D.R.I – Fabrique Club, São Paulo/SP (14/04/2018)

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Banda principal: Dirty Rotten Imbeciles (D.R.I)
Banda de abertura: (Not) S.O.D.

Local: Fabrique Club, São Paulo/SP
Data: 14/04/2018
Produção: MP Tour Management
Assessoria: LP Metal Press

Texto por Ricardo Leite Costa
Fotos por Luciano Piantonni

O inusitado projeto escalado para “open act” da noite gerava intensa expectativa, afinal, seria revisitado na íntegra um dos maiores clássicos, não só do Hardcore/Crossover, bem como da música extrema em geral. O Not S.O.D. seria a oportunidade de presenciar o que foi um dia o finado S.O.D.e, na impossibilidade de assistir ao original – pois é mais fácil Jesus descer na terra hoje pra nos dar aquele esporro do que uma possível reunião da banda -, ao menos 1/4 dos fundadores do mais adorado projeto estaria integrando a banda tributo. E quando esse percentual corresponde ao folclórico Dan Lilker (baixo), eu já vejo a necessidade de dobrar a dose do meu ansiolítico diário pra poder me manter sob controle.

E a atração principal? “Somente” os imbecis sujos e podres que tanto amamos e respeitamos. Em mais uma mini turnê nacional, os sujeitos que concluíram a mais perfeita fusão da música pesada, dando vida a este subgênero tão especial, estariam involuntariamente celebrando uma marca muito importante: os 30 anos do clássico “4 of a Kind”. Por conta disso, a promessa de um set abrangente e animalesco deixava a todos com as emoções à flor da pele.

Por volta das 19:00 adentra ao palco o Not S.O.D. para dar a largada nesta noite tão especial. A banda composta por João Gordo (vocal/Ratos de Porão), Cleber Orsioli (guitarra/Blackning), Guilherme Martin (bateria/Toy Shop) e o já mencionado Dan Lilker (baixo/1 zilhão de bandas) é recebida efusivamente. Gordo, ostentando as letras das músicas na mão, já chega dizendo que está velho e já não enxerga bem, por isso precisava conferir as letras enquanto cantava. Uma atitude típica da espontaneidade do vocalista, que está pouco se fodendo para a opinião alheia. Bandas “mainstream” fazem uso de “teleprompter”. O Not S.O.D.patenteava naquele momento o “paperprompter”, e dava sequência ao morticínio da noite.

“March of the S.O.D.” inicia o espetáculo numa indefectível demonstração de peso e violência. A velocidade empregada à composição foi ainda maior que na original, com Gordo executando bem seu papel de “Not Billy”, aliás, Gordo foi a escolha perfeita para o cargo, afinal, ele e Billy ”Mosh” Milano possuem carisma, irreverência e a língua ferina necessária para tal. A promessa na execução de “Speak English or Die” na íntegra foi se confirmando, com o quarteto “desconstruindo” “Sargent D and the S.O.D.”, “Kill Yourself” e “Milano Mosh”, uma emendada na outra, quase sem intervalo. Um arroubo de peso e dissonância que judiava, ao mesmo tempo que extasiava, esse pobre escriba.

Na hora da faixa título, Gordo explica que nunca soube falar inglês, por isso, resolveu fazer uma adaptação da mesma para o nosso idioma e realidade, assim nascia “Eu Não Falo Inglês, Foda-se”. Nem preciso dizer que a platéia foi ao delírio. O hino pró-união da cena “United Forces”, juntamente com “Chromatic Death” e “Pi Alpha Nu” iniciaram a modalidade “corpos voadores”. A brutalidade sonora atingia níveis de periculosidade elevada a esta hora, em um entrosamento exemplar entre os integrantes, além da descontração natural no ambiente, pois parecia muito mais uma uma jam entre amigos (e de fato foi mesmo).

“Speak English Or Die” traduz e revela a essência Punk despojada dentro do Metal, e prova irrefutável disto está na diminuta “Anti-Procrastination Song”. Em determinado momento, João Gordo disse que não tinha cantado porra nenhuma, mas que ia ficar daquele jeito mesmo. E não é que ficou bom mesmo assim? O som ensurdecedor, denso por natureza, despertava os instintos mais primitivos nos presentes, que se digladiavam pra valer ao som de “Freddy Krueger”, “Milk”, “Pre-Menstrual Princess Blues” (zoeira pura), “Pussy Whipped”, “Fist Banging Mania”…ave! Um hit underground atrás do outro, sem clemência. E a promessa foi devidamente cumprida, pois seguiram a risca o cronograma do disco, reproduzindo à sua maneira cada faixa, cada momento, numa espécie de S.O.D. de mentirinha, porém levado a sério. Eu daria os dois rins por uma regravação desses sujeitos. Épico, apoteótico, violento e irreverente, em suma, perfeito!

