
A justiça tarda… e às vezes falha. Trinta anos atrás, o Hicsos brotou no underground carioca como uma talentosa força a ser reconhecida. Muito se especulou acerca de quão alto o grupo poderia voar… só que o tempo foi passando, as dificuldades, aumentando, e uma série de fatores impediu os caras de levar seu som para além do meio que até hoje representam com uma garra incorruptível. O Metal Na Lata aproveitou que o Hicsos está com lançamento novo na praça — o DVD “26 Years of Thrash Violence” — para bater um papo com essa verdadeira instituição do Metal brasileiro, aqui representada por Marco Anvito (baixo e vocal), Alexandre Carreiro (guitarra) e Marcelo Ledd (bateria). Acompanhe!
Conduzido e Editado por Marcelo Vieira
Fotos gentilmente cedidas pelada banda (galeria Caike Scheffer)
Metal Na Lata: Vamos começar falando sobre o DVD comemorativo! Vinte e seis anos de estrada é coisa para poucos, mas é um número curioso. Artistas e bandas geralmente comemoram vinte, vinte e cinco ou trinta anos. Por que vinte e seis especificamente? E por que o DVD só chegou às vésperas do aniversário de três décadas da banda?
Marco Anvito: A ideia de lançar um DVD contando a história da banda surgiu quando íamos fazer 25 anos. Mas, por motivos alheios a nossa vontade, adiamos. Como tudo é feito na base do “do it yourself”, houve atrasos por conta de grana; alguns depoimentos que gostaríamos de colocar que demoraram um pouco para vir; trocamos três vezes a empresa e os profissionais que fizeram a edição e formatação do DVD, entre outros problemas. Só conseguimos finalmente lançá-lo com quase 29 anos ininterruptos de estrada (risos). E como a arte e os depoimentos estavam baseados nos 26 anos de história, acabou ficando assim.
Metal Na Lata: Nos extras do DVD, há três shows gravados em momentos distintos e com diferentes formações da banda. O que se pode concluir a respeito do público com o passar do tempo? Vocês acham que o headbanger muda conforme vai ficando mais velho? A paixão aumenta ou diminui? A tocha é passada para as novas gerações?
Marco Anvito: Bem, na década de 1990 o underground era mais “romântico”, pois não tínhamos internet e as pessoas ficavam ligadas onde tinha show quase que num boca a boca para poder ter contato com outras bandas e outros bangers. Trocar ideias para conhecer novos sons era uma correria atrás de informação mais voraz. Hoje em dia, a internet e a violência nas ruas deixaram as pessoas mais caseiras e isso diminuiu bastante o público dos shows. Mas paixão pelo Metal não diminui e nem acaba. O que acredito é numa alta do consumo de material pela internet. EPs virtuais estão bombando.
Alexandre Carreiro: Como tudo nessa vida passa por uma evolução, o Metal também passa… Novos estilos, novas tecnologias… Acho que a nova geração está até investindo mais na educação musical, tanto que as bandas modernas são compostas por músicos extremamente técnicos. Gosto de ver essa evolução!
Marcelo Ledd: Acho que a galera que estava no show de 1992 ainda tem o mesmo tesão hoje em dia, mas a idade já não permite mais fazer estripulias como antes (risos). Hoje acho que a galera mais jovem escolhe shows para ir, diferentemente daquela época que não tinha nada e o público estava sempre procurando por novidades.

Metal Na Lata: Tendo feito tantos shows históricos – como a abertura para o Anthrax, por exemplo –, quais permanecem na lembrança de vocês como pontos mais altos do Hicsos na estrada?
Marco Anvito: Todos ficaram na memória. Foram experiências fantásticas. Realização de sonho, aprendizado, diversão e bons momentos.
Alexandre Carreiro: Como eu não vivi essa época no Hicsos, posso destacar dois shows muito bons que fizemos: um aqui no Rio de Janeiro com o grande Taurus e os nossos amigos do Monstractor! Foi um puta evento com casa cheia! O outro foi em Resende, também com casa cheia! Foram os shows que eu considero como pontos altos comigo na formação!
Marcelo Ledd: O D.R.I. foi o primeiro e tivemos bastante contato com os caras. Isso marca bastante, mas Anthrax é banda do coração, Mercyful Fate é lenda, assim como os outros; Napalm Death, Obituary, Destruction e por aí vai. Todos são nossa história e têm sua importância, porém também tem as bandas brasileiras com quem tocamos e temos amizade; todas são muito importantes para nós..
