Vengeance – 30 anos do álbum “Human Sacrifice”

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Vengeance – 30 anos do álbum “Human Sacrifice”
Por Márllon Matos

Dentre várias afirmações feitas sobre o universo musical, uma das que quase não encontra refutação é a de que os mágicos anos 80 foram a melhor época para o metal. Grande parte dos baluartes do cenário ou começaram ou se consolidaram neste período que foi intensamente prolífero em se tratando de música pesada. E foi em 1986, em South Bay/CA que começou a se embrionar o que mais tarde viria a ser o Vengeance.

Algumas mudanças na formação, uma cultuada demo lançada no ano seguinte e shows incendiários foram a pavimentação do caminho que o Vengeance percorreu até lançar o seu aguardado álbum de estreia em 1988.

“Eu me lembro do dia em que peguei a minha primeira cópia da demo com a capa vermelha e o incrível logo da Vengeance. Eu estava procurando por algo realmente pesado na cena cristã por um tempo e não encontrava nada comparável que realmente pudesse mexer comigo. Na primeira vez que coloquei a fita pra rodar e pude ouvir a música e a mensagem do Vengeace eu soube que a cena da música cristã estava para mudar e que a banda levaria o metal cristão ao extremo”. (Bill Bafford, proprietário do selo Roxx Records)

De contrato assinado com a Intense Records, o grupo formado por Roger Martinez (vocal), Larry Farkas e Doug Thieme (guitarras), Roger Dale Martin (baixo) e Glen Mancaruso (bateria) se enclausurou rapidamente no Neverland Studio em Los Alamitos/CA  onde, no período noturno (a fim de economizarem a verba destinada), gravaram, mixaram e masterizaram as 13 faixas de “Human Sacrifice”.


“O processo de gravação foi um tempo de profunda comunhão para todos nós. 
Foi muito descontraído e sentimos que Deus estava a nossa volta. Então deixamos fluir e algumas grandes coisas aconteceram no álbum por pura inspiração. E isso iria nos quebrar! Minha melhor lembrança do processo de gravação foi quando Doug teve a inspiração de tirar o cabo de sua guitarra, colocar o dedo na ponta, criando o som mais irritante já ouvido na Terra. Foi escolhido por unanimidade para o seu solo de guitarra em “Beheaded”!” (Roger Dale Martin, baixo)

“Nosso alvo original para essa gravação era fazer vocês se sentirem como se estivessem na sala conosco, apenas o som pesado e bruto, sem nada super produzido e sem reverb para enlamear as coisas”. (Glen Mancaruso, bateria)

A sonoridade moldada a partir de nomes como Slayer e Venom chocou não apenas círculo social dos membros, mas todo um cenário musical já existente. Isso se deve ao fato que o Vengeance era uma banda de ideologia cristã e foi a primeira a lançar um álbum de metal tão violento e extremo com essa temática. Como era dito pela imprensa na época “eles fazem o Stryper soar como um banda de soft pop”. Muita perseguição, críticas e preconceito foram destilados, mas falemos do que importa: a música, e nesse quesito eles jamais decepcionaram!

São 13 composições que ficam beirando os 40 minutos de thrash metal cru e visceral. A faixa título (composição herdada do antigo guitarrista Glenn Rogers) é o princípio do caos. Metal soco na cara, chute na costela e portas abertas para o mosh, violência sonora na essência! Há também muito hardcore, como podemos comprovar na tríade das mini músicas, ‘Receive Him” (prima próxima de “Your Suffer” do Napalm Death”, “Salvation” (12 segundos de moeção pura e desenfreada) e “He Is God”, onde o vocalista R. Martinez vence um trava línguas insano para cantar a letra curta, mas extremamente rápida nessa faixa de 55 segundos; e solos de guitarra em profusão, tal como demonstrado na instrumental “Ascension”, uma verdadeira aula perpetuada por Larry Farkas, um shredder de mão cheia e infelizmente pouco reconhecido.

