Metal na Lata

AC/DC – 40 Anos de “Back In Black”

acdc_40_anos_back_in_black
Compartilhe

AC/DC – 40 ANOS DE “BACK IN BLACK”

UM POUCO DA HISTÓRIA E DEZ CURIOSIDADES SOBRE A OBRA-PRIMA DEFINITIVA DO AC/DC.

Por Marcelo Vieira
Diagramação, foto de capa e introdução por Johnny Z.
Fotos: Divulgação

“Definir “Back In Black” como uma obra-prima ou clássico atemporal é uma obrigação para quem ama de verdade o Rock. O sétimo álbum dos australianos do AC/DC, lançado em um período de luto extremamente rápido ao meu ver, contem não só uma constelação de clássicos, como também um charme único daqueles que te fisga por completo. Para alguns, fica a dúvida se a banda lançaria uma obra tão perfeita e tão querida como essa caso Bon Scott não tivesse morrido. Sinceramente? Eu acredito que sim. Faria sucesso? Sem sombra de dúvidas. Mas o charme seria outro, seria maus sujo, mais sacana e mais “desordeiro”, pois era isso que Bon tinha em seu sangue e nem sua alma. Talvez, o lance do luto e a perda de um ícone tenha feito com que as pessoas amassem o álbum até mesmo se um “Axl Rose” (oops) tivesse sido o escolhido. A ‘sorte’ é que, com a entrada de Brian Johnson perdeu-se em termos de “canalhice”, mas ganhou-se em potência e charme politicamente correto. Podem chamar de “Hard Rock” ou “Classic Rock”, isso realmente não importa, o que importa é que “Back In Black” é um patrimônio cultural da humanidade”. Johnny Z. (Redator-Chefe Metal Na Lata/JZ Press)

Em 14 de fevereiro de 1980, o AC/DC estava em Londres fazendo a pré-produção para o sucessor de “Highway to Hell” (1979) quando chegou a notícia de que o disco havia ultrapassado um milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos. No dia seguinte, o clima ainda era de festa quando o vocalista Bon Scott se juntou aos guitarristas Angus e Malcolm Young em um estúdio da cidade para trabalhar em músicas novas. De acordo com o fotógrafo Robert Ellis, Bon não via a hora de começar a gravar o próximo álbum. “Ele não parava de falar de como seria o próximo disco. Estava sempre com aquele caderno cheio de letras de músicas e começava a ler sempre que podia. E ele continuou falando sobre o novo álbum, de que seria o melhor disco do AC/DC. Estava muito entusiasmado com aquilo”, conta Ellis no livro Shock to the System, de Mark Putterford.

Quatro dias mais tarde, Scott foi encontrado morto no banco de trás de um carro onde havia apagado na noite anterior, depois de uma noite de dedicada bebedeira, sufocado com o próprio vômito. A autópsia realizada em 22 de fevereiro determinaria a causa da morte como “envenenamento alcoólico agudo” – havia meia garrafa de uísque em seu estômago –, “morte acidental” segundo consta também da certidão de óbito. Ele tinha 33 anos.

A morte de Scott paralisou a banda. “Ninguém sabia o que fazer”, disse Angus ao jornalista Jon Wiederhorn, autor do compêndio Louder Than Hell. “É como se tivéssemos um braço amputado.” O baterista Phil Rudd complementou: “Ninguém acreditava que isso poderia acontecer conosco. Ficamos muito deprimidos.”

Passados dois dias de luto, Malcolm pensou: “Bom, dane-se, não vou ficar chorando o ano inteiro”. Ele ligou para o irmão e, mesmo mergulhados na tristeza, os dois voltaram ao trabalho. Angus contou à Classic Rock: “Nós nos refugiamos em nossa música. Na época, não estávamos conseguindo pensar com muita clareza. Mas decidimos que trabalhar era melhor do que ficar lá sentados, ainda em choque pela morte do Bon. De certa forma, foi uma terapia, sabe?”

