
Banda Principal: Dream Theater
Bandas de abertura: Reckoning Hour, Turilli / Lione Rhapsody, Sabaton, Killswitch Engage
Local: Nova Arena Anhembi, São Paulo/SP
Data: 07/12/2019
Produção: Liberation
Assessoria: The Ultimate Music
Texto por William Ribas e Luiz Gustavo Santos
Fotos e vídeos por William Ribas
Por várias vezes nestas últimas décadas, diversos festivais surgiram e morreram, sempre deixando nós, fãs de música pesada, órfãos. Há alguns meses foi anunciada a primeira edição do “Dream Festival”, a ser realizado na Nova Arena Anhembi, um local tradicionalmente usado para o Carnaval, mas que por alguns milagres do destino por vezes tem o Heavy Metal como destaque.
E a estrutura montada foi muito boa, apesar da falta de telões no palco. O local é de fácil acesso, com muitos banheiros de alvenaria (apesar de a proporção de mulheres no Carnaval ser bem outra, o que lotou o lado masculino), havia comida boa e a bebida estava num preço justo para a ocasião.
O ponto negativo foi o famigerado cartãozinho de bebida. Em vez de fichas ou grana, era usado um cartão de plástico recarregável para pegar as bebidas. Pra pegar o cartão era cobrado R$ 5,00, que em tese seriam “trocados” numa água ao final. E é aí que entra a treta.. a tal troca ocorreu somente após todos os shows, em apenas um ou outro ponto. Moral da história: a grande maioria, como eu, trouxe o cartão embora e morreu com os tais 5 contos.
Mas enfim, vamos ao que interessa.
Reckoning Hour
Por William Ribas
Os cariocas do Reckoning Hour subiram ao palco com o sol rachando, e com um público extremamente fraco em termos numéricos, mas que se mostrou bastante interessado no que o grupo apresentava. Seguindo uma linha mais moderna, algo que podemos até classificar como Metalcore, fizeram a honraria para os raros momentos de agressividade do festival.
Músicas como “Shadow of the World”, “Away from the Sun” e “Above the Fire” se mostraram excelentes ao vivo, com uma pegada bastante furiosa e coesa. Aliás, o grande trunfo dos rapazes é a felicidade que demonstram a cada música executada. Durante as quase 10 horas que permaneci na Nova Arena Anhembi, não vi alguém tão sorridente, seja entre as bandas ou público, como o baixista Cavi Montenegro. O “moleque” era alegria pura, com certeza estar ali era parte de algum sonho de infância de quando começava a dura missão de ser músico.
Antes do encerramento, o vocalista JP lembrou a todos sobre a importância de se apoiar o metal nacional, destacando serem a única banda brasileira no cast do evento. Tudo isso segurando a bandeira desse sofrido e maltratado pais. Um show excelente. Sorte de quem estava ali logo cedo!
Setlist:
Unity
Shadow Of The World
Scars
Away From The Sun
Above The Fire
The Gathering
What Has Gone Wrong
Turilli/Lione Rhapsody
Por Luiz Gustavo Santos
Fiquei empolgadíssimo quando o Rhapsody (vamos lá, essa banda é o Rhapsody e pronto!) foi anunciado no Dream Festival. Isso porque já vinha ouvindo alucinadamente o excelente “Zero Gravity (Rebirth and Evolution)”, lançado esse ano. E depois desse show, estou ainda mais vidrado no som desses caras.
Ainda com um público bem pequeno, a banda entrou no palco, por volta das 16:30, de forma bem enérgica, mandando a ótima “Phoenix Rising”, que também abre o disco. Na sequência o primeiro clássico, “Dawn of Victory”, começou a conquistar a galera. Os hits do velho Rhapsody, aliás, foram as músicas que mais empolgaram, pois muitos pareciam não conhecer bem as faixas do novo trabalho dos caras. Em “Holy Thunderforce” esse editor, cheio de lembranças dos já longínquos tempos de faculdade, quase veio às lágrimas.
Outro destaque foi “Arcanum (Da Vinci´s Enigma)”, pra mim uma forte candidata a melhor música do ano. Aqui Fabio Lione mostra que é um FENÔMENO. Variando entre os agudos e rasgados do Metal e a voz empostada da Ópera com uma precisão incrível, o cara é um show a parte. Às vezes parecia que tinha 2 ou 3 vocalistas no palco. Uma atuação absolutamente brilhante! Turilli, com suas poses de Velociraptor, também se mostrou bem agitado e feliz no palco.
Como um todo, a banda se mostra bem técnica e dedicada. Espero que a formação se mantenha estável e que venham novos discos. O Rhapsody entregou um belíssimo disco e um showzão em São Paulo esse ano, uma pena que pouca gente ouviu/viu.
