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Whitesnake e os 35 anos do álbum “1987”

WHITESNAKE E OS 35 ANOS DO ÁLBUM “1987”

Texto por João Paulo Gomes
Fotos divulgação

1987 foi um ano de mudanças no mundo todo com muita inovação e, infelizmente, desastres também. Alguns exemplos, como o acidente do Césio 137 em Goiânia, a criação da “glasnost” e da “perestroika”, o “Herald of Free Enterprise” que naufragou no Canal da Mancha que também viu o início da obra de seu incrível túnel, os Simpsons estrearam na TV, tivemos também o presidente Reagan fazendo seu famoso discurso no Muro de Berlim… todos esses acontecimentos refletem a profusão de acontecimentos que foi 1987.

Na música, o Guns ‘N’ Roses mostrou seu “Appetite for Destruction”, o Aerosmith saiu em “Permanent Vacation”, o Def Leppard criou uma “Hysteria” e o Prince anunciou o “Sign O’ The Times”.

Foi também o ano em que David Coverdale reformulou e renovou completamente o Whitesnake.

Sempre que se fala sobre a instituição Whitesnake é importante olhar primeiro para o passado para podermos compreender melhor os acontecimentos.

Após o lançamento de “Slide It In” em 1984, o produtor Keith Olsen (1945-2020), por ordem de John Kalodner, ficou encarregado de remixar totalmente o álbum e alterar a ordem de execução das músicas para o lançamento em terras americanas, que sempre povoaram os sonhos de conquista de Coverdale.

Em 2013, reencontrando Coverdale, Olsen recordou: “Naquela época tínhamos que estabelecer uma ordem de sequência para as músicas no álbum e o Sr. Kalodner disse: “Eu sei qual vai ser a ordem”. Coverdale interrompeu: “Sem qualquer discussão comigo! Ele bateu o pé com o que ele achava que eram as grandes faixas para as rádios” – para logo depois admitir – “mas, vocês estavam certos!”.

Coverdale continua: “A primeira vez que ouvi o álbum no rádio, eu estava com Powell no carro e ficamos de boca aberta! Eu disse a Cozy: “Realmente é possível ensinar um truque novo para uma cobra velha”. E isso foi o começo do meu envolvimento com a compressão”.

Para esse lançamento americano a banda era formada por: David Coverdale (vocais, ex-Deep Purple), John Sykes (guitarra, ex-Thin Lizzy, ex-Tygers Of Pan Tang), Neil Murray (baixo), Mel Galley (guitarra, ex-Trapeze), Cozy Powell (bateria, ex-Rainbow, ex-Black Sabbath, ex-Michael Schenker Group) e Jon Lord (teclados, Deep Purple). Vale ressaltar que Sykes e Murray regravaram algumas partes da versão original do álbum.

Desde que se conheceram em 1984, Coverdale e Kalodner queriam colocar o Whitesnake no topo da música mundial. Depois de seis álbuns bebendo na fonte do Blues, era preciso uma mudança musical e visual para conquistar o mercado americano (e por que não o mundo?) e Kalodner era o homem certo para isso.

Mas antes do próximo passo era preciso lidar com a formação da banda (Powell saiu para formar o Emerson, Lake & Powell, Lord retornou para o Deep Purple e Galley sofreu um acidente na turnê anterior).

Essa instabilidade na formação poderia contribuir para que o novo álbum, ainda em seu período de gestação, fosse um total fracasso. Mas, felizmente, não foi o que aconteceu.

Para a bateria, Aynsley Dunbar foi o escolhido. Ela era um dos principais bateristas do blues inglês no final dos anos 60 e desde então tocou com muita gente, como o Mothers of Invention de Frank Zappa, o Journey, Jefferson Starship, David Bowie, John Mayall & The Bluesbreakers e vários outros artistas.

Para a guitarra John Sykes foi mantido. O jovem e espetacular guitarrista da última encarnação do Thin Lizzy agora deveria ajudar a guiar a banda por esse novo som, já que não haveria um segundo guitarrista. No baixo o membro original Neil Murray, que se ausentou por um pequeno período, também foi mantido e para os teclados Don Ayrey foi convidado.

