
ENTREVISTA EXCLUSIVA COM DAVE BICKLER (EX-SURVIVOR)
“Risin’ up, back on the street / Did my time, took my chances…”. Aposto que você cantarolou mentalmente enquanto lia. “Eye of the Tiger”, do Survivor, saiu há quase 40 anos e ainda ostenta importância cultural tremenda. Nos cinemas, virou sinônimo de superação ao ser tocada em “Rocky III”. No Brasil, foi eternizada como vinheta das madrugadas de boxe na Globo. Qualquer que seja o seu background, uma coisa é certa: você indubitavelmente já ouviu “Eye of the Tiger” em alguma circunstância da vida. Dave Bickler, o vocalista original do Survivor e a voz de “Eye of the Tiger”, está no Brasil para promover “Darklight”, seu primeiro álbum solo, lançado em 2018. Seu primeiro compromisso não oficial em terras tupiniquins foi responder a essa entrevista, diretamente de seu hotel em São Paulo. Aqui, além de revelar detalhes exclusivos sobre “Darklight”, Bickler fala sobre sua carreira tanto no Survivor quanto como cantor de jingles de enorme sucesso. Boa leitura!
Por Marcelo Vieira
Fotos: Divulgação
Metal Na Lata: Passaram-se quase dez anos desde que você anunciou que estava trabalhando em seu primeiro álbum solo até o lançamento de “Darklight”. É claro que nesse tempo havia contas a pagar e você talvez estivesse empenhado em outras atividades. Ainda assim, por que demorou tanto tempo até que “Darklight” finalmente visse a luz do dia?
Dave Bickler: Boa pergunta! Na verdade, embora eu tenha usado meu home studio para fazer as demos e gravar parte do álbum, a maior parte das gravações foi feita em outros dois estúdios. Antes de mais nada, eu sabia que para um disco de rock você precisa de uma ótima bateria! Por isso, fui a Los Angeles — eu moro em Nova York — para trabalhar com Ryan Hoyle (Collective Soul, Paul Rodgers) em seu estúdio! Fiquei um tempo considerável agendando [as gravações] e voando de um lado para o outro! Eu normalmente gravava duas músicas por vez, cada uma levando um dia inteiro! Isso continuou até que eu tivesse quinze músicas, das quais escolhi dez para o disco! Então, tive que encontrar um produtor/estúdio para terminar [as gravações] e mixar o álbum! Para minha sorte, encontrei Stephen DeAcoutis e o Sound Spa Productions! Stevie não é apenas um ótimo produtor, mas também um ótimo guitarrista! Gravamos a maioria das guitarras, dos teclados e dos vocais no Sound Spa! Também gravei alguns dos vocais em casa e os enviava [para o Stephen]! Tudo isso exigiu ainda mais agilidade e agendamento, já que Stevie é [um profissional] muito requisitado! Então…