Setlist:
Phoenix Rising
Dawn of Victory
Zero Gravity
Land of Immortals
The Wizard’s Last Rhymes
Holy Thunderforce
Lamento Eroico
Riding the Winds of Eternity
Arcanum (Da Vinci’s Enigma)
Unholy Warcry
Sabaton
Por Luiz Gustavo Santos
O Sabaton é uma banda definitivamente feita para grandes arenas e festivais. Não foi à toa que os suecos foram protagonistas do Wacken Open Air desse ano. Claro que, em São Paulo, não havia a mesma grandiosidade e produção de palco, mas o figurino, a empolgação da banda, bem como a sonoridade que favorece muitos “OoO oOo” e “Hey Hey Hey”, tudo faz do grupo uma excelente atração ao vivo.
E foi com a entrada do Sabaton, por volta das 18 horas, que o público de São Paulo começou a aumentar e esquentar, apesar do ventinho chato que já soprava. A abertura, com “Ghost Divison” e “Great War”, já cativou a galera e mostrou que a banda tá na ponta dos cascos. E o repertório seguiu cheio de faixas que convidam a galera a participar, como “The Last Stand” e “The Red Baron”, com a galera em peso berrando o “HIGHER!!”. A base do repertório foi o excelente “The Great War”, lançado esse ano, que cravou 4 faixas.
A banda é muito segura e entrosada, e o vocalista Joakim, que, convenhamos, não é nenhum primor técnico, se mostra um ótimo frontman, interagindo bem com o público. Outro ponto alto foi quando uma bandeira da Suécia foi jogada ao palco e pega por Joakim, bem durante a conexão Suécia-Brasil com “Swedish Pagans” e “”Soming Snakes”.
O encerramento se deu com a excelente “To Hell And Back”, por volta das 19 horas. Nesse ponto o público já era bom e estava todo nas mãos do Sabaton, que mostrou que, para grandes shows ao vivo, seu Power Metal Bélico é uma opção que nunca decepciona.
Setlist:
Ghost Division
Great War
The Attack of the Dead Men
Fields of Verdun
The Last Stand
The Red Baron
Carolus Rex
Primo Victoria
Bismarck
Swedish Pagans
Smoking Snakes
To Hell and Back
Killswitch Engage
Por William Ribas
Após uma breve passada pelo posto médico para medir o nível de açúcar no sangue, graças às altas doses do show anterior, era chegado o momento de novamente ter algo brutal e violento no festival. O grupo norte americano Killswitch Engage desembarcou no Brasil para divulgar o seu último trabalho de estúdio, “Atonement”, que com todos méritos recoloca a banda em alto padrão mundial. Ou, como os livros dos clichês devem ser escritos, pode-se dizer que a banda está em seu melhor momento, com o seu melhor álbum na praça.
Assim como o Sabaton, o Killswitch também contou com uma boa base de fãs que estavam ali para cair no bate cabeça do início ao fim. O começo logo trouxe resquícios de destruição, com as novas “Unleashed” e “Hate by Design”, mostrando que a banda estava ali para simplesmente estraçalhar ossos. Com poucas palavras, o grande plano foi colocado em missão: não dar chance para o erro e muito menos para respirar. Era porrada atrás de porrada, passando por praticamente todas as fases da banda.
Algumas cenas marcaram a apresentação, como várias mulheres sacudindo e cerrando os punhos no alto e algumas pequenas rodas. Aliás, melhor dizendo, rodas tímidas, daquelas que poderiam ser facilmente confundidas com ciranda cirandinha do jardim de infância. Acredito que o grande motivo de termos algo tão reservado é o fato da gigante maioria estar ali para o virtuosismo, e não para a pancadaria gratuita.
A grudenta e acessível “I Am Broken Too” colocou a pista para cantar o seu refrão fácil, mas logo as coisas voltaram ao “normal” com “Rose of Sharyn“, “As Sure as the Sun Will Rise“ e “In Due Time“, que, mesmo tendo suas linhas vocais se alternando entre urros e toques limpos, não perdem nem um pouco do peso. Pelo contrário. Só faz mostrar o quanto a banda é criativa e ousada com suas várias mudanças de tempos e vozes ao decorrer de suas composições.
O encerramento foi com uma versão rápida de “Holy Diver”, do nosso eterno Ronnie James Dio. Dessa vez não somente os adeptos do grupo cantaram, mas um festival por completo que resolveu reverenciar essa lenda que nos faz muita falta nesses dias tão complicados. O Killswitch Engage cumpriu o seu papel, e conseguiu cravar mais ainda o seu nome no coração dos brasileiros.
