Ícone do site METAL NA LATA

Vince Neil (Mötley Crüe): 30 anos de “Exposed”

Vince Neil (Mötley Crüe): 30 anos de “Exposed”

Vince Neil – “Exposed” (1993)
Warner Bros.
#MelodicRock #AOR #HardRock

Para fãs de: Motley Crue, Ratt, Steelheart, L.A. Guns

Nota: 9,0

Os anos 80 foram governados pelo Motley Crue com suas turnês emblemáticas, vídeos em constante rotação, singles de sucesso e cinco álbuns multi-platinados. O início da década de 1990 era promissor já que “Decade of Decadence” (1991) ganhou Platina e a banda assinou um contrato multimilionário com a Elektra Records. Parecia que a nova década seria dos Cruez Boyz.

Mas logo depois tudo desandou… A ascenção do Grunge e o barril de pólvora que a situação interna da banda se transformou mostraram que a única saída seria por caminhos separados.

Com sua imagem de bad boy da Califórnia Vince Neil foi um “frontman” dos mais populares e carismáticos nos anos 80 e a mudança musical da nova década não o abalou. Depois de trabalhar com o Damn Yankees (menos Ted Nugent) em “You’re Invited (But Your Friend Can’t Come)” para a trilha sonora de “Encino Man”, era chegada a hora de montar a sua própria banda.

Vince então se juntou ao baixista e produtor britânico Phil Soussan (Ozzy Osbourne, Dio, John Waite, Beggars & Thieves, Last in Line) para escrever, produzir e montar a banda. A formação original incluiria Adrian Vandenberg (Manic Eden, Whitesnake), mas por indicação da gravadora (com quem Vince havia assinado um contrato de quatro milhões de dólares) Steve Stevens (Billy Idol, Adam Bomb, Michael Jackson, Jerusalem Slim, Solo) assumiu as seis cordas. A banda ainda contava com Vik Foxx (Enuff Z’nuff, The Veronicas, Warrant) na bateria. Robbie Buchanan (Michael Bolton, Henry Lee Summer, John Wetton) assumiu os teclados.

Depois de Phil Soussan sair da banda Steve Stevens gravou todas as guitarras e linhas de baixo. Para a turnê Robbie Crane (Ratt, Adler’s Appetite, Love Hate, Lynch Mob), que seria o segundo guitarrista, assumiu o baixo e Dave Marshall (Fiona, PairADice, Slaughter, Mitch Malloy) foi recrutado como segundo guitarrista.

Mas por que Phil Soussan saiu da banda se o projeto começou com ele e Vince Neil? Ele explica: “Eu montei todo o projeto junto com Vince e começamos a escrever as músicas. Muitas delas eram sobras do que eu estava escrevendo para Ozzy antes de sair. Então, quando você ouve “The Edge” é “S.A.T.O.”, “Look In Her Eyes” é como “Bark At The Moon”. É possível perceber que são faixas equivalentes. O lamentável foi Steve Stevens acabar sendo, você sabe, uma “cobra na grama”. Não sei quais eram seus problemas pessoais, mas ele entrou no projeto e, uma vez lá, ele planejava escrever todas as músicas e tocar baixo. E eu disse: “Não, não é assim que vai funcionar. Vai funcionar como uma banda”. Ele disse: “Bem, é assim que eu faço com Billy Idol”. Eu disse, “Ok, mas esse é o Billy Idol e não Vince Neil”.

Então ele começou um processo de manipulação. Não é um cara agradável. Não sei até hoje porque ele fez isso” – e continuou – “Tivemos tantos problemas… O gerente, que estava mantendo Vince e todos juntos, tinha acabado de falecer (Bruce Bird) e tudo começou a desmoronar. Um dia meu empresário me ligou e disse: “Você precisa saber que Steve Stevens não apenas colocou o nome dele em algumas de suas músicas, mas ele cortou você”. Eu entrei com uma liminar na Warner Brothers. Ele não tinha nenhuma evidência para apoiar sua afirmação. Tínhamos tudo: demos, letras, fitas gravadas anteriores a ele estar na banda e ele não tinha como comprovar nada.

Apesar de ter funcionado, infelizmente, se você olhar nos créditos do álbum, o nome dele está em várias músicas, mesmo que não tenha participado. Não há nada que eu possa fazer”.

Apesar desses problemas, Vince estava muito animado e motivado para provar que todos na indústria da música estavam errados, principalmente seus ex-companheiros de banda. “Exposed” foi lançado em 27/04/1993, gravado no The Record Plant and the Rumbo Recorders, mixado por Chris Lord-Alge e produzido por Ron Nevison (Ozzy Osbourne, Michael Schenker Group, Led Zeppelin, Bad Company, UFO), estreiando como #13 nas paradas da Billboard e, apesar de mostrar que Vince poderia andar com as próprias pernas, não foi o sucesso comercial que ele imaginava, já que o momento musical nos EUA era outro.

