Sussurro – “Tales From The Lost Pages” (2026)

SUSSURRO
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Sussurro – “Tales From The Lost Pages” (2026)

Sangue Underground Records I UNION OF BLACK LABELS.
#BlackMetal #MelodicBlackMetal

Para fãs de: Dissection, Sacramentum, Dawn, MGLA

Por: Thiago Loureiro

Nota: 8,5

O underground brasileiro apresenta uma nova obra dedicada à interseção entre Black Metal, atmosfera, memória, morte e simbolismo ancestral.

Diretamente de Caçapava, São Paulo, a banda Sussurro, nascida em 2024, possui a (demo) Anthology of Eternal Suffering, de 2025 e Live at Caverna Festival (Split), de 2026. E agora, finalmente, apresenta seu primeiro álbum completo, Tales From the Lost Pages, lançado em 8 de janeiro de 2026, sob a união de selos UNION OF BLACK LABELS.

Com 32:57 de duração, distribuídos em oito faixas, o álbum transita entre Melodic Black Metal e Atmospheric Black Metal, combinando, ao mesmo tempo, agressividade melódica, atmosferas sombrias, passagens acústicas, sintetizadores e registros ambientais.

Mais que uma coleção de composições, Tales From the Lost Pages foi concebido como uma experiência narrativa sobre morte, conhecimento, transgressão, punição, queda, memória, invocação e desaparecimento. A Sussurro não procura simplesmente reproduzir fórmulas históricas do Black Metal. Sua proposta, entretanto, consiste em reunir elementos de diferentes tradições do gênero e organizá-las dentro de uma arquitetura conceitual própria. O resultado é uma obra que pode ser interpretada como uma katabasis — uma descida ao mundo inferior —, na qual cada composição funciona como uma página de um arquivo encontrado depois do fim.

O ARQUIVO DE UMA CIVILIZAÇÃO EXTINTA

O próprio título, Tales From the Lost Pages, funciona como chave interpretativa para o álbum. Contos das Páginas Perdidas sugere fragmentos de uma história que sobreviveu ao desaparecimento de seus autores. A perspectiva ultrapassa a morte individual. Ainda que Impérios desapareçam. Religiões mudem. Cidades sejam soterradas. Idiomas deixem de ser falados. Deuses percam seus templos. Civilizações transformem-se em vestígios. Ainda assim, restam os fragmentos.

Essa concepção aproxima o álbum do princípio de Memento Mori, mas amplia sua dimensão: não apenas “lembre-se de que você morrerá”, mas também lembre-se de que aquilo que a humanidade constrói pode desaparecer.

A estrutura do trabalho permite ainda uma leitura próxima da katabasis presente em diferentes tradições literárias e mitológicas. Orfeu desce ao mundo dos mortos em busca de Eurídice; Odisseu atravessa o domínio dos mortos na Odisseia, tradicionalmente atribuída a Homero; ao passo que Enéias percorre o submundo na Eneida, de Virgílio.

Na Sussurro, entretanto, a descida não promete retorno. A trajetória conceitual pode ser compreendida como: Morte, Conhecimento, Transgressão, Punição, Queda, Invocação, Dissolução e Vazio.

Essa sequência não é apresentada como uma explicação literal da banda, mas constitui uma possibilidade de leitura da organização artística do álbum. Aliás, é justamente essa progressão que permite às oito faixas funcionarem como partes de uma experiência conceitual relativamente contínua.

A MORTE COMO PERSONAGEM

A identidade visual de Tales From the Lost Pages, assinada por Andrey Montibeller, reforça a dimensão simbólica do álbum.

A figura esquelética, a foice, as asas, o halo, os elementos solares e lunares, os ornamentos de inspiração céltica/insular, assim como a tipografia de aparência medieval constroem uma iconografia deliberadamente arcaica. A morte não surge simplesmente como cadáver. Ela aparece como entidade, passagem, força temporal e princípio de dissolução.

A imagem dialoga com o conceito de memento mori e com a tradição da Danse Macabre, na qual a morte nivela reis, religiosos, soldados, camponeses e poderosos. A simbologia permite diferentes níveis de interpretação:

A foice remete ao corte e à passagem do tempo. O esqueleto representa aquilo que permanece depois da dissolução da identidade corporal. As asas sugerem passagem, deslocamento ou transcendência. O halo coloca a figura em uma região ambígua entre o sagrado e o profano. Sol e Lua estabelecem uma oposição entre luz e sombra, presença e ausência, consciência e inconsciente.

