Testament: Thrash Metal, entre conspirações e ordens secretas
A carreira da banda americana de Thrash Metal Testament, que a princípio se chamava Legacy, começou na cidade californiana de Berkeley em 1983. Em 1987, já como Testament, o quinteto lançou o seu primeiro full-length, The Legacy, cujo nome certamente homenageia seus primórdios.
Desde que o Testament iniciou sua discografia, sua temática lírica sempre variou entre diversos assuntos. Além de política e guerra, que são temas comuns entre artistas desse subgênero, a banda sempre gostou de explorar as conspirações e as ordens secretas.
Embora o Testament não figure entre os quatro grandes do Thrash Metal, seus trabalhos conquistaram respeito e admiração entre os fãs de música pesada. Atualmente, Eric Peterson na guitarra, Alex Skolnick na guitarra, Chuck Billy no vocal, Steve DiGiorgio no baixo e Chris Dovas na bateria formam o seu line-up. No entanto, vários nomes de peso passaram por sua formação: Dave Lombardo, Louie Clemente, Paul Bostaph, Gene Hoglan e Greg Christian, entre outros.
A partir de agora, vamos viajar entre conspirações e ordens secretas para explorar o que o Testament nos trouxe através de sua impecável música.
The Legacy
“C.O.T.L.O.D.”
Sem dúvida alguma, essa é uma das composições mais rápidas e pesadas da carreira, assim como aquela que possui a letra mais ocultista e mais secreta entre todas. “Curse Of The Legions Of Death” ou, simplesmente, “C.O.T.L.O.D.”, traz a “Maldição das Legiões da Morte” e une lados que normalmente ocupariam posições opostas, mas agora seguem juntos por um objetivo maligno. Em outras palavras, “witches grow restless, the priests are impatient”, que em português significa bruxas inquietas e padres impacientes.
Destacando outros trechos: “my legions scream, the gates must be open”, ou seja, o líder convoca suas legiões e manda abrir os portões, e isso configura um ritual de invocação; e “The blood in the chalice, saluting the fight / All virgins must die this night”, que significa cálice com sangue e sacrifício de virgens. Em suma, trata-se de um ritual satânico clássico, com muita influência de Mercyful Fate e Slayer, principais referências musicais do vocalista Chuck Billy na época.
Essa letra mostra que o Testament sempre flertou com ordens secretas, porém no começo essas ordens eram ocultistas e satânicas, e não políticas como em The New Order ou conspiratórias modernas como em Para Bellum. Aliás, como em todos os primórdios do Thrash Metal, o oculto misterioso sempre funcionou como carro-chefe.
The New Order
O segundo álbum completo do Testament representa, na opinião de muitos fãs, assim como na minha, o clássico mais importante e relevante de sua discografia. Além disso, é aqui que os temas conspiratórios ganham grande proporção na história da banda.
“Disciples Of The Watch”
Essa canção absolutamente clássica do Testament não fala de política, mas sim de uma seita religiosa secreta, e tem base literária. De acordo com a declaração de Chuck Billy em entrevistas, “Disciples Of The Watch” se baseia no conto Children Of The Corn de Stephen King.
Trechos em destaque:
“Cast to the fire, banned by the light / Worship and listen to me” – Um líder messiânico exige adoração cega e, assim sendo, condena quem não obedece.
“I am the one to show you the path / Listen up children and follow me or I’ll let you pay the price of Malachi” – Malachi é o profeta criança do livro do King. Ele comanda uma seita de crianças numa cidade isolada que mata todos os adultos em nome de uma entidade chamada Aquele Que Anda Atrás da Plantação. Ainda que haja semelhanças com o filme Colheita Maldita, Chuck alega que se inspirou apenas no livro de King.
“Holding the mass, the demon is cast / A prophet is what they’re told” – A missa vira ritual demoníaco, enquanto o profeta falso manipula a fé.
“Disciples of the watch obey! or I’ll burn you to that cross” – Antes de mais nada, os discípulos da vigília obedecem por medo, e a vigília é literal: eles vigiam os campos e, da mesma forma, vigiam uns aos outros. Em resumo, trata-se de uma sociedade secreta rural, fechada e punitiva.
“The New Order”
O ocultismo fica de vez para trás, já que aqui o Testament entra de cabeça nas teorias de conspiração modernas que dão sentido ao título desse artigo.
Explicando mais profundamente, “The New Order” representa a primeira vez que a banda usa o termo que atualmente se refere às conspirações Illuminati, Bilderberg e governo secreto global. Em 1988, na ocasião de seu lançamento, isso representava atualidade por conta da Guerra Fria. Contudo, o presidente americano George Bush pai falaria de New World Order só 3 anos depois, em 1991.
