Entrevista exclusiva Cláudio David e Bernardo Gosaric (Overdose)

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Brasil, Minas Gerais, Belo Horizonte. O ano é 1985. Um split lançado despretensiosamente por um novato selo começa a fazer um certo burburinho não apenas em sua região natal, mas também em outros estados e até países. Muito se fala sobre a banda presente no lado B da bolacha (um tal de Sepultura) e o que ela conquistou, mas ainda que não tenha alcançado o reconhecimento merecido, desde aquela participação com 3 faixas no lado A do já citado split, o Overdose veio multiplicando exponencialmente o seu legado na história do metal nacional. Álbuns como “Conscience” e “Circus Of Death”, por exemplo, falam por si só e não devem em nada para muitos medalhões existentes. Após um período de inatividade, essa instituição mineira resolveu arregaçar as mangas e mostrar serviço voltando à ativa. Nós do Metal Na Lata, tivemos a honra e o privilégio de sermos o primeiro veículo a entrevistar a banda neste retorno, onde abordamos passado, presente e futuro com os músicos Cláudio David (guitarra) e Bernardo Gosaric (baixo).

Por: William Ribas
Fotos gentilmente cedidas pela banda | RafaelRAM Photography

Metal Na Lata: Após alguns anos de hiato o Overdose voltou à ativa, como se deu esse retorno e como foi o primeiro ensaio?

Claudio: O Fernando Pazzini (ex-baixista) marcou uma reunião e propôs que voltássemos. Curiosamente, ele acabou não ficando no projeto. A ideia era fazermos um ensaio e vermos como ficou. Gostamos do ensaio, então topamos voltar.

Metal Na Lata: No final do ano passado foi relançado o Split “Bestial Devastation/ Seculo XX”, no formato vinil numa edição limitada. Olhando para trás, qual foi o sentimento quando vocês pegaram o disco na mão? Em algum instante pensaram que aquele disco poderia mudar a vida de uma geração?

Claudio: Foi muito legal pegar esse relançamento na mão, exatamente porque esse split fez história. Não sei se a ideia era mudar toda uma geração, mas quando gravamos o Século XX pensávamos em mudar algo, especialmente dentro do Metal brasileiro.

Metal Na Lata: Muita gente foi pega de surpresa com os relançamentos em cds de “Século XX” e “Conscience”, e todos contendo um DVD bônus com apresentações da banda na época do lançamento do determinado disco. Como está essa fase de remexer no bau e pegar show históricos para lança-lós?

Claudio: Está sendo muito legal, pois estamos resgatando a história da banda. É muito legal podermos compartilhar com os fãs alguns dos registros que temos.

Metal Na Lata: Entre a demo “Ultima Estrela”(1983) e “ Seculo XX”(1985), se passaram dois anos e muita coisa foi acontecendo dentro do cenário metálico no Brasil. De certa forma esse tempo entre um lançamento e outro foi importante para moldar, de certo modo, o som do Overdose?

Claudio: Com certeza, pois a “Ultima Estrela” foi a primeira música composta pelo Overdose. Na época, o Metal estava nos seus primórdios e rolava uma efervescência de bandas e estilos novos. O Overdose sempre foi influenciado pelas novidades do mundo metálico. As músicas do “Século XX” são bem mais trabalhadas do que a “Última Estrela”, não só pelas mudanças no mercado, mas também pelo desenvolvimento musical da banda.

Metal Na Lata: Fazer o álbum “Conscience”, após o grande impacto do lançamento da split, foi um grande desafio? Houve algum tipo de pressão interna?

Claudio: Obviamente que foi um grande desafio, mas não houve nenhum tipo de pressão interna. O que rolou foi uma cobrança externa pelo disco ser mais melodioso que o “Século XX”, alguns fãs viraram a cara para nós.

Metal Na Lata: E como foi a transição das músicas cantadas em português no início para o inglês a partir do álbum “Conscience”? Como foi aceitação do público na época?

Claudio: A transição foi bem natural, pois o mais comum era o Metal em inglês mesmo. O público também aceitou bem, no geral. Entretanto, até hoje, existem os que são aficionados no Metal em português, mas é minoria.


Metal Na Lata:
Para um fã que está conhecendo o Overdose hoje, e acaba de adquirir os dois primeiros lançamentos, como você apresentaria o som da banda para essa pessoa?

Claudio: Apresentaria como algo datado, em certo ponto. Você não pode comparar algo gravado em 8 canais, em dois dias, com os discos que vieram depois. Apresento como o começo da banda desbravando uma região totalmente nova aqui no Brasil. Apesar das limitações, acredito que esses dois trabalho são bons e atemporais, podem ser curtidos mesmo nos dias de hoje.

Metal Na Lata: Existe alguma previsão para os relançamentos dos demais álbuns?

