Entrevista com Hansi Kürsh (Blind Guardian)

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O Blind Guardian é um dos pilares do metal germânico. Na estrada desde 1986, o grupo sempre se desafiou e expandiu os seus limites, fazendo com que “estagnação” seja uma palavra inexistente em seu dicionário. E, após mais de 20 anos de planejamento, o grupo formado por Hansi Kürsh (vocal), André Olbrich e Marcus Siepen (guitarras) e Frederik Ehmke na bateria finalmente lança o seu projeto mais ousado, o famigerado e aguardado disco orquestrado denominado “Legacy Of The Dark Lands”, aqui lançado pela alcunha de Blind Guardian Twillight Orchestra. Conversamos com um empolgado Hansi Kürsh, que nos esclareceu diversos pontos sobre esse material histórico, além de lançar um pouco de luz sobre questões especiais sobre o legado desse gigante do metal mundial.

Por Márllon Matos e Gustavo Maiato
Fotos divulgação e Nuclear Blast

Metal Na Lata: Olá, obrigado por conversar com o Metal Na Lata. Minha primeira pergunta é sobre o novo lançamento: “Legacy of The Dark Lands”. Já se foram 23 anos desde os primeiros comentários a respeito de uma álbum orquestrado do Blind Guardian. Nesse meio tempo, vocês lançaram 5 álbuns de estúdio, 2 álbuns ao vivo, 1 DVD e reeditaram o catálogo antigo algumas vezes. Sabemos que a busca constante por qualidade sempre desafia a banda. Você sempre quer soar melhor, em um nível mais alto do que um registro anterior. Então, o que estava faltando no Blind Guardian nesses 23 anos e que agora não está mais faltando mais que permitiu a criação esse tipo de registro?

Hansi Kürsh: “Legacy of the Dark Lands” precisa estar separado do resto do Blind Guardian porque estão faltando lá os instrumentos de André (Olbrich), Frederik (Ehmke) e Marcus (Siepen). O disco é como um sonho de criança meu e do André de fazer um álbum apenas com vocais e orquestração. Isso vai além da obrigação do Blind Guardian como banda, soa quase como Blind Guardian, mas sem o resto dos instrumentos.

Ou seja, a sonoridade não pode ser comparada com o resto da discografia da banda. Aqui, nós procuramos fazer o melhor em termos de composição. Foi um esforço combinar uma orquestra gravada ao vivo em um ambiente clássico como o Rudolfinum (N do T: edifício neo-renascentista em Praga, República Tcheca) e depois combinar com um elemento “alien” que é minha voz, a voz de um vocalista de metal. Foi um desafio que nós subestimamos. Nós tivemos sucesso com esse desafio, