
Jovens de idade apesar da carreira de mais de 20 anos, os brasilienses do Flashover acabaram de lançar o poderoso álbum “Souls Consumed By War”, após dez anos de espera dos fãs. Neste ínterim, a banda se manteve bem ativa e a evolução adquirida pelo quarteto, vem causando bastante euforia entre os fãs antigos e angariando uma nova leva de seguidores. Conversamos com o vocalista e guitarrista Itazil Júnior sobre os primórdios da banda, comentando um pouco das curiosidades do processo de criação do novo material e o caminho que a banda seguirá.
Por Victor Augusto
Fotos gentilmente cedidas pela banda
Metal Na Lata: Bem-vindo meu amigo. Gostaria que você comentasse um pouco sobre a proposta sonora da banda e as suas influências musicais.
Itazil Júnior: Saudações a todos os irmãos do Metal na Lata e muito obrigado pela oportunidade. Então, o Flashover tem uma junção de muitas influências de estilos, do Blues ao Grindcore e acredito que isso seja o resultado do som do Flashover. Nossas influências vão de Queen ao Napalm Death.
Metal Na Lata: A banda tem mais de 20 anos de carreira e vocês a começaram muito jovens. Como foi o início dessa trajetória? Você imaginava que chegaria a este patamar de reconhecimento e respeito?
Itazil Júnior: Eu formei o Flashover em outubro de 1996, com 12 anos de idade, bem novo né? (risos). E fizemos nosso primeiro show em 1997. Começamos como um trio, pois era difícil achar pessoas que curtissem esse tipo de som, ainda mais “crianças” (risos). Então chamei dois amigos e praticamente ensinei a eles tocarem. Nessa época começamos a chamar atenção de algumas pessoas, não só pela idade, mas pelo som que tentávamos tocar. Acredito que sempre que começamos a desenvolver algum projeto, seja qual for, sempre imaginamos ser reconhecidos por tal, mas realmente não imaginava que aquela brincadeira renderia tantos frutos, conquistas e realizações pessoais, e já se vão mais de 20 anos.
Metal Na Lata: O Flashover está com a mesma formação há alguns anos e é nítido o entrosamento, tanto ao vivo quanto em estúdio. Como tem sido essa jornada entre os integrantes desde que a banda estabeleceu o atual line-up e como é a amizade fora do palco?
Itazil Júnior: Cara, realmente estamos com uma formação que eu queria ter tido desde 2003, quando lançamos o nosso segundo álbum, mas infelizmente o Tiaguim (Tiago Teobaldo), nosso baixista atual, naquela época estava com 5 anos de idade , pois eu, Fernando (Guitarra) e o Josefer (Bateria) já estávamos juntos (risos). Acredito que a entrada do Tiago nos deu um Up bem legal. A amizade é bem forte entre nós e estamos juntos 24 horas, seja pessoalmente ou por WhatsApp.
Metal Na Lata: Após o disco “Superior” (2007), a banda teve o nome bem consolidado no underground, principalmente em Brasília- DF, porém ficaram mais de 10 anos sem nenhum lançamento. O que ocasionou esse intervalo tão grande? Essa demora chegou a prejudicar em algum momento?
Itazil Júnior: Pois é, o “Superior” foi um álbum bem legal, com excelentes músicas, porém nessa época tiveram certas mudanças de integrantes, principalmente de baterista, o que sempre nos fazia travar, porém nunca paramos de tocar ao vivo, mas sempre que estávamos querendo compor, tínhamos o azar de o baterista sair o que fazia com que a gente perdesse muito tempo tirando musicas até ele entender a nossa linguagem musical.

Metal Na Lata: De uns anos para cá, o Flashover tem tocado em bastantes estados e até mesmo fora do país. Em Brasília, a banda traz um público fiel e que comparece num número acima da média dos shows na cidade. Ao que se deve esse crescimento exponencial da banda, mesmo antes do lançamento desse mais recente álbum?
Itazil Júnior: Acredito que foram muitos fatores. A cena como um todo tem mudado e as pessoas estão voltando a ir a shows, coisa que estava sendo raro por um período passado. O Flashover não tem um estilo direcionado. Tem quem nos chame de Death/Thrash e quem nos chama de Thrash/Death, mas não seguramos nenhuma bandeira e acredito que isso seja um dos motivos que as pessoas nos acompanham fielmente. O nosso som é o mesmo desde sempre.