A iconografia, entretanto, não precisa ser compreendida como reprodução histórica literal de uma única tradição. Ela pode ser entendida como uma síntese artística contemporânea, construída a partir da colisão de imaginários provenientes do Egito antigo, Mesopotâmia, mundo greco-romano, tradições nórdicas, cristianismo medieval e simbolismo esotérico. No eixo solar, podem ser lembrados Ra, no Egito; Shamash, na Mesopotâmia; e Hélios, na Grécia. No eixo lunar, surgem correspondências possíveis com Nanna-Sin, Selene, Ártemis e Máni.

Não se trata de afirmar que a banda Sussurro reproduza essas cosmologias, mas de observar como o álbum dialoga com oposições ancestrais entre luz e escuridão, ordem e caos, vida e morte, podemos sugerir essa forma de interpretação.

A QUÍMICA DO TRIO

A identidade musical da banda Sussurro da mesma forma nasce da distribuição de funções entre seus integrantes.

Ykaruss: concentra parte significativa da identidade melódica e atmosférica do grupo, atuando em guitarras elétricas, guitarras acústicas, sintetizadores e vocais. As guitarras elétricas estabelecem o eixo melódico do Black Metal; as acústicas criam suspensão e contraste; os sintetizadores expandem o espaço sonoro; enquanto os vocais rasgados acrescentam agressividade, desespero e contenção de acordo com as necessidades de cada composição. A interpretação vocal cumpre sua função dentro da proposta do álbum, deixando também espaço para maior consolidação de uma identidade vocal própria em trabalhos futuros.

Desmembro: assume baixo, sintetizadores e guitarras acústicas. Sua participação ultrapassa a função de simplesmente acompanhar as guitarras. O baixo acrescenta espessura harmônica, sustenta os momentos de maior densidade e participa diretamente da construção das passagens atmosféricas. Nos momentos acústicos, sua atuação contribui para a sensação de suspensão presente em diferentes trechos do trabalho.

Tharizdun: assume bateria e vocais de apoio. Blast beats, bumbo duplo, viradas, mudanças de andamento e conduções mais cadenciadas fazem da bateria um dos principais elementos de transformação do álbum. Quando a música exige avanço, Tharizdun acelera. Mas, quando o conceito exige espaço, desacelera. E, quando o álbum entra em sua dimensão mais ritualística, os vocais de apoio acrescentam profundidade à construção sonora.

  • Curiosidades: “Tharizdun” é uma entidade fictícia de Dungeons & Dragons, associada ao Caos, destruição, loucura e aprisionamento. Seu conceito central é o Abismo primordial, o vazio absoluto e a dissolução de toda existência. Simboliza trevas, entropia, corrupção, liberdade caótica e o fim da criação. Em sentido filosófico/simbólico: o desejo de retornar ao nada — a destruição da ordem, da forma e do próprio cosmos.

Na área de produção, “Death” responde pela produção e mixagem.

Murilo Demtchenko: é creditado pelas gravações das faixas ambientais realizadas na região de Sassafras Mountain, Carolina do Sul, Estados Unidos, acrescentando uma dimensão espacial que ultrapassa o tratamento convencional de estúdio.

A participação de Andrey Montibeller na arte completa o conjunto audiovisual.

OITO PÁGINAS DE UM MESMO ARQUIVO

1.“Journey Through the Hellish River”

    O álbum começa com uma travessia. Aqueronte, Estige e Caronte, o barqueiro dos mortos, estabelecem a fronteira entre o mundo dos vivos e o domínio da morte. Ou seja, é o início da katabasis.

    A faixa representa a primeira etapa da arquitetura conceitual: Morte.

    O rio permite ainda uma associação interpretativa com Heráclito, para quem a realidade é marcada pelo fluxo e pela transformação. Aqui, entretanto, a corrente parece possuir apenas uma direção. A composição também pode ser aproximada do conceito heideggeriano de Sein-zum-Tode, o “ser-para-a-morte”, no qual a morte não aparece apenas como acontecimento situado no final da narrativa, mas como elemento estruturante da própria existência.

    Musicalmente, a abertura reúne riffs melódicos e tremolos característicos do Black Metal executados por Ykaruss, sintetizadores que ampliam a sensação de deslocamento, o peso grave de Desmembro e a dinâmica de Tharizdun através de blast beats, bumbo duplo e mudanças de condução. Além disso, os vocais de apoio acrescentam uma dimensão espectral.

    A travessia começa sem promessa de retorno.

    2.“Stolen Flame”

      Se a primeira faixa apresenta a morte, “Stolen Flame” introduz a transgressão.