Com músicas escritas em parceria entre Neil, Stevens, Blades, Shaw e Soussan, “Exposed” continua exatamente do lugar que “Dr. Feelgood” parou. Baseado em músicas cheias de energia, calcadas em riffs e um som poderoso ele teve quatro singles: a bombástica “Sister Of Pain” mantendo a chama ardente do antigo Motley, a balada “Can’t Change Me”, o divertido e escorregadio rock de “Can’t Have Your Cake” (com seu riff a la “Kickstart My Heart”) e a explosão de adrenalina com um refrão matador de “You’re Invited (But You’re Friend Can’t Come)” em uma versão com mais guitarras do que a originalmente gravada para a trilha sonora.

Mas não para por aí. Temos a esplêndida e épica “Look In Her Eyes” e seu solo explosivo, impulsionada por Vik Foxx e o incrível Steve Stevens, a vibe noir e a guitarra jazzística de “Living is a Luxury”, a divertidíssima “Fine, Fine Wine”, o groove carregado e contagiante de “The Edge” (com uma absurda introdução de flamenco de Steve Stevens) e “Forever” que se fosse lançada anos antes seria #1 em qualquer estação americana de rádio. Alias, se o álbum tivesse sido lançado três anos antes com certeza teria um resultado bem melhor do que o alcançado.

Por “falar” em Steve Stevens, apesar dos problemas citados por Soussan, o trabalho dele é algo tão fora da curva que em alguns momentos eclipsa o próprio Vince Neil. Seja nos solos devastadores, riffs monstruosos, dedilhados arrepiantes… o que esse cara cria e toca é completamente absurdo e incrível. Em alguns momentos, da forma que ele toma o álbum de assalto, parece ser um trabalho solo dele com um vocalista convidado, enquanto, na verdade, é um álbum solo do Vince Neil com um guitarrista convidado. Difícil separar os dois nesse trabalho.

Sobre o álbum Stevens disse ao Metal Babe em 2015: “Eu estava morando em Nova York na época e nunca tinha trabalhado com um artista de Los Angeles, especialmente um que veio da cena musical da Sunset Strip. Vince era tudo o que se podia pensar dele. Tínhamos uma equipe muito boa. Ron Nevison, um dos grandes produtores de discos dos anos 80 e 90, produziu o disco. Fazer este álbum foi uma mudança real para mim, porque com Billy Idol, é tudo sobre tocar economicamente. Eu me lembro quando estávamos começando a montar as músicas para o disco e Vince dizia: “Faça o solo duas vezes mais longo e toque mais rápido”. Acho que o som da guitarra nesse disco é muito bom e estou muito orgulhoso dele. Foi uma ótima experiência”.

E continua: “Acho que as pessoas apreciam mais o disco agora do que quando foi lançado, porque foi exatamente quando o grunge chegou. As gravadoras, embora gastassem muito dinheiro em eventos de autógrafos e promovendo o disco, estavam sempre procurando o próximo Nirvana, Pearl Jam… Eu falei para eles: “Vocês contratam o Vince Neil, um cara que representa tudo sobre a devassidão de Hollywood, é disso que se trata o Mötley Crüe, e você quer usar uma camisa de flanela? Isso não faz sentido!”.

Sobre a turnê com o Van Halen, Stevens explica: “Sabíamos que abriríamos para o Van Halen antes de terminarmos o álbum e como Eddie é um amigo meu essa parte da turnê foi simplesmente fantástica. Foi um verdadeiro desafio tocar na frente de uma platéia do Van Halen por seis semanas, porque se você for um merda, o público perceberá.

Apesar disso, Steve Stevens não ficou muito tempo na banda, como ele mesmo explicou: “Assim que terminamos a turnê foi muito difícil até mesmo para alguém que tinha um público como Vince. Se você é o Van Halen, você é imune a isso, não importa, mas uma vez que terminamos a turnê e estávamos sendo contratados para tocar em clubes e locais menores eu meio que disse: “Preciso reavaliar o que estou fazendo”. Isso me deu o impulso para fazer meu álbum “Flamenco” porque eu realmente não sabia para onde o rock estava indo e era o momento de voltar às minhas raízes”. Não apenas Steve Stevens saiu, como a banda implodiu por problemas internos.

“Exposed” não faz prisioneiros e é um tesouro perdido do estilo, mesmo com suas letras clichês sobre garotas, festas, sexo, drogas e rock ‘n’ roll. Mas era exatamente isso que se esperava de Vince Neil, certo? Ou será que alguém imaginava que seria um álbum a la Dream Theater?

Infelizmente a era das flanelas e depressão fez com que o álbum ficasse fora de lugar como “café sem açúcar e dança sem par”. Mesmo assim, é preciso “dizer” que Vince Neil não se vendeu (diferentemente do “Carved In Stone”) e foi sincero. Esse é um dos maiores trunfos do álbum.

Obrigatório para qualquer fã do estilo!

João Paulo Gomes

Sair da versão mobile