Entrevista com Carlos Maldito (Mercic)

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MERCIC – INDUSTRIAL METAL PORTUGUÊS TIPO EXPORTAÇÃO

Apesar da identidade linguística, pouco conhecemos por aqui do que acontece na cena underground de Portugal – afora a presença constante dos já consagrados Moonspell fazendo shows no Brasil, fale outras 3 bandas que você sabe de cabeça que surgiram por lá? O Mercic é uma delas, que desenvolve um Industrial Metal de alta qualidade, com diversas referências aos grandes nomes do estilo – Nine Inch Nails, Marilyn Manson – mas também incorporando algo da sonoridade europeia em suas músicas e um toque artístico que remete aos primórdios da música industrial. Carlos Sobral “Maldito” é o idealizador e orquestrador desta banda que surgiu como um projeto individual de estúdio, mas que parece estar cada vez mais ganhando corpo e espaço e que se prepara para mostrar outras facetas através de apresentações ao vivo, tudo conforme nos conta o próprio Carlos na entrevista que segue. Aproveitem também a oportunidade de receber todos os álbuns do Mercic em formato digital de graça para download. Confira!

Por Wallace Magri
Fotos divulgação

Metal Na Lata: Fale-me um pouco de seu background musical: o que cresceu escutando, maiores influências e bandas em que já tocou.

Carlos Maldito: O primeiro disco que comprei foi o “Mechanical Animals” do Manson em 1998, a partir daí descobri toda a sua discografia e foi um passo até chegar a NIN, Korn, Rammstein, Depeche Mode, Slipknot, Radiohead, Prodigy, Sepultura e os Portugueses Bizarra Locomotiva e, apesar destes anos todos terem passado, estas continuam a ser as bandas que me fazem ir a correr sempre que sai um novo lançamento.Tenho as suas discografias completas. Isto tudo me influencia claro, mas há muito mais e de variados quadrantes sonoros. Eu comecei a tocar bateria em 1999, e as “minhas bandas” como músico e compositor foram Cryptor Morbious Family (2005-2018), Inkilina Sazabra (2010-2017) e Kapitalistas Podridão (2003-2006) até me focar somente em Mercic em 2019.

Metal Na Lata: Embora falemos a mesma língua, não se fala muito sobre a cena underground lusitana por aqui. Você poderia nos contar um pouco sobre o surgimento e evolução desta cena, casas de shows, público, bandas de referência, etc.?

Carlos Maldito: A cena portuguesa é marcada por variadíssimas bandas mesmo boas em estúdio e ao vivo, com músicos que nada devem aos estrangeiros. Os festivais são maioritariamente aconselháveis e concorridos de público e os locais de concertos cingem-se a uma realidade muito restrita mas cada vez melhor em termos de qualidade e a coisa tinha tudo para ser perfeita. A meu ver temos várias bandas a praticar exatamente o mesmo som e que gravam no mesmo estúdio, o que as faz soar demasiado iguais, mas cada um é completamente livre de soar como quer e eu não sou ninguém para julgar! Temos as bandas de tributos a “roubar” muitos palcos onde poderiam estar bandas originais a mostrar-se mas os promotores e público assim o querem. Para mim, os aspetos negativos são o facto de muito público ainda estar naquela mentalidade de achar que pagar 10€ para ver duas ou três bandas nacionais é caríssimo e os promotores quererem que as bandas toquem de borla em eventos seus. Para mim é nojento! Acrescendo as redes sociais onde todos criticam tudo gratuitamente e se queixam de tudo, não valorizando nada, é mesmo entristecedor. Como bandas a salientar em Portugal temos os reconhecidos mundialmente  Moonspell, e depois temos Bizarra Locomotiva (a minha banda de eleição), Mão Morta, Holocausto Canibal, Primal Attack (uma banda muito original e completíssima em estúdio e ao vivo), Grog, Ibéria, Ramp, Blasted Mechanism (uma banda muito original), Waste Disposal Machine, Terror Empire,  Tales for the Unspoken, Gwedion, Equaleft, Karbonsoul, Invoke, Diabolic Mental State, Hills Have Eyes, Mata Ratos, Legacy of Cynthia enfim um grande leque de valor onde ainda faltam acrescentar varias mais. Aconselho a procurarem e ouvir.