Que fã de Testament nunca cantou junto esse refrão: “Shadows cast loud and clear / Tell the world the new order’s here”? Tudo naquele momento parecia anunciar em alto e bom som que a Nova Ordem chegou, a fim de dominar a tudo e a todos, de uma forma oculta, que só os despertos percebiam. Até hoje, os adeptos da teoria da Terra plana usam a Nova Ordem para justificar seus absurdos anticientíficos.
“A Day Of Reckoning”
Essa letra é igualmente fantástica. Ela fala de um líder que se vende como salvador, mas que leva o mundo ao apocalipse.
O ditado popularmente conhecido para isso é “um dia a conta chega” ou “o plantio é facultativo, mas a colheita é obrigatória”. Testament poderia estar se referindo a algum religioso, entretanto, nesse caso, trata-se de um líder político. Não existe nada mais caro do que quando um político te oferece o paraíso terrestre de graça. Afinal de contas, o dia da colheita sempre chega.
“The Preacher”
Em primeiro lugar, “Disciples Of The Watch” fala sobre a seita rural. Em seguida, “The New Order” revela a conspiração global. “A Day Of Reckoning” é sobre o estatista que promete o céu, mas entrega o inferno. Já “The Preacher”, por sua vez, como fazem muitas bandas de Metal, representa uma crítica religiosa, pois ela mostra o falso profeta que engana as massas. Aqui, inegavelmente, o Testament estava super atual e em seu auge dentro da década de 80.
“The Preacher” é perfeita, pois ela mostra a seita como negócio. Não é mais a bruxa inquieta de “C.O.T.L.O.D.” e nem a criança profeta de “Disciples Of The Watch”, mas sim o líder carismático que usa a fé como fachada para enriquecer. Da mesma forma que fazem os políticos, ele usa a fragilidade das pessoas para tirar proveito financeiro.
Finalizando o tópico The New Order dessa matéria, quem nunca gritou “The Preacher” junto com Chuck Billy sequer é fã de Testament e todo esse texto não faz sentido algum.
Practice What You Preach
Como eu disse anteriormente, boa parte dos fãs de Testament, me incluindo nesse time, acredita que The New Order é seu principal clássico. Todavia, há outra parte deles que vê seu sucessor, Practice What You Preach, ocupando esse papel. Na verdade, essa escolha não tem tanta importância assim, já que são dois ótimos clássicos do Thrash Metal.
“Perilous Nation”
Decerto, essa é a continuação direta de “The New Order”. Mas agora não há metáforas sobre seitas. Se no álbum anterior o Testament falava de uma ordem secreta, em contrapartida, em 1989, ele fala do que acontece quando ela já tomou o poder. É uma nação em perigo.
Analisem o refrão:
“Totalitarians in a Perilous Nation / Forcing through control turns, to desolation / Say now what you will, before they make it illegal” – “Totalitários em uma nação perigosa, forçando controle que leva à desolação. Diga agora o que você quer, antes que eles tornem isso ilegal.”
A letra ainda fala sobre outros fantasmas de uma tirania: censura, medo de falar e guerra ideológica. Parece algo escrito no mês passado, já que é completamente atual.
Souls Of Black
Quando observo a capa desse disco penso que poderia ser de uma banda de Black Metal ou de Doom, pois a sua atmosfera exala negatividade e o caos. Eu conheci o Testament através de Souls Of Black e, mesmo que esteja longe de ser meu favorito, é um álbum pelo qual tenho o maior respeito. Mas, que tal voltar ao assunto do artigo?
“Souls Of Black”
Observe o refrão de sua faixa-título: “Oh, can’t you see that the world we live in? / Political lies are just corporate decisions / They’ll take away all the hopes, all the promises / Look at the lost souls, Souls of Black” – “Oh, você não vê o mundo em que vivemos? Mentiras políticas são apenas decisões corporativas. Eles vão levar embora todas as esperanças, todas as promessas. Olhe as almas perdidas, almas em trevas.”
Quando uma tirania está no começo, há rebeldia e resistência, mas com o passar do tempo, as pessoas entram em uma espécie de síndrome de Estocolmo. Elas não perdem somente a sua qualidade de vida para sustentar a vida faraônica de seus políticos, como também apagam a sua alma e, por fim, a tristeza consome esse espírito. Já não têm força para lutar contra seus tiranos e, dessa forma, agradecem pelas migalhas que eles deixam sobrar.