Setlist:
Unleashed
Hate by Design
The Crownless King
My Last Serenade
This Fire
Reckoning
I Am Broken Too
Rose of Sharyn
As Sure as the Sun Will Rise
In Due Time
The Signal Fire
Always
My Curse
This Is Absolution
The End of Heartache
Strength of the Mind
Holy Diver (Dio)
Dream Theater
Por William Ribas e Luiz Gustavo Santos
Antes de qualquer comentário referente ao show principal, vale citar a forma de trabalho dos roadies e da equipe técnica para montagem do palco e pra manter o cronograma o mais perfeito possível. Eram pessoas carregando uma gigante bateria, correria para fixar plataformas, afinações para cá e para lá, telão sendo ajeitado, imagens passando e aguçando o público, etc.. Mas merece destaque o péssimo gosto para escolha das músicas passatempo. Se você acha algumas das coisas do Dream Theater longas e sonolentas, experimente ficar ouvindo o que eles colocam para entreter os fãs até o começo do show.
Quase que num regime britânico, às 21h15, era chegado o momento pelo qual todos estavam ali. Os mestres do Prog Metal subiam ao palco do Dream Festival para encantar, ensinar e, o mais importante, festejar a longevidade de um clássico irretocável. Contudo, é preciso dizer que, ao contrário do Sabaton, o Dream Theater definitivamente não é uma banda de arena e de festivais. Goste ou não, o som da banda é para ser assistido e apreciado de forma diferente. Aliado a isso, a pouca empatia da banda com o público e uma escolha de repertório a meu ver equivocada, tornaram a primeira hora do show bem morna.
Acompanhar qualquer apresentação da banda é uma tarefa, digamos, um pouco complicada para quem não é familiarizado. Quem é do Thrash sente falta dos riffs certeiros, quem é do Heavy sente falta das cavalgadas, quem é do Power, dos refrões chiclete. Mas para quem é do meio musical, ah, é uma aula!
Esse primeiro momento foi voltado para o presente, o AGORA de James LaBrie (Vocal), John Petrucci (Guitarra), John Myung (Baixo), Jordan Rudess (Teclado) e Mike Mangini (Bateria). Debutaram em solo paulista várias faixas do último disco, tais como a agitada “Untethered Angel“ e ”Fall Into the Light”. O momento mais cativante dessa primeira parte, contudo, foi na brilhante e totalmente viajante “A Nightmare to Remember”. Uma aula de beleza, mistério e peso. Ao final de “Pale Blue Dot”, um intervalo de 5 minutos antecedeu o grande momento da noite. Muito provavelmente 100% das pessoas aguardavam ansiosamente a execução de “Metropolis, Part 2: Scenes From a Memory”.
E foi aí que a coisa engrenou pra valer. Ver a banda executando um dos maiores clássicos da história do Prog Metal é de emocionar. Dai não tem fã que resista. A galera fez a devida imersão na história do disco e participou com a banda do começo ao fim, criando o momento de maior sinergia nas longas horas do Dream Festival.
Dizer que a banda é absurdamente impecável é até redundante. O foco, o talento e a qualidade técnica dos músicos impressiona e deixa extasiado qualquer um que goste de boa música. O Dream Theater faz o impossível parecer trivial. Cada nova música é um aprendizado sem fim, e é nisso que devemos sempre estar focados, no quão grandiosa uma composição pode ser, te levando a vários horizontes em questões de segundos.
Durante os quase 80 minutos do “Scenes”, um público boquiaberto cantava, pulava, chorava e sorria ao finalmente ver e ouvir de perto essa maravilha. A empatia de Labrie com a plateia melhorou nessa parte do show, e as aventuras de Rudess à frente do palco também causaram entusiasmo. Desde a famosa regressão até a libertação final, passando pelas fantásticas “Beyond This Live”, “Home” (com a galera gritando a plenos pulmões) e “The Dance of Eternity” (o auge do virtuosismo), ninguém conseguiu ficar imune ao encanto. Encanto que se quebrou ao final do disco, com a galera dando pouca bola para “At Wit’s End”, outra faixa do disco novo que encerrou a noite.
Podemos dizer que tivemos uma excelente tarde/noite em São Paulo nesse sábado. Apesar do público abaixo das expectativas, ficamos na torcida para que os organizadores levem adiante o Dream Festival, corrigindo algumas pequenas falhas para que esse festival possa se tornar uma instituição da música pesada no país. Como uma primeira experiência, foi bom demais.
Setlist:
Untethered Angel
A Nightmare to Remember
Fall Into the Light
Barstool Warrior
In the Presence of Enemies, Part I
Pale Blue Dot
Regression
Overture 1928
Strange Déjà Vu
Through My Words
Fatal Tragedy
Beyond This Life
Through Her Eyes
Home
The Dance of Eternity
One Last Time
The Spirit Carries On
Finally Free
At Wit’s End






