Metal Na Lata: Como surgiu a ideia de criar o Mercic? Pelo que li a respeito, a proposta inicial era ir para o estúdio e experimentar sem rabo preso com esta ou aquela estilística musical, tendo como sustentação principal a música eletrônica. É isso mesmo?

Carlos Maldito: Nas bandas onde era compositor sempre houve abertura sonora para fazer músicas diferentes mas havia sempre uma corrente a seguir e o que aconteceu foi que eu quis abrir o meu leque sonoro em termos de composição e experimentar coisas diferentes e elas não se inseriam no som dessas bandas, e ai deu-se o salto para o que viria a ser Mercic. Há músicas que fiz já com essa abertura que ainda se aproveitaram como “O Mesquinho” e “Psico” mas percebi com todas as certezas que teria de ter um projeto meu onde não existissem barreiras sonoras nenhumas.

Metal Na Lata: Ouvindo o primeiro álbum, a impressão é de que o trabalho em estúdio ainda estava em um estágio mais experimental, permeável a diversas sonoridades, sendo o elemento eletrônico explorado ao lado de instrumentos convencionais, como piano e violão. Fale-nos sobre o processo de composição de “Mercic_1”.

Carlos Maldito: Este trabalho surgiu após tudo na minha vida pessoal desabar. Precisava mesmo de respirar um novo ar e achar um rumo, virei costas a tudo e fui três meses para New Jersey. Olhei para a minha vida como se fosse um espectador e decidi que não iria perder mais tempo. Tinha no meu computador ideias que estavam em ‘stand by’ e várias demos e comecei a trabalhar nelas. Havia apenas umas ideias gerais que ia levar como hard rules; não fazer videoclipes/singles promocionais, tudo o que fizesse tinha de sentir 101% verdadeiro comigo mesmo, e cada álbum ter dez músicas para servir para me organizar a não me exceder em demasiado ou me perder durante um álbum nem ter a ideia de lançar curtos eps, e assim nasceu Mercic_1. Levei meses até conseguir ouvir o álbum após estar acabado porque ouvir a minha voz e sentir a pureza daquelas letras era-me realmente difícil por ser algo novo e logo tão próprio mas com o passar do tempo comecei a ter orgulho e Mercic não mais parou.

 

Metal Na Lata: Você foi montando seu estúdio de acordo com as necessidades que foram surgindo ao longo das gravações dos álbuns? Quais os equipamentos que utiliza, basicamente?

Carlos Maldito: Não. O processo sempre foi o mesmo e muito simples; bateria Gretsch Catalina rock, guitarras e baixo ESP, processadores da Line 6, interface da Tascam, Cubase, teclado Roland, uma guitarra Portuguesa e microfones Audio-Technica. Desde o Mercic 1 ao 5 foi sempre isto.

Metal Na Lata: Antes de prosseguirmos. “Mercic_3” foi lançado em 2017, dando continuidade aos temas existenciais e densidade musical do primeiro álbum. Aonde foi parar o “Mercic_2”, rs. Eu perdi alguma coisa?

Carlos Maldito: O Mercic_2 é um EP de remixes.

Metal Na Lata: Você já tinha toda a sequência dos álbuns planejada desde o início? Como isso foi se tornando permeável à sua evolução musical e às experimentações havidas ao longo de todos esses anos em estúdio?

