
ENTREVISTA COM DIVA SATANICA (NERVOSA)
A cena metálica foi pega de surpresa com as recentes notícias sobre a debandada de Luana e Fernanda da Nervosa, especialmente porque a banda vivia um ótimo momento de sua carreira, tornando-se uma das mais importantes representantes da música extrema brasileira ao redor do mundo. Muitos chegaram, inclusive, a cogitar um possível encerramento das atividades da Nervosa, o que seria uma perda irreparável para os fãs. No entanto, felizmente, o futuro indica que teremos boas novidades vindas tanto das ex-integrantes da banda como da própria banda, que já anunciou sua nova formação, entre elas a nomeação de Diva Satanica para o cargo de vocalista. Foi justamente com a Diva Satanica que tivemos a oportunidade de conversar recentemente, não apenas sobre sua admissão na Nervosa, mas também sobre sua banda de origem, Bloodhunter, iniciação musical e a visão da cantora – que também já foi modelo alternativa, é instrutora de canto e enfermeira psiquiátrica – sobre os dias sombrios que estamos vivendo.
Por William Ribas
Fotos Facebook da artista/Facebook Nervosa/Autores desconhecidos/Autores citados nas fotos

Metal Na Lata: Nos últimos dias foi anunciada sua entrada na banda Nervosa. Por conta da pandemia você e a Prika não puderam se encontrar num mesmo espaço. Como foi feito o teste para a sua entrada na banda?
Diva Satanica: Bem, nós nos encontramos pessoalmente no último verão quando minha banda, Bloodhunter abriu para o Nervosa durante a tour espanhola delas, ela pôde ver presencialmente como nós trabalhávamos e provavelmente esta foi uma das razões para me perguntar se eu gostaria de mandar meu teste. Quando a Fernanda e a Luana comunicaram a ela a decisão de deixarem a banda, ela começou a procurar por outros músicos para completar a formação. Ela me mandou uma mensagem e eu comecei a preparar meu teste, e aqui estou eu! Ainda não consigo acreditar a sorte que eu tive!
Metal Na Lata: Passado o teste e as conversas, qual foi sua primeira reação ao receber o convite para ser a nova vocalista da banda?
Diva Satanica: Eu não estava certa de que seria a escolhida, porque há muitas pessoas sonhando em ter uma chance como essa. Imagine a quantidade de pessoas que entraram em contato com a Prika enviando testes… eu ainda estou assimilando o grande impacto que isso trará para a minha vida.
Metal Na Lata: Ouvindo o Bloodhunter temos a percepção de você vir de uma escola mais extrema, algo mais ligado ao Death/Black Metal. Você cantará de uma forma diferente para se encaixar dentro do Thrash Metal da Nervosa ou quem sabe mesclar algo mais rasgado com o seu habitual gutural?
Diva Satanica: Esta é uma excelente pergunta, por sinal! Sim, meu principal registro é urrando, mas eu tenho ensinado canto em Metal Extremo desde 2015 e isso me fez aprender muitas técnicas diferentes. Eu acho que podemos encontrar o balanço entre minha identidade como vocalista e o que a Nervosa e os fãs precisam.
Metal Na Lata: O seu contato com a banda brasileira não é novo como você citou. Voltando no tempo, o que mais te chamou a atenção ao vê-las no palco? Quais são suas músicas preferidas? Existe alguma que esteja bem animada para cantar e ver como ficará na sua voz?
Diva Satanica: Eu sou uma grande fã de Nervosa. Eu as vi tocando muitas vezes até mesmo antes disso. Mas, sim, é bem diferente quando você divide o palco com alguém. Eu realmente sinto admiração por todas elas porque não é fácil obter sucesso hoje em dia na indústria. Há muitas músicas que eu gosto, mas “Death!”, “Kill The Silence”, “Intolerance Means War” e “Into Moshpit” são as minhas favoritas.

Metal Na Lata: Você vem de uma região da Espanha que traz uma mistura de espanhol com português. A Nervosa tem a tradição de sempre ter uma faixa em português, ou seja, você já tem uma facilidade para a língua, mas por conta da entrada na banda pretende estudar um pouco mais o português?
Diva Satanica: Claro! A Prika está me ajudando muito com isso e estamos tentando falar português para eu aprender mais rápido. É completamente diferente de aprender letras de música … eu falo quatro línguas diferentes, então eu acho que darei conta do recado (risos).
Metal Na Lata: Mesmo que estejamos vivendo tempos de confinamentos, eu acredito que vocês já começaram a trabalhar em novas músicas. A internet também facilita as trocas de arquivos. Como está essa parte de composições?
Diva Satanica: Há muitas bandas que trabalham desta forma porque atualmente não é tão difícil quanto já foi no passado. Nós temos mídias sociais e diversas plataformas diferentes para mantermos contato e compartilharmos nossas coisas. Bandas como Gojira, Aborted… todos eles vivem em países diferentes ou até mesmo continentes diversos! Há várias formas de se trabalhar em material novo: você pode começar escrevendo as letras e então adicionar a parte instrumental, ou vice-versa. Depende da inspiração, eu acho!
Metal Na Lata: Saindo um pouco da Nervosa. Queria voltar para o seu início, a juventude. Como o Heavy Metal entrou na sua vida?
Diva Satanica: Bem, eu nunca tive uma prima ou alguém próximo na família que gostasse de Metal de maneira alguma, mas quando eu era adolescente eu descobri Bon Jovi graças a um show de talentos chamado “Operacíon Triunfo” aonde uma garota cantou “Livin’ On A Prayer” e eu achei aquilo absolutamente fantástico. Eu comecei a pesquisar por minha própria conta e comecei a ouvir bandas como Guns N’ Roses, Led Zeppelin, The Black Crowes…até conhecer estilos mais pesados como Grunge, Thrash e Extreme Metal. Eu também comecei a ir a shows com amigos e isso tornou meu interesse na cena ainda maior.