Metal Na Lata: Esta é uma pergunta difícil, mas eu gostaria de saber, na opinião de vocês, qual música do Hicsos, por sintetizar com mais perfeição a essência da banda, vocês escolheriam para enterrar e ser redescoberta num futuro muito distante? Por quê?
Marco Anvito: (risos) Essa é realmente uma pergunta difícil. Na minha opinião, seria “Cry of Souls”. Por ser a primeira composição minha que na época foi muito elogiada e por termos regravado-a em duas demos e no “Full Technologic Pain”, sempre com alguma mudança, mas sem perder a essência.
Alexandre Carreiro: Eu escolheria “Horrospital”, porque essa música é foda!
Marcelo Ledd: Ah, posso responder todos os discos? Tem muita musica que pode representar o que é o Hicsos, mas hoje eu não consigo responder só uma, acho que pelo menos três: “Pátria Amada”, “Face to Face” e “Destruction”.

Metal Na Lata: Durante muito tempo, o Hicsos foi meio que uma porta giratória de músicos. Isso, acredito eu, tenha sido um obstáculo no decorrer da caminhada. Pode-se dizer que com a entrada do Alexandre Carreiro, o grupo finalmente encontrou estabilidade nesse aspecto?
Alexandre Carreiro: Eu não preciso responder essa, né? (risos)
Marco Anvito: Acredito que sim. O Alexandre Carreiro é um cara nota 1.000, fácil de lidar, excelente guitarrista e compositor, dono de um timbre muito elogiado e único, que só contribui para o Hicsos.
Metal Na Lata: O ano de 2019 marca também o 15º aniversário de “Eatin’ Concrete”, disco de estreia do Hicsos. Como vocês o avaliam passado tanto tempo?
Marco Anvito: Uma loucura. Só percebemos isso quando levantamos da cama e sentimos a dor nas costas (risos). Parece que foi ontem. Mas fico satisfeito por termos feito tanta coisa legal e termos feito muitos amigos pela estrada.
Marcelo Ledd: (risos) É, já faz quinze anos, mas parece que aconteceu ontem. A gravação com o (Marcello) Pompeu e o Heros (Trench), do Korzus… Mas o que mais me faz ver o passar do tempo é a evolução tecnológica desde aquela época até hoje. O estúdio Mr. Som mudou completamente desde a gravação do “Eatin’ Concrete”.
Metal Na Lata: Numa entrevista para a finada Disconnected em 2004, vocês disseram: “Infelizmente, hoje em dia ainda existe muita panelinha entre as bandas de Metal. Se elas fossem mais unidas, a cena seria muito maior.” De lá para cá, isso mudou? Em que aspectos?
Marco Anvito: Mudou sim. Hoje a galera está mais unida em prol da cena. Vejo muitas bandas apoiando umas às outras. Também percebo uma nova mentalidade nos produtores, que estão valorizando mais as bandas underground e dando espaço em shows ao lado de bandas renomadas sem pedir nada em troca. Isso é muito bom. A Be Magic Produtora, por exemplo, está no topo dessas produtoras que valorizam as bandas undergrounds.
Marcelo Ledd: Mudou, pero no mucho (risos). Ainda existem algumas panelinhas que já deveriam ter acabado. Porém, as produtoras de shows realmente estão dando espaço para as bandas underground e oferecendo certa estrutura que antes não existia.
Metal Na Lata: Toda banda de thrash que se preze tem de reverenciar discos como “Kill ‘Em All” ou “Reign in Blood”. Mas o thrash Metal não é só Bay Area, não é só o Big 4. Quais bandas e discos de fora desse circuito vocês apontam como referências para o estilo e influências para o som de vocês?
Marco Anvito: Eu ainda sou muito Bay Area (risos). Mas posso dizer que Mad Ball “Infiltrate the System” (Mad Ball), “Death to Tyrants” (Sick of it All) e “Wrath” (Lamb of God) são discos que eu adoro e me influenciam.
Alexandre Carreiro: Eu curto muitas bandas fora do Thrash Metal, como o Sybreed. O álbum “God Is An Automaton” é uma grande referência de timbres e riffs para mim. Outra banda que curto muito é o Gojira! “The Way Of All Flesh” é perfeito!