Aliás, falando em guitarra, a dupla Doug e Larry souberam implementar bem a pegada heavy metal tradicional na sonoridade porrada da banda. Temos “Mulligan Stew” com uma vibe bem bluesy, “I Love Hating Evil” e seu início bem melódico, quase sendo algo da NWOBHM. Se tratando de riffs estamos muito bem servidos também. “White Throne” (a mais próxima de ser considerada hit no repertório”) e “Fill This Place With Blood” são as faixas com os exemplos mais marcantes, pois uma simples audição já é suficiente para crava-los na memória.

A parte rítmica da banda é aquela que todo conjunto procura. Firme, coesa e de extrema competência. Pelas introduções de “Burn” e “Fatal Delay” já vemos que baixo e bateria (respectivamente falando) não tão aqui apenas para cumprir tabela, pelo contrário mostram é muito serviço! Situadas naquele caminha intermediário entre o thrash e o death metal, “From The Dead” e “Beheaded” são composições mais diretas e maduras, que poderiam facilmente estar no repertório  de qualquer grande nome do estilo.

“Quando “Human Sacrifice” foi lançado claro que eu comprei uma fita e ela permanece em constante uso 30 anos depois.” (Bill Bafford, proprietário do selo Roxx Records)


A icônica capa mostra uma representação de uma das mãos de Cristo já pregada na cruz e foi feita com alguns truques de cenografia e tem a “participação especial” do Pastor Bob Beeman, que foi muito importante para o desenvolvimento da banda em seus primeiros passos.

Pouco tempo após o lançamento do álbum, a banda foi notificada sobre a existência de um outro Vengeance, então para evitar maiores complicações judiciais, o quinteto passou a ser chamado de Vengeance Rising. As  prensagens posteriores de “Human Sacrifice” também sofreram essa alteração e  com isso as versões originais se tornaram alvo de desejo pelos colecionadores mundo a fora.

01- Human Sacrifice (2:36)
02- Burn
(3:49)
03- Mulligan’s Stew
(3:00)
04- Receive Him
(:04)
05- I Love Hating Evil
(3:55)
06- Fatal Delay
(3:15)
07- White Throne
(3:08)
08- Salvation
(:13)
09- From the Dead
(4:36)
10- Ascension [Instrumental]
(5:23)
11- He Is God
(:50)
12- Fill this Place With Blood
(2:49)
13- Beheaded
(3:10)

Muito tempo se passou até que “Human Sacrifice” ganhasse relançamentos a altura de seu legado e importância.

O primeiro deles aconteceu em 2010 através do selo Intense Millenium Records (ok, existiu uma versão 2 em 1 unindo “Human Sacrifice” com “Once Dead”, segundo álbum da banda, em uma única embalagem, mas como foi um lançamento extremamente pobre, é melhor nem comentá-lo). Foram 1000 unidades apenas, com encarte de 8 páginas, sendo que podia se escolher entre a capa original (apenas como Vengeance) ou uma releitura atualizada.


Além de memórias dos membros da época e do Pastor Bob Beeman e muitas fotos raras, temos a inclusão de 4 faixas bônus, sendo 3 ao vivo gravadas em 1987 e uma dispensável entrevista Para os 100 primeiros compradores, foi disponibilizado um disco bônus contendo a demo original (infelizmente a transferência da fita para arquivo digital não foi 100% fiel e ocorre um problema justo no final da música “Human Sacrifice”) e um bootleg da banda no Cornestone ’88, importante festival onde na ocasião o álbum foi praticamente tocado na íntegra. A qualidade da gravação é bem precária, mas é incrível ver como a banda era enérgica e bombástica em cima dos palcos. Se nota que cada um está ali como se suas vidas dependessem disso. Quem presenciou este e os demais concertos do ciclo de shows do álbum são pessoas realmente afortunadas!

01- Human Sacrifice
02- Burn
03- Mulligan’s Stew
04- Receive Him
05- I Love Hating Evil
06- Fatal Delay
07- White Throne
08- Salvation
09- From the Dead
10- Ascension [Instrumental]
11- He Is God
12- Fill this Place With Blood
13- Beheaded
14- Prodigal Son (Live 1987)
15- Beheaded (Live 1987)
16- Salvation (Live 1987)
17- Interview: The Music Of Vengeance 

CD Bônus: Demo 1987 + Live At Cornestone 1988

01- White Throne (Demo 1987)
02- He Is God (Demo 1987)
03- Salvation (Demo 1987)
04- Beheaded (Demo 1987)
05- Human Sacrifice (Demo 1987)
06- Intro (Live at Cornestone 1988)
07- Fatal Delay (Live at Cornestone 1988)
08- Fill this Place With Blood (Live at Cornestone 1988)
09- White Throne (Live at Cornestone 1988)
10- Human Sacrifice (Live at Cornestone 1988)
11- From the Dead (Live at Cornestone 1988)
12- Ascension [Instrumental] (Live at Cornestone 1988)
13- I Love Hating Evil (Live at Cornestone 1988)
14- Burn (Live at Cornestone 1988)
15- He Is God (Live at Cornestone 1988)
16- Mulligans Stew (Live at Cornestone 1988)
17- Beheaded (Live at Cornestone 1988)

Em 2013, na comemoração dos 25 anos de seu lançamento, o álbum foi relançado, através do selo Roxx Productions em um belíssimo picture disc limitado a 300 unidades numeradas e que rapidamente se esgotaram. Nesta edição a foto original da capa recebeu um tratamento especial, resultando numa imagem mais limpa e clara.

A sonoridade em si não apresentou grandes mudanças, mas é claro que é inegável o charme de se ouvir o disco em total qualidade no melhor formato para se apreciar o metal.

Lado A:
01- Human Sacrifice
02- Burn
03- Mulligan’s Stew
04- Receive Him
05- I Love Hating Evil
06- Fatal Delay

Lado B:
07- White Throne
08- Salvation
09- From the Dead
10- Ascension [Instrumental]
11- He Is God
12- Fill this Place With Blood
13- Beheaded

 
Em 2017 saiu uma tiragem limitada em CD do álbum (novamente através da Roxx) em 300 cópias tendo a capa do picture disc, com memórias escritas pelo baixista Roger Dale Martin e de bônus a demo lançada em 1987. Diferente da versão apresentada no disco extra em 2010, aqui podemos apreciar com total qualidade a saudosa fitinha k7. Som cru e áspero mas sincero e honesto. Merece e muito ser elogiado o trabalho de transferência dos arquivos originais da demo e da remasterização do pacote como um todo. Nunca o Vengeance e seu “Human Sacrifice” soou tão bem como aqui.

01- Human Sacrifice
02- Burn
03- Mulligan’s Stew
04- Receive Him
05- I Love Hating Evil
06- Fatal Delay
07- White Throne
08- Salvation
09- From the Dead
10- Ascension [Instrumental]
11- He Is God
12- Fill this Place With Blood
13- Beheaded
14- White Throne (Demo 1987)
15- He Is God (Demo 1987)
16- Salvation (Demo 1987)
17- Beheaded (Demo 1987)
18- Human Sacrifice (Demo 1987)

Para os 30 anos de “Human Sacrifice” ocorreu mais um relançamento. Seria algo necessário, já que ainda é relativamente fácil encontrar por ai cópias das versões de 2010 e 2017? O que essa nova reedição teria de diferente? O subtítulo já entrega.


Esta é a primeira mixagem do álbum e que não foi utilizada na época pela gravadora, que preferiu remixar o disco em busca de algo mais “limpo”. Apesar de ter obtido um relativo sucesso comercial com esta versão, os membros sempre preferiram a primeira mixagem pois iria mais de acordo com a visão dos mesmos sobre como a banda deveria soar. Esse material permaneceu engavetado até agora, quando mais uma vez o selo Roxx Records disponibilizou uma edição comemorativa do álbum. E meus amigos, que diferença que existe dessa primeira mixagem para a que foi lançada comercialmente!

