Abertura: Vulcano
Local: Carioca Club Pinheiros, São Paulo/SP
Data: 22/10/2017
Produção: Solid Music Entertainment
Por Wallace Magri
Em um domingo frio e chuvoso em plena primavera, o cenário dentro da tradicional casa de shows Carioca Club não era nada promissor. Faltando apenas 15 minutos para o início do show da banda de abertura, a pista, que aparenta ter capacidade para cerca de 1.500 pessoas, contava com pouco mais do que 300 pessoas.
Era estranho o pessoal que curte Black Metal virar as costas para dois ícones do estilo, ainda mais porque fazia cerca de 8 anos que o Venom não pisava em terras brasileiras e a dobradinha com o Vulcano parecia mais do que perfeita para atrair os fãs.
Mas foi só ser anunciado o início do primeiro show, pontualmente às 19h30, para uma falange de bangers surgirem das catacumbas do inferno e tomarem o lugar de assalto, provavelmente esgotando a capacidade de ocupação do local ao final do evento.
Aí o Culto tem início, com os instrumentistas do Vulcano tomando de assalto o acanhado palco que lhes foi liberado pela produção e preparando a decolagem com uma “Intro” instrumental para, em seguida, o vocalista Luiz Carlos entrar no palco e proferir o tradicional firmamento: “Os portais do inferno se abrem para vocês, se preparem, agora…
VULCANO!” e, na sequência, executam “Witch Sabbath”, convidando os bangers a uma viagem no tempo até 1985, data de lançamento do álbum de estreia da banda, “Live”.
A partir daí o que se vê é um ataque sonoro furioso pautado no segundo álbum da banda, “Bloody Vengeance”, de 1986, com aquela pegada violenta e veloz nas músicas, conduzidas por blast beats e pedais duplos operados por Arthur “Von Barbarian”, passando pelo baixo potente de Carlos Diaz e pelas bases de guitarras avassaladoras e solos fritados de Zhema Rodero e Gerson Fajardo que servem de base para que Luiz Carlos vocifere as letras das músicas com muita competência. O incrível é que, mesmo com o som alto e distorções no talo, a mesa de som consegue equalizar tudo para que não vire uma maçaroca sonora, chegando o som de forma clara e harmônica ao ouvido da plateia.
O desfile de hinos metálicos que compõem o álbum tem início com “Dominios Of Death”, passando por “Spirits of Evil”, entre outras, para botar fogo no público de vez com a execução primorosa de “Death Metal” – música na qual transparece como em 1986 ainda não estavam claramente definidas as barreiras entre Black, Thrash e Death Metal, podendo se notar elementos de todos estes estilos convergindo a todo tempo.
Vale destaque a constante interação com a plateia e a horda respondendo com entusiasmo sem parar de gritar o nome da banda no intervalo entre as músicas.
Para encerrar a apresentação de forma apoteótica, o lendário vocalista da formação original da banda, Angel, é chamado ao palco e canta com a banda “Bloody Vegeance” e “Total Destruição”, essa de “Live” (1985) e regravados em “Tales From The Black Book” (2007), para o deleite da plateia. Ainda há tempo para Luiz Carlos voltar ao palco e ambos os vocalistas dividirem microfones cantando “Guerreiros de Satã”, do mesmo álbum, saindo do palco ovacionados pelo público, tornando difícil a tarefa do Venom de superar tamanha energia testemunhada neste set de cerca de 40 minutos.
Setlist Vulcano:
“Witch Sabbath”
“Dominios Of Death”
“Spitis Of Evil”
“Holocaust”
“Ready to Explode”
“Incubus”
“Death Metal”
“Bloody Vengeance”
“Total Destruição”
“Guerreiros de Satã”
Então, pontualmente às 20h30, Cronos, La Rage e Dante são apresentados e, após uma “Intro” mecânica com ruídos e urros, entram no palco para reclamarem seu posto de Pais do Black Metal. E fazem isto com maestria, em que pese estar presente naquela noite apenas um dos fundadores desta Instituição Inglesa do Metal.
O som está ensurdecedor de tão alto e o trio começa a sangrar os ouvidos da audiência com “Long Haired Punks” emendada com “The Death Of Rock ‘n’ Roll”, ambas do último álbum da banda, “From The Very Dephts”. Quando vi o set list do show não me agradou o fato de contar com muitas músicas deste play que, confesso, não havia me animado muito, especialmente por conta de sua produção preguiçosa o que se observava também na composição de algumas músicas. No entanto, tenho que admitir que aquela impressão ruim ficou de lado, pois todas elas soaram extremamente bem ao vivo, com o trio demonstrando perfeita coesão nesta altura da turnê, sabendo regular a modulação do baixo e da guitarra para cooperarem plenamente a fim de ocupar todos os espaços sonoros durante a execução das músicas, além da boa ocupação de palco mesmo com apenas dois integrantes se movimentando.
O público está empolgado e claro que responde com mais vibração aos hinos dos anos 80, sendo que o primeiro deles aparece com, “Bloodlust”. Após mais músicas do último álbum, a casa vem abaixo com a execução das primeiras notas de “Buried Alive”, do seminal álbum “Black Metal”. Destaque para o carisma obscuro de Cronos que demonstra elevadas doses de agressividade e sarcasmo, mas também aparenta estar muito feliz por ter sido recebido com a casa cheia e, a todo momento, agradece a presença dos fãs, aproveita para não se desculpar pelos dois últimos cancelamentos de sua vinda ao Brasil, deixando claro que o Venom nunca abandonará seus fãs e que os presentes sabem que existe apenas um Venom verdadeiro: aquele que está ali no palco hoje, sendo ovacionado pelos presentes. (mal sabe ele que o pessoal faz a mesma coisa quando o Venom Inc. pinta por aqui…).
A sequência que quase põe o Carioca Club abaixo é “Welcome to Hell” e “Countess Bathory”, esta última praticamente cantada pelo público que faz coro para simular os arranjos de guitarra e berra o refrão como que possuídos belo baphomet. Com o show chegando ao fim, merece destacar os impagáveis urros de Cronos ao longo de “Warhead” e reconhecer como ficou legal a música “Rise” ao vivo, com La Rage se mostrando um exímio guitarrista, fazendo solos e levadas muito inspirados e bem encaixados na proposta sonora da banda, sem perder sua identidade como guitarrista. Belíssima forma de encerrar a primeira parte do show.
Claro que a experiente banda inglesa soube guardar o melhor para o final e, com o público já fora de controle, executam “Black Metal”, com Dante martelando pesado e a pista se tornando um imenso mosh pit irradiando uma energia brutal que choca com aquela vinda do palco de maneira mágica, tornando aquele momento algo realmente especial para os que estavam ali presentes. A execução de “Witchin Hour” a esta altura serve apenas para que todos possam voltar do transe e agradecer por poderem participar de um evento em que se reverencia as bandas que ajudaram a forjar os estilos musicais que até hoje fazem parte do dia-a-dia dos headbangers espalhados pelo mundo. Portanto, “lay down your souls to the god’s rock ‘n’ roll” e longa vida a Venom e Vulcano!
Setlist Venom:
“Long Haired Punks”
“The Death Of Rock ‘n’ Roll”
“Bloodlust”
“Pedal To The Metal”
“Grinding Teeth”
“Buried Alive”
“The Evil One”
“Welcome To Hell”
“Countess Bathory”
“Warhead”
“Rise”
“Black Metal”
“Witching Hour”
