A conexão Brasil-Irlanda iniciada em 1995 pelos duendes mineiros do Tuatha de Danann sempre se mostrou muito frutífera. A cada material lançado o grupo foi angariando mais e mais seguidores interessados em ouvirem suas trovas. Após uma breve pausa, a banda voltou com mais determinação e está sempre presente na mídia especializada seja por conta de seus shows, os recentes relançamentos das obras clássicas ou com algum merchandising fora do usual. Escolha a sua taberna favorita, pegue a cachaça mais “marvada” do local, acenda seu cachimbo e confira agora uma entrevista exclusiva com o genialmente vocalista e insano multi-instrumentista Bruno Maia, onde discutimos sobre presente, passado e futuro do Tuatha.
Por: William Ribas
Fotos: Facebook oficial da banda
Metal Na Lata: O nome da banda significa povos da Deusa Danú, e vem da mitologia celta irlandeses. De surgiu o interesse pela cultura?
Bruno Maia: O povo da deusa Dana ou Danú, de acordo com a mitologia irlandesa, são uma raça de deuses que povoaram a Irlanda e trouxeram a magia e o conhecimento dos elementos da natureza. São os protótipos das fadas e duendes da cultura popular. Este interesse pela cultura celta brotou em mim desde a infância: as lendas do rei Arthur, passando pela magia dos druidas até os diferentes ramos da mitologia e literatura celta acompanharam meu desenvolvimento e não tinha nada mais natural que unir as duas paixões, música e celticismo, no que vim a trabalhar.
Metal Na Lata: O som praticado no início de carreira tinha o peso como fator principal, com o passar do tempo o lado folk passou a ser mais cara. Essa mudança foi intencional?
Bruno Maia: A real é que nós começamos a banda muito novos. Eu tinha 13 anos quando montamos a banda que viria a ser o Tuatha um dia. Àquela época chamávamos Dark Subconscious e praticávamos um tipo de Death/Doom Metal que continha elementos medievais nas letras, isso foi em 1994. Já em 95 mudamos o nome para Pendragon e nosso som ganhou muito em elaboração, influências e requinte até que em 96 mudamos definitivamente o nome da banda pra Tuatha de Danann e lançamos nossa primeira demo tape, “The Last Pendragon”. Se compararmos nosso som de hoje com o daquela época, que é o real início do Tuatha e não sua gênese, veremos que evoluímos de um Folk Epic Doom Metal para o som que é hoje. Hoje não temos mais vocais guturais, ou temos muito pouco, mas ganhamos muito em qualidade, técnica, riqueza em arranjos, performance e se bobear, até peso. Isso tudo para dizer que não tinha como a banda não evoluir e transformar seu som, ou pelo menos agregar muitas novas influências a este, já que seus integrantes vieram crescendo como indivíduos e músicos ao longo destes anos todos. Foi uma evolução natural.
Metal Na Lata: A música “Faeryage”, pode dizer que marcou muita gente. Houve muita crítica na época de seu lançamento. Analisando todas críticas da época, houve muita precipitação em relação a vocês?
Bruno Maia: Houve muito espanto, sim. Mas em sua maior parte foi um espanto positivo. É difícil para o pessoal de hoje imaginar como era a vida, e principalmente, a cena underground àquela época sem internet, sem celular nem WhatsApp, nem nada. Não conhecíamos tanto tipo de som, tantas bandas, estilos, não havia google e tudo era muito difícil de acessar. Então, quando lançamos a demo “Faeryage”, e principalmente a música (que carregava elementos diversos de nossas influências) muita gente não acreditava no que ouvia: aquela mistura de violões, flautas, vocais góticos, melódicos, guturais, partes alegres em contraste com temas Doom e etc. Isso ajudou muito para que o nome do Tuatha circulasse violentamente no cenário tape trader e nos elevou a um tipo de “Grande Revelação” ou “Promessa” do underground. Claro, que sempre existem os ‘troozões’, os puristas, que se acham detentores da chama de um estilo, que querem determinar o que é ou não metal, ou mesmo o que é música celta ou folk, e detratam, tentam diminuir o trabalho e etc. Mas eu nem sei o nome deles, nós estamos aqui ainda.
Metal Na Lata: A letra de “Tan Pinga Ra Tan”, faz referência de um local perfeito, em que não existe dor, tristeza, somente alegria. Em algum momento, vocês acreditam que um lugar assim possa existir?
Bruno Maia: É uma idealização, não acredito que exista, mas quem sabe um dia(?). A humanidade vem estudado tanto, pode ser que se um dia mudemos nossas prioridades alcancemos algo similar. Tem muito a ver também com outras terras mágicas da mitologia celta como “Tir Na Nog”, “Hy Breasil” entre outros. É o mote do mito edênico que muitas culturas compartilharam, cada qual com suas peculiaridades, nomes e épocas.

