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The Varukers – Cine Joia, São Paulo/SP (08/05/2026)

The Varukers – Cine Joia, São Paulo/SP (08/05/2026)

Texto por Ricardo Brigas
Foto por Alessandra Rosato

E era dia de calçar os coturnos, vestir a jaqueta de couro e se dirigir ao Centro de São Paulo — rotina semanal no final dos anos 80 e início dos anos 90. O centro de São Paulo sempre foi um polo multicultural que abarcava todas as tribos da mesma maneira. Claro que, volta e meia, grupos rivais se trombavam e a treta comia solta, mas isso fazia parte do contexto. Afinal, quem nunca arrumou encrenca ou saiu correndo pelo centro nessa época que atire a primeira pedra (risos).

Dessa vez, porém, o motivo era outro. A lendária banda inglesa formada em 1979, The Varukers, desembarcava no Brasil para uma tour — e São Paulo, como sempre, era parada obrigatória. A banda sempre teve certa afinidade com a cidade; ao longo dos anos, fez diversos shows com grupos locais, criando um vínculo de amizade forte. João Gordo, do R.D.P., é um desses nomes, assim como o pessoal do Asfixia Social, que vem acompanhando os shows dessa tour. Além disso, nessa passagem por São Paulo, houve também a presença feminina das bandas Ratas Rabiosas e Eskröta. Nos intervalos, o DJ da 89 FM, Thiago DJ, comandava as pick-ups.

Conheci o The Varukers na época do lançamento do disco Massacred Millions, por meio do meu amigo Ricardo Bauer. Ele era do metal, mas tinha uma coleção invejável de discos punk e foi quem me iniciou nesse universo. Quando ouvi aquele álbum pela primeira vez, pirei — era diferente do punk mais acessível da época: sujo, cru, direto.

O Cine Jóia dispensa apresentações. Em plena sexta-feira, com o trânsito caótico da cidade, até que conseguimos chegar cedo. As portas ainda nem haviam sido abertas, e a movimentação na entrada era tranquila. Devidamente credenciados, assim que entramos, Thiago DJ já começava a destilar seu repertório punk.

A expectativa para ver as Ratas Rabiosas era grande: eu já havia assistido a um show delas há muito tempo, e tinha sido fantástico. Queria conferir como estavam agora — e, olha, se já tinha sido surpreendido antes, dessa vez minha admiração só aumentou.

Elas descem a lenha em um punk envolvente; o som estava ótimo, dava para ouvir tudo com clareza. A nova formação conta com a guitarrista Amanda Pahim, que fazia apenas seu segundo show com a banda — e tirou de letra uma apresentação tão importante. Mesmo ainda se ajustando, e já incluindo músicas do novo disco que será lançado em breve, as meninas deram seu recado, deixando uma ótima impressão e sendo muito aplaudidas. O local ainda não estava cheio, mas já havia um bom público acompanhando. O destaque ficou para o cover das Mercenárias, que abriu a roda e fez a galera se divertir bastante.

Na sequência, veio o Asfixia Social. Eu ainda não os conhecia ao vivo, mas já tinha ouvido falar bastante, o que criou uma boa expectativa. E ela foi correspondida. Eu curto demais essas misturas de estilos — rap, metais, ska, punk, rock — tudo sacudido dentro da mesma proposta. O resultado é um som urbano, direto, com filosofia de quebrada e, às vezes, até caótico, mas muito interessante.

O vocalista do Kaneda Mukhtar, é um frontman completo: agita o público o tempo todo, sobe e desce do palco, incentiva o pogo, se joga na galera e, como se não bastasse, ainda toca trompete. O cara é incansável, literalmente inimigo do fim. Foi um baita show, daqueles que merecem ser revisitados em breve — e que devem ser ainda mais intensos em espaços menores. O baixista Leonardo não participou da tour, provavelmente devido ao excesso de datas, e quem assumiu foi Vagal, do Gritando HC. Um detalhe interessante: não há ego no The Varukers. Em vários momentos, ao meu lado, o baixista Brian curtia os shows no meio do público, com seu moicano vermelho, agitando sem parar. Muito bom presenciar isso.

Em seguida, a Eskröta sobe ao palco. Eu curto bastante crossover — recentemente cobri um show do D.R.I. e sou fã do estilo. No entanto, há algo na Eskröta que, para mim, ainda não encaixa perfeitamente. Talvez a distorção da guitarra da Yasmin embola um pouco — nada grave, apenas um detalhe. Porque, no palco, elas brilham: o baixo da Tammy é um trator, Jhon França bate forte, e Yasmin toca muito. Ainda assim, o som acabou soando um pouco embolado.

Apesar disso, o show é extremamente energético. Os vocais rasgados cortam o ar como uma navalha, e a presença de palco é intensa. A banda não para um segundo, e o público responde à altura — rodas enormes já se formavam. Aliás, o público estava animado em todos os shows; o evento, como um todo, foi lindo de ver. Com um setlist dividido entre músicas dos três discos e discursos afiados, fizeram um excelente esquenta para os ingleses do The Varukers.

E bastaram os primeiros acordes para perceber: o negócio ia ficar insano. O The Varukers sobe ao palco e entrega um show simplesmente apoteótico. É uma banda simples — no melhor sentido possível — com um som direto e uma energia absurda, capaz de contagiar qualquer um. Na cabeça, passa um filme: de quando conheci a banda até o quanto eles influenciaram milhares de grupos punk e hardcore pelo mundo. E, sinceramente, vê-los tocando assim, após 47 anos de estrada, é impressionante.

O show é na base do “1, 2, 3, 4 e vai!” — e todo mundo vai junto. A pista vira um verdadeiro campo de batalha: gente se trombando, caindo, levantando, sempre com respeito. Não havia distinção — homem, mulher — todos juntos no mosh, curtindo ao máximo.

E o show só esquentava. Clássicos como “All Systems Fall”, “Persistent Resistance” e “Massacred Millions” vieram em sequência. Nessa última, um sujeito idêntico ao personagem Bob Cuspe, do Angeli, subiu ao palco para cantar junto — cena surreal e sensacional. O vocalista Rat, simpático e completamente à vontade, se divertia fazendo caretas, tirando fotos com quem subia ao palco. Era, literalmente, uma grande festa — e dava para ver o quanto eles estavam se divertindo.

Como se não bastasse, ainda chamaram João Gordo para uma participação especial, cantando três músicas e fechando a noite com chave de ouro ao som de “Protest and Survive”.

Foi daquelas noites em que todo mundo sai com a mesma sensação: “que show absurdo”. No meio da muvuca da saída, fui prestando atenção nos comentários — e não ouvi um único negativo. Fica a reflexão: é sempre bom ver a velha guarda em ação. Eles podem até envelhecer, mas, no palco, continuam imbatíveis.

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