Metal Na Lata: Na minha resenha de “Darklight” para o Metal Na Lata, escrevi o seguinte: “[o] grau de introspecção é ótimo; o tema, em geral, é reflexivo […] o registro vocal atualizado é mais sério e linear do que antes, em perfeita união com o instrumental, despojado da pasteurização que era marca registrada da Survivor nos anos 80”. Com base nesses dois pontos, eu gostaria que você comentasse sobre o álbum.
Dave Bickler: Eu amo essa palavra “pasteurização”! É algo que eu tento evitar! Escrevo músicas sobre coisas [que sejam] reais para mim e sempre tento encontrar algo novo musicalmente! Eu acho que tudo o que você ouve e gosta tem algum efeito sobre você! Nada se propaga no vácuo! Eu acho que você pode ouvir isso no disco!
Metal Na Lata: Quais músicas de “Darklight” foram inspiradas por eventos da sua vida?
Dave Bickler: “Hope” foi uma música que escrevi depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Eu queria expressar a minha negação diante desse mal irracional! “Kaleidoscope” veio de um poema que a minha esposa escreveu que eu musiquei e adicionei coisas também! “Fear Of The Dark” veio de um sonho! O riff de guitarra principal estava na minha cabeça quando eu acordei! “Magic” fala sobre a minha esposa, antes que ela se tornasse a minha esposa! A letra ainda é a mais pura verdade! “The Gift” fala sobre a mortalidade. “Always You” é a minha consciência [falando]! “Time” é sobre a passagem do tempo! “Sea of Green” documenta a minha primeira viagem às Montanhas Rochosas! “Lights” fals sobre abrir a mente para o universo! “Angel Heart” eu escrevi para o meu filho quando ele tinha sete anos! E “The Sky Is Falling” é sobre o céu caindo!
Metal Na Lata: O Survivor teve seu primeiro hit em 1981 com “Poor Man’s Son”. Essa música teve um enorme impacto em um ouvinte específico: Sylvester Stallone. Você poderia nos contar o que veio em seguida?
Dave Bickler: Acho que isso fez com que o Sr. Stallone nos desse uma chance para compor a música tema [de “Rocky III”]! Tivemos que trabalhar rápido, pois o filme já estava com data de lançamento marcada! Acho que a música foi escrita e gravamos a demo em cerca de uma semana! A demo que gravamos no Chicago Recording Company acabou sendo usada para o filme! Depois, fomos a Los Angeles para terminar o álbum e a versão que hoje em dia se ouve no rádio! Loucura total!
Metal Na Lata: Penso que todas as músicas precisam ser críveis, relacionáveis e acessíveis, e “Eye of the Tiger” é tudo isso e muito mais. Você acha que existe uma receita para que uma música sobreviva ao implacável teste do tempo?
Dave Bickler: Acho que a receita é que todas as coisas se encaixem no momento certo! O Survivor era uma máquina muito bem azeitada na época. Ainda assim, jamais poderia imaginar que essa música seria tão reconhecível em 2020…
Metal Na Lata: Ser mais conhecido por uma música em especial pode ser uma bênção ou uma maldição, dependendo de como o artista lida com isso. Se você pudesse escolher ser lembrado por outra música que compôs ou gravou, qual seria?
Dave Bickler: Eu realmente não sei responder a essa pergunta! Até porque a mensagem básica de “Eye of the Tiger” é incrivelmente positiva!
Metal Na Lata: O Survivor é uma das poucas bandas a acumular hits com dois vocalistas diferentes. Muito tempo se passou desde a sua primeira saída da banda e, infelizmente, Jimi Jamison não está mais entre nós. Ainda assim, existem pessoas que insistem em querer comparar vocês dois. O que você acha dessas comparações e o que você acha do material que a banda gravou com Jimi?
Dave Bickler: Eu amo a voz de Jimi e tenho muito respeito por seu trabalho! Éramos bons amigos e foi fantástico o tempo em que trabalhamos juntos [n.e.: em 2013, o Survivor excursionou com Dave e Jimi dividindo os vocais]! Não posso comentar a respeito das preferências pessoais de cada um! Estou bem assim! Minha voz e a de Jimi são diferentes, mas isso é uma coisa boa! Confira “Burning Bridges”, do álbum “Too Hot to Sleep” (1988)!

Metal Na Lata: Agora eu queria falar sobre a sua carreira como cantor de jingles. Muitos cantores fizeram jingles no início de suas trajetórias como uma oportunidade de obter renda extra. Richard Marx, Paul Austin, Marc Cohn e até o falecido Luther Vandross; todos beberam dessa água. Você estava fazendo jingles quando conheceu Jim Peterik [membro fundador do Survivor] nos anos 1970 e voltou a esse negócio no final dos anos 1980, certo? Você tem ideia de quantos comerciais gravou? Quais foram os mais notáveis?
Dave Bickler: Bem, eu não estaria no Survivor, não fosse pelos jingles que gravei com Jim. Não sei quantos eu fiz, mas foram muitos! O mais notável foi o “Real Men of Genius” para a Bud Light. Essa campanha ficou no ar por dez anos!
Metal Na Lata: Você acha que fazer jingles eventualmente ajuda a abrir portas para a carreira de um cantor?
Dave Bickler: Com certeza, pois abriu muitas portas para mim! Também me impediu de ter que trabalhar em um emprego diário!
Metal Na Lata: Para chegar ao topo e aproveitar ao máximo as oportunidades, às vezes não é possível manter o equilíbrio ideal entre família e trabalho. Seja em turnê ou no estúdio, é muito difícil, se não impossível, ter uma vida “equilibrada”. Com base no que aprendeu em seus anos de estrada, qual é o seu conselho para o artista itinerante?
Dave Bickler: É muito difícil manter uma rotina familiar normal quando você quase nunca está em casa! Hoje em dia, eu tento me manter saudável e dormir o suficiente! Não há lugar como o nosso lar!
Metal Na Lata: Por último, mas não menos importante, quais são suas expectativas para os shows no Brasil? O que os fãs podem esperar em se tratando do setlist?
Dave Bickler: Algo novo, algo velho, algo emprestado, algo azul!
Metal Na Lata: Obrigado pelo seu tempo, Dave! Vamos encerrar com uma mensagem para os fãs brasileiros e para os leitores do Metal Na Lata!
Dave Bickler: Mal cheguei e já me senti muito bem-vindo aqui, com todas as pessoas superlegais que conheci! Estou ansioso para os shows e vamos detonar!

Mais informações:




