
ENTREVISTA COM EMILIANO GOMES E RODRIGO “SHAKAL” LORETO (MOFO)
O MOFO surgiu como um meteoro pronto para implodir todos os seres preguiçosos que assolam o underground brasileiro. Energético, inquieto e ríspido, o som do quinteto formado por Emiliano Gomes (Vocal), Rodrigo “Shakal” Loreto (Guitarra), Arthur Colonna (Guitarra), Pedro Dinis (Baixo) e João Paulo “Mancha” (Bateria) traz uma boa dose de tudo o que temos de melhor no mundo do Thrash Metal mundial com uma enorme pitada de personalidade. O EP “Empire Of Self-Regard” foi um sucesso, todo o final de semana para o pessoal de Brasília era possível ver esses meninos detonando em cima dos palcos. O mosh pit era e ainda é o melhor lugar para o som da banda. A fama pelas performances agressivas foram ganhando fama no Brasil e no mundo. Muito se esperou pelo o tão aguardado primeiro trabalho completo em estúdio, mas problema particulares, chances de uma turnê fora do seu território e muito trabalho em estúdio fizeram parte de “Sick and Insane”. Batemos um papo com Emiliano e Shakal que não esconderam nada dos erros e acertos, dos sonhos e expectativas para o MOFO. Confira.
Por William Ribas
Diagramação/Header: Johnny Z.
Fotos gentilmente cedidas pela banda

Metal Na Lata: Não tem como não começar dessa forma. “Sick And Insane” estava com a data marcada para sair no final de 2018 e somente viu a luz do dia agora em 2020. O que aconteceu para o álbum ter esse atraso?
Shakal: Rapaz, o cara já vem com uma voadora nos peitos! (risos). Aconteceu muita coisa. Vou tentar ser breve, mas tocar em todos os pontos. No primeiro momento tivemos um grande erro de interpretação da plataforma e o que queríamos era encerrar as contribuições em dezembro de 2018 para começar as gravações no primeiro semestre de 2019. A parte final da pré-produção, os detalhes das músicas, na verdade, exigiram mais da gente do que imaginávamos. As músicas pediam um cuidado maior e preferimos atrasar a entrega do disco a correr com tudo do jeito que estava e acabar com um material de potencial desperdiçado como primeiro álbum. Ainda em 2019, em junho, já estávamos fechando para começar as gravações no mês seguinte, mas tivemos uma oportunidade única de fazer uma mini turnê em SP e testar as músicas ao vivo com uma plateia completamente “virgem” de “mofice”, então, nem pensamos 2 vezes e agarramos essa chance de passar por São Paulo (tivemos alguns contratempos, mas certamente foi uma experiência impagável). Agosto, infelizmente, tivemos uma perda muito grande e muito próxima com o falecimento de Carlos Colonna, pai do Arthur (Guitarra), e isso abalou completamente nosso ânimo, mudou nosso foco. Eu tive alguns problemas pessoais também que se arrastaram pelos meses seguintes, mas, nas últimas semanas de agosto conseguimos dar início a todo o processo que só se encerrou em fevereiro de 2020. Hoje, depois de toda essa experiência, só temos que agradecer pela paciência e fé dos apoiadores que compraram a ideia em 2018. Esperamos que o disco tenha sido à altura do que vocês merecem!
Metal Na Lata: Conheci a banda após o lançamento do EP “Empire Of Self-Regard”. A percepção inicial foi que a banda foi bem acolhida pelos críticos e fãs. Com três anos de intervalo entre um lançamento e outro, vocês temeram perder o impacto inicial e a aceitação obtida dentro do Underground?
Shakal: Com certeza, bateu aquele medo de “será que alguém vai se lembrar da gente? ”. Hoje eu penso muito nisso. Se tivéssemos lançado “Sick and Insane” em junho/julho de 2019, ou algum outro material em 2018, respeitando no máximo 2 anos entre lançamentos, o nome MOFO possivelmente estaria mais fresco na memória das pessoas. A gente vê hoje a estratégia da indústria da música pop batendo à porta do underground. EPs e singles cumprindo a necessidade do artista de se manter relevante, se manter vivo nessa imensidão de artistas independente que felizmente temos hoje. Meu sonho, é lançar outro disco cheio já no final do ano que vem, mas falta capital e tempo para fechar mais 30-40 minutos de música daqui até lá. Acredito que, se aproximarmos as datas dos lançamentos futuros, mantendo a qualidade, claro, nossa relevância nacional deve aumentar bastante. Quem sabe um EP vem por aí em 2021.