Setlist Not S.O.D.:

March of the S.O.D.
Sargent “D” & the S.O.D.
Kill Yourself
Milano Mosh
Speak English or Die
United Forces
Chromatic Death
Pi Alpha Nu
Anti-Procrastination Song
What’s That Noise
Freddy Krueger
Milk
Pre-Menstrual Princess Blues
Pussy Whipped
Fist Banging Mania
No Turning Back
Fuck the Middle East
Douche Crew
Hey Gordy!
Ballad of Jimi Hendrix
Diamonds and Rust

Cerca de meia hora depois surgem os reis da festa. De moleques ensaiando no quarto, com o pai xingando na porta, a ícones supremos de toda uma cena. A trajetória foi longa, o reconhecimento nem sempre justo, mas esses senhores conseguiram. Idolatrados por skatistas, headbangers, punks, enfim, todos tem apreço pelos imbecis. A apresentação dessa noite foi uma exuberância Crossover. Um desfile dos maiores clássicos de toda a carreira da banda, apresentados por músicos que parecem não perecer à ação do tempo.

Quase sexagenários (pelo menos o vocalista Kurt Brecht e o guitarrista Spike Cassidy já estão quase completando essa marca), mas com vigor de jovens endiabrados, os sujeitos botaram o recinto abaixo com “Application”, seguida de “Hooked”. Era isso que todos estavam esperando! O Verdadeiro Hardcore em toda sua magnitude, expresso em pérolas atemporais, que permanecem atuais mesmo sendo lançadas há muitos anos. A formação atual, que conta com Greg Orr no baixo (Attitude Adjustment) e com o retorno de Rob Rampy (bateria) é de uma precisão e intensidade explosivas, e a cada composição apresentada o local se tornava um grande e único “circle pit”, unindo etnias variadas, sem qualquer distinção, em prol da diversão.

“How to Act”, “Commuter Man” e “Problem Addict”, quase fundem-se numa única faixa, complementando uma à outra, causando comoção nos presentes, que foram devidamente subjugados pelo quarteto estadunidense. Quando eu achava que não poderia ficar melhor, aí é que ficou mesmo: uma sequência incandescente com “Snap”, “Sleeping”, “Soup Kitchen” e, a fronteira que separou os meninos dos homens: “Violent Pacification”. Esse momento foi de transe catártico, com todos entoando o refrão junto com Kurt Brecht, que deixou o espaço aberto para todos se manifestarem. Foi bonito de se ver, indescritível!

Segue a pancadaria inexorável, a plateia ensandecida pedindo mais, e muito mais foi entregue nos próximos minutos. Apresentaram na íntegra o ep “But Wait…There’s More”, seu último lançamento contendo faixas inéditas e regravações, e foi no mínimo memorável. Dan Lilker, que estava assistindo ao show na lateral do palco, entra rapidamente, toma o baixo de Greg Orr e acompanha a banda em “Mad Man” e “Couch Slouch”. Você um dia vislumbraria a união entre D.R.I. e S.O.D. numa mesma música? Pouco provável, né? Mas eu pude presenciar, e foi mágico. A gênese de todo um subgênero tocando a poucos metros de mim. Anos se passarão e eu não encontrarei adjetivos pra definir esse momento. Indescritível.

Tudo isso e ainda mal havíamos chegado à metade do set! Kurt Brechtinterage apenas o necessário com o público, creio eu que pra manter a energia reservada para o que realmente interessa, pois o ritmo não decai em nenhum momento. A pegada selvagem, o peso exorbitante e a velocidade insana são preservados a cada segundo, numa clara demonstração de fúria adolescente acondicionada em senhores que ainda estão longe do reumatismo e do bico de papagaio.

Ainda tínhamos caminho a percorrer, ao menos mais uns 40 minutos de apresentação, que foram preenchidos da melhor forma possível: “Acid Rain”, “Probation”, “The Explorer”, “Who Am I”, “Dead In A Ditch”, “Syringes”, “All For Nothing”, enfim, muitos foram os destaques; aliás, TUDO se destacou. “Manifest Destiny” parecia ser o ato final, com toda a banda se retirando do palco, mas retornando brevemente para aquela saideira primordial. Concluíram com alguns de seus maiores clássicos, tais como “I Don’t Need Society”, “Beneath the Wheel”, e o encerramento definitivo com “The Five Year Plan”.

Depois de sobreviver a esta notável experiência, pude concluir que não importa quantos shows e eventos eu ainda vá participar este ano, dificilmente algum vai se equiparar ao que presenciei hoje. Evento impecável, duas lendas máximas no palco, público intenso e local propício. Precisa mais? Agora só me resta ir pra casa, cansado, é verdade, mas com um sorrisão no rosto, satisfação garantida, e um zumbido no ouvido que certamente me acompanhará pelos próximos dias.

Set List D.R.I.:

Application
Hooked
How to Act
Commuter Man
Problem Addict
Snap
Sleeping
Soup Kitchen
Violent Pacification
Against Me
Anonymity
As Seen on Tv
Mad Man
Couch Slouch
Acid Rain
Probation
Abduction
Argument Then War
Equal People
Yes Ma’am
The Explorer
Karma
Who Am I?
Slumlord
Dead In A Ditch
Suit & Tie Guy
Syringes
Thrashard
All For Nothing
Manifest Destiny
I Don’t Need Society
Beneath the Wheel
The Five Year Plan

Agradecimentos ao amigo Luciano Piantonni (LP Metal Press) pelo credenciamento e pelas belas fotos que ilustram essa matéria gentilmente cedidas, a MP Tour Management pela organização do evento e a todos os envolvidos no processo. Até a próxima.

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