Metal Na Lata: “Trova di Danú”(2004), é considerado uma das grandes obras definitivas do Metal brasileiro. Na época já dava para sentir que estavam criando um disco que marcaria época e abriria grandes portas para banda?
Bruno Maia: A gente sabia que, pelo menos para nós, seria um disco fantástico, pois até que enfim tínhamos um orçamento legal para fazermos um disco com tempo em estúdio bom, com produtor bom, a banda estava numa ótima fase criativa e se dando super bem. Mas, para ser sincero, creio que tive essa coisa de “Nossa, esse disco é diferente!” Foi quando estava mixando o “Tingaralatingadun”, pois ainda era muito devagar o mundo digital e soávamos como uma grande novidade.
Metal Na Lata: Em 2005, a banda tocou no mais importante festival de música pesada do planeta, o Wacken Open Air. O que lembram desse dia?
Bruno Maia: Cara, foi animal! Que banda nunca sonhou em tocar na Europa!? E no Wacken!? E o melhor, ser convidada para participar do festiva!?! Vínhamos de uma turnê pela França muito legal, rodamos o país todo e a tour culminou com um show sold out em Paris, muita gente para nos ver. Foi foda! Depois da França tínhamos 3 shows na Alemanha, sendo o último no Wacken. Foi um grande marco na minha vida, sem sombra de dúvidas.
Metal Na Lata: “Acoustic Live”(2009), completa 10 anos do seu lançamento em 2019. Existe a possibilidade de uma turnê no formato acústico para comemorar?
Bruno Maia: Não havíamos pensado nisso ainda, viu!? Você acabou de nos dar uma ideia. E eu adoro esse acústico, é muito bonito e de verdade. Acho que foi pouco explorado, pois foi o primeiro trabalho acústico de uma banda de Metal brasileira.
Metal Na Lata: Nos últimos tempos, os primeiros trabalhos foram relançados com bônus e num belo digipack. Qual foi o principal sentimento ao mexer no material mais antigo? E quando estarão disponíveis nas plataformas digitais?
Bruno Maia: Pois é, estamos ficando velhos haha. Esses discos antigos estavam fora de catálogo há já algum tempo, e, não dava simplesmente para relançar o primeiro disco sendo que hoje temos como regrava-lo, saca? O primeirão do Tuatha é um registro muito tosco, com muita coisa fora do tempo, coisa desafinada, mal tocada e tudo mais. Éramos muito novos, do interior de Minas Gerais, inexperientes, sem recursos e muito loucos – o disco é um registro fiel disso tudo em 98 e 99. Claro que há muita gente que curte esse trampo mesmo assim, e eu mesmo adoro-o e reconheço seu valor histórico, mas porque não gravá-lo com uma qualidade boa e lançar as duas versões num cd normal!? Foi isso. Já o “Delirium”, não regravamos, apenas relançamos com alguns bônus, pois também estava fora de catálogo e muita gente pedindo.
Metal Na Lata: Em meados de 2010, o Tuatha deu uma parada, onde meio que se dividiu ao meio, mas ao mesmo vocês sempre fizeram alguns shows aqui, outro ali. Quando realmente aquela chama reacendeu e de fato resolveram voltar definitivamente?
Bruno Maia: Realmente, a banda hibernou. Deu uma louca em mim e eu saí da banda que eu montei, dei o nome, era o principal compositor e figura de frente. Isso foi em dezembro de 2010. Precisei daquilo aquele momento, foi um tipo de loucura boa. Os caras até tentaram continuar, mas a estrutura já estava gasta e eles não conseguiram se entender para seguir, daí a banda parou. Ninguém fez alarde nem nada, a banda simplesmente parou e nem rolou de arrumarem substitutos. Poucos meses depois, coisa de menos de 6 meses, chamei todos para participarmos do Roça’n’Roll. Foi muito legal e constatamos o quanto éramos importantes para muita gente e uns dois anos depois voltamos definitivamente. Em resumo, a banda hibernou por 2 anos e meio, mas mesmo assim fazíamos shows anuais e ainda, nesse tempo, deu para lançarmos cds de outros projetos. O legal foi que vimos que rolava de continuar como Tuatha, não deixar a mágica morrer, e aqui estamos.
Metal Na Lata: A faixa do último álbum de estúdio “Dawn Of The Sun”, fala sobre a tua ansiedade de ser pai, Bruno. Depois de alguns anos, quando você mostrou e falou da letra para sua filha, qual foi a reação dela?
Bruno Maia: Ela ainda é bem novinha e não percebe a intensidade disso, mas fica super lisonjeada e vaidosa quanto à canção. A “Dawn” já havia sido composta em 2006, temos demos dessa música que é muito bonita e tem trechos sublimes (para mim).
