Setembro Negro (Dia 3) – Vip Station, São Paulo/SP (07/09/2025)

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Setembro Negro (Dia 3) – Vip Station, São Paulo/SP (07/09/2025)

Produção: Tumba Productions
Texto e fotos por Matheus “Mu” Silva

Com as portas abertas às 12h30, a primeira banda do dia, Morkalv, iniciou sua apresentação no palco Infernal. Praticando um Death/Black Metal com temáticas nórdicas e de cunho luciferiano, a banda de Campo Grande/MS representou a região Centro-Oeste no evento, reforçando o compromisso da produtora em democratizar o espaço destinado ao metal nacional, sem se restringir apenas aos grandes centros. O grupo mostrou todo o seu poderio sonoro em uma apresentação curta, porém brutal, com destaque para “Jormungandr”, faixa que abre seu único full-length An Ancient Cult to The Aesir (2023). Uma banda que definitivamente merece ser conferida.

Às 14h10, no palco Maioral, foi a vez da clássica banda mineira de Thrash Metal The Mist. Após dois anos sem tocar em São Paulo, o grupo, liderado pelo icônico vocalista Vladimir Korg (também ex-Chakal), fez uma apresentação intensa, revisitando seus dois primeiros discos — verdadeiros clássicos do gênero — Phantasmagoria (1989) e The Hangman Tree (1991), além do mais recente The Circle of The Crow (2022). Entre os destaques, “Over My Dead Body”, “The Hangman Tree (Act One)” e “Peter Pan Against The World”, que fizeram a alegria dos fãs mais antigos.

Setlist:

Intro
The Tempest
Over My Dead Body
Peter Pan Against the World
My Inner Monster
The Hangman Tree (Act One)
Geppetto’s Song

Às 14h50, o palco Infernal recebeu a banda manauara de Brutal Death Metal Escafism. Formada em 2019, a banda traz uma sonoridade que remete à explosão do Brutal Death no início dos anos 2000: blast beats incessantes, guturais cavernosos e riffs que transitam entre velocidade extrema e grooves pesados. Baseando-se em seu único disco de estúdio, o excelente Spreading The Pain (2025), a banda aproveitou ao máximo os 30 minutos de set, entregando um show feroz e desumano. Destaque para a matadora “Purulent Secretion”, que ao vivo soou ainda mais brutal. Arrisco dizer que foi a banda mais extrema de todo o festival, rivalizando apenas com o Vermin Womb, mas ainda assim se sobressaindo pelas variações em sua musicalidade. Uma das grandes surpresas do evento, e o público respondeu à altura, batendo cabeça e acompanhando os poderosos breakdowns.

Às 15h30, no palco Maioral, foi a vez da banda mexicana Ash Nazg Búrz. Com dez anos de existência e apenas um disco lançado, Úr Gar Noun in ir Cofn (2022), o grupo de Black Metal utiliza o universo de Tolkien como pano de fundo para suas composições e estética. Musicalmente, lembram o Dark Funeral: um Black Metal cru e ríspido, porém bem produzido. Com 30 minutos de set, chamaram atenção desde a primeira faixa, “A Semen Stained Letter To The Devil”. O vocalista, caracterizado com uma máscara de Nazgûl, impressionou ao emular sons espectrais enquanto a banda despejava riffs cortantes. Pouco conhecida por aqui, a banda certamente conquistou novos fãs após a apresentação.

Às 16h10, o palco Infernal recebeu a catarinense Orthostat, de Jaraguá do Sul/SC. Cada vez mais em evidência na cena nacional, a banda mostrou energia avassaladora em um set que remeteu ao Death Metal noventista na linha do Incantation. Executaram faixas como “Radioactivity”, “Telosophy”, “Hydrogen” e “Nothingness”, todas de seu último álbum, The Heat Death (2023), evidenciando a força do atual momento do Death Metal sulista.