The Ritual
Infelizmente, The Ritual foi o último álbum a contar com o line-up clássico do Testament. Muitos fãs até hoje criticam a sonoridade desse disco, mas para mim, trata-se do mesmo Testament tentando se adaptar à cena musical do momento. A propósito, essa busca pela reinvenção da sonoridade durou alguns lançamentos.
Ainda que suas canções soem mais melódicas, a qualidade técnica e musical continua presente em The Ritual. Como resultado de todos esses fatores: esse está entre os registros do Testament que mais dividem opiniões, mesmo que a maioria não o considere como o mais fraco.
“The Sermon”
“Souls Of Black” falava de mentiras políticas virando decisões corporativas, ao passo que “The Sermon” mostra quem opera isso nos bastidores. A quem interessa a discórdia, a miséria e, enfim, a distopia?
Em resumo, sua letra fala sobre: símbolos, seitas, líder carismático e, principalmente, o “plano mestre”. Aliás, muitas conspirações sempre alegam que há um plano mestre em andamento, mesmo quando não sabem exatamente explicar quem está por trás do mesmo.
The Formation Of Damnation
Avançando alguns bons anos na história, seu décimo álbum completo, The Formation Of Damnation, conta com Paul Bostaph (Slayer) na bateria. Como eu disse anteriormente, Testament começou a tentar se reinventar a partir do lançamento de The Ritual (1992). Posteriormente, Low (1994) e Demonic (1997) não chegaram a tal objetivo, apesar de sua importância para o que viria adiante. Só em The Gathering (1999), que contou com Dave Lombardo (ex-Slayer) na bateria e James Murphy (guitarra) é que a virada de mesa finalmente aconteceu. Desse modo, esse é o único clássico do Testament a não contar com a guitarra de Alex Skolnick.
Quando Skolnick volta à banda, em 2001, é lançado First Strike Still Deadly, contendo regravações dos primórdios. Concluindo, um novo álbum de inéditas viria em 2008, quase uma década depois de The Gathering. The Formation Of Damnation, diga-se de passagem, mesmo que não o considerem como clássico, marcou o início de uma nova era dourada na carreira do Testament.
“The Formation Of Damnation”
Se “The Sermon” falava de um plano mestre genérico, “The Formation Of Damnation” dá nome e sobrenome: falso líder, messias da morte e eleição.
Confira o trecho do refrão:
“False leaders crowned, a world of mass destruction / Can’t wash the lies away, death messiah to whom people pray / Election day spitting bullshit to the enslaved / Make them believe compromised insanity” – Falsos líderes coroados, um mundo de destruição em massa. Não dá para lavar as mentiras, messias da morte para quem as pessoas rezam. Dia de eleição cuspindo besteira para os escravizados, faça-os acreditar em insanidade comprometida.
O fechamento é ainda mais forte:
“A swarm of death engulfs the sky forever / Blocks out the sun, the desecration of salvation / The end is near, elected false messiah / Plan put in gear, the formation of damnation” – Um enxame de morte engolfa o céu para sempre, bloqueia o sol, a profanação da salvação. O fim está perto, falso messias eleito, plano em ação, a formação da danação.
Brotherhood Of The Snake
Coube a Brotherhood Of The Snake a difícil tarefa de suceder o maior clássico recente do Testament, e Dark Roots Of Earth é, ao mesmo tempo, um dos melhores discos do Testament e do Thrash Metal.
Mas, trazendo de volta as temáticas de conspirações e ordens secretas em quatro composições, Brotherhood Of The Snake caiu rapidamente na graça dos fãs. Inicialmente, as comparações com o antecessor foram inevitáveis, contudo, com o passar do tempo, veio a admiração.
“The Pale King”
De acordo com a explicação de Chuck Billy na ocasião, ele assistia Ancient Aliens e viu a história de uma irmandade secreta de 6.000 anos. E a criação dela buscava derrubar religiões, e o seu líder Anu é o Pale King, o rei pálido alienígena que criou a humanidade como escrava para minerar ouro.
Veja esse trecho da letra:
“I was awakened by the howling of the dog / Summoned by the voices who are shouting in my ear / The pale king comes from afar” – Fui acordado pelo uivo do cão, convocado pelas vozes gritando no meu ouvido, o rei pálido vem de longe.
“Stronghold”
“Stronghold”, antes de mais nada, fala sobre a eleição presidencial dos EUA de 2016. Chuck definiu assim: “it doesn’t really matter what the people want because they aren’t being served by their leaders anyway” – não importa o que o povo quer, já que eles não estão sendo servidos pelos líderes de qualquer forma.