O corpo de Scott foi transladado de avião para Perth, no oeste da Austrália, onde foi cremado em 29 de fevereiro. No dia seguinte, durante o funeral em Freemantle, o pai de Bon, Charles Belford “Chick” Scott, deu o aval de que os Young precisavam para seguir em frente: “Encontrem outro vocalista. É o que Bon iria querer que vocês fizessem. Vocês têm de continuar. Vocês são jovens, estão no auge e não podem parar justo agora.”

A morte de Bon Scott acabaria sendo tanto o fim quanto um novo início. Em uma feliz reviravolta do destino, o AC/DC contratou Brian Johnson, integrante do grupo Geordie, que teve dois hits na voz de Brian no Top 20 em 1973, “All Because of You” e “Can You Do It”. Nascido nos arredores de Newcastle, Johnson foi recomendado ao grupo, segundo consta do comunicado à imprensa emitido cinco semanas e meia depois da morte de Bon, pelo produtor Robert John “Mutt” Lange, mas reza a lenda que o próprio Scott teria dito à banda que, se um dia precisassem substituí-lo, Brian seria uma boa escolha.

Em sua primeira entrevista como novo vocalista do AC/DC, Johnson – “que além de não ter nenhuma tatuagem ainda ostenta uma boina” – admitiu: “A verdade é que estou me cagando todo. Tudo que sei é que tenho muita coisa para fazer.” De fato, Angus e Malcolm haviam lhe pedido para escrever as letras, coisa que os dois não faziam e que Bon fazia brincando. Sem saber que era impossível assumir de onde Scott parara, ele foi lá e fez.

Banda e produtor se radicaram no Compass Point Studios de Chris Blackwell nas Bahamas por cerca de um mês e meio. Mal sabiam eles que sairiam de lá tendo em mãos um dos álbuns mais vendidos da história: o aniversariante do dia, “Back in Black”. Veja abaixo dez curiosidades sobre esse colosso do rock, que completa 40 anos neste 25 de julho:

  1. Um sino de verdade foi usado em “Hells Bells”.

Enquanto mixavam o disco em Nova York, uma ideia cruzou a cabeça de Malcolm Young: “Hells Bells” não estaria completa sem sons de sinos nela. “Mutt” Lange relutou em usar sons de sino pré-gravados – tal como o Metallica faria quatro anos mais tarde em “For Whom the Bell Tolls” –, então, quando voltaram à Inglaterra, ele mandou que o engenheiro de som Tony Platt gravasse um sino de igreja de verdade. Após algumas tentativas malsucedidas – incluindo uma em Leicestershire na qual foram utilizados 24 microfones –, a banda decidiu encomendar uma réplica de uma tonelada e meia do “Big Ben” a uma fundição local. Platt foi até lá enquanto a peça ainda estava em produção e gravou diversos sons utilizando 15 microfones e uma unidade móvel de gravação. O sino feito sob encomenda não somente figurou no álbum musicalmente falando como tornou-se parte do show da banda.

  1. A letra de “Hells Bells” foi inspirada numa tempestade (com um empurrãozinho de “Mutt” Lange).

Brian lembra no episódio da série Ultimate Albums do canal VH1 dedicado a “Back in Black” que, quando escreveu a letra de “Hells Bells”, uma tempestade terrível assolava a ilha. Olhando pela janela, Lange sugeriu a ideia de “rolling thunder”, estimulando Brian a continuar, numa perfeita descrição dos eventos meteorológicos do dia: “Um trovão retumbante, uma chuva torrencial, venho como um furacão. Meu raio corta o céu com sua luz […]”. Os versos recém-escritos por Johnson – em dez minutos – vestiram como luva o riff de Malcolm Young. Segundo single de “Back in Black”, lançado em 31 de outubro de 1980, “Hells Bells” seria uma das duas músicas do álbum – a outra sendo “You Shook Me All Night Long” – inclusas em “Who Made Who”, compilação da banda lançada em 1986 como trilha sonora do filme Comboio do Terror, de Stephen King.