Às 16h50, uma das apresentações mais aguardadas: o Darkened Nocturn Slaughtercult, que enfim estreou no Brasil. Formado em 1997, o grupo alemão mantém praticamente a mesma formação desde o início, entregando um Black Metal impiedoso e perverso. A vocalista Onielar impressionou com sua presença fantasmagórica, vocalizações agonizantes e até mesmo jorrando sangue no palco, intensificando a atmosfera maligna. Com 40 minutos de set, executaram faixas como “Mardom – Echo Zmory”, “In The Hue of The Night”, “Imperishable Soulless Gown” e encerraram com a clássica “Nocturnal March” (2004). Um dos shows mais impactantes e comentados do festival, reforçado pela dedicação da apresentação a Jürgen Bartsch (Bethlehem), falecido recentemente, banda da qual Onielar fez parte nos últimos nove anos.

Setlist:

Mardom – Echo Zmory
A Beseechment Twofold
Bearer of Blackest Might
Das All-Eine
In The Hue Of Night
Imperishable Soulless Gown
Nocturnal March

Às 17h40, no palco Infernal, foi a vez da sueca Tyranex. Com duas décadas de estrada, a banda de Thrash Metal liderada pela carismática vocalista Linnea Landstedt contou ainda com a presença do guitarrista brasileiro Will Tomao, que entrou em 2022 e se comunicou bastante com o público em português, aumentando a interação. Com um Thrash Old School vigoroso e cortante, a banda surpreendeu positivamente em sua estreia no Brasil. Esbanjaram carisma e energia, tocando faixas como “Megalomania”, “Tormentor”, “Rise From The Dead” e “Fight Them Back”. Além de distribuírem cerca de vinte palhetas durante o show, permaneceram no stand de merchandise após a apresentação, conversando com fãs e tirando fotos, retribuindo todo o carinho recebido.

Setlist:

Unable to Tame
Where Light Ceases to Exist
Death Roll
Megalomania
Tormentor
Reasons for the Slaughter
Rise from the Dead
Fight Them Back

Às 18h25, subiu ao palco Maioral o Power Trip, uma das maiores surpresas do lineup. O grupo norte-americano de Thrash Metal viveu uma ascensão meteórica no final da década passada, mas teve suas atividades interrompidas pela morte precoce do vocalista Riley Gale em 2020. Três anos depois, a banda retomou as atividades com Seth Gilmore nos vocais, dando continuidade ao legado. O público brasileiro presenciou um verdadeiro massacre sonoro, com faixas de seus dois discos — Manifest Decimation (2013) e Nightmare Logic (2017). Clássicos como “Soul Sacrifice”, “Firing Squad”, “Hornet’s Nest” e “Waiting Around To Die” incendiaram a pista, transformada em um caos de mosh pits e circle pits gigantescos. O ápice emocional veio com “Drown”, dedicada à memória de Gale. Um show devastador, que justificou toda a reputação da banda ao vivo.

Setlist:

Soul Sacrifice
Executioner’s Tax (Swing of the Axe)
Firing Squad
Hornet’s Nest
Nightmare Logic
Crucifixation
Drown
Divine Apprehension
Waiting Around to Die
Manifest Decimation

Às 19h20, o palco Infernal recebeu a tradicional Nervochaos, encerrando a participação nacional no festival. Uma das principais forças do underground brasileiro, a banda apresentou-se com um line-up atualizado: a saída de Diego Mercadante abriu espaço para o retorno de Guiller, guitarrista e vocalista que já havia gravado quatro discos com o grupo. Curiosamente, essa foi a primeira vez que o Nervochaos tocou no Setembro Negro, evento idealizado por seu baterista, Edu Lane. Com 40 minutos de show, executaram hinos como “Pazuzu is Here”, “Total Satan”, “Feast of Cain” e “For Passion Not Fashion”, reforçando sua relevância e longevidade na cena extrema.

Setlist:

Necroccult
Demonic Juggernaut
Ritualistic
Pazuzu is Here
Total Satan
Dragged to Hell
Feast of Cain
Shadows of Destruction
Mark of the Beast
For Passion Not Fashion
Moloch Rise
To The Death

Às 20h10, um dos nomes mais aguardados: os suecos do Candlemass, ícones do Doom Metal. Em sua quarta passagem pelo Brasil, apresentaram-se para um público que compreendia e celebrava sua obra — bem diferente da experiência no Monsters of Rock de 2023, onde tocaram para um público majoritariamente alheio ao gênero. Com a formação clássica de Nightfall (1987), incluindo Leif Edling (baixo), Mappe Björkman e Lars Johansson (guitarras), Jan Lindh (bateria) e Johan Längquist (vocais, do álbum Epicus Doomicus Metalicus), o quinteto trouxe um setlist repleto de clássicos incontestáveis. Faixas como “Bewitched”, “Crystal Ball”, “Under The Oak” e “Mirror, Mirror” deixaram o Vip Station em êxtase. No bis, a escolha foi deixada ao público, que clamou por “Solitude”, cantada a plenos pulmões pelos presentes. Um show histórico.

