Entrevista com o cantor e multi-instrumentista Fabiano Negri (Hard/Heavy Metal)
Entrevista por Johnny Z. e Cristiano Ruiz
Fotos por Diego Rodrigues
Com uma trajetória sólida e multifacetada, Fabiano Negri é um dos nomes mais respeitados do cenário musical independente brasileiro. Cantor, compositor, multi-instrumentista e produtor, o artista soma mais de três décadas de carreira, passando por estilos que vão do Hard Rock e Heavy Metal ao Jazz, Blues e MPB. Prestes a completar 50 anos, Fabiano celebra sua jornada com lançamentos marcantes e colaborações diversas, sempre demonstrando paixão pela música em todas as suas formas. Nesta entrevista exclusiva ao Metal Na Lata, ele revisita momentos importantes da carreira, revela seus planos para o futuro e compartilha reflexões pessoais sobre sua arte e trajetória. Confira!
Metal Na Lata: Como foi a transição ao deixar a banda Rei Lagarto, que obteve grande reconhecimento, para focar em sua carreira solo, e de que forma isso afetou — para o bem — sua identidade musical?
Fabiano Negri: Foi bem tranquila. O Rei Lagarto acabou em bons termos; todos entendemos que a banda não tinha mais pra onde ir, e cada um já estava com outros projetos em vista, então decidimos encerrar as atividades. Minha carreira solo foi meio que uma continuação do Rei Lagarto — afinal, eu era o principal compositor da banda —, mas com um leque musical mais amplo, trazendo outras influências que eu tenho. Vejo como uma continuidade da minha trajetória. Se eu ainda estivesse no Rei, essas músicas estariam na banda, com uma cara diferente, mas certamente estariam lá.
Metal Na Lata: Como você construiu sua versatilidade ao longo das décadas, transitando por estilos como hard rock, acústico, pop, soul e heavy metal; e quais foram os fatores que o levaram a focar mais recentemente no metal pesado?
Fabiano Negri: Tudo tem a ver com a fase que estou vivendo e o tipo de música que estou ouvindo. Sou meio que uma esponja musical, e meu momento reflete na minha música. Nada é premeditado, simplesmente acontece. Gosto dessa liberdade de criar o que me empolga, o que estou afim de fazer.
Metal Na Lata: Ainda que seus trabalhos tenham adquirido uma veia Hard N’ Heavy/Heavy Metal nos tempos mais recentes, é explícito que sua maior referência segue sendo a década de 70. Dito isso, quais são suas maiores influências musicais, além do já saudoso Ozzy Osbourne?
Fabiano Negri: Ian Gillan, Robert Plant, Jim Morrison, David Bowie, Dio, Bruce Dickinson, Chris Cornell, Layne Staley, Ray Gillen, Zakk Wylde… Do Brasil, sempre ouvi muito Tim Maia e Elis Regina. Também amo soul music, com artistas como Stevie Wonder, Marvin Gaye, Michael Jackson… Muito pop também, com Simply Red, George Michael e Madonna. Jazz com Miles Davis e John Coltrane. A lista é enorme; eu ouço muita música e coisas muito diferentes.
Metal Na Lata: Ozzy Osbourne sempre foi citado por você como sua maior influência. Com a recente perda do Madman, como esse momento ressoa na sua vida pessoal e artística, e de que forma você acredita que o legado dele continuará inspirando sua trajetória daqui para frente? Inclusive, que belíssimo tributo você fez a sua obra, hein? Fale um pouco sobre essas gravações que estão disponíveis em seu canal no YouTube.
Fabiano Negri: O Ozzy foi meu “pai musical”. Despertou meu amor pela música. Sem ele, eu não seria quem sou. Simples assim. É a pessoa mais importante na minha vida profissional. Fiquei muito triste com a morte dele. Ainda estou lidando com isso, pois ele foi uma presença diária na minha casa nos últimos 41 anos. O tributo estava inicialmente planejado como homenagem ao fim da carreira dele após o show de despedida, mas ele acabou falecendo na semana em que estávamos com o estúdio agendado. Foi muito difícil cantar naquele dia, mas ficou bonito, né? Fiquei bastante orgulhoso da banda.
Metal Na Lata: Voltando à sua carreira, suas letras já transitaram entre espiritualidade, crítica social e introspecção. Como você enxerga a evolução temática das suas composições nesses 30 anos? E na parte de sonoridade?