Carlos Maldito: Vou abrir o leque como funciono. Desde 2004 até hoje eu gravei várias demos, mas muito poucas foram usadas nas bandas onde estava, derivado a terem uma sonoridade muito própria. O que acontece com Mercic é que eu quando começo a trabalhar num álbum vou ouvir essas demos e pego nas que mais emoção me transmitem na altura e reconstruo e experimento até soar 100% como eu quero. Se eu na altura andar numa onda mais metal elas vão levar uma roupagem mais pesada. Se andar mais melodioso serão mais a nível de teclados etc etc. É a única coisa que muda de álbum para álbum e eu nunca planeei que um álbum iria soar de uma determinada maneira, segue a vibe da altura. Portanto eu já tenho demos que serão o esqueleto do Mercic_6, 7, 8 e até 9, só não sei quais músicas serão e de que álbum.

Metal Na Lata: O Mercic foi concebido como projeto de estúdio, basicamente de um homem só, sendo que a única constante é a presença de Cesar Palma na arte e masterização. Como funciona esta parceria?

Carlos Maldito: O César era o tipo que estava comigo quando eu comecei a tocar bateria em 1999. Desde o início fomos os dois, estivemos em Cryptor, Inkilina e Kapitalistas juntos, é uma vida! Conhece-mo-nos desde os seis anos de idade e Mercic tinha de o ter a colaborar e a ser músico ao vivo e diretor de arte. Desde o início de Mercic ele foi a pessoa que sempre esteve a par do processo todo.

Metal Na Lata: “Mercic_4”, lançado em 2018, foi o álbum pelo qual tive o primeiro contato com sua música. Na época, na resenha, comentei que “não dá para deixar de citar a amalucada presença de pianos em algumas músicas, tais como em “The Crumpled Paper” – que ganha um clima meio jazz experimental – e também em “Got To Get Back Where It Belongs” – que deixará Trent Reznor orgulhoso da influência que teve na formação musical do pianista da banda. “Make Our Mark” é a única que destoa um pouco da proposta geral do trabalho, com sua pegada new metal pop, naquela linha Linkin Park que só agrada quem gosta de Linkin Park mesmo. Por isso fica ofuscada e “perdida” no meio de tantas pedradas industriais”. Você concorda com esta minha opinião à época?

Carlos Maldito: Concordo. Será a música mais “fora”, muito pela toada muito melódica mas a música foi feita com o intuito lírico de ser uma dedicatória muito pessoal a uma pessoa que sempre me apoiou e a música tinha de estar no álbum, “Make Our Mark” = MOM.

Metal Na Lata: De todo modo, aquele álbum me causou tamanha boa impressão que votei em vocês como banda revelação na enquete do Metal na Lata de 2018. Na época não fui atrás de maiores informações sobre a banda. Já em 2019, quando chegou às minhas mãos o “Mercic_5”, a coisa foi diferente. Fiz uma pesquisa e pude apreciar melhor o trabalho em sua autenticidade. Aquela minha impressão sobre pianos e violões pitorescos, como em “14 to 3 = 1” guardavam relação com a música portuguesa, o fado sobretudo, e era justamente este tipo de diferencial que me chamava a atenção na sua música. Ao que tudo indica, esses elementos foram escancarados em “Mercic_5”, você concorda?

Carlos Maldito: Este álbum é sem dúvida o que mais guitarra portuguesa tem, e muito piano decadente também, o que poderá recair em ténues nuances do fado, não sei… este é um álbum onde a tristeza contida em todo o disco junta forças e o torna o trabalho mais forte de Mercic.

Metal Na Lata: Fale-nos sobre as participações especiais em “Mercic_5”. Como você foi sentindo a necessidade de interagir musicalmente nas composições com outros músicos?

Carlos Maldito: Umas foram previamente escolhidas. Outras, cheguei a uma parte da gravação do álbum em que eu fiquei um mês sem o ouvir ou trabalhar nele, e quando voltei a ouvir eu percebi que gostava mesmo do que estava a ouvir mas tinha ali solos e melodias que por serem feitas por mim pareciam muito familiares. Coisas que já tinha feito em discos anteriores… e pensei que seria muito mais interessante obter colaborações para que as músicas se revelassem com uma toada diferente e até criasse uma roupagem diferente do que estava a ouvir há meses, e foi uma mais-valia.