Setlist:

Bewitched
Dark Are the Veils of Death
Mirror Mirror
Under the Oak
Crystal Ball
The Well of Souls
Solitude

Às 21h10, foi a vez dos deuses gregos do Varathron, encerrando o palco Infernal. Um dos patronos do chamado Black Metal Helênico, a banda retornou pela terceira vez ao Brasil, sempre demonstrando profunda conexão com nosso público. Seu último registro ao vivo foi, inclusive, gravado aqui, como forma de agradecimento ao apoio ao longo das décadas. O vocalista Stephan Necroabyssious, figura central e carismática, comandou o ritual com energia contagiante. O set incluiu faixas recentes como “Ascension of Chaos”, “Saturnian Sect” e “Tenebrous”, além de clássicos como “Unholy Funeral”, “Nightly Kingdoms” e “Son of the Moon”, celebrando a essência do verdadeiro Black Metal.

Setlist:

Ascension / Hegemony of Chaos
Tenebrous
Unholy Funeral
Nightly Kingdoms
Saturnian Sect
Shrouds of the Miasmic Winds
Crypts in the Mist
Son of the Moon (Act II)
Genesis of Apocryphal Desire
Sic Transit Gloria Mundi / Outro

E, finalmente, às 22h10, o headliner do domingo: Triptykon. Projeto do lendário Thomas Gabriel Fischer (Tom Warrior), fundador do Hellhammer e Celtic Frost, a banda retornou ao Brasil para celebrar a herança deixada pelo Celtic Frost. Fischer sempre deixou claro que o Celtic Frost não existe mais desde a morte do baixista Martin Eric Ain, mas o Triptykon serve como veículo de preservação e homenagem à sua obra.

O show foi um passeio pela trajetória do Celtic Frost, com destaque para os álbuns Morbid Tales (1984) e To Mega Therion (1985). Logo na abertura, “Circle of the Tyrants” levou o público à loucura, acompanhado pelos icônicos “uh!” de Fischer, repetidos em uníssono pela plateia, em um momento catártico. O set incluiu clássicos incontestáveis como “Dethroned Emperor”, “Into The Crypts of Rays”, “Procreation (of the Wicked)” e “The Usurper”. Também houve espaço para raridades como “Sorrows of the Moon” (Into the Pandemonium, 1987) e para faixas de Monotheist (2006), como “A Dying God Coming Into Human Flesh”, dedicada a Ain. O encerramento veio com a monumental “Synagoga Satanae”, de quase 15 minutos, que dividiu opiniões: para alguns, um final hipnótico e catártico; para outros, uma oportunidade perdida de incluir mais clássicos antigos. Ainda assim, a apresentação foi histórica, reafirmando a importância de Fischer e do Celtic Frost para toda a música extrema.

Setlist:

Circle of the Tyrants
The Usurper
Return to the Eve
Into the Crypts of Rays
Procreation (of the Wicked)
Ground
Sorrows of the Moon
A Dying God Coming Into Human Flesh
Dethroned Emperor
Dawn of Megiddo
Synagoga Satanae

Depois de três dias intensos, uma certeza se impõe: o Setembro Negro segue desafiando seus próprios limites. O Vip Station, maior que o antigo Carioca Club e com dois palcos, já não comporta mais o tamanho do festival. Mesmo com medidas como permitir entrada e saída livre, além de acesso ao mezanino, o público compareceu de forma massiva, reforçando a necessidade de um espaço ainda maior para as próximas edições. Talvez, em breve, vejamos o evento em formato Open Air.

De todo modo, o que ficou claro é que o Setembro Negro consolidou-se como o maior festival de música extrema do Brasil. E, após uma edição histórica como esta, só resta aguardar ansiosamente pela próxima.

Nossos sinceros e efusivos agradecimentos à equipe da Tumba Productions pelo respeito, amizade e parceria de sempre.

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