Metal Na Lata: Como funciona o processo de composição na banda? O fato de Josefer Ayres (bateria) e Tiago Teobaldo (baixo) tocarem juntos no Phrenesy, ajuda na hora de compor ou são bandas com propostas muito diferentes?
Itazil Júnior: O processo é bem natural, juntamos as ideias quando nos encontramos e começamos a lapidar. O fato do Tiago e Josefer tocarem em outra banda também facilita, apesar de ser uma banda com uma linha bem diferente do Flashover, porém quanto mais entrosamento, melhor para todos.
Metal Na Lata: O novo álbum “Souls Consumed By War” se destaca pela excelente gravação, que conseguiu captar a música e elevou a banda a um novo patamar. Como foi o processo de gravação, no que se refere ao trabalho em cima dos arranjos, escolha de estúdio e a produção em si?
Itazil Júnior: Inicialmente iríamos para São Paulo gravar, mas a logística financeira e pessoal de alguns não permitiram, mas gravamos com o Caio Duarte no Broadband Studio, que em Brasília é um dos mais indicados e respeitados para gravar bandas de Heavy metal. Ele é conhecido pela sua dedicação e cuidados com as bandas que pisam lá e ficamos muito satisfeitos. A Produção ficou por nossa conta mesmo. Nós mesmos vivenciávamos cada detalhe de som, arranjo para tentar melhorarmos, o que também é muito gratificante.
Metal Na Lata: Fernando Cezar (guitarra solo) executa algumas partes vocais numa linha gutural, proporcionando um bom contraste em relação ao seu timbre mais agressivo. Como vocês planejaram essa divisão dos vocais?
Itazil Júnior: O processo de criação entre nós dois também é bem natural, a ideia é aos poucos todas as músicas terem essa divisão de vocal, pois ainda tem muitas que canto sozinho, mas é bem livre isso. Tem músicas que ele prefere apenas tocar guitarra, para curtir e ter mais liberdade, cantar e tocar às vezes nos prende muito né? (risos)
Metal Na Lata: Assim como em todos os álbuns do Flashover, o “Souls Consumed By War” teve muitas participações especiais como Luiz Carlos Louzada (Vulcano), Mario Linhares (Dark Avenger) entre tantos outros. A banda escreve pensando em quem convidará para aquele som ou essa ideia surge devido ao resultado final lembrar o som de um determinado músico ou banda?
Itazil Júnior: Nós sempre compartilhamos músicas com os amigos que fizemos no decorrer desses anos, e todo CD do Flashover é marcado por participações especiais. Virou tradição. Já cantaram ou tocaram conosco nos nossos álbuns o pessoal do Death Slam, Winds Of Creation, Corpse Grinder, Rolldão (Kill Again Rec), Rhevenge, Krisiun, Elffus, Dynahead, Torture Squad, Drowned, Tumulto, Blazing Dog, Abhorrent e neste último não podia ser diferente. No nosso novo álbum tivemos a participação do guitarrista de Jazz Will Mourão, Fabricera (Disgrace, Hellbound), Alex (Revolted), Caio Duarte (Dynahead/Broadband), e dos nossos parceiros Luiz (Vulcano), Marco (Tales From The Unspoken de Portugal) e nosso eterno Mario Linhares (Dark Avenger). Normalmente escrevo a música e penso nos amigos para participar, vejo qual seria a que mais tem a ver com cada um, porem escrevi a “Brothers Of Disaster” pensando nos 3 vocalistas ao mesmo tempo. Dessa vez eu fiz uma homenagem a todos eles. Toda a letra foi composta com nomes ou títulos de músicas das suas respectivas bandas. Cada um cantou um parágrafo em que todas as frases fazem referência a alguma música deles. Foi bem difícil, porém bastante desafiador para mim. Jamais, nunca imaginei que nesse período teria a perda do Mario Linhares e tenho a honra-trágica de dizer que o último material gravado por ele foi essa música conosco, pois o último CD do Dark Avenger (The Beloved Bones – Hell de 2017) já havia sido lançado. Lembro-me de quando mostrei a música pronta para ele, estávamos finalizando uma aula (eu era Personal Trainer dele). Peguei o fone com meu celular e coloquei para ele ouvir, foram alguns minutos de silêncio, mas em seguida ele disse “Juninhoooo que musica é essa?? Eu achava que o Flashover tivesse dois hinos (“Metal Blood” e “Underground”), mas agora tenho certeza que serão três”. Difícil acreditar que ele se foi.