Metal Na Lata: Na nova edição de “The Delirum Has Just Begun” (2018), a versão a capela de “The Wanderings of Oisin”, conta com a participação da sua filha, Dana Maia. Como foi para você ver sua filha participar da música?
Bruno Maia: Isso foi demais!! Ela adora cantar, é super musical, afinada e está sempre comigo. Como gravamos no meu estúdio e ela está sempre beirando, eu botei ela no aquário e falei: “Canta, menina!”. Ela inclusive faz uns backings na nova música que acabamos de gravar chamada “The Tribe of Witching Souls”.
Metal a Lata: O Tuatha de Danann saiu um pouco do usual e lançou linhas de cafés, de pinga, quadros vazados e relançou camisetas. Como surgiu todas essas ideias? E quão importante é manter o fã na expectativa de novas surpresas?
Bruno Maia: O lance do café foi de um amigo nosso que é um especialista na área de cafés especiais e gourmet. Ele chegou e disse algo assim “Caras, vocês são da região onde mais se produz café no mundo, temos diversos tipos de sementes, torras e tudo sobre café aqui. Vamos desenvolver um café da banda!?! É a cara do Sul de Minas e de vocês!!!” Daí, fizemos o primeiro café celta da história da humanidade (risos). São 3 cafés diferentes, muito bons. Sobre a pinga: Minas é a terra do queijo, do café e da pinga, temos a música “Tan PINGA ra Tan”, não deu outra, e é uma pinga muito boa.
Metal Na Lata: Bruno, você é um multi-instrumentista. Você é autodidata? E como surgiu esse interesse de não ficar preso em um somente instrumento?
Bruno Maia: Eu aprendi a tocar violão primeiro, bem novo, um lance familiar quase. Cheguei a estudar violão erudito por um tempo também, mas não segui adiante. Os outros instrumentos eu aprendi na curiosidade e inquietude mesmo. São literalmente instrumentos que permitem eu tocar minhas músicas. Eu me entendo mais como um artista, um criador de mundos, de músicas e de sonhos do que um músico, saca? Minha pira sempre foi a criação e acho que sou um pouco preguiçoso e inquieto demais para me dedicar a um instrumento e praticar, praticar… Admiro e nutro uma inveja boa desses caras que tocam muito, mas eu não tenho os predicados necessários para me desenvolver a esse ponto.
Metal Na Lata: Qual música você olha e pensa: “Caramba, essa é a minha grande obra!”?
Bruno Maia: Cara, pergunta difícil! Vou listar algumas que vejo como importantes e/ou divisoras de águas para mim: “Us”, “Tan Pinga ra Tan”, “Dance of The Little Ones”, “Trova di Danú”, “The Wheel”, “We’e Back”, “The Seim Anew” e “The Tribes of Witching Souls”.

Metal Na Lata: A perspectiva que temos ao escutar as músicas é de sermos tele transportados para um lugar alegre fazendo fugir de todo o stress que nos rodeiam. Como funciona o processo de composições das músicas? Primeiro vem a letra ou o instrumental?
Bruno Maia: Que legal que sente isso! É o que muitas pessoas dizem, ou pelo menos algo similar. E na real, é por motivos como este, de trazer coisas boas para a vida de tanta gente e às vezes transformar a vida de pessoas que continuamos, saca? É quando vemos que alcançamos o objetivo, pois alcançamos e transformamos pessoas. Este é o sonho, o elán da coisa toda. O processo de composição não tem uma regra na banda. A música pode vir de forma individual e levamos à banda para arranjarmos melhor, daí cada um contribui com seu talento, visão e técnica, ou pode ser a ideia de um que se junta a outra ideia, outro tema de outro membro etc. Mas já houve músicas que viemos com um tema ou ideia para um ensaio e a coisa foi ganhando forma. No meu caso, a música vem primeiro, a letra depois.
Metal Na Lata: Para finalizar, quando podemos esperar um novo álbum?
Bruno Maia: A gente queria lançar o disco esse ano, mas tivemos uma sucessão de atrasos que podem ter impossibilitado isso. Lançaremos de qualquer forma, um single agora em setembro e torcemos para conseguirmos lançar o disco todo até novembro/dezembro, se não, só depois do carnaval.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, o espaço final é todo seu.
Bruno Maia: Agradeço ao Metal Na Lata pela entrevista e interesse no Tuatha. Valeu demais! A todos que tiveram paciência e interesse em ler essa entrevista vai meu muito obrigado e caso ainda não conheça a banda, de uma chance, vai que o feitiço te pega.
Mais informações:
www.tuathadedanann.art.br
www.facebook.com/Tuatha-de-Danann-212833082091117
www.youtube.com/channel/UCu–pkw_vfbTYZAaJvKEapg