Metal Na Lata: Quem é a sua principal referência, aquela que fez você querer ser musicista e ir para o vocal extremo?
Diva Satanica: Eu não me lembro exatamente qual foi o músico, porque houve muitas pessoas que me inspiraram de diferentes gêneros. Eu comecei a praticar vocais guturais com bandas como Eths ou Arch Enemy, mas talvez Tristessa, do Astarte, seja a pessoa que mais teve impacto profundo em mim. Ela foi a primeira mulher a criar a primeira banda de Black Metal formada apenas por mulheres e isso me chamou a atenção. Eu tive a oportunidade de falar com ela há alguns anos antes dela ficar doente e ela é um ser humano tão bonito que provavelmente aumentou minha admiração por ela.
Metal Na Lata: O Bloodhunter tem 12 anos de fundação. Você entrou em 2012, gravou os dois álbuns de estúdio “Bloodhunter” (2014) e “The End of Faith”. Agora com sua entrada na Nervosa, como fica a banda?
Diva Satanica: O Bloodhunter começou como projeto solo de nosso guitarrista e membro fundador Dani Arcos, em 2008. Como você disse, apenas em 2012 eu me juntei à banda e nós gravamos nossa primeira demo, em 2013, para procurar por outros músicos para completar a formação. Foi uma longa estrada percorrida, pois não conseguíamos encontrar nenhum músico em nossa cidade natal (La Coruña) e nós tivemos diversas mudanças de formação nos anos seguintes, mas esta foi a principal motivação para continuar trabalhando juntos mais pesado do que nunca. Nós estamos esperando para entrar no estúdio para gravar nosso terceiro álbum, quando toda essa situação terminar. Nós temos alguns shows planejados para 2020 em festivais espanhóis como Zlive! e Resurrection Fest, mas não sabemos o que vai acontecer agora.
Metal Na Lata: Lendo sobre você vi que você estudou enfermagem e se especializou em saúde mental. Olhando para esse caos que estamos vivendo, tendo vários colegas seus de profissão sofrendo com a pandemia, ficando doentes e infelizmente indo a óbito, qual é o seu sentimento em meio a tudo isso e infelizmente ver pessoas debochando enquanto vamos contando os corpos?
Diva Satanica: A Espanha é diferente …você sabe? Estamos acostumados a ver a zombaria generalizada sobre tudo isso e este fato não é mais uma surpresa para mim. Trabalhar com psiquiatria por quase 10 anos me fez perceber o quão mal as pessoas podem se sentir em virtude de uma situação normal da vida, então imagine quando elas têm que lidar com uma tragédia enorme feito essa. Inesperadamente, quanto mais as pessoas sofrem, mais elas conseguem entender o sofrimento alheio. Eu diria que esta é a minha maior fonte de inspiração, nossos pacientes. Obviamente que há dias em que eu fico com raiva quando eu vejo pessoas tirando sarro nas ruas enquanto eu estou literalmente colocando minha vida em risco (e a vida de meus amados também). Isso não é justo. A única coisa que podemos fazer é tentar explicar os riscos de não levar as coisas a sério o bastante frente às reais estatísticas de mortes na população.

Metal Na Lata: Para finalizar, a Nervosa completa agora em 2020, 10 anos de estrada, batalha, suor e vitórias. Como é chegar nesse momento onde o nome já está mundialmente estabelecido, mas que essa nova formação terá que continuar lutando contra alguns radicais que ainda acham que a banda só está crescendo por puro jogo de sorte?
Diva Satanica: Eu tenho lutado contra isso ao longo de toda minha vida. A maior parte das pessoas ainda pensam que, em virtude de não terem sorte o bastante, eles estão absolutamente certas quando eles dizem que “você não merece isso” ou “isso é apenas pura sorte”. Eu realmente não me importo. Eu sei o quão durou eu lutei e esta é a maior satisfação: estar em paz comigo mesma.
Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista, estamos todos ansiosos para ver todas vocês em ação. Por favor, deixe uma mensagem para seus fãs brasileiros.
Diva Satanica: Muita obrigada pelo vosso interesse e por esta calorosa recepção. Estamos ansiosas por poder mostrar-vos tudo aquilo em que estamos a trabalhar. Vemo-nos em breve! (Nota da Redação: Diva Satanica arriscando um “portunhol”)
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