Metal Na Lata: O conceito do álbum trata de guerras ocasionadas por religião. Isso é demonstrado desde a capa até as músicas, a exemplo de “In The Name of God”. Como surgiu a ideia desse tema e qual a crença e fé que você tem, independente de seguir alguma religião ou não?
Itazil Júnior: Religião e politica são assuntos que eu particularmente evito tocar, pois são particularidades muito subjetivas e pessoais. Nunca quis nas minhas letras faltar o respeito com alguém que siga algum tipo de crença. O que eu falo são apenas fatos verídicos, que estão estampados 24 horas em qualquer meio de comunicação. Extorsões, Ganância, pedofilia, assassinatos e guerras, todos em nome da religião. Gostaria apenas que as pessoas abrissem os olhos para determinadas situações que ocorrem em suas igrejas e não fossem ovelhas de pastores sem caráter. Não queremos que ninguém deixe de seguir ou acreditar no que te faz bem, independente da religião que você segue, do Deus que você acredita, sempre terão vermes de terno e gravata prontos para aproveitar do momento e te explorar através de uma bíblia. Mas respondendo sua pergunta, TODAS as letras do álbum “Souls Consumed By War” foram escritas baseadas na Igreja Universal do Reino de Deus, o local mais demoníaco deste mundo. Até o Black Metal mais “from hell” da Noruega sentiria um de clima pesado lá dentro, ganancioso, cercado de pessoas preconceituosas e hipócritas (risos).
Metal Na Lata: Antes do lançamento oficial do disco, foram gravados quatro vídeos e um lyric video. É notável que a qualidade visual foi extremamente profissional, principalmente em “Underestimate”. Vocês acreditam que o investimento em clipes de muitas músicas de um mesmo álbum seja uma nova estratégia de sobrevivência no mercado atual, a exemplo do Metallica em “Hardwired… to Self-Destruct”, ou vocês que se acham muito bonitos para encenarem em vários vídeos? (risos)
Itazil Júnior: (gargalhadas). De bonito só temos o nosso querido por todas as mulheres, Fernando (guitarra), o resto são todos uns monstros sem futuro. Mas concordo que o futuro será apenas AUDIOVISUAL e não sei nem se vamos lançar outro CD físico. As fábricas estão quebrando, os carros novos já nem vem com toca CD, o mundo esta mudando muito rápido e por isso fizemos os vídeos, para tentar acompanhar a tecnologia.
Metal Na Lata: Nesses mais de 20 anos, quais foram os momentos mais marcantes e os mais difíceis da banda?
Itazil Júnior: Cara, são muitas histórias, muitas turnês, muitas viagens e shows, mas acredito que na África tivemos bons momentos, outras vivências. Os shows de lá foram muito fodas, um belo choque de realidade. Os momentos difíceis sempre foram quando alguém precisou largar o barco para nadar em outras direções. A saída de integrantes faz com que o trabalho pare. É cansativo passar as mesmas músicas por horas, começar uma nova relação, é bem difícil.
Metal Na Lata: O Flashover veio de uma sequência de apresentações memoráveis (show de lançamento do “Souls Consumed By War” e o Cerrado In Hell Metal Fest), mostrando a excelente receptividade do público em relação ao material novo. Quais os formatos que a banda pretende divulgar o álbum, além do CD físico? Existem planos de turnê fora do Brasil?
Itazil Júnior: Os CDs estão nos gerando muito dor de cabeça, até hoje (10/07/2018, data em que a entrevista foi respondida) não recebemos. A empresa responsável pelo material, a MCK, está com muita dificuldade de honrar com nosso compromisso por alegar falta de matéria prima. O problema é que já se passaram 5 meses da data de entrega. Mas estamos agendando vários shows pelo país, na América latina e vamos tentar finalizar nossa turnê na Europa depois de tantos anos.
Metal Na Lata: O Metal na Lata agradece o tempo cedido pela banda e o espaço está aberto para as considerações finais.
Itazil Júnior: Muito obrigado pelo espaço, muito obrigado pelo apoio e pela oportunidade. Quem quiser adquirir nossos CDs, camisetas e fechar shows, basta entrar em contato conosco pelo email [email protected] ou pelo Facebook/Instagram. Parabéns a cada um de vocês do Metal Na Lata que, de uma forma direta ou indireta, engrandecem e valorizam o underground nacional. Flashover!!!!
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