Metal Na Lata: Ouvindo o álbum se percebe uma enorme evolução perante ao EP de estreia. A banda vem mais estruturada, com um instrumental afiado, mais técnico e variado. Algumas das faixas de “Sick and Insane” já vinham até aparecendo nos shows, como vocês desenvolvem as composições do grupo? Cada um vai mostrando as ideias ou vocês trabalham juntos nos ensaios?
Shakal: Nosso modo de composição sempre foi bem “moderno”. Cada um criando suas ideias em casa e compartilhando com o resto da banda via e-mail e agora por aplicativo de mensagem. Assim vamos criando um grande banco de ideias que colamos ainda em casa, via software. Depois, com uns 90% da música já pronta, é que testamos em estúdio. E no estúdio é onde a gente descobre que aqueles 10% que tão faltando são toda a alma de música. Uma grande diferença para a gente agora foi gravar os ensaios e passar a criticar as músicas como ouvintes. Acho que isso deu uma perspectiva muito importante para a gente trabalhar a coletividade do som. Assim “Let Them Fall” e “Final Experiment” passaram por mudanças mesmo depois de estarem prontas há anos. Isso sem contar com as mudanças que fazemos no último minuto possível já no momento da gravação definitiva. Então, por mais que eu possa escrever todos os riffs, solos, linhas de bateria, baixo e voz, todas as músicas são alteradas dentro do estúdio. Todos os integrantes têm sua articulação, sua opinião, sua melhoria para fazer na nossa música.
Metal Na Lata: Mesmo com as linhas mais intrincadas, diria até mesmo com alguns momentos eloquentes no melhor estilo “Prog Metal”, o trabalho não deixou de ser direto e puramente Thrash Metal old school com algumas pitadas do crossover. São pouco mais de 40 minutos de muita “bateção” de cabeça, existem limites ou uma preocupação de não sair de dentro da proposta Thrash da banda?
Shakal: Acho que toda banda/artista perde por se limitar. Sou vidrado numas misturas muito louco tipo: Mr Bungle e Sigh. A gama artística dentro das discografias de Black Sabbath, Judas Priest, Rush, David Bowie e Queen particularmente me fascina, como compositor e apreciador de música. É coisa de outro mundo. Meu sonho é de chegar minimamente próximo do patamar dessas lendas, tanto na mistura de diversos gêneros dentro de uma música, quanto de conseguir compor vários gêneros. Acabamos de lançar nosso segundo material oficial, quarto se contar com nossas duas demos, e a diferença entre todos é muito grande. Ainda estamos nos nossos anos de autoconhecimento, eu diria. Não temos intenção de fazer 2 sambas, 1 reggae e 3 chorinhos para o próximo lançamento, mas se elementos desses gêneros fizerem nossa música melhor, com certeza estarão presentes. A experimentação certamente vai nos levar a lugares únicos.

Metal Na Lata: Normalmente a imprensa apresenta o disco para os eleitores. Eu gostaria de inverter os papeis hoje. Pelos olhos do autor, poderia fazer um comentário sobre cada faixa do novo álbum?
Shakal: Vamos lá!
“Cynic” Essa aí eu posso falar pouco. Ideia do Arthur para começar o disco num clima pesado, a lá trilha de filme de terror antes de aparecer o assassino. Depois do dedilhado gravado fomos começar a brincar com os efeitos sonoros disponíveis no estúdio. Benditos sejam os VST’s e plug-ins, trouxeram um mundo inimagináveis de possibilidades para a ponta dos nossos dedos. Já teve todo tipo de relato de coisas ouvidas nessa introdução, mas que eu saiba não tem nenhuma mensagem subliminar além do “MOFO está chegando!”
“Adrenaline”: Dá música veio a letra. Um metralhadora de riffs, uma injeção de adrenalina na cara. Coube ao Arthur, nosso homem x-games, ter essa sacada de fazer uma letra sobre o vício em adrenalina, que querendo ou não é o que a gente sente ao subir no palco sempre. Depois de começar temos pequenos momentos para recuperar o fôlego antes de nos jogarmos novamente na roda.
“Brothers of Death”: Uma homenagem ao cinema de terror trash, queridinho de Emiliano. Basicamente é sobre 2 amigos num momento de “epifania” decidem matar sua família, sua cidade, seu país, o mundo, A GALÁXIA. E ao chegarem ao final de sua jornada sangrenta percebem que foi um grande erro… agora não há mais o que matar. E a junção da música com a letra acredito que faz um retrato perfeito do terror trash: um roteiro absurdo movido por cenas e riffs marcantes.
