Anthrax – “Cursum Perficio” (2026)
Nuclear Blast Records | Shinigami Records
#ThrashMetal #HeavyMetal
Para fãs de: Metallica, Iron Maiden, Lost Society, Death Angel
Texto por: Johnny Z.
Nota: 7,5
Quando uma banda atravessa quatro décadas de carreira, chega a um ponto em que repetir o passado pode ser tão perigoso quanto tentar fugir completamente dele. Porém, para muitos fãs, essa não é uma questão tão simples. Existem aqueles que querem que a banda continue entregando exatamente aquilo que esperam e, do outro lado, aqueles que desejam justamente o contrário: que ela não se acomode, saia da zona de conforto e busque novos caminhos. O problema é que, para uma banda que passou tanto tempo consolidando uma identidade, romper com determinadas características também pode representar um risco para o próprio estilo que a consagrou. Afinal, os dois lados estão errados? Não. Mas o antagonismo entre essas expectativas é gritante.
O Anthrax conhece os dois lados dessa equação. Afinal, estamos falando de uma das bandas responsáveis por estabelecer os fundamentos do Thrash Metal norte-americano e que, ao longo dos anos, também passou por diferentes fases, sonoridades, riscos e formações.
Por isso, a expectativa em torno de Cursum Perficio era inevitavelmente grande. Foram dez longos anos desde For All Kings, disco que fez alguns torcerem o nariz, enquanto outros consideraram um bom trabalho. Ainda assim, inegavelmente, estava dentro do que a banda vinha fazendo.
Uma década é tempo suficiente para que uma nova produção de estúdio seja cercada por nostalgia, comparações e expectativas muitas vezes irreais. O próprio título, que remete à ideia de conclusão de uma jornada, acrescenta uma camada conceitual curiosa ao momento atual do grupo. Entretanto, a banda já deixou claro que o nome não representa necessariamente uma despedida (assim espero!), mas uma espécie de síntese de tudo aquilo que aprendeu ao longo da carreira.
E essa definição faz bastante sentido. Cursum Perficio é um álbum que olha para diferentes fases do Anthrax, mas não se limita a revisitá-las. O grupo mistura elementos de sua identidade clássica com soluções contemporâneas e, principalmente, apresenta uma quantidade considerável de experimentações.
O mais curioso é que tudo isso acontece dentro de uma sonoridade que, na minha percepção, está entre as mais comerciais de toda a carreira da banda. E essa é, justamente, a principal característica do disco.
O Anthrax parece muito mais interessado em construir músicas acessíveis, melódicas e imediatamente assimiláveis do que em entregar um álbum agressivo do começo ao fim. Os riffs continuam presentes. Charlie Benante continua sendo uma máquina atrás da bateria. Scott Ian mantém sua assinatura nas guitarras. Frank Bello segue garantindo peso à cozinha. Joey Belladonna está muito bem vocalmente — um dos destaques do álbum — e Jonathan Donais demonstra, mais uma vez, que já está completamente integrado ao universo da banda, mesmo sendo aquele cara que ninguém lembra que está lá (desculpe-me, Jonathan) (risos).
Entretanto, a agressividade deixa de ser o único objetivo e, ao meu ver, passa longe de ser a prioridade aqui. O álbum trabalha muito com grooves, refrãos grandes, melodias e estruturas que podem atingir facilmente quem não necessariamente procura o Anthrax mais tradicional. Isso fica evidente desde os primeiros momentos.
“Persistence of Memory” funciona como uma introdução atmosférica e prepara o terreno para “The Long Goodbye”. A faixa aposta em peso e cadência, mas já apresenta um Anthrax menos preocupado com velocidade. O vocal de Belladonna ganha bastante espaço, enquanto o refrão é construído para permanecer na cabeça. Resumindo: é uma abertura eficiente, mas sem tanto impacto.
Logo depois, “It’s For the Kids” aparece para lembrar que a banda não esqueceu suas raízes. Aqui, o Thrash Metal volta a assumir o protagonismo, com riffs rápidos, peso, bateria mais agressiva e uma energia que remete diretamente ao Anthrax clássico. Os fãs mais antigos vão se sentir representados e, não por acaso, a música funciona como uma espécie de carta de amor a esse público. Seria algo como: “vai, toma aqui o que vocês gostam, a gente sabe fazer isso ainda, mas estamos em uma outra vibe” (risos).