É notória a crueza da sonoridade. Thrash metal puro mas ainda sim bem próximo das raízes do death metal, algo bem “na cara mesmo”. Existe aquele charmoso abafamento de som, que acaba por potencializar a agressividade e peso das músicas. Segundo os membros, esta é a sonoridade mais próxima do que era a banda no palco, mais próxima do real sentimento que eles buscavam passar com as músicas. Esta versão também apresenta a ordem do track list pretendida (mas não utilizada) no lançamento oficial. Não pretendo ficar falando novamente música por música, mas vale mencionar que tanto “Mulligan Stew” quanto “Receive Him” aparecem em versões “estendidas”, o que foi uma boa adição ao material.

01- Human Sacrifice
02- From the Dead
03- Ascension [Instrumental]
04- Receive Him
05- Burn
06- Fatal Delay
07- White Throne
08- Salvation
09- I Love Hating Evil
10- Fill this Place With Blood
11- He Is God
12- Mulligan’s Stew
13- Beheaded

“O proprietário da nossa gravadora deu a mixagem para a empresa que fazia a distribuição e eles a recusaram alegando que a mesma estava muito seca. Então eles trouxeram outro engenheiro para então remixar o material e adicionar um monte de efeitos que nós realmente não queríamos num primeiro momento e foi o que os nossos fãs acabaram recebendo quando “Human Sacrifice” enfim foi lançado. Antes que a primeira mixagem fosse entregue a gravadora, o proprietário da companhia de gravação deu a cada um dos membros da banda uma cópia dessa mixagem crua e seca para escutar e fazer qualquer alteração necessária. Através dos anos essas cópias se perderam. Avançando rápido para 2018, aconteceu de um amigo nosso ter uma cópia dessa mixagem em especial que ele tinha conseguido com a gente mesmo em 1988, e com a ajuda da Roxx Records que então o material foi remasterizado e disponibilizado novamente para a nossa prazerosa audição, no 30º aniversário de ‘Human Sacrifice”. Divirtam-se!” (Glen Mancaruso, bateria)

“Uau, sério que já tem 30 anos desde que “Human Sacrifice” foi lançado? Tem sido uma grande honra e privilégio para mim poder trabalhar nos vários relançamentos deste clássico. Este é um trabalho que teve um verdadeiro impacto em mim antes e agora, e é absolutamente incrível em como ele permanece tendo impacto no público de hoje, sejam novatos ou veteranos. Obrigado Roger, Larry, Doug, Roger e Glen por levar o metal cristão a um outro nível e por fazer uma das músicas mais impactantes na minha vida até o dia de hoje.” (Bill Bafford)


O tempo provou que tanto o Vengeance (ou Vengeance Rising, como preferir) quanto seu “Human Sacrifice” estão com o seu lugar reservado na história, no hall das grandes e inoxidáveis obras do metal mundial.

Não é difícil encontrar bandas que prestaram homenagem ao álbum seja gravando algum cover do seu repertório ou mesmo tocando algum som ao vivo (as vezes servindo até mesmo de inspiração para nomear alguma banda, vide a Hating Evil, excelente conjunto de thrash oitentista do Rio de Janeiro).

A verdade é que direta ou indiretamente o Vengeance abriu muitas portas com o seu álbum de estreia, mostrando que bandas que fazem uso da ideologia cristã podem sim fazer um som extremo e de qualidade, e que se dane os ‘from hell’ que discordam disso.

Obrigado Vengeance, obrigado “Human Sacrifice.

“White Throne”

“Receive Him”

Agradecimentos: Roger Martinez, Larry Farkas, Doug Thieme, Roger Dale Martin, Glen Mancaruso, Bill Bafford (Roxx Records) , Scott Waters (NoLifeTilMetal.com), Anderson Lima

Fotos: Arquivo pessoal (02, 08, 09, 10, 11, 12,14,18), Anderson Lima (05 e 06), Bill Bafford (17), Scott Waters (16) e reprodução da internet (01, 03, 04, 07, 13, 19).

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