“Time for War”: A última música a ficar pronta. Últimos toques da letra feitos no almoço antes da gravação. A regra aqui é o contraste. Começa rápida de uma maneira que te leva sem seu consentimento até o grande momento atmosférico da música. Quantas vezes não paramos para pensar em nossas ações só depois de já tê-las tomado? Colocamos um discurso de Goebbels, um dos grandessíssimos filhos da puta da história, incitando o povo alemão, em 1943, a ir com todas as forças que lhes restavam para a guerra, pois uma guerra intensa pode ser a mais brutal, mas também é a mais rápida. O que ele chamou de “Totaler Krieg – Kürzester Krieg “. De ideia merda essa Alemanha estava cheia na primeira metade do século passado… “Time for War” é absolutamente uma crítica a guerras, ídolos e controle de massas. Aos tiranos que convenceram e/ou forçaram sua população a morrer e matar por eles, por seus interesses gananciosos ou maléficos. Inclusive fica aqui a sugestão de um clássico ao qual assisti pela primeira vez há pouco tempo: Nascido em 4 de julho
“Sick and Insane”: Mais uma crítica bem contemporânea, mas dessa vez ao outro lado da moeda. Uma música que depois daquela marcante introdução de baixo e bateria tem 3 momentos bem claros. Primeiro reclamamos dos malditos poderosos que só olham para baixo se for para escolher na cara de quem cuspir. Depois temos nossa revolta, derrubamos os monarcas, presidentes, ministros, cortamos suas cabeças e retomamos o poder! Para que finalmente possamos roubar para o nosso próprio bolso e cuspir na cara dos outros também, afinal, chegou a nossa hora de “se dar bem”.
“Let them Fall”: Junto coma “Final Experiment” foi uma das “sobras” da época do EP. São duas músicas que sempre vêm juntas e casam perfeitamente em temática. Aqui é a hora de reclamar daquele religioso sem amor no coração, cheio de preconceito e vingativos. Vão para a igreja toda semana, todo dia, mas nunca ajudaram uma alma na vida. Condenam todos que faltam a celebração religiosa, pois é lá que ele “se livra” da coleção de pecados do seu dia-a-dia. Uma música mais arrastada, caindo para o lado pesado do espectro metálico com um fuderoso solo de baixo para te falar o seguinte “hipocrisia é uma merda”
“Final Experiment”: Essa letra fala como somos a “experiência final do sistema”, no sentido de que todos os dias somos podados por esse sistema que nos escraviza e desumaniza. Você pode ter uma ideia do que queremos dizer com a arte do single que lançamos. Mas aqui falamos de relações de trabalho, sociais dessa sociedade contemporânea e como somos um “projeto” do nosso meio.
“Frank”: Uma das poucas músicas com uma mensagem positiva, eu diria. Nosso jovem Frank, ou Chico para os íntimos, começa a música vivendo na sua “zona de conforto” com um trabalho de merda, namoro de merda, amigos de merda e depois de uma concatenação especialmente ruim de todos esses pontos de sua vida (mais algumas lapadas de cachaça) Chico se pergunta se era aquilo que ele queria para a vida dele. Emiliano e eu, vez ou outra estamos conversando sobre questões de “zona de conforto”, “pressão social” e “felicidade pessoal”. Se vamos todos morrer no final das contas, merecemos viver a nossa vida, da nossa maneira.
“Purgatory”: Eu diria que é a história de um pilantra de marca maior. A pessoa chegou lá no purgatório, viu que tinha ninguém olhando, ninguém tomando conta, se colocou no trono e disse “Isso aqui agora é meu”. É a formação de um novo “Deus”. O dono de seu próprio destino. Por que ele estaria suscetível às regras dos outros? Música mais lenta justamente tentando explorar uma ambiência mais pesada, fúnebre que contrastasse bastante com os curtos momentos mais rápidos. Particularmente uma das minhas prediletas junto com Frank por causa dos detalhes que pudemos explorar nela.
“Hate and Disgrace”: A derradeira pancada na cara. Vem esbagaçando do mesmo jeito que a raça humana faz com ela mesma. É uma corrida maluca para ser o número 1, tu tens que ser o esperto e passar os outros para trás, caso contrário, tu é o trouxa. Não existe mais confiança, amor ao próximo e respeito… O nosso caminho como sociedade é o ódio e a desgraça.

Metal Na Lata: Algo que me chamou bastante a atenção foi a variação lírica do Emiliano passeando por diversas regiões, momentos mais gritados, outros mais guturais abrindo um leque de opções para os próximos trabalhos.