“Seven Seals”
Essa é a união da conspiração alienígena e da conspiração religiosa bíblica, e é perfeita para o seu balaio de sociedades secretas. Enquanto “The Pale King” fala do rei alienígena Anu, “Seven Seals” pega o Livro do Apocalipse e joga dentro desse universo. Em suma, como disse Chuck, o disco inteiro fala de aliens, religião e criação do homem.
“The Number Game”
Veja o trecho da letra:
“Fourteen days and fourteen lives / Random victims are my prey / Thirteen dead unlucky strike / So many more…”14 dias e 14 vidas, vítimas aleatórias são minha presa, 13 mortos golpe de azar, muitos mais…”Nine bodies found today / Eight was yesterday / And as we down the count / Seven was there for me / I look for six today / And five tomorrow pays” – Nove corpos encontrados hoje, oito foi ontem, e conforme diminuímos a contagem, sete esteve lá por mim, procuro por seis hoje e cinco amanhã paga. Assustador, assim como o Thrash Metal costuma ser.
Essa é a única de Brotherhood Of The Snake que foge totalmente da temática de conspiração alienígena e sociedade secreta, tanto que muita gente estranha ela estar no álbum.
Mas, como o próprio Chuck explicou, ela fala sobre um serial killer que mata 14 pessoas em 14 dias. Exatamente uma por dia durante duas semanas.
“The Brotherhood of Snake”
Será essa a mãe de todas as conspirações que o Testament já revelou?
Sendo “The Sermon” o plano mestre genérico e “The Formation Of Damnation” o falso messias eleito, “Brotherhood Of The Snake”, por sua vez, traz como revelação a criação de tudo isso. Ou seja, a irmandade secreta original, fundada há 6 mil anos.
Chuck Billy, The Chief, o cacique do Thrash Metal, o amante das conspirações, contou que ficou viciado em Ancient Aliens e, logo depois, caiu na teoria de Zecharia Sitchin.
De acordo com a letra, os Anunnaki vieram, criaram a humanidade para minerar ouro, e para controlar criaram a primeira sociedade secreta: a Brotherhood Of The Snake, cuja missão era destruir todas as outras religiões e manter o humano como escravo. Hum, mas o Estado já não faz isso conosco? (ha ha)
A letra é cinematográfica: “Coiled forever in the darkness below / They await for the right time to strike / Defending the truth and protecting the lies / Reptilian, shedding their skin / They gather in masses, encrypting the stars / To breed slaves sworn to war” – Enrolados para sempre na escuridão abaixo, aguardam o momento certo para atacar, defendendo a verdade e protegendo as mentiras, reptilianos trocando de pele, se reúnem em massas criptografando as estrelas, para criar, dessa forma, escravos jurados à guerra.Quem acredita que o Testament nunca iria falar sobre os Anunnakis e os reptilianos se enganou, pois ele falou em uma de suas músicas mais pesadas da década de 2010. Portanto, não se enganem, não é o canal da Carol Capel, é Testament.
Titans Of Creation
Mesmo que o Testament não soubesse disso na época do lançamento, Titans Of Creation fechou mais uma era em relação à sonoridade. Ao mesmo tempo em que o lançamento acontecia, o mundo vivia uma pandemia devastadora. Antes que as coisas voltassem a aquecer, Gene Hoglan deixou o posto da bateria, e o jovem Chris Dovas assumiu como substituto. Mas o álbum é excelente.
“Children of the Next Level”
Essa é a única desse artigo que não é teoria, é fato real, e por isso dói mais.
Como o próprio Chuck contou, essa foi a primeira composição que eles escreveram para Titans Of Creation, embora ainda estivessem no modo ancient alien de Brotherhood Of The Snake.
O caso Heaven’s Gate
A seita Heaven’s Gate foi fundada em 1974 por Marshall Applewhite e Bonnie Nettles, a Ti e Do. Eles pregavam que o corpo era só um container, uma casca primitiva, e que eles eram Filhos do Próximo Nível e que, assim sendo, precisavam abandonar a Terra.
Em 1997, quando o cometa Hale-Bopp passou, eles acharam que uma nave alienígena estava escondida atrás dele a fim de buscá-los. Infelizmente, nesse dia aconteceu o suicídio coletivo em Rancho Santa Fe, San Diego.
O Testament narra tudo literal, dessa forma:
“In trans-human state / It’s time to evacuate / Waiting for a ride to take them to the gate / Await the siren call / More phenobarbital / Pour it down the hatch, ingest it all” – Em estado trans-humano, é hora de evacuar, esperando uma carona para levá-los ao portão, aguardam o chamado da sirene, mais fenobarbital, entorna goela abaixo, ingere tudo.