Todas essas mudanças com certeza afetariam não apenas o som, mas as características da banda já que até o logotipo foi alterado. Em uma entrevista no site do Whitesnake, Coverdale explicou o quanto o novo logotipo significava uma ruptura com o passado: “Era para ser um novo começo. Trabalhei com um bom artista de design gráfico chamado Hugh Syme, um cara canadense. Muito talentoso. Nós nos conectamos em um nível muito positivo e criativo. Discuti com ele todos os elementos que queria ter na apresentação, um novo logotipo, um emblema, um amuleto celta, estilo rúnico que parecia antigo, como se estivesse aqui desde sempre, mas ainda mantinha um poder imenso. Todos os símbolos dentro do emblema representam apenas energias positivas: Sol, Lua, fertilidade e um pouco de “Humpty Dumpty” também. Repare nas cobras entrelaçadas. Elas estão se conhecendo! Mas, sem pontos negativos, sem bobagens de magia negra”.

Então, em 1985, Coverdale e Sykes viajaram ao Sul da França para se dedicarem exclusivamente à criação das canções.

Como disse Sykes para a Classic Rock: “Na época, eu tinha uma noção real de onde eu achava que o Whitesnake deveria ir musicalmente. Nós apoiamos o Dio na turnê “Slide It In” e eu adorava o que Ronnie estava fazendo com sua banda. Era muito pesado, mas tinha um ótimo groove. Isso me lembrou como era a primeira banda solo de Ozzy, com Randy Rhoads na guitarra, Lee Kerslake na bateria e Bob Daisley no baixo. Eu tinha ido vê-los tocar no Newcastle City Hall em sua primeira turnê em 1980 e fiquei impressionado com o que eles estavam fazendo. Foi realmente inspirador. O mesmo aconteceu com o Van Halen. Todas essas coisas me deram a visão de onde eu achava que deveríamos ir sonoramente – criando um som de guitarra moderno e ousado com melodia, finesse e direção”.

Com as músicas escritas eles partem para o Little Mountain Studios, em Vancouver, uma das fábricas de sucesso do Hard Rock dos anos 80, para trabalhar com o produtor Mike Stone. Mas o processo de gravação teve diversos percalços, tais como: a demora de Sykes em achar o timbre desejado (Bob Rock foi chamado para ajuda-lo), as mudanças de estúdio, o estouro no orçamento e principalmente o afastamento de Coverdale das gravações por oito meses: “Eu tive uma terrível infecção sinusal e isso custou toda a minha habilidade vocal” – disse ele ao Headbangers Ball – “Precisei fazer uma cirurgia e disse aos membros do grupo que não havia garantia de que eu recuperaria minha voz. Sugeri que eles encontrassem outra banda”.

Tudo isso gerou uma série de preocupações em Mike Stone, John Kalodner e os membros da banda. Inclusive gerando a lenda de que Sykes sugeriu um novo vocalista, o que foi totalmente desmentido por ele para a Classic Rock em 2017: “Agora quero corrigir um boato que sei que existe há muito tempo. Dizem que quando David estava com problemas, fui à Geffen e pedi que trouxessem outro cantor para substituí-lo no Whitesnake. Isso não existe. Como diabos você poderia ter alguém à frente do Whitesnake além de David Coverdale?”.

Depois de todas as idas e vindas, Keith Olsen foi chamado para produzir os vocais. Ele e Coverdale foram para Los Angeles e finalmente os vocais do álbum foram gravados.

Além disso tudo, conforme os músicos finalizavam sua participação no álbum eram demitidos da banda gerando uma tremenda insatisfação (Sykes e Coverdale quase chegaram as vias de fato).

Com todos esses problemas na bagagem, o lendário autointitulado álbum ou “1987” e até mesmo “Serpens Albus” para o Japão, vê a luz do dia em 07/04/1987 nos EUA pela Geffen (Na Europa em 31/03 pela EMI e no Japão em 22/04 pela CBS/Sony). Produzido por Mike Stone e Keith Olsen o álbum deixa o Blues Rock e o Classic Rock para trás e coloca a banda no panteão da era do Hard Rock na MTV ao lado de “Hysteria” do Def Leppard, “Slippery When Wet” do Bon Jovi e “Appetite For Destruction” do Guns ‘N’ Roses. Uma indiscutível obra-prima que ajudou a criar mais uma página na história do Rock And Roll e subjulgou o mundo.

