Entrevista com Anthony Corder (Tora Tora)

tora_tora_header
Compartilhe

Numa época de Paradises que viravam Pair-A-Dice e Hurricane Alices que viravam Hericane Alice, o Tora Tora se diferenciava tocando um hard rock calcado no clássico, intrinsecamente ligado com a música de Memphis, sua cidade natal, e com o blues surgido às margens do Rio Mississippi. Com mais de trinta anos de estrada, o quarteto acaba de lançar “Bastards of Beale” (via Frontiers Music), seu mais novo é excelente trabalho. Batemos um papo com o vocalista Anthony Corder, recém-chegado de mais um Monsters of Rock Cruise, ele nos revela a inspiração por trás de algumas letras, antecipa novidades e opina sobre o Greta Van Fleet, a banda do momento. Acompanhe!

Por Marcelo Vieira
Fotos de divulgação

Metal Na Lata: Como foi participar por mais um ano do Monsters of Rock Cruise? Para aqueles que não sabem do que se trata, como você descreve o evento?

Anthony Corder: É uma experiência incrível. Uma celebração à música e à família rock ‘n’ roll! Artistas e fãs reunidos para sete dias de shows e festa. Tudo isso em meio a águas deslumbrantes. Só indo para se ter ideia!

Metal Na Lata: “Bastards of Beale” entrou na lista dos mais vendidos na categoria Hard Rock na Amazon. Parabéns! Em tempos de streaming, como é obter uma conquista como essa, relativa exclusivamente ao formato físico?

Anthony Corder: Significa muito para a gente ter tantas pessoas ouvindo a nossa música. Nós somos verdadeiramente gratos, tanto que chamamos nossos fãs de nossa família. Eles são o motivo pelo qual continuamos fazendo música! Rock é um modo de viver, um estilo de vida que permite a você ser quem deseja e representa liberdade. É uma cultura e uma comunidade fiel.

Metal Na Lata: Vocês são de Memphis e, musicalmente, têm forte conexão com sua cidade natal. Incomodava o fato de, na virada dos anos 1990, vocês serem vendidos como uma hair band?

Anthony Corder: Até que não, pois nós éramos e ainda somos fãs dessas bandas. Fizemos turnês com muitas delas. Eu tinha pôsteres delas na parede do quarto quando era jovem. Mas é fato que a nossa localização geográfica nos deu uma sonoridade diferenciada e desde aquela época preservamos essa ligação com Memphis e com o delta.

Metal Na Lata: Quais eram as principais diferenças entre a cena de Memphis de onde vocês vieram e a Sunset Strip de onde veio a maioria das bandas daquela época?

Anthony Corder: Nós sentíamos a influência da Sunset Strip; havia um nível de assimilação e imitação quanto às bandas mais populares. A cena de Memphis contava com um alicerce próprio. Tínhamos estações de radio que tocavam apenas artistas locais, lojas de instrumentos patrocinando eventos e uma enormidade de casas que privilegiavam bandas autorais. Tínhamos produtores, empresários e investidores impulsionando a comunidade. Devemos muito a todos aqueles que, dos bastidores, contribuíram tanto para que a cena florescesse.

Metal Na Lata: A contribuição do Tora Tora para a cena local foi finalmente reconhecida através de um prêmio recebido em 2018. Você pode falar um pouco sobre ele?

Anthony Corder: MUSICEXPORTMEMPHIS é uma organização que reconhece os artistas que levam a música de Memphis pelo mundo, ajudando-os a continuar obtendo recursos e exposição para tal através de incentivos financeiros para cobrir custos de turnê etc. Para a gente, é uma honra vir de uma cidade com uma herança musical tão magnífica e poder levar a música de Memphis mundo afora. Ser reconhecidos como embaixadores da música de Memphis é um ponto alto tanto no pessoal quanto no profissional; é mais uma confirmação de que Memphis é o nosso lar.

Metal Na Lata: Voltando a falar sobre o novo álbum, “Bastards of Beale” soa muito mais blueseiro que todos os seus antecessores. Ter gravado nos lendários Sam Phillips Studios exerceu alguma influência no som?

Anthony Corder: Gravar lá foi simplesmente inspirador. A banda, o panorama, nosso produtor, Jeff Powell e todo o clima… tudo isso surtiu efeito na gravação. Estávamos nas nuvens e não havia nada que pudéssemos fazer. Foi uma baita experiência!

Metal Na Lata: Como está sendo fazer parte do elenco da Frontiers? Eles permitem que vocês tenham total controle criativo ou tentam, de alguma maneira, impor preferências ao som?

Anthony Corder: Sim, eles nos dão total controle criativo. Somos muito gratos a todos eles pela oportunidade de nos conectar com tantos fãs em todo o mundo.

Metal Na Lata: “Sons of Zebedee”, “Rose of Jericho”, “Son of a Prodigal Son”… “Bastards of Beale” conta com várias referências bíblicas ou estaria eu lendo muito além das entrelinhas?

Anthony Corder: “Sons of Zebedee” foi inspirada na Bíblia, só que mais no sentido dos chamados “Filhos do Trovão”; do estabelecimento de uma comunidade livre de medos e julgamentos; da sensação de pertencimento a uma tribo. Acredito que meu lado sulista/religioso tenha dado as caras no decorrer do processo, pois muito do que consta nessas letras vem de experiências pessoais. Nossa “tribo” nos ajudou a escrever essas letras; pessoas de verdade e acontecimentos que nos influenciaram profundamente. Acabou que uma torrente de emoções veio à tona conforme trabalhávamos neste material.