      O mito de Prometeu oferece uma das principais chaves interpretativas: roubar o fogo significa apropriar-se de algo reservado ao domínio divino. O fogo, entretanto, não representa apenas iluminação. Representa também conhecimento. E conhecimento possui preço. A simbologia solar do álbum retorna através dessa imagem. A luz de Prometeu pode ser colocada em diálogo interpretativo com antigos polos solares representados por Ra, Shamash e Hélios. A composição também permite aproximações filosóficas com Arthur Schopenhauer, especialmente em torno da relação entre desejo, busca e sofrimento.

      O movimento conceitual passa a ser: Conhecimento – Transgressão – Punição.

      Musicalmente, as guitarras tornam-se mais incisivas, o baixo mantém o movimento, a bateria aumenta a pressão e os sintetizadores ampliam o ambiente sem neutralizar a agressividade. A composição foi retrabalhada a partir de material da demo de 2025, Anthology of Eternal Suffering, contribuindo para sua construção mais direta.

      Live “O Chamado do Bode Negro” Sodom Bar:

      3.“Queen of Helheim”

        Em “Queen of Helheim”, o inferno pode ser interpretado como experiência psicológica. Hel, senhora de Helheim na tradição nórdica, deixa de funcionar apenas como personagem mitológica e pode ser compreendida como representação de um confinamento interior. O verso “In my mind’s jail” concentra essa possibilidade interpretativa.

        Nesse contexto, Carl Gustav Jung oferece uma chave produtiva: Helheim pode ser lido como uma prisão psíquica, enquanto Hel pode funcionar simbolicamente como representação possível da sombra, aquilo que o indivíduo não reconhece ou não consegue integrar em si. A individualidade e o sofrimento também encontram correspondência em Schopenhauer. Musicalmente, a faixa demonstra que atmosfera não significa ausência de peso.

        Guitarras abertas criam espaço; o baixo estabelece contrapontos sombrios; a bateria trabalha majoritariamente em andamento médio, interrompido por explosões de velocidade; e os sintetizadores aprofundam o caráter claustrofóbico. Os vocais arrastados completam a sensação de confinamento.

        O Sussurro demonstra aqui que uma música pode respirar e continuar brutal.

        4.“Pale Bloom” (Instrumental)

          O ataque elétrico é interrompido. Em seguida, surge uma composição instrumental acústica. O violão de Ykaruss e os elementos acústicos de Desmembro assumem o primeiro plano. A bateria desaparece e o baixo passa a atuar de maneira delicada. Surge então uma flor. A imagem parece simples, mas possui força conceitual. A flor representa vida. O adjetivo “pálida” introduz morte. É o memento mori em sua forma mais delicada: a beleza já contém sua própria decomposição.

          A passagem também pode ser aproximada de Heráclito. Florescer e murchar são momentos diferentes de um mesmo processo de transformação. Em Heidegger, a consciência da finitude modifica a maneira como o indivíduo experimenta aquilo que considera significativo.

          “Pale Bloom” funciona como intervalo contemplativo. Mas também como aviso: a beleza não está fora do tempo.

          5.“Silver Light’s Sorrow”

            Uma das mudanças emocionais mais significativas do álbum.

            A “Lady of the Nightsky” introduz a Lua como presença capaz de afastar temporariamente o medo e aliviar a tristeza. Dessa forma, o repertório lunar do disco encontra aqui sua manifestação mais clara. Selene e Ártemis, na Grécia; Nanna-Sin, na Mesopotâmia; Máni, na tradição nórdica. Em oposição, surge o polo solar representado anteriormente por Ra, Shamash e Hélios.

            A oposição ancestral entre luz e sombra assume uma dimensão emocional. Em uma leitura junguiana, a Lua pode representar o inconsciente e aquilo que existe fora do domínio imediato da consciência. Em Schopenhauer, o alívio oferecido pela noite pode ser interpretado como suspensão momentânea de uma existência atravessada pelo sofrimento. Musicalmente, a banda reduz a violência sem abandonar a melancolia.

            As guitarras assumem caráter mais emocional; os solos funcionam como prolongamentos da atmosfera; o baixo adquire maior refinamento melódico; a bateria deixa espaço para os instrumentos respirarem; e os sintetizadores expandem a dimensão noturna. É um dos momentos mais próximos do conforto em todo o álbum. E, justamente por isso, constitui uma ruptura dentro da trajetória.