  1. O riff de “Back in Black” quase foi parar na lixeira.

O riff da música que dá nome ao disco, a 190ª maior música de todos os tempos de acordo com a Rolling Stone, havia sido gravado numa fita cassete durante a turnê de “Highway to Hell”. Malcolm ia apagar e reusar a fita quando Angus interveio. “Malcolm me perguntou se este riff que ele tinha era muito funkeado”, contou. “E eu disse: ‘Bem, se você vai jogar fora, dê para mim!” À Guitar World em abril de 2003, Angus confessou que nunca conseguiu tocar exatamente como estava na fita. “Para meu ouvido, ainda não toco a coisa certa!” Terceiro single de seu álbum homônimo, “Back in Black” chegou ao 37º lugar na parada da Billboard.

  1. Uma amizade improvável.

Keith Emerson, do grupo de rock progressivo Emerson, Lake and Palmer, vivia em Nassau – capital das Bahamas – e criou um vínculo improvável com o AC/DC durante a gravação de “Back in Black”. “O que aconteceu conosco, com o ELP, é que estávamos gravando na Suíça e eu não gostei muito do lugar […] Então o ELP se mudou para as Bahamas em 1978 ou 1979 para começar a trabalhar em seu álbum ‘Love Beach’. O motivo de termos escolhido as Bahamas é que não havia impostos, que é provavelmente o motivo de o AC/DC ter escolhido o local também. Naquela época, o Partido Trabalhista estava à frente do governo e cobrava uma fatia exorbitante de quem estivesse ganhando muito dinheiro. Acho que pagávamos de 80 a 90 por cento do que ganhávamos [em impostos]. Todos nós fugimos disso. Uma porção de bandas britânicas estava saindo da Inglaterra”, relata Keith para Susan Masino, autora de Let There Be Rock. Emerson levava Angus e os outros para velejar no seu barco e os apresentava seu estilo de vida na ilha sempre que havia uma pausa nos trabalhos. “Acho que foi uma grande aventura para eles […] Eu ficava feliz de ter aquele bando de garotos no meu barco! […] Eles eram muito curiosos e interessados e para mim foi ótimo ter a companhia deles.” A improvável amizade, no entanto, jamais resultaria em parcerias musicais. Keith Emerson cometeu suicídio em 10 de março de 2016. Ele tinha 71 anos.

  1. “Uma capa toda preta, sem mais nada?”

Jeff Apter, biógrafo de Angus, conta que os Young já tinham decidido que a capa seria preta, em sinal de luto por Bon Scott. “Os advogados da gravadora não tinham certeza de que aquilo seria uma boa ideia; afinal Angus figurara em todas as capas anteriores de todos os álbuns. Ele era, de fato, o garoto-propaganda da banda”, escreve Apter em High Voltage, obra recentemente publicada no Brasil. “Eles não gostaram, mas a banda mandou que se fodessem”, diz Ian Jeffrey, tour manager do AC/DC, ao jornalista Mick Wall. “Eles tinham um disco que todo mundo sabia que seria um sucesso, com ou sem capa.” A gravadora concordou desde que a banda aceitasse um contorno cinza em seu logotipo. Edições posteriores, inclusive uma brasileira em CD de 1988 – atualmente supervalorizada na mão dos colecionadores –, incluem contorno também no título, além de um preenchimento branco nas letras; coisa que Angus e os demais provavelmente reprovariam.

  1. Fora do pódio.

Álbum de rock mais vendido de todos os tempos e segundo álbum mais vendido da história, ficando atrás apenas de “Thriller” (1982), de Michael Jackson, “Back in Black” já vendeu mais de 50 milhões de cópias em todo mundo. Apesar dos números, o disco nunca chegou ao primeiro lugar nas paradas – mérito que, curiosamente, seu sucessor, “For Those About to Rock”, foi capaz de conquistar, mesmo tendo vendido vertiginosamente menos. Vai entender…

