Pagan Tales Records – “Brazilian Doom Metal” (2021)

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Compilação – “Brazilian Doom Metal” (2021)
Pagan Tales Records
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Nota: 9,0

É certo que o Cenário Underground (em maiúsculo e sem distinção entre regiões) vive e se alimenta de ideias e de atitudes — existem sonhos, esboços, planos e realidades, mas também existem pessoas dispostas e fielmente empenhadas na missão quase hercúlea ou sisífica de trazer uma maior visibilidade à cena, de atrair atenções à pluralidade e qualidade que as bandas desse nicho possuem desde sempre. Muitas vezes ou mesmo na maioria delas, a motivação para prosseguir nesse ofício vem do amor e do respeito à arte; não uma busca por reconhecimento, mas uma tentativa de manter a chama acesa e produzindo calor.

Visando propagar a cena Doom Metal brasileira em toda sua diversidade e inquestionável excelência, a recém-criada Pagan tales Records elaborou uma coletânea que reúne 11 representantes do gênero; dentre eles, alguns expoentes da velha guarda, ainda ativos e produtivos, alguns mais jovens, mas igualmente profissionais e outros que podem ser tomados por revelações. Interessante lembrar que tal iniciativa partilha dos mesmos propósitos que a distante, mas bem projetada e sempre necessária, “Doomed Serenades” — compilado desenvolvido e lançado em 2013 pela União Doom Metal Brasil, cuja finalidade era difundir o já citado gênero e as bandas devotas do mesmo. O primeiro lançamento fez grande sucesso entre os fãs, tanto que em 2015 ganhou sua segunda edição, dessa vez concebida através de uma parceria entre a também já citada União Doom Metal Brasil e o selo Nuktemeron Productions. De certa forma, “Brazilian Doom Metal” nada mais é que a continuação desse projeto, mas claro, com seus próprios valores e predicados.

Abrindo a coletânea temos o peso amargo e implacável de “Unnatural”, single originalmente lançado no início de 2020 pelo titã The Cross. A composição é uma homenagem às vítimas das tragédias de Mariana e Brumadinho — melancolia e consternação num rito solene que se alonga preciosamente por mais de dez minutos. O tema seguinte é “Doomed To Failure”, e também foi lançado em 2020; nele temos o Death/Doom Metal melodioso e mezzo atmosférico do Soulsad, banda que voltou a ativa em 2018 já com um ótimo lançamento, o ep “Two Funerals”. As ambientações criadas pelo tecladista e vocalista Rafael Sade são belíssimas e o solo de guitarra de Kinho Oliveira é pura poesia Doom. Que o Soulsad logo nos agracie com um trabalho completo, competência e inspiração para tal eles têm com sobras. Na sequência mais um titã — o mítico Serpent Rise com a transcendental “During The Eternity”. Esse tema foi extraído de um clássico que data de 1998; uma das joias da diadema “Gathered By…” Progressivo, cósmico, a divagação entre corpo, lógica e essência. O Serpent Rise não compõe musicas e sim estados de mentais. E sim, que lancem um segundo opus o quanto antes.

O The Aberration Doom é uma das revelações que enriquecem e mostram o quanto o gênero ainda é forte e versátil em nosso território. A one-man-band brasiliense capitaneada por Rogério Marques mostra toda sua personalidade sonora na potente e hipnótica, “Slowly Dying”; um Death/Doom dinâmico com appeal clássico que muito agradará os fãs da década de ouro, leiam-se os anos 90. A faixa conta com a participação do vocalista do Beholder’s Cult (abordarei mais a frente), Felipe Stock. Representando a magnitude do Epic Doom Metal temos o Unholy Outlaw e sua poderosa “Open The Gates”. Aos mais ortodoxos e fiéis à grandiosidade e eloquência do Candlemass, Solitude Aeturnus, Trouble e outros pilares, um néctar — peso, melodia, classe e conhecimento de causa numa única composição. Uma dica: ouçam sem moderação o segundo disco da banda, o clássico contemporâneo “Kingdom Of Lost Souls”. O prolifero Ode Insone soma poesia e lirismo à coletânea, “Sem Despedida” é uma das perfeições pertencentes ao álbum “Isolamento: Do Silêncio à Poesia” (2020). Sendo este terceiro lançamento destes paraibanos em apenas três anos de existência. Produtividade, inspiração e uma banda que ganhou muito mais personalidade e elasticidade com a entrada da bela vocalista Venore. Que venham mais discos!

