das guitarras de Charlie Errigo e Terrance Hobbs era algo assustador, tão denso e visceral que pesava nos ombros e, após o estranhamento inicial pela ausência de parte da cozinha, todo o restante do set ocorreu sem grandes percalços.
O pequeno público que se aglomerava a frente do palco cantava, ou melhor, grunhia junto com Kevin, em um coral de pura selvageria. Logo após o início da apresentação, o vocalista dá um parecer sobre a ausência de Derek Boyer em virtude de um problema de saúde, mas à esta hora já não nos importávamos mais, pois o que realmente interessava era partir o crânio na quina do palco ao som de pequenos atos de perversidade e degradação, tais como “Pierced From within”, “Retun to the Abyss” e “Funeral Inception” que, juntas, formaram a santíssima trindade do Brutal Death Metal yankee.
A simpatia de Kevin era contagiante, entrando em confronto direto com a hostilidade rançosa de tão abjetas composições. O cara agradecia mais uma vez e perguntava a todo momento se estávamos tendo bons momentos. Pergunta retórica, obviamente, sem necessidade de nenhuma resposta. A nova formação é algo admirável. O guitarrista Charlie Errigo e o baterista Eric Morotti possuem um entrosamento fantástico, além de serem exuberantes no quesito técnica.
Morotti espancava seu instrumento com tanta fúria que alguns reparos precisaram ser feitos no decorrer de sua potente performance. A seguir tivemos mais uma lição de violência explícita com o clássico atemporal “Effigy of the Forgotten”, sucedida por mais uma pedrada do novo álbum, a quebrada e mais cadenciada “Clarity Through Deprivation”. O gosto de sangue já subia a boca, provavelmente oriundo da supuração das bulas timpânicas, mas quem se importa com tímpanos quando se tem um espetáculo desse nível de rispidez? Quer mais? Então tome “Liege of Inveracity”, ” As Grace Descends” e a incisiva “Entrails of You” na sequência para observarmos mais alguns corpos sucumbirem no circle pit.
Dois terços de show já deixavam saudade, mas ainda tínhamos a certeza de que ainda restava combustível para mais uma pequena intervenção de pura desgraça sonora. Kevin Muller foi uma grande revelação como vocalista, mantendo seu pútrido timbre no limite até o final, além de uma grande presença de palco. Queríamos mais, e fomos plenamente atendidos com “Surgery of Impalement”, “Catatonia” e “Infecting the Crypts”, que foi o ato derradeiro deste grandioso espetáculo.
Pra simplificar as coisas, devo dizer algo: Você não faz idéia do que é o verdadeiro Death Metal brutal sem conhecer o Suffocation. Um dos pioneiros neste segmento, a banda sabe realmente como tornar sua vida um caos por pouco mais de uma hora, em uma representação fidedigna do que é encontrado nos discos. Foi um autêntico show, no mais puro conceito da palavra. Com ou sem baixista, o Suffocation é insuperável.
Setlist Suffocation:
Thrones of Blood
Pierced from Within
Return to the Abyss
Funeral Inception
Effigy of the Forgotten
Clarity Through Deprivation
Liege of Inveracity
As Grace Descends
Entrails of You
Surgery of Impalement
Catatonia
Infecting the Crypts
Nossos efusivos agradecimentos a Dark Dimensions e The Ultimate Music pelo carinho e parceria de sempre, a todos os envolvidos na organização do evento, às bandas por proporcionarem o melhor entretenimento, e ao amigo e companheiro de imprensa Marcos Franke pela colaboração com os setlists.