  1. O terror da tradicional família norte-americana… com cinco anos de atraso.

Em matéria de letras, todos sabem que o mundo do AC/DC gira em torno de bebida, sexo e rock ‘n’ roll. Eles nunca tocaram (nem tocarão) baladas e fogem do debate político como o diabo foge da cruz. Em “Back in Black” não foi diferente. “Let me cut your cake with my knife”, canta Johnson, seguindo a escola de Bon Scott, no refrão de “Let Me Put My Love Into You”. A música que encerra o lado A do LP passaria incólume pelos bastiões da moral e dos bons costumes até 1985, quando entrou na mira do Parents Music Resource Center, comitê responsável pelos “Parental Advisory” nas capas dos discos, que a elencou na lista intitulada Filthy Fifteen (algo como “as quinze imundas”), que trazia quinze músicas, do pop (Madonna) ao black metal (Venom) consideradas violentas ou de conotação sexual. Visto pela classe artística como somente mais um surto periódico de indignação pela justiça, o PMRC foi assunto de uma entrevista de Angus para a People naquele ano: “Aqueles que querem estrangular o direito dos outros são possuídos por um dos piores tipos de demônio que há, a intolerância. Rock ‘n’ roll é sinônimo de liberdade. Sempre que alguém tentar assassinar essa liberdade, seremos contra.”

  1. Décadas mais tarde, um queridinho da Marvel.

A trilha sonora do filme Homem de Ferro 2 (2010), composta inteiramente de músicas do AC/DC, inclui três músicas de “Back in Black”: a faixa-título, “Have a Drink on Me” e “Shoot to Thrill” – essa última, inclusive, toca em outro filme do MCU, Os Vingadores (2012), quando o Homem de Ferro aparece. Se liga no clipe:

  1. Alguém aí curte covers bizarros?

Primeiro single de “Back in Black”, lançado em 19 de agosto de 1980, “You Shook Me All Night Long” tem um lugar especial no coração de Brian Johnson. “Foi a primeira música que compus com os caras”, contou o vocalista à extinta revista USA Weekend. “Para mim, é uma das melhores músicas já escritas.” Aparentemente, as cantoras Celine Dion e Shania Twain assinam embaixo, tanto que ousaram regravá-la. A versão de Celine – com direito a air guitar e participação da one-hit wonder Anastacia – veio antes, em 2002, no show VH1 Divas Las Vegas, posteriormente lançado em CD e DVD. Uma votação realizada em 2008 pela Total Guitar elegeu esse o pior cover da história. Já a versão de Shania foi gravada em 2003 e lançada um ano mais tarde no ao vivo “Up! Close and Personal”. Na época, Twain era casada com “Mutt” Lange, o produtor de “Back in Black”. O casal se divorciou em 2010. Em se tratando de AC/DC, ouça o original SEMPRE:

  1. Bon Scott presente!

Enquanto gravava seus vocais, Brian falou várias vezes que sentia que Bon estava no estúdio, que sentia que o espírito dele estava ali. Isso, obviamente, deu margem para as mais loucas teorias conspiratórias. Mick Wall escreve em AC/DC: A biografia: “como a de que não só Bon na verdade tinha escrito a maioria das letras de ‘Back in Black’ antes de morrer, mas ele na verdade tinha gravado várias demos das canções que mais tarde apareceram no disco.” É fato que em 15 de fevereiro de 1980, Bon, Angus e Malcolm trabalharam em duas músicas novas, “Let Me Put My Love Into You” e “Have A Drink On Me”. Mas Bon não cantou: em vez disso, sentou-se à bateria; inclusive, a introdução da primeira teria sido uma ideia de Bon. O sumiço do “caderno cheio de letras” ao qual Ellis se refere também deu pano para a manga, sobretudo após o jornalista Malcolm Dome afirmar que, pouco antes de morrer, Bon lhe mostrou seu caderno. “Havia letras, versos usados em ‘Back in Black’ que Bon escreveu. [Mas] ele não foi creditado, e até hoje ninguém sabe exatamente o que aconteceu. Não acho que ele escreveu nenhuma música inteira […] Mas há versos ali que eu conheço”, conta ele.

Compartilhe
Assuntos

Veja também