Expoente máximo do Funeral Doom nacional, o supremo HellLight participa com a faixa titulo de seu vindouro sétimo álbum de estúdio — “Until The Silence Embraces”. Uma viagem sonora permeada por refinadas e primorosas melodias, véus atmosféricos e a voz inconfundível de Fabio De Paula. Existem muitas bandas que se dedicam a essa interpretação mais extrema de arte, mas com toda certeza nenhuma sequer se aproxima da grandiosidade do HellLight. Sobre o novo disco; HellLight e qualidade são sinônimos — é esperar e apreciar o novo registro. Na sequência mais uma revelação, o quarteto Beholder’s Cult com uma das malhas de seu recém-lançado e já muitíssimo elogiado disco de estreia, “Our Darkest Home”. “Weight Of The Sun” é um desfilar de elegância e melancolia; com uma sonoridade orgânica, aveludada e sabiamente estruturada. Destaque para exímio desenvolver dos teclados, para as linhas de  baixo bem sublinhadas e pelos vocais evocativos de Felipe Stock. Uma banda que ainda tem muito a oferecer aos fãs e assim espero que o faça.

Rumo ao fim do acervo ainda temos o Les Mémoires Fall com a fantástica “Creation”; a segunda malha de seu segundo e triunfal disco, “The Tree: Yarns Of Life”. Tétrica, solene e nada fugidia, a construção memora os ritos iniciais do Anathema, My Dying Bride, Lacrimas Profundere e também o cult, mas não menos excelente, Morgion. Claro que somando às suas influências, características e desígnios de sua identidade. O In Absenthia consolida o seu retorno com o lançamento oficial de seu debute “Thou Shalt Not Forgive Fate” e é dele que vem a dinâmica e texturizada “Brienne”. Encerrando categoricamente o apanhado temos a porção feia, suja e torta, mas necessária do Caligo. “Monstro Manto” é deliciosamente ácida e crua; psicodélica e robusta em medidas exatas. A banda já possui um ep “Templo Da Descrença” (2015) e ao que indica, já está mais que pronta para lançar um registro completo. Aos apreciadores de brisas sonoras densas e acachapantes fica essa indicação, ouçam e conheçam o Caligo.

A Pagan Tales cumpriu com o prometido e foi muito além do básico; do ponto de vista criativo e qualitativo, a coletânea explora não apenas o Doom Metal, mas sim, todas as suas ramificações e concepções, desse modo, ainda que dentro de uma única proposta, temos bandas distintas, com leituras e finalidades diferentes. De um extremo ao outro, caso seja feita uma análise mais profunda, surgem deslizes, o que é compreensível se levarmos à razão que são produções, investimentos e tempos diferentes. Porém, nada de tão grave que chegue a ofuscar a iniciativa ou seu alinhamento final. Um trabalho desenvolvido por fãs para fãs, honesto e caprichado. Quanto a estética, é justo mencionar a arte magnifica de Maurício Bastos Júnior. A coletânea pode ser adquirida diretamente com o selo ou nas lojas Die Hard Records em São Paulo e Berlin Discos em Brasília; o kit inclui, além do CD em formato digipack, uma revista trazendo a biografia de cada uma das bandas participantes. Material minucioso e primoroso que vale a pena ser adquirido. Para aqueles que tanto falam em apoio à cena, uma ótima oportunidade de colocar o discurso em prática.

Fábio Miloch

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