            6.“The Fallen”

              A queda retorna ao centro da narrativa. A faixa dialoga com a tradição dos anjos caídos e com John Milton, especialmente Paradise Lost. Lúcifer, Satanás, rebelião, autoridade e queda formam o campo simbólico. A iconografia medieval presente na capa reforça essa leitura através das asas e do halo. O que era transcendente transforma-se, portanto, em queda. O sagrado transforma-se em profano. A associação com Ícaro também é possível: o desejo de ultrapassar limites acompanhado pela incapacidade de escapar das próprias condições.

              “Stolen Flame” e “The Fallen” formam, nesse sentido, um par conceitual: Transgressão – Consequência.

              Musicalmente, é uma das faixas mais agressivas do álbum.

              Bases galopantes, passagens sincopadas, baixo pesado, sintetizadores e alternância entre conduções marcadas e blast beats criam uma composição de ataque direto. Os vocais rasgados de Ykaruss e os vocais de apoio de Tharizdun reforçam a dimensão do confronto.

              7.“Unchain the Abyss”

                Com 6:44, “Unchain the Abyss” funciona como centro conceitual e estrutural de Tales From the Lost Pages.

                Neste momento, o álbum deixa de simplesmente narrar a morte e começa a executar um ritual. O título sugere a libertação de uma força aprisionada. A referência a Tharizdun, figura associada ao caos e à aniquilação no imaginário fantástico contemporâneo, oferece uma possibilidade interpretativa para a composição. Em outra tradição, o caos encontra correspondência em Apep, adversário de Ra na mitologia egípcia. Sangue. Círculos. Encantamento. Consciência desaparecendo. O abismo deixa de ser apenas um lugar, já que torna-se uma força.

                Em uma leitura junguiana, ele pode representar aquilo que o indivíduo evita reconhecer em si. Em Heidegger, a dissolução da consciência aproxima-se do limite absoluto do Sein-zum-Tode. Já em Heráclito, a forma participa do fluxo até deixar de existir como forma. Musicalmente, é uma das composições mais ambiciosas do álbum.

                “Ykaruss” trabalha tremolos, arpejos, harmonizações e passagens melódicas elaboradas.

                “Desmembro” assume importância especial nas transições, modificando a percepção espacial do arranjo através do baixo e dos instrumentos acústicos. Os sintetizadores reforçam a atmosfera ritualística.

                “Tharizdun” conduz a transformação através de mudanças de andamento, passagens marcadas, blast beats e bumbo duplo. Os vocais assumem textura mais cavernosa. A música parece entrar dentro de si mesma. Já não existe simplesmente alguém descendo ao abismo, contudo o próprio abismo está sendo libertado.

                8.“Heart of the Void” (Instrumental)

                  Logo depois da invocação, resta o vazio. “Heart of the Void” funciona como epílogo instrumental. A guitarra acústica retorna. O baixo aparece de maneira sutil, enquanto a bateria permanece ausente. O ataque desapareceu. Resta, portanto, o silêncio. Aqui, o memento mori deixa de ser individual e torna-se civilizacional. Não é apenas: “Você morrerá.” – É: “Aquilo que você constrói, certamente, pode desaparecer.”

                  Egito. Mesopotâmia. Grécia. Roma. Tradições nórdicas. Cristianismo medieval. Tudo pode sobreviver apenas como vestígio. A própria memória transforma-se em ruína. O álbum não oferece triunfo, pois não existe resolução heroica. Não há catarse grandiosa. Ou seja, o trabalho simplesmente termina. E essa ausência de resolução é coerente com sua própria narrativa. Se a consciência foi dissolvida, não haveria necessidade de uma conclusão triunfal. O silêncio torna-se parte da narrativa. O coração do vazio não pulsa. Ele permanece.

                  O álbum termina com uma atmosfera de chuva, relâmpagos e um forte apelo à autoanálise.

                  QUATRO EIXOS FILOSÓFICOS

                  O TEMPO

                  Tales From the Lost Pages funciona como um memento mori civilizacional. O tempo destrói corpos, apaga nomes, modifica culturas, transforma cidades em ruínas e converte memória em fragmento. O próprio título materializa essa ideia através das “páginas perdidas”.

                  HERÁCLITO E HEIDEGGER — FLUXO E FINITUDE

                  Heráclito apresenta a realidade como transformação contínua. Heidegger, através do Sein-zum-Tode, transforma a possibilidade da morte em elemento constitutivo da existência.


                  A banda converte essas abstrações em paisagem sonora. A morte está presente antes do fim. Ela organiza o caminho até ele.

                  SCHOPENHAUER

                  A existência aparece como algo temporário, atravessado por desejo, sofrimento e perda. Essa perspectiva ilumina interpretativamente a punição de “Stolen Flame”, o confinamento de “Queen of Helheim” e o consolo provisório de “Silver Light’s Sorrow”.