“Night of the Witch”
Essa letra não fala de qualquer ordem secreta, mas da pioneira, antes de Anunnaki, antes de Brotherhood Of The Snake, antes de tudo: a Wicca, o coven.
Inclusive, Chuck explicou assim que o single saiu: “‘Night Of The Witch’ uses old school lyrics about witches chanting in the moonlight and casting spells” – letra old school sobre bruxas cantando ao luar e lançando feitiços. E o detalhe que ele mesmo trabalhou os vocais de Eric Peterson no refrão, como ele faz em Dragonlord. É Testament voltando para The Ritual, para Black Sabbath, pois é pura bruxaria.
Para Bellum
Entre The Formation Of Damnation e Titans Of Creation, o trabalho do Testament, inegavelmente, agradou seus fãs. A sonoridade estava pesada como nunca, no entanto, um problema começava a ocorrer. A fórmula começava a soar repetitiva e Titans Of Creation, ainda que excelente, foi o limite até onde ela poderia ir.
A troca de bateristas serviu para que o Testament iniciasse mais um processo de reformulação da música e ela realmente teve início com o lançamento de Para Bellum. A banda soou mais extrema como nunca em alguns momentos, ao passo que buscou referências passadas em outros. Só sei que um dos melhores álbuns de Metal de 2025 saiu dessa ideia e valeu a pena cada minuto da audição.
Como cereja desse bolo, quatro canções trouxeram à tona temáticas girando entre conspirações e ordens secretas.
“Shadow People”
É a mais atmosférica e de horror do disco. Não é sobre governo, mas sobre entidades sobrenaturais que observam na penumbra.
Chuck canta como se fosse um narrador de creepypasta: gente que vê vultos no canto do olho, paralisia do sono, presença que te cerca.Musicalmente é groovada, já que Steve DiGiorgio e Chris Dovas seguram o ritmo como um coração acelerado, e no meio entra até um trecho com padrão Black Metal antes do solo matador de Skolnick.
Perceba o apelo da letra: “scream like it’s your final breath”. É a ordem secreta invisível, aquela que não precisa de sociedade, pois já está no seu quarto.
“Witch Hunt”
Ela traz “Night Of The Witch” de volta, mas agora sem romantismo.
É Thrash/Death puro, uma das mais brutais já gravadas ao lado de “Curse Of The Legions Of Death”, mas é claro, guardadas as devidas proporções.
Se “Night Of The Witch” era a bruxa lançando feitiço, “Witch Hunt” é a turba indo queimá-la.
Fala de caça às bruxas moderna, linchamento moral, assim como histeria coletiva.
A letra é sobre perseguição: “tight rhythms, low-tuned guitars, crushing brutality”. No meio ela abre para uma parte quase Heavy Metal tradicional com solos entrelaçados, tipo The Haunted. É a ordem secreta do outro lado: a sociedade que se organiza para perseguir a minoria que ela mesma inventou.
“Havana Syndrome”
Real assim como “Children Of The Next Level” e por isso é a mais assustadora desse álbum.
O título se refere à Síndrome de Havana, os sintomas neurológicos misteriosos – dor de cabeça, tontura, náusea – que atingiram diplomatas e agentes do governo dos EUA em Cuba a partir de 2016.
O governo americano suspeita de arma de energia direcionada, micro-ondas. A letra é paranoia pura: guerra invisível, tecnologia transformada em arma, inimigo que você não vê, mas que está mexendo com sua mente.
Riffs picotados, nervosos, como se estivessem em curto-circuito, bateria maníaca e precisa de Dovas como um ataque de precisão, e o Chuck entre pregador e delator. É Thrash sobre guerra eletrônica.
Embora guerra não seja um tema novo em Thrash, é conspiração que saiu dos fóruns e entrou no relatório da CIA.
“Para Bellum”
“Si vis pacem, para bellum – Se queres a paz, prepara-te para a guerra.”
Concluindo, não haveria uma forma mais épica de encerrar o primeiro álbum desse novo ciclo do Testament. Pois é um manifesto, um paradoxo sobre guerra e paz. Muitas vezes, o Estado usa a paz como argumento para iniciar uma guerra, mesmo que isso não faça sentido algum.
Conclusão
Após passar por aliens Anunnaki, Heaven’s Gate, bruxas, gente-sombra e arma de Havana, o Testament finaliza dizendo: o mundo, da mesma forma, sempre esteve em guerra secreta, só muda o nome da irmandade.
Talvez toda a conspiração tenha a função de preencher lacunas que a história ou a imprensa oficial deixam no ar.
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