O contraste é interessante porque o álbum não permanece nesse caminho. “Everybody’s Got A Plan” retoma uma abordagem mais cadenciada e orientada ao Hard Rock, com bastante espaço para os vocais e para os grandes refrãos. É uma composição que evidencia o quanto a banda está confortável trabalhando com uma linguagem mais acessível.
E então chegamos a “The Edge of Perfection”. A música certamente chama atenção. Afinal, estamos diante de uma composição longa para os padrões mais diretos do Anthrax e que incorpora elementos pouco usuais dentro da discografia do grupo. Os blast beats de Charlie Benante são talvez o exemplo mais evidente dessa tentativa de explorar outro território. Mas, particularmente, não considero a faixa um dos grandes momentos do álbum.
O problema não está na capacidade técnica de Benante. Muito pelo contrário. O baterista demonstra novamente por que é tão importante para a história do Metal extremo. A questão é contextual.
Os blast beats parecem pouco naturais dentro da proposta essencialmente comercial da música. Em determinados momentos, a sensação é de que o recurso foi colocado ali para acrescentar agressividade a uma composição que, estruturalmente, segue outra direção. Não chega a ser ruim, mas, para mim, chega bem próximo disso (risos).
“The Edge of Perfection” acaba sendo uma música normal dentro do conjunto. A experimentação é interessante, mas nem sempre a execução dessa ideia produz um resultado realmente marcante. Em vez de fazer a música crescer, os momentos mais extremos acabam soando um pouco deslocados. Compromete o álbum? Não, pois ainda temos coisas muito boas pela frente.
E isso é particularmente curioso porque Cursum Perficio não precisa desses elementos para ser experimental. O experimentalismo do álbum está justamente na maneira como o Anthrax reorganiza sua própria identidade.
Bom, em relação aos dois tipos de fãs mencionados no início deste texto, vocês já entenderam em qual deles eu me encaixaria, certo?
“Infectious” é um bom exemplo. A música trabalha com uma abordagem mais pesada e cadenciada, explorando uma atmosfera diferente daquela encontrada nas faixas mais tradicionais. Joey novamente se destaca, enquanto as guitarras acrescentam personalidade sem transformar a composição em uma demonstração técnica. É uma música que cresce justamente por não tentar ser mais agressiva do que precisa.
Já “NYC 93” segue por outro caminho. A faixa carrega uma atmosfera nostálgica e funciona quase como uma fotografia de determinada época da banda. Existe uma sensação urbana e descontraída na composição, que conversa com o passado sem transformar a música em uma simples reprodução de uma fase anterior. É uma das faixas que melhor representam essa característica de Cursum Perficio: olhar para trás sem necessariamente voltar para lá. E ela agrada bastante!
A faixa-título também merece atenção. “Cursum Perficio” começa de maneira mais contida e desenvolve uma atmosfera melódica que foge bastante da imagem mais tradicional do Anthrax. A guitarra limpa, os momentos mais introspectivos e o crescimento gradual mostram uma banda interessada em explorar dinâmicas mais acessíveis.
Não é uma composição que vai necessariamente conquistar quem procura apenas velocidade. Por outro lado, funciona muito bem dentro da proposta do álbum.
“T.O.M.B.” é outro momento em que a banda tenta trabalhar diferentes elementos dentro de uma estrutura mais moderna. A música possui passagens de muito peso e boas ideias, mas não consegue manter o mesmo nível das melhores composições do disco. O riff galopado é eficiente, porém falta aquele elemento capaz de fazer a faixa se transformar em um grande destaque. É aquela faixa que você comemora o gol (aquilo de que gosta), mas depois o VAR o anula (risos).
“Watch It Go” segue uma direção semelhante. Existe uma influência mais contemporânea na composição e alguns elementos que remetem a períodos menos tradicionais da carreira do Anthrax. É interessante perceber como a banda não tem medo de revisitar essas características, mas, novamente, o resultado fica abaixo dos melhores momentos do álbum.
E então chegamos ao encerramento com “My Victory”, que funciona muito bem. O Anthrax recupera uma dose maior de energia e entrega uma composição melódica, pesada e com forte potencial para os palcos. A música reúne algumas das características mais eficientes do disco: riffs fortes, vocal marcante, melodia e uma dose suficiente de agressividade. Não esqueçam que estamos falando de um álbum mais acessível, ok?