Bernardo: O próximo a ser lançado será o “Scars” e logo em seguida o “Circus of Death”, “Progress of Decadence” e o “You’re Really Big” até o final do ano.

Metal Na Lata: Algo que muitas pessoas se questionam é o porquê do Overdose não chegar a estourar, já que chegaram a tocar no exterior em festivais importantes, e os primeiros álbuns são considerados clássicos absolutos do Metal mundial. Na visão de vocês, existe alguma razão para não terem conseguido chegar no mainstream?

Claudio: Podemos ponderar vários fatores para o Overdose não ter tido o reconhecimento merecido, a pesar de que foi bem longe. É difícil dar uma resposta curta para essa reflexão. Demoramos a sair do Brasil, mudamos várias vezes de estilo, fomos boicotados algumas vezes, falhamos em alguns aspectos da produção e divulgação. Não dá para ter certeza, talvez tenha sido a soma de vários fatores.

Metal Na Lata: Hoje em dia com a internet as coisas mudaram e muitas vezes parece que a música virou algo descartável, muitas pessoas acabam nem escutando um álbum inteiro. Como é para vocês músicos verem uma geração que praticamente não dá importância em comprar cds ou comparecer em shows, apenas acha que ser fã é dar likes nas páginas das bandas que “gostam”?

Claudio: É muito triste, pois, além de não apoiarem a banda, estão perdendo algumas das coisas mais legais que existiam. Correr atrás dos discos, ouvir o álbum todo curtindo a capa, colecionar e curtir a parte física, gráfica entre outros prazeres. Não sei se isso tem volta, mas ainda existem pessoas que fazem questão de ter o álbum físico, estou percebendo isso nos relançamentos do Overdose, que tem vendido bem.

Metal Na Lata: Ainda sobre tecnologia, vocês que viram a evolução e revolução da indústria musical, passando do vinil para o cd, mp3, downloads ilegais, e agora temos uma grande procura nos streamings, como encaram esse novo mercado?

Bernardo: O advento da tecnologia mudou o mundo e não seria diferente com a indústria musical. Encarar esta realidade baseia-se em adaptar-se e aproveitar o fato de que com a internet não existem mais barreiras para levar o seu som por todo o mundo. Imaginar que agora as pessoas podem escutar música através de seus celulares usando as plataformas digitais e demais recursos é algo sensacional e ainda existe o lado que permite também que as bandas possam acompanhar materiais físicos e acabar descobrindo materiais sendo vendidos sem a autorização da banda. Adaptar-se é inevitável.

Metal Na Lata: Existe a possibilidade de um disco de inéditas do Overdose em 2018?

Bernardo: Existem conversas entre nós, mas nada concreto. Torço para que sim, mas não é fácil realizar um trabalho após a tríade “Circus”, “Progress” e “Scars”. Principalmente sem apoio, não é fácil nem barato fazer acontecer.

Metal Na Lata: 35 anos de banda, shows no exterior, considerado por muitos uma das principais bandas do Brasil, vários lançamentos oficiais, uma volta que está sendo triunfal, qual é o principal legado que o Overdose pode deixar para essa nova geração que está surgindo?

Bernardo: Falando como fã, especialmente dos últimos três trabalhos da banda onde pra mim ela alcançou o seu ápice musical, com discos agressivos, maduros e simplesmente animais. O mais interessante do conjunto é a abordagem lírica onde questões sociais e políticas passam a ser o componente principal das letras e são uma excelente expressão do que se vive diariamente. Pegar as letras da banda e refletir sobre permite que você vá além de uma visão superficial sobre o contexto comum lírico, as letras são profundas e abordam temas necessários. A Overdose é uma expressão musical que disseca a hipocrisia sistêmica levando a uma reflexão existencial que chama a uma mudança de percepção e de comportamento caso você esteja aberto para tal.

Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, o espaço final é todo de vocês.

Claudio: Gostaria somente de agradecer nossos fãs, que são o verdadeiro motivo de tudo que fizemos e de estarmos na ativa de novo. Gostaria também de agradecer ao Metal Na Lata por essa oportunidade de expormos nossas ideias.

Bernardo: Valeu demais William pela dedicação e tempo em formular a entrevista, ao Johnny Z. pelo espaço e toda equipe Metal na Lata pelo excelente trabalho realizado além do apoio e, como o Claudio falou, aos fãs principalmente, pois eles são os principais responsáveis pela Overdose estar de volta aos palcos novamente! Eles são nossos principais motivadores!!!

Formação atual:

Pedro Amorim (Bozó) – Vocal
Claudio David – Guitarra
Sérgio Cichovicz – Guitarra
Bernardo Gosaric – Baixo
Heitor Silva – Bateria

Mais informações:

www.facebook.com/overdosebrazil
www.overdosebrazil.com.br
www.youtube.com/user/overdosebrazil

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