Xentrix – “Allied with the Enemy” (2026)
Listenable Records
#ThrashMetal
Para fãs de: Testament, Exodus, Heathen, Flotsam And Jetsam
Texto por: Johnny Z.
Nota: 9,0
O Xentrix faz parte daquela geração de bandas britânicas que ajudaram a manter o thrash metal em alta nos anos 80, mas nunca alcançaram o mesmo reconhecimento de muitos contemporâneos americanos. Uma pena, porque discos como Shattered Existence (1989) e For Whose Advantage? (1990) mostram que os ingleses tinham muito a oferecer. Décadas depois, a banda continua na ativa e, pelo visto, não está disposta a aliviar o peso.
“Allied With the Enemy” é o terceiro álbum desde a retomada das atividades, em 2013, e chega com uma formação que parece ter encontrado o ponto certo para essa nova fase. Pesadíssima e poderosa, a banda não dá muitas chances para o ouvinte respirar. O Xentrix já conhece bem o terreno em que pisa; a questão agora é saber até onde consegue levar sua sonoridade. E a resposta, felizmente, é um sonoro S-I-M!
“Rip Saw” abre os trabalhos com riffs palhetados, mudanças de andamento e uma bateria que não deixa a peteca cair. A referência a Testament e Exodus aparece naturalmente, mas o Xentrix tem sua própria maneira de organizar as ideias. Não é só uma questão de tocar rápido: os riffs têm peso, as viradas fazem sentido e as guitarras conduzem a música sem deixar tudo virar uma disputa de velocidade. É daquelas faixas para ouvir alto, de preferência em boas caixas de som ou com um headphone daqueles grandões mesmo.
A faixa-título mantém a pressão. “Allied With the Enemy” aposta em riffs encorpados e passagens que reforçam o lado mais pesado da banda. A velocidade não é o único recurso disponível, e isso fica evidente na maneira como os músicos alternam os ataques. O resultado tem impacto sem depender de uma sucessão interminável de notas.
“Killer Unknown” e “On Burned Remains” aceleram novamente. Aqui, o Xentrix deixa a influência de sua fase clássica falar mais alto, mas sem aquela sensação de que os músicos estão tentando reproduzir os primeiros discos nota por nota. O som está mais encorpado, a execução é precisa e a agressividade ganha outra dimensão. É o tipo de thrash que funciona tanto pela velocidade quanto pela força dos riffs.
“Nil By Mouth” chega como um dos momentos mais diretos do repertório. As guitarras atacam sem cerimônia, e as mudanças de andamento ajudam a manter a música em movimento. Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o quanto essa formação consegue ser agressiva, a faixa resolve a questão na base da pancadaria.
Já “Doomsday Hook” trabalha com outra dinâmica. Em vez de apostar apenas na aceleração, a banda explora passagens mais melódicas e dá às guitarras espaço para desenvolver os riffs. A mudança ajuda a quebrar a sequência de ataques e mostra que o álbum funciona melhor justamente por não insistir na mesma fórmula durante todo o tempo.
“The Dark Eternal” segue por um caminho mais cadenciado e sombrio. O andamento dá outra dimensão ao peso das guitarras, enquanto a música ganha força sem precisar disputar o posto de mais rápida do disco. É uma escolha que favorece o conjunto e evita que a audição se transforme em uma sequência previsível de faixas aceleradas.
E aqui vai uma confissão: sei que há quem se canse de um álbum de thrash quando as músicas seguem caminhos parecidos, mas comigo essa história não funciona muito bem, ha ha ha! Ainda assim, a variação presente em “Allied With the Enemy” ajuda a manter a atenção. O Xentrix sabe quando acelerar e quando deixar os riffs sustentarem a música. Não precisa inventar moda para mostrar que entende do assunto.
A produção de Andy Sneap também merece atenção — para variar, ele está envolvido em mais um trabalho pesado! As guitarras têm presença, a bateria bate forte e o baixo não some completamente em meio à massa sonora. Tudo está bem definido, mas sem tirar do álbum aquela aspereza que combina tanto com o thrash do final dos anos 80 e início dos 90. A diferença é que, aqui, a pancadaria vem regada a nitroglicerina 2026 pura!
Nas letras, o Xentrix aborda desinformação, manipulação, conflitos e o comportamento humano diante de uma sociedade cada vez mais difícil de compreender. Os temas combinam com a agressividade do repertório, mas não precisam ser tratados como discursos grandiosos. A música já carrega boa parte dessa tensão, e os riffs fazem o restante do serviço com verdadeiros socos na cara do ouvinte.
Na segunda metade, “Where the Madness Lies”, “Snake in Waiting” e “No Bridges Left to Burn” mantêm o nível. A primeira funciona como uma passagem mais curta antes de o álbum voltar a ganhar corpo, enquanto as duas seguintes preservam a pegada pesada que domina o trabalho. Não há uma queda brusca de rendimento, e isso conta pontos em um disco que aposta tanto na força do conjunto.
É inevitável comparar o resultado com os primeiros trabalhos do Xentrix. Shattered Existence e For Whose Advantage? continuam sendo referências importantes, mas não faz sentido cobrar que a banda volte exatamente àquele momento. Aliás, desde o retorno, o grupo me soa muito mais próximo de um Testament ainda mais pesado do que do Metallica dos anos 80, o que tanto falavam na época. E isso não é uma crítica. Muito pelo contrário.
“Allied With the Enemy” dá sequência ao caminho traçado por Bury the Pain (2019) e Seven Words (2022), onde a banda aumentou a dose de peso e agressividade. Ao mesmo tempo, e ainda bem, passa bem longe da direção que marcou o pavoroso Kin (1992) e do caminho bastante diferente de Scourge (1996). O Xentrix atual sabe o que quer fazer e não parece nada interessado em viver do passado.
O resultado é um álbum que respeita a história da banda sem ficar preso a ela. Não há necessidade de reinventar o thrash metal, muito menos de reproduzir os discos antigos para agradar aos fãs de longa data. O que temos aqui é uma formação afiada, riffs fortes e uma sonoridade que parece ter encontrado seu ponto de equilíbrio — embora o peso tenha aumentado brutal e consideravelmente.
O thrash britânico nem sempre recebe a atenção que merece, especialmente quando comparado à cena americana. O Xentrix, porém, continua mostrando que há muito a ser explorado desse lado do Atlântico. Para quem acompanha a banda desde os primeiros discos, “Allied With the Enemy” representa mais um capítulo digno dessa trajetória. Para quem ainda não deu a devida atenção aos ingleses, fica a oportunidade de corrigir essa injustiça.
Não precisa ser revolucionário. Precisa ter personalidade, riffs que funcionem e vontade de fazer barulho. E nisso o Xentrix entrega o que promete com folga!
Para terminar: Chris Astley, vocalista e guitarrista base da formação original, faz falta? Com todo o respeito: NÃO! Jay Walsh caiu como uma luva!!!
Alô, produtores! Tragam esses caras para cá!