                  JUNG E A SOMBRA

                  O inferno pode ser interior. Helheim pode tornar-se prisão psíquica. A queda pode representar ruptura da identidade. O abismo pode representar aquilo que o indivíduo tenta não reconhecer dentro de si. Enfim, essas leituras são interpretações possíveis construídas a partir da estrutura artística do álbum e não devem ser apresentadas como declarações conceituais oficiais da banda.

                  GENEALOGIA MUSICAL

                  A banda Sussurro não esconde sua linhagem.

                  A linguagem melódica permite aproximações com Dissection, Sacramentum, Dawn e Unanimated. A dimensão atmosférica pode ser colocada em diálogo com Vinterland, Thulcandra, Agalloch e Drudkh. A agressividade rítmica encontra ecos em Naglfar, Lord Belial e Mörk Gryning.

                  A construção espacial e filosófica permite aproximações com Mgła e com a primeira fase do Ulver. No Brasil, Mystifier e Patria ajudam a situar a Sussurro dentro de uma tradição nacional que dialoga diretamente com o Black Metal internacional. Mas, essas aproximações não significam reprodução. No entanto, elas situam a estreia dentro de uma genealogia musical.

                  A questão que permanece para os próximos trabalhos é como a banda Sussurro continuará transformando essa herança em identidade própria.

                  PRODUÇÃO E MIXAGEM

                  A produção e a mixagem de Death preservam a agressividade das guitarras e a dinâmica das composições.

                  A incorporação dos registros ambientais gravados por Murilo Demtchenko, em Sassafras Mountain, Carolina do Sul, acrescenta dimensão espacial ao álbum e contribui para afastá-lo de uma apresentação puramente convencional.

                  O trabalho também deixa margem para evolução. Em determinados momentos, maior profundidade e separação espacial poderiam ampliar ainda mais a experiência. Algumas camadas atmosféricas poderiam receber definição adicional, enquanto os vocais ocasionalmente aparecem mais à frente do conjunto.

                  São aspectos de refinamento que não comprometem a experiência geral e tornam-se perceptíveis justamente porque o material possui personalidade suficiente para sustentar uma abordagem de produção ainda mais tridimensional em futuros trabalhos.

                  PARA ONDE A BANDA SUSSURRO PODE IR?

                  O principal desafio futuro parece menos relacionado à competência técnica e mais à consolidação da identidade artística. O grupo demonstra domínio de uma linguagem estabelecida. Assim sendo, o próximo passo será fazer com que determinadas soluções sejam imediatamente reconhecíveis. “Queen of Helheim” e “Unchain the Abyss” apontam caminhos particularmente interessantes pela liberdade estrutural e pela capacidade de integrar conceito e composição. “Stolen Flame” e “The Fallen” permanecem mais próximas das estruturas tradicionais do gênero — algo compreensível em uma estreia que também funciona como apresentação de território.

                  O desenvolvimento natural passa por aprofundar atmosferas, explorar ainda mais os contrastes entre elétrico e acústico, consolidar a identidade vocal e tornar determinadas construções melódicas menos dependentes de referências imediatamente reconhecíveis. A matéria-prima está presente. Agora, trata-se de aprofundamento.

                  SUSSURRO — TALES FROM THE LOST PAGES

                  Em resumo, Tales From the Lost Pages apresenta uma estreia marcada pela combinação entre Black Metal melódico, atmosferas densas, elementos acústicos, sintetizadores, registros ambientais e uma narrativa centrada em morte, conhecimento, transgressão, queda, memória e desaparecimento.

                  O álbum começa atravessando o rio infernal. Rouba o fogo. Encontra Helheim. Contempla uma flor pálida. Busca conforto na luz lunar. Cai. Liberta o abismo. E finalmente desaparece no vazio. Essa trajetória confere ao trabalho uma unidade que ultrapassa suas oito faixas individualmente consideradas.

                  A banda Sussurro, decerto, não procura necessariamente reinventar o Black Metal. A proposta apresentada em Tales From the Lost Pages é outra: demonstrar que uma linguagem histórica ainda pode produzir uma narrativa própria quando suas referências são organizadas com intenção, coerência e consciência estética. No fim, talvez essa seja a verdadeira mensagem escondida entre as páginas perdidas:

                  “A morte não destrói apenas indivíduos. Ela destrói impérios, mitologias, memórias e civilizações. E, quando tudo desaparece, aquilo que resta não é necessariamente a verdade. São fragmentos, as páginas, os ecos. Ou seja, são os sussurros.”

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