Fabiano Negri: Eu me sinto um observador. Gosto de estar ligado ao que acontece no mundo. Minhas letras refletem meus sentimentos em relação ao que vejo. Não costumo criar polêmicas nas redes sociais; sou bastante reservado para falar sobre política ou religião. Algumas pessoas cobram que eu me posicione, e eu sempre digo a mesma coisa: LEIA MINHAS LETRAS! Não existe forma melhor de entender o que penso. Elas são um livro aberto sobre mim e sobre o que penso dos assuntos relevantes do mundo. A sonoridade, por sua vez, se torna um retrato da evolução das minhas capacidades como músico, compositor e produtor. Espero que eu esteja evoluindo! (Risos)

Metal Na Lata: Que significado pessoal e artístico teve para você registrar 30 anos de carreira em um álbum ao vivo — prestes a ser lançado nas plataformas digitais —, e como essa experiência influenciou sua percepção sobre a conexão com o público e os músicos que fizeram parte da sua trajetória?
Fabiano Negri: Eu senti vontade de comemorar. Poxa, 30 anos de carreira, mais de 30 álbuns lançados, sendo músico independente, cantando rock em inglês no Brasil, com milhões de plays nos streamings, milhares de discos físicos vendidos e milhares de shows nas costas… É pra comemorar, certo? Foi uma noite linda, cercado de amigos e de carinho. Inesquecível. Ouçam, que vale a pena!
Metal Na Lata: Em qual momento aconteceu o “casamento” entre Fabiano Negri e Bebê Diabo a fim de conceber The Outlaw’s Journey?
Fabiano Negri: Foi uma evolução natural do que estávamos fazendo. Quando voltei a ter uma banda, essa sempre foi uma vontade: gravar um álbum com outras pessoas participando de todo o processo. Há muito tempo eu não fazia isso. Foi ótimo!
Metal Na Lata: De que forma sua colaboração com a banda Bebê Diabo e a composição em conjunto com outros músicos (incluindo seu filho Ian ‘Absurd’) renovaram ou mudaram o som e a proposta de seus últimos trabalhos conceituais? Fale um pouco sobre a banda e seus excelentes músicos.
Fabiano Negri: Tenho um novo som, resultado direto da colaboração dos músicos. Cada um trouxe seu DNA para o álbum. Tenho uma dupla de guitarristas incrível que se complementa: André, mais voltado para o virtuosismo e a guitarra moderna, e Igor, com veia mais hard/blues. Esse contraponto é muito legal. Ian é um tremendo baixista, que casou perfeitamente com a bateria espirituosa do Tomás no álbum.
Metal Na Lata: Qual a sensação de tocar ao lado de Ian Absurd? É possível separar o filho do baixista da banda ou tudo acaba caminhando junto?
Fabiano Negri: Tirando o pai babão de lado, posso afirmar: Ian é um sujeito brilhante. Em tudo o que faz, ele está entre o competente e o muito acima da média. Com 21 anos, toca mais de uma dezena de instrumentos, escreve arranjos complexos e domina a teoria musical como poucos. Precisa mais?
Metal Na Lata: Seu mais recente trabalho, The Outlaw’s Journey, tem forte caráter conceitual. Qual foi o maior desafio em criar um álbum que une narrativa, peso e melodias marcantes?
Fabiano Negri: Na verdade, o conceito fluiu facilmente. As histórias surgem aos poucos. Quando componho, as ideias estão frescas na cabeça. A parte melódica é sempre a mais prazerosa de fazer. Minha busca por uma melodia perfeita me move. Quando faço um álbum, ele tem que me agradar. Gosto de ouvir minhas próprias músicas. Acho que essa é a grande sacada: é verdadeiro. Não faço para agradar alguém, faço para mim.

Metal Na Lata: Como a mídia especializada em Rock/Metal e os admiradores do seu trabalho receberam The Outlaw’s Journey? A recepção está de acordo com o que você imaginava?
Fabiano Negri: Muito bem. Recebemos ótimas resenhas, e quem ouviu com atenção adorou. Só gostaria que mais pessoas prestassem atenção para perceber a real qualidade do trabalho. Mas não vamos cair na utopia…
Metal Na Lata: Qual a temática lírica da faixa-título The Outlaw’s Journey e como ela foi escolhida para intitular o novo disco?
Fabiano Negri: É o capítulo final da história. São os relatos dos “discípulos” de Keck Spergman, o “outlaw do conto”, continuando o trabalho dele e relatando a forma como ele morreu. Há muitas mensagens nas entrelinhas; é uma letra que merece análise profunda. Um belo trabalho lírico.
Metal Na Lata: Dentre as dez faixas do álbum, escolha três que deem a melhor primeira impressão ou que mais definam seu momento como artista hoje.