Metal Na Lata: “Lights Up the River” tem um quê de épico. É como se estivéssemos diante de uma mini ópera-rock ou coisa do tipo. Qual é a história por trás dela?

Anthony Corder: O título vem de um artigo de revista assinado por Sam Phillips. Sam disse que as pessoas que vivem na áreas rurais for a de Memphis ou às margens do delta podem enxergar as “luzes rio acima”; um símbolo de esperança e oportunidades para uma vida melhor… ou uma saída para qualquer problema que você esteja enfrentando.

Metal Na Lata: Há uma instrumental chamada “Vertigo” e, então, uma faixa bônus acústica de mesmo nome, só que com vocais! Qual delas veio primeiro e por que justamente a versão cantada foi relegada a material extra?

Anthony Corder: A instrumental veio antes a partir de um momento de descontração em estúdio. A letra da versão acústica foi escrita na manhã em que a gravamos, ao vivo, em apenas uma tomada. O título “Vertigo” (“Vertigem”) vem de uma experiência apavorante pela qual passei. Se você prestar bastante atenção, essa coisa de encarar o medo é tema recorrente em muitas músicas de “Bastards of Beale”.

Metal Na Lata: Anos atrás, a FnA Records lançou uma porção de material inédito do Tora Tora. Quais músicas dentre elas você recomendaria tanto para um novo ouvinte quanto para um fã de longa data que não sabe por onde começar a fuçar essas raridades?

Anthony Corder: “Bombs Away” contém material inédito das sessões de “Surprise Attack”. “Miss B. Haven”, das sessões de “Wild America”. “Before and After” contém nosso primeiro EP e algumas gravações caseiras… portanto, eu recomendaria “Revolution Day”. Adoro a faixa título, “Mississippi Voodoo Child”, “Time and the Tide” e “Shelter from the Rain”: são músicas diferenciadas.

Metal Na Lata: Muitas bandas hoje em dia, sobretudo o Greta Van Fleet, são apontadas como “a salvação do rock”. Você acha que o rock precisa ser salvo? E o que acha do som do Greta?

Anthony Corder: O rock não apenas não precisa ser salvo, como está mais vivo do que nunca. Mas fico feliz que existam tantas bandas novas tocando rock “de verdade”. Aqui, nos EUA, pop e hip hop permanecem no topo, mas os ouvintes de rock são fieis. Eles ainda estão por aí, apenas ouvindo música em diferentes plataformas agora. Sobre o Greta, acho que são bons músicos e o vocalista tem um bom alcance.

Metal Na Lata: Muitas dessas bandas se inspiram em nomes dos anos 1970, com seus vocais agudos e uma abordagem mais blueseira nos riffs de guitarras, e justamente por isso são tão criticadas, chamadas de cópias de Led Zeppelin e afins. Lá atrás, Great White, Kingdom Come… todos eles tiveram sua parcela de desconfiança quando surgiram. O Tora Tora sofreu algo parecido? Em caso afirmativo, qual conselho você dá para que essas novas bandas não apenas não se sintam desmotivadas diante das críticas, mas também sejam capazes de, assim como vocês, manter a mesma formação por mais de trinta anos?

Anthony Corder: Eu via como um baita elogio. Todos nós somos influenciados e motivados por algum artista em particular, passe o tempo que passar. Eu os aconselharia a continuarem sendo quem são, afinal, existe apenas um você. Sobre permanecer juntos após trinta anos, tivemos sorte de termos continuado amigos e amando o que fazemos passado tanto tempo. O segredo deve ser compor e gravar aquilo que se gosta e gostar de fazer isso juntos.


Metal Na Lata: O que vem a seguir para o Tora Tora? Com tantas bandas lançando seus álbuns clássicos em edições deluxe/remasterizadas/recheadas de bônus, podemos esperar “Surprise Attack” e “Wild America” de volta em formato físico? Quem sabe um disco ao vivo…?

Anthony Corder: Estamos compondo músicas novas neste momento. Está nos planos um álbum acústico, quem sabe até gravado ao vivo. Rolaram conversas sobre lançar “Surprise Attack” e “Wild America” em vinil, mas não posso dizer se isso se tornará realidade ou não.

Metal Na Lata: Muito, muito obrigado pelo bate-papo, Anthony! Pra encerrar, manda um recado para os fãs do Brasil e leitores do Metal Na Lata!

Anthony Corder: MUITO OBRIGADO A TODOS POR CONTINUAREM APOIANDO O ROCK’N’ROLL!!! Adoraríamos tocar no Brasil, está na nossa lista! Por enquanto, confiram nosso novo clipe, “Son of a Prodigal Son” aqui (https://youtu.be/cODHYRW64JQ) ou entrem em contato conosco através das redes sociais!

Mais informações:

http://toratoramusic.com
https://www.facebook.com/ToraToraBand
https://www.instagram.com/toratoraband
https://twitter.com/toratorarocks
https://open.spotify.com/artist/7MxRSOIsrKKrMc7pAzKlqs

Compartilhe
Assuntos

Veja também