Marcelo Ledd: Como eu disse antes, Anthrax é banda de cabeceira, mas fora da Bay Area tem Destruction, Kreator, Napalm Death, Sabbat e Tankard, além de bandas brasileiras que curto muito como Overdose, Korzus, Ratos de Porão, The Mist, Sepultura, Dorsal Atlântica, Leviaethan, Vodu, Scars e por aí vai. Fora isso, eu curto muito som antigo dos anos 1950,1960 e 1970, tendo os pais do Metal na frente de tudo; estou falando dos maiores, o Led Zeppelin, é claro!

Metal Na Lata: Assistir ao filme “The Story of Anvil” me fez pensar no Hicsos e lamentar: infelizmente, talento e trabalho duro não são garantia de sucesso. Sendo assim, o que o Sepultura teve que faltou ao Hicsos, impossibilitando uma trajetória semelhante?
Marco Anvito: Difícil dizer. Talvez estar no lugar certo na hora certa conhecendo a pessoa certa.
Alexandre Carreiro: O apoio certo.
Marcelo Ledd: Acho que cada um tem seu caminho e o nosso é esse. Cada um terá sua história para contar e tem muita banda aqui do Brasil que por merecimento também deveria estar no topo… Mas o destino não quis assim. E esse filme é foda: dá força para qualquer um continuar sua trajetória.
Metal Na Lata: Viver de Metal num país como o Brasil ainda é sonho. Na raia dos sonhos possíveis, o que vocês gostariam que se tornasse realidade?
Alexandre Carreiro: O verdadeiro reconhecimento pelo trabalho que muitas bandas realizam hoje, em meio às tantas dificuldades do nosso país.
Metal Na Lata: Ultimamente, tem havido muito debate em relação a se o Heavy Metal como um todo (bandas, veículos etc.) deve se posicionar politicamente. Vocês, enquanto uma banda com letras críticas, de protesto, como “Pátria Amada”, o que pensam a respeito disso?
Marco Anvito: Acho que hoje em dia essa discussão ficou muito pesada com gente falando coisas muito sérias para quem discorda delas. Não quero criar inimizades por conta de política, mesmo porque acredito que nenhum político valha nada. Se você me perguntar minha opinião política numa boa para termos uma conversa inteligente e respeitosa, ok, mas sendo diferente disso, eu nem começo. Vejo gente desejando que os que não concordam com ele que morram e por aí vai. Estou velho demais para essas babaquices.
Alexandre Carreiro: Com toda a sinceridade, meu lance é a música; riffs, drives, peso… Minha visão política é particular, mas pode ter certeza que eu não estou nada satisfeito com o cenário político atual.
Marcelo Ledd: Não vou me estender nessa resposta, mas não aceito o fascismo de jeito nenhum e se quiser saber meu pensamento basta ler as minhas letras! Vem mais por aí, inclusive em português. Muita gente conhecida me deixou realmente decepcionado com seus discursos de ódio gratuito. Temos algumas manchas negras em nossa história, mas essa posição da população é realmente preocupante. Principalmente vindo de gente de dentro do mundo do Metal e do Rock N’ Roll.

Metal Na Lata: Em termos de material e shows, quais novidades podemos aguardar para um futuro próximo? Existe a possibilidade de vocês relançarem as demos de 1991, 1995 e 1999 ou mesmo o Split com o Mortal Factor como parte das comemorações de trinta anos de banda?
Marco Anvito: Temos um projeto de relançar o “Eatin’ Concrete” com três músicas das antigas demos de bônus. Mas para esse ano estamos focados na composição de músicas para um novo álbum.
Metal Na Lata: Para encerrar, deixem um recado para os leitores do Metal Na Lata e fãs da banda!
Marco Anvito: Obrigado pelo espaço e a todos os nossos fãs e fãs do Metal Na Lata. Obrigado pela força que vocês dão ao Metal Underground Nacional. Apoiem sempre o Metal Nacional, compareçam aos shows, curtam nossa página oficial no Facebook, sigam nosso Instagram e confiram nosso site. Grande abraço a todos e Stay Heavy!
Alexandre Carreiro: Obrigado a vocês do Metal Na Lata pelo espaço e também a todos os fãs de Metal que nos acompanham nessa batalha difícil, mas foda pra caralho! Vocês são foda! Grande abraço!
Marcelo Ledd: Agradeço ao Metal na Lata pelo espaço e aos nossos fãs. Aos que desejarem adquirir nosso DVD “26 Years of Thrash Violence”, entrem em contato conosco!
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