É uma maneira competente de fechar a jornada. Mas existe uma questão que permanece depois que o álbum termina: até que ponto Cursum Perficio representa evolução e até que ponto representa uma mudança definitiva de prioridades?
Porque este não é um Anthrax tentando simplesmente provar que ainda consegue tocar Thrash Metal. Eles conseguem facilmente. Está no DNA e no sangue deles, e isso nunca esteve realmente em dúvida. A questão é outra.
O Anthrax de Cursum Perficio parece muito mais interessado em composição do que em velocidade ou em soar 100% “Thrash Metal ou metalzão”. Mais preocupado com refrãos e musicalidade do que com brutalidade. Mais interessado em experimentar dentro de uma estrutura acessível do que em entregar um disco agressivo do primeiro ao último minuto.
E, para mim, isso torna o álbum interessante. Ao mesmo tempo, também explica por que não consigo colocá-lo entre os grandes trabalhos da banda. E, acredite, há muitos na frente dele.
Existe qualidade, experiência, personalidade e coragem para experimentar? Sim, tudo isso! Porém, para os meus ouvidos, nem todas as ideias funcionam com a mesma eficiência. Algumas músicas são realmente fortes. Outras passam sem deixar uma marca tão profunda.
O maior mérito de Cursum Perficio está justamente no fato de que o Anthrax, mesmo depois de tantos anos, ainda parece disposto a sair da própria bolha. Não é fácil para uma banda com essa história abandonar parcialmente a zona de conforto. Seria muito mais simples gravar onze músicas baseadas em Thrash Metal tradicional, colocar alguns refrãos nostálgicos e entregar exatamente aquilo que o público espera.
O grupo preferiu fazer diferente. Só que experimentar também significa correr o risco de errar. Mas “errar” é algo pessoal demais e, se para alguns – e para eles mesmos – foi um acerto, está tudo certo.
Para mim, com todo o respeito que tenho por eles e pela carreira da banda, alguns desses riscos não funcionaram completamente. “The Edge of Perfection” é um exemplo claro. A ideia de colocar blast beats sobre uma estrutura mais atmosférica e comercial é interessante no papel. Na prática, porém, o recurso parece pouco integrado à composição e me soou desconexo.
Esse tipo de contraste aparece em outros momentos do álbum, embora de maneiras mais bem resolvidas. No final, Cursum Perficio não é um novo Among the Living. E passa anos-luz disso. Também não é um novo Persistence of Time, nem uma tentativa de recuperar artificialmente qualquer outro capítulo da carreira. É simplesmente o Anthrax de 2026, e está tudo bem. Após algumas audições, o que me veio à cabeça foi que esse álbum é uma espécie de Anthrax do multiverso, da fase experimental que John Bush teve com a banda, porém com Joey cantando (risos).
Uma banda veterana, extremamente experiente, tecnicamente afiada e suficientemente segura para experimentar. Uma banda que parece ter encontrado conforto em uma sonoridade mais comercial, sem abandonar completamente a vontade de surpreender.
Para quem espera um álbum de Thrash Metal agressivo e veloz, talvez seja necessário ajustar as expectativas. E, para quem aceita uma abordagem mais melódica, acessível e experimental, há bastante coisa interessante para descobrir.
Cursum Perficio não é perfeito. Algumas faixas são apenas medianas. Algumas experiências poderiam ter sido melhor desenvolvidas. E determinados momentos extremos parecem inseridos mais para provocar contraste do que por necessidade musical.
Porém, também seria injusto ignorar a coragem de uma banda com quase cinco décadas de história que ainda se permite sair da própria bolha. Esse é o grande paradoxo do novo Anthrax: um dos álbuns mais comerciais de sua carreira também é um dos que mais demonstra vontade de experimentar. E talvez seja exatamente essa contradição que faça Cursum Perficio valer a audição.
Não é um clássico. Não é um retorno às raízes. Também não é um álbum para quem quer ouvir o Anthrax de 1987 novamente. É um disco de uma banda que já fez praticamente tudo e que, mesmo assim, ainda tenta descobrir novos caminhos como os músicos experientes que são. Com acertos, tropeços e algumas escolhas discutíveis, mas ainda em movimento.





