Nargaroth – Hangar 110, São Paulo/SP (29/03/2026)
Abertura: Spiritual Hate e Guerreiros Headbangers
Produção: Caveira Velha Produções, Gerunda Produções e Chamuco Produções
Texto e fotos por Rodrigo Faustino
Nargaroth em São Paulo: Uma Ofensiva de Guerra, Arte e Resiliência Alemã
O Clima do Front
Domingo à noite em São Paulo, mais precisamente no Hangar 110, próximo à estação Armênia do metrô; não há um cenário mais “Black Metal” que o mencionado acima. Antecedendo mais uma semana de rotina cinzenta em nossa cidade, presenciamos um ritual de celebração da resistência do Metal e do Underground, onde, desta vez, utilizei minhas lentes para capturar esse momento único, que as palavras, muitas vezes, falham em descrever. Fazendo, assim, meu “debut” como redator no Metal na Lata.
Spiritual Hate: O Despertar do Ódio
Abrindo os trabalhos, os paulistas do Spiritual Hate entregaram tudo aquilo que o público esperava: um Black/Death Metal cru, direto ao ponto e sem mais delongas, extraindo a mais pura essência do metal extremo. Uma metralhadora de blasfêmia e ódio ao cristianismo, aliada a muita competência técnica e execuções precisas. A horda de Diadema nos entregou uma ode ao oculto raramente vista. Foi o aquecimento ideal, onde o som, que cortava como uma adaga, nos preparava para o que viria a seguir.


















Guerreiros Headbangers: A Tradição do Aço
Na sequência, os paulistanos do Guerreiros Headbangers trouxeram a essência do Heavy Metal: um som autêntico e cheio de personalidade. Conduzidos pelo performático vocalista Jair Tormentor, o duo de guitarras foi composto por Gus Pugliese e Léo Gordeath. Nas cordas grossas, tivemos Marcello Marques e, conduzindo a banda com pegada, precisão e viradas insanas, a baterista Julia Pinheiro. Um som rápido e envolvente, que deixou o palco bem aquecido para os germânicos que viriam logo depois. Era o começo da abertura do caos completo! Uma ponte perfeita entre a brutalidade da abertura do Spiritual Hate e o teatro da escuridão que presenciaríamos momentos depois. Todo sucesso ao Spiritual Hate e aos Guerreiros Headbangers!


















Nargaroth: Black Metal ist Krieg!
Poderia iniciar este parágrafo assim como os alemães do Nargaroth iniciaram o show: sem cerimônias ou introduções longas e pomposas. Todavia, o contexto é necessário para dar uma imagem de imaginação e projeção maior aos nossos leitores.
Às 21h40, o Nargaroth subiu ao palco. O que presenciamos a partir daí foi uma ofensiva sonora comparável a um Panzer alemão avançando sobre o público. Uma bateria que se assemelhava a uma Gatling Gun e duas guitarras que cortavam mais do que navalhas; iniciar com o hino “Black Metal ist Krieg” foi o xeque-mate logo de cara. A presença de palco de Ash (Kanwulf) é hipnotizante — uma mistura de fúria visceral e performance teatral, assim como a maioria das bandas de Black Metal faz.
Formado em 1996, com sete álbuns de estúdio lançados, René “Ash” Wagner construiu uma identidade singular. Mesmo com o Black Metal sendo muitas vezes taxado de repetitivo, o teutônico mostrou que é completamente possível fazer um som cru e, ao mesmo tempo, com qualidade, trazendo uma avalanche de cenários que elevam e mexem com o sentimento de quem ouve. O que se refletiu completamente nas músicas seguintes.
Com um setlist que conseguiu abranger todas as fases da banda, os destaques da noite foram as faixas: “Black Metal ist Krieg”, “Erik, May You Rape the Angels”, “Possessed by Black Fucking Metal” e o hino “Seven Tears Are Flowing to the River” (falaremos sobre este último mais adiante) — todas do aclamado e clássico álbum Black Metal ist Krieg: A Dedication Monument.
Tributo ao Sepultura e ao Brasil
Um dos momentos em que o Hangar 110 veio abaixo foi quando os panzers alemães executaram “Dead Embryonic Cells”, do Sepultura. Repetiram a fórmula do sucesso utilizada no show de Belo Horizonte e, com toda absoluta certeza, os fãs se sentiram recompensados e reconhecidos — os irmãos Cavalera reconheceram e postaram a homenagem feita no dia anterior em sua cidade natal. Porém, dali em diante, estávamos preparando o campo para a melancolia que viria logo em seguida.
Assim como o início abrupto, chegamos ao fim com a execução do maior clássico da banda, “Seven Tears Are Flowing to the River”. Quando os primeiros dedilhados entraram em cena, presenciamos o ápice daquela apresentação: uma catarse coletiva com duração de quinze minutos. Toda a tensão e todo o ódio deram lugar à mais pura melancolia. O fã de Black Metal tem como característica a suposta frieza e inaptidão em demonstrar sentimentos; entretanto, pude ver diversos fãs indo às lágrimas no ritmo da harmonia melancólica e depressiva que este petardo musical transmite aos seus ouvintes.
O Contraste: O Guerreiro e o Fã
Além de todas as considerações registradas nos parágrafos anteriores, o lado humano do frontman esteve sempre presente. Após uma performance visceral, Ash mostrou um lado ‘fofo’ (por mais contraditórias que estas palavras pareçam perante a essência do Black Metal), sendo extremamente acessível e tirando fotos com todos os fãs presentes. O toque de humor ficou por conta das condições de etiqueta estabelecidas: “… não bagunçar o cabelo e nada de bolinadas”. Uma prova de que, por trás dos spikes, da jaqueta de couro e do corpse paint, existe um artista que respeita profundamente seus apoiadores.
Saí do show com a sensação de alma lavada. Entre cliques e anotações, vi que a arte salva porque é a única forma de transformar a dor e o cotidiano em algo eterno. O Nargaroth não apenas tocou; ele deixou uma marca de fogo na noite paulistana. BLACK METAL IST KRIEG!
Um agradecimento à toda equipe da Caveira Velha Produções, Gerunda Produções, assim como a Chamuco Produções por tornar esse espetáculo possível.





