Metal Na Lata: Com relação às músicas cantadas em português, ressalva feita a algumas incursões do Moonspell (CHECAR), nunca tinha sentido a nossa língua dando um clima tão melancólico e denso à ambiência própria da música industrial. Compararia o que senti ao ouvir “The Arrival Of The Signs” com a boa surpresa que tive nos primeiros contatos com o Rammstein cantando aquele Industrial em alemão e o ganho que a língua germânica conferia à sonoridade da banda. Quando foi que sentiu que o elemento linguístico poderia causar o impacto desejado na musicalidade do Mercic?

Carlos Maldito: Senti que tinha mais sentido essas duas músicas terem as letras em Português porque as letras de Mercic são bastante verdadeiras e diretas mas essas duas quis ainda reforçar mais isso, e em Português ficou mesmo com a força que eu desejava.

Metal Na Lata: A respeito das letras, é evidente que se trata de uma obra conceitual envolvendo os trabalhos lançados até aqui – ao menos é o que indica as letras serem numeradas em sequência ao longo dos 4 álbuns. Além disso, é nítida a amarra temática envolvendo as letras das músicas, que tratam de perdas, angústia, sofrimento profundo, dependências químicas, afetivas e, enfim, auto-conhecimento e libertação. Como foi essa jornada? Foi realmente a trilha de um renascimento do artista e de uma pessoa?

Carlos Maldito: Mercic é um diário onde solto as minhas frustrações da rotina do dia-a-dia, é o meu escape desde o 1º dia. As letras são bastante pessoais, as pessoas mais próximas sabem inclusivamente ao que se referem muitas delas, e neste álbum abateu-se uma aura triste e raivosa que representa mesmo um renascimento, uma libertação de uma sombra que sempre me acompanhou mas que já pesava. Estava na altura de me dedicar musicalmente só a Mercic. Acho que o projeto merecia, afinal de contas isto sou eu inteiramente, quer se goste ou não, estava farto da capa do livro onde escrevia a minha vida.

Metal Na Lata: Estive lendo que você pretende agora levar o trabalho do Mercic para os palcos, é isso mesmo? Já começou a preparar alguma coisa?

Carlos Maldito: A coisa já está a andar e já há datas agendadas. Será tudo feito só após ser muito ponderado. Não haverá coisas em cima do joelho. Essa foi uma das bagagens que aprendi após anos e anos de bandas e concertos.

Metal Na Lata: Ao lado das apresentações ao vivo, podemos esperar, para os novos trabalhos, a exploração de elementos visuais que, na minha opinião, vão muito bem em shows ao vivo de bandas de Industrial Metal, como já provaram o Nine Inch Nails e o Ministry?

Carlos Maldito: Podem esperar uma coisa bem diferente do habitual cenário de palco do underground Português e da luz muito escura, músicos vestidos de preto e a faixa com o logo da banda por trás do palco. Nada contra isso porque as bandas onde estava fizeram isso sempre, apenas acho que Mercic se enquadra num conceito diferente.

Metal Na Lata: Deixe um recado para os leitores do Metal na Lata e dê instruções sobre aonde eles podem ficar sabendo mais sobre o Mercic. Obrigado pela entrevista, esperamos ouvir mais sobre vocês em breve!

Carlos Maldito: Desafio os leitores a descobrir Mercic, e convido-os a enviarem e-mail para [email protected] e será-vos enviado digitalmente todos os álbuns que solicitarem grátis… tudo o que peço é terem a determinação de tentar escutar uns quantos temas diferentes para perceberem que o espectro sonoro é vasto mas existe um fio condutor entre eles. Não se fiquem só por um tema e não procurem por videoclipes pois não os irão achar. Mercic é um projeto inteiramente baseado em álbuns na íntegra. Muito Obrigado.

Mais Informações:

www.facebook.com/MERCICmusic

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