Fabiano Negri: The Outlaw’s Journey, Winds That Show Our Real Nature, Wiseman e Ballad of a Lazy Man.
Metal Na Lata: O videoclipe da belíssima faixa Empty Heart ficou muito bom. Quanto da descontração do clipe condiz com a realidade dos ensaios e trabalhos da banda?
Fabiano Negri: 100%. Tirando a parte musical, que é séria, o resto é brincadeira. Ninguém se leva muito a sério na banda. A gente gosta de rir e tirar onda um com o outro. Comigo sempre foi assim, e se estou tocando com essa galera é pelo fato de serem assim também. Não existe nada mais chato do que gente que se leva a sério… (risos)
Metal Na Lata: Como estão rolando os shows de divulgação de The Outlaw’s Journey?
Fabiano Negri: Bem pontuais. Como fazemos um trabalho de qualidade, queremos ser valorizados por isso. Não procuro shows em bares ou lugares que não ofereçam cachê justo, nem vou pagar para participar de festivais ou aberturas de shows. Isso me ofende. Então, produzo meus próprios shows e busco locais legais, como Sescs ou casas de cultura. Prefiro ficar em casa a me sentir desvalorizado e explorado.
Metal Na Lata: Quais foram os principais desafios (financeiros, criativos ou de mercado) recentemente, especialmente com a indústria do streaming, e como você lida com eles?
Fabiano Negri: Nenhum deles me paralisa. Só evito investir mais do que posso. Trabalho com produções econômicas, mas que tenham bom resultado. Infelizmente, quanto mais você investe, mais perde. Procuro trabalhar dentro de um jogo minimamente justo.
Metal Na Lata: Já comentou sobre as dificuldades do mercado digital em gerar retorno para artistas independentes. Quais estratégias pretende adotar para manter a qualidade das produções e continuar surpreendendo seus fãs?
Fabiano Negri: Faço tudo dentro do possível e do justo. Tenho assessoria de imprensa, busco shows e editais legais, produzo sempre com qualidade e sou ativo nas redes sociais. Gravo vídeos com covers semanalmente para chamar atenção e depois introduzo minhas músicas. Não me engano: 98% do público não está interessado em ouvir música nova, e isso dificilmente muda. Minha divulgação é estritamente ligada à música e ao talento que acredito ter. Se crescer, ótimo. Se não, sem problemas. Durmo tranquilo.

Metal Na Lata: Já há planos para o futuro entre Fabiano Negri e Bebê Diabo?
Fabiano Negri: Sempre! Estamos trabalhando em um novo single especial, que logo vai estourar. E em breve começaremos a pensar no álbum de 2026.
Metal Na Lata: Considerando toda a sua carreira, se pudesse escolher, quais seriam os cinco trabalhos que mais lhe orgulham, em ordem de preferência, e por quê?
Fabiano Negri:
– Free Fall – Rei Lagarto (2001): O álbum que me projetou no hard rock brasileiro. De repente, eu estava fazendo centenas de shows por ano e sendo reconhecido nas ruas. Também trouxe muitos alunos para minhas aulas. Esse álbum sedimentou minha estrada até hoje.
– Oceans – Rei Lagarto (2010): Na minha opinião, o melhor trabalho do Rei Lagarto e um dos melhores álbuns de hard rock da história da música brasileira. Um álbum que merece audição carinhosa.
– Maybe We’ll Have a Good Time…For The Last Time – Solo (2015): Super variado, representa quem eu sou. Trabalho bem produzido, com participações estelares. Ouço hoje e me espanto com minha afiação e variedade como compositor e melodista.
– ZebathY – Solo (2022): Álbum de heavy metal absolutamente monumental. Minha carta de amor ao Black Sabbath original. Espero que mais gente descubra o quão brutal ele é.
– Mysteries The Night Hides – Solo (2023): Mostra meu lado mais virtuoso. Toquei todos os instrumentos, produzi, mixei e masterizei. Meu álbum musicalmente mais complexo e desafiador.
Metal Na Lata: Espaço final para manifestações pessoais ou assuntos não abordados na entrevista.
Fabiano Negri: Agradeço muito pelo espaço e pelas ótimas perguntas. Espero lançar muita música ainda; minha vida é isso. Vou fazer 50 anos em novembro e estou planejando muitas coisas legais para celebrar minhas pequenas vitórias. Um abraço para todos e ouçam música sempre! Boa música nos deixa mais espertos.
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Site: www.fabianonegri.com