Com canções que se enraizam no DNA do ouvinte, o álbum alcançou #1 na “US Cash Box”, #2 na “Billboard 200 Chart” e na “New Zealand Albums Chart”, #3 na “Finnish Albums Chart”, #5 na “RPM100 Albums”, #8 na “UK Albums Chart” e “Swedish Albums Chart”, #10 na “Swiss Albums Top 100” e “Norwegian Albums Chart”, #13 “German Albums Chart”, #19 na “Japanese Oricon LP Chart”. Como se não bastasse tudo isso ele foi certificado 8X Platina (EUA), 5X Platina (Canadá), 1X Platina (Itália e UK), 1X Ouro (Alemanha, Suiça e Suécia) e ocupou a #12 na “US50 Greatest Metal Albums Of All Time” da Rolling Stones e na “Top 30 Hard Metal Albums” da Loudwire, #15 na “Top 20 Metal Albums Of The Eighties” da Guitar World e #17 na “The Better 50 Glam Metal Albums” da Metal Rules. UFA!!

Seu sucesso foi tão avassalador que até o “Slide It In” colheu frutos ao se transformar em platina dupla, além da banda receber uma indicação para o Brit Award de Melhor Grupo Britânico em 1988.

Mas vamos às músicas…

O Whitesnake nunca havia sido tão agressivo antes do avassalador tornado chamado “Still Of The Night”. Um novo e faminto Whitesnake surgia! Segundo Coverdale ela foi baseada em uma antiga demo dos dias do Purple, mas foi preciso John Sykes para transformá-la nesse indiscutível clássico. Como ele disse para a Classic Rock: “Uma das primeiras músicas que trabalhamos foi “Still Of The Night”. Eu já tinha a parte do meio organizada, aquela que é como “No Quarter” do Led Zeppelin. Inventei isso na casa da minha mãe. Fiquei tão empolgado quando terminei que corri para a cozinha para tocar para ela. Ela estava totalmente imperturbável e apenas disse “Muito bom, querido. Agora você gostaria de uma xícara de chá?”.

Essa bombástica canção é uma das melhores aberturas de um álbum em todos os tempos. Com seu riff fantástico, melodias colossais e vocais absurdos, ela é um vislumbre ao ouvinte do que viria pela frente nos próximos 50 e poucos minutos. A cereja do bolo é a seção intermediária com seus sintetizadores. Atmosférica ao extremo ela traz um crescendo alucinante que culmina quase em um orgasmo musical. Arrepiante! Épica!

Coverdale disse ao “In the Studio With Redbeard” em 2017: “Cantei a música apenas duas vezes e é isso que está no disco”. “Still of the Night” alcançou #16 na “UK Singles Chart”, #18 na “Mainstream Rock” e #79 na “Billboard Hot 100”, iniciando a escalada dos singles do álbum.

Esse foi o cartão de visitas sem precedentes de Coverdale e Sykes. Aliás a parceria dos dois foi fundamental para o que a banda se tornou.

Enquanto Coverdale com uma das maiores vozes do rock de sua geração faz praticamente o que quiser: soar romântico, alcançar notas estratosféricas ou lamentos emocionantes, Sykes, com riffs poderosos e solos animalescos, cria um trabalho genuinamente fantástico dominando o álbum de tal forma que em diversos momentos ele empalidece os outros instrumentos, apesar de Dunbar e Murray desempenharem um papel fundamental no álbum.

Mas voltemos às músicas…

“Bad Boys” mantém o álbum a todo vapor. Um frenesi musical feroz que atinge o ouvinte com um direto no queixo. A energia da banda, além de incansável, é quase palpável.

Sem deixar a “peteca cair”, “Give Me All Your Love” alcança o #18 na “UK Singles Chart”, #22 na “Mainstream Rock” e #48 na “Billboard Hot 100”, mas deveria ter sido mais reconhecida. Com um irresistível refrão e um trabalho de guitarra admirável, esta é uma canção estrondosa.