Emiliano: Ser musico no MOFO, é uma pressão muito grande, não externamente, mas internamente, tocar com pessoas tão talentosas e que sempre estão evoluindo te traz uma sensação de medo, mas ao mesmo tempo de motivação de sempre se reinventar, ser melhor. Eu quero, disco após disco, mostrar técnicas novas e, o Shakal, é uma das pessoas que sempre me incentiva muito a isso, ele sempre diz que como temos um vocalista que não toca, temos que usá-lo até o extremo, seja em cima do palco destruindo tudo, sendo um grande interlocutor com a plateia e fazendo a voz ser realmente mais um instrumento e não só um acompanhamento das linhas de guitarra/baixo/bateria. E podem esperar que vem coisa mais sinistra por ai!
Metal Na Lata: As letras abordam o ser humano, seja a destruição que ele vem causando no planeta, seus vícios, experiências pós vidas e a idolatria que hoje vemos uma verdadeira batalha entre prós e contras aos governos. Inclusive, o conceito lírico reflete no título do álbum. A sociedade ou mundo que vivemos acaba sendo uma fonte de inspiração sem fim para as bandas?
Shakal: Com certeza. Não só para as músicas como para os seres humanos que somos. Além das críticas ao calhamaço de absurdos que presenciamos todos os dias, precisamos nos tornar agentes da mudança que queremos ver. De que adianta ficar reclamando todo dia, todo disco, todo show e continuar cometendo os mesmos crimes contra a sociedade? Continuar faltando com respeito ao próximo?
Metal Na Lata: A banda lançou o disco e veio a pandemia, e obviamente estragou toda a logística de divulgação para o trabalho. Como vocês estão encarando isso? Pensam de certa forma lançar uma “quarentena sessions”, quem sabe tocar num estúdio e fazer a transmissão? Enfim, qual é o plano para que “Sick and Insane” continue sendo divulgado até os shows voltarem?
Emiliano: Primeiramente, a quarentena estragou todos nossos projetos de shows físicos, mas uma coisa boa que ela nos ensinou é abrir nossos horizontes digitais. A gente mandou uma cacetada de e-mails, bem na pegada “do it yourself” (faça você mesmo) para todos os sites que encontramos na internet e, recebemos várias reviews positivas, propostas de entrevistas, pessoas querendo comprar nosso cd da Bulgária, Finlândia, Noruega e outros países. Às vezes, a gente esquece como a internet é uma poderosa arma, mas as vezes falta realmente organização/tempo e disposição, coisas que nessa quarentena as vezes sobra! Acho que essa parte de divulgação virtual foi muito positivas. Em contrapartida, não fizemos nenhuma live ou coisa do tipo por realmente medo de toda essa pandemia, mas vocês que se cuidem, quando essa porcaria acabar o pescoço e tímpano de vocês vão sofrer como nunca, vocês NUNCA viram o MOFO com tanta sede de tocar, se preparem!
Metal Na Lata: Alias, um dos grandes trunfos do MOFO é justamente os palcos. A banda literalmente vive para os shows seja em algum buraco ou num festival com uma boa estrutura. Eu tenho a teoria que um bom show de Thrash Metal deveria ser de direito de todo o cidadão, as energias sempre se renovam após você se “matar” no moshpit.
Emiliano: A gente fala que o nosso show é uma “experiência”. Nós queremos dar essa experiência para todas as pessoas, mesmo que sejam só 1 mendigo e um cara que andou 15km de bicicleta para ver a gente (já aconteceu), ou um show gigante com todo mundo gritando e curtindo. Eu sempre falo que somos uma banda de ao vivo, de palco. Mesmo que a gente tente passar tudo no estúdio é simplesmente impossível, você só vai entender o que é o MOFO se ver a gente em ação de verdade, então estão esperando o que galera?

Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, o espaço final é todo seu.
Emiliano: Obrigado mais uma vez pelo espaço e por todo apoio que todos do Metal Na Lata sempre oferecem para a gente, somos eternamente gratos! É isso pessoal, esperem muita coisa que o MOFO está só começando, sigam a gente nas redes sociais e apoiem essa porra de cena, entenda-se por aqui que apoiar não é só ir no show das bandas, comprem “breja” dos bares, compareçam nos “rolês”, deem créditos para os produtores de conteúdo, mídia, compartilham o trampo das bandas. A gente já vive um dos meios mais frágeis da sociedade, se a gente não se unir e conquistar nosso espaço o que será de nós? É isso, fiquem em casa quem puder, pau no cu dos moralistas e nos vemos em breve no mosh pit!
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