Triptykon – “Requiem (Live At Roadburn with Metropole Orkest” (2020)
Century Media Records
#SymphonicBlackMetal, #PostMetal, #Avantgarde
Para fãs de: Hellhammer, Celtic Frost, DarKForT, My Dying Bride
Nota: 10
Minha relação com a música passou a ser também de introspecção a partir do momento em que comecei a escutar Celtic Frost, em 1987, através do álbum “Into The Pandemonium”, que eu tinha gravado em uma fita cassete.
Mais do que bater cabeça, esse álbum me fez sentar e parar para realmente escutar a música, compreender a ambiência densa que ela assume através de arranjos soturnos, o convite ao estado de contemplação pura que uma condução arrastada em uma música pode te colocar. E, entre elas, estava “Rex Irae (Requiem)”.
Quando ouvi o álbum “Monotheist”, um tempo depois de ele ter sido lançado, em 2006, passei a considerá-lo o melhor da carreira do Celtic Frost, em virtude da aura progressiva e experimental que lhe foi conferida, dentre elas a faixa “Triptych: III. Winter (Requiem, Chapter Three: Finale)”.
“Monotheist” foi o último álbum do Celtic Frost, sendo que Thomas G Warrior prosseguiu nessa linha experimental com o Triptykon, até chegar neste EP, “Requiem (Live At Roadburn)”, gravado em 2019, em que Thomas, finalmente, ao lado de uma orquestra e de sua banda, toca na íntegra “Rex Irae”, “Winter” e nos apresenta o elo entre elas: a épica, colossal e experimental “Grave Eternal”, encerrando a tríade do Requiem iniciado há 33 anos.
Caso você não saiba, réquiem é gênero de composições musicais dedicado ao louvor aos mortos, sendo que a obra mais conhecida dessa linhagem vem das mãos de Wolfgang Amadeus Mozart, apresentada em 1791, intitulada “O Réquiem em Ré Menor”.
Com tudo isso em jogo, já dá para desconfiar que este novo EP do Triptykon trata-se de uma obra complexa, intrincada, pensada como uma sinfonia obscura e tétrica, que desafia o ouvinte a se colocar em condição psicológica e intelectual adequada para “suportar” o que está por vir.
Tudo começa de maneira familiar, com a clássica “Rex Irae”, numa versão mais grandiosa, no entanto bem fiel à original, afora o aperfeiçoamento e erudição nos arranjos que, de maneira tênue trespassa para a primeira parte da inédita “Grave Eternal” – que soa como se fosse um encerramento digno da primeira parte do Canto Fúnebre.
Sim, “Grave Eternal” é dividida em seis partes, para fins didáticos, sendo que da parte 2 em diante a coisa fica extremamente experimental, soando como um Black Metal Sinfônico enterrado em uma música de Doom Metal com toques avant-garde, que desafia sua audição em virtude da bizarra falta de sincronia com os batimentos cardíacos de quem está vivo. A sensação é realmente de se estar percorrendo os labirintos que nos levam à morte.
Embora conte com uma orquestra à sua disposição, Thomas G Warrior faz uso moderado desse arsenal de sonoridades, utilizando-o com bom gosto e, por vezes, encontrando solução para melodias através de sua guitarra elétrica e cantos que soam como sussurros numa penumbra de desespero, apostando na simplicidade e sobriedade do andamento da obra integral.
A parte final de “Grave Eternal” faz valer a pena toda a imersão na audição de interlúdios difíceis de acompanhar (se o que você busca na busca quando põe um disco para rolar é sempre prazer e diversão), mas que a compreensão desta obra requer. A coisa aqui é tão de imersão que eu atrasei um mês a entrega dessa resenha, pois tive que ouvir este álbum cerca de 10 vezes para situar minha mente e meu estado de alma para embarcar nesta missão.
E, ao som dos violinos de encerramento da aria de encerramento de “Grave Eternal”, tudo faz sentido e, de maneira épica, chamando os tons mais graves dos instrumentos, abre caminho para dialogar com perfeição – após aplausos dos presentes – com a parte final do réquiem, retornando a “Winter” e, mais uma vez, tornando ainda mais grandiosos seus arranjos melancólicos e perturbadores, concluindo a audição atenta deste trabalho num mergulho profundo na genialidade excêntrica de seu criador!
Como deu para perceber pela resenha, a experiência é muito boa e enriquecedora, mas demanda do ouvinte predisposição e esforço para se conectar com a proposta e com o som experimental, ao mesmo tempo clássico e de vanguarda que o Triptykon propõe aqui. Se você aceitar o desafio, garanto que esses quase 46 minutos de uma ópera tétrica farão toda a diferença na sua compreensão de música como expressão de arte. Agora fica a expectativa de um DVD para podermos apreciar banda e orquestra interagindo para produzir esta obra musical singular.
Wallace Magri