Quase exausto e sem fôlego com esse começo implacável, o ouvinte tem um certo descanso em “Looking For Love” que junto com “Is This Love” domina a parte romântica do álbum. Enquanto a primeira, que não consta na versão americana da época, é uma balada incrível e emocionante, muito devido a perfeita interpretação vocal de Coverdale, a segunda, originalmente escrita para Tina Turner, e graças a insistência de John Kalodner isso não aconteceu, rompeu a barreira entre o rock e o pop alcançando milhões de pessoas por todo o mundo e chegando a #2 na “Billboard Hot 100”, #9 na “UK Singles Chart”, #11 na “RPM100 Singles”, #12 na “Australian Singles” e #13 na “Mainstream Rock”. Melodia, instrumental e produção elevam a música à enésima potência, mas são os vocais de Coverdale (um show à parte!) e Sykes com um solo requintado e contido, mas capaz de transmitir emoção ao extremo, que a fizeram irresistível e relevante até hoje.

Mas a versão que conhecemos só existiu por causa de Keith Olsen, pelo menos foi o que disse John Sykes para a Classic Rock em 2017: “Eu já tinha todo o meu trabalho pronto antes de David e Keith começarem nos vocais. Mas Keith limpou todas as partes da guitarra da fita para ganhar algum espaço extra para David e não tive escolha a não ser ir ao Townhouse Studios em Londres e refazer as guitarras”.

Por falar em “refazer”, a banda refez duas músicas originalmente lançadas no “Saints & Sinners” (82): “Crying In The Rain” e “Here I Go Again”. John Kalodner queria utilizá-las para o mercado americano (por isso “Crying In The Rain” substituiu “Looking For Love” na versão americana da época) e acertou em cheio ao apostar em Sykes para recriá-las com maestria. As duas foram anabolizadas com muita energia. “Crying in The Rain” deixou de ser melancólica para ser uma explosão da nova essência da banda com um solo de guitarra alucinante, que arrepia até hoje em dia, e “Here I Go Again” ganhou sintetizadores e uma simples alteração na letra, sem perder essência e estrutura.

Junte-se a isso uma produção bombástica, os inacreditáveis vocais de Coverdale, guitarras arrepiantes (Adrian Vandenberg gravou o solo), e temos uma das canções mais atemporais da banda e da década. Icônica e bombando na MTV ela foi #1 na “Billboard Hot 100” e na “RPM100 Singles”, #4 na “Mainstream Rock” e #9 na “UK Singles Chart”.

Só um adendo: a MTV ajudou muito a impulsionar o álbum com seus videoclipes com participação da modelo Tawny Kitaen (1961-2021), esposa de Coverdale até 1991, e já com a nova formação da banda com Adrian Vandenberg e Vivian Campbell (guitarras), Rudy Sarzo (baixo) e Tommy Aldridge (bateria).

Mas voltando às músicas novamente…

O álbum volta a acelerar com “Children Of The Night” e suas guitarras colossais, “Straight For The Heart” e seu refrão pegajoso, “You’re Gonna Break My Heart Again” no mesmo estilo de “Bad Boys” e “Children of the Night” e volta a acalmar com “Don’t Turn Away” que, mesmo sem a força de outros momentos do álbum, ainda é capaz de cativar.

Apesar das diferenças em relação ao sequenciamento e inclusão de faixas extras, de acordo com o País do lançamento, esta é uma obra-prima impressionante que adiciona melodia, paixão e energia à uma produção que, além de ser incrível, molda o rock clássico às ideias de Coverdale e Sykes.

Infelizmente, a relação entre eles foi turbulenta e durou um curto espaço de tempo, como disse Sykes para a Classic Rock: “Estou obviamente orgulhoso do que fizemos juntos no álbum do Whitesnake. Eu acreditava que era o começo de um grande relacionamento entre nós. Eu sei que poderíamos ter conseguido muito mais. Mas no final das contas eu tenho que lidar com a frustração de saber que aquele álbum foi o começo e o fim do nosso relacionamento”.

1987 pode ter sido um ano de desastre, inovação e mudança, mas foi um ótimo ano, não apenas para o Whitesnake, mas para nós que tivemos o privilégio de assistir o nascimento de um álbum que não apenas resistiu ao teste do tempo, já se vão trinta e cinco anos, como também se tornou uma das pedras angulares da banda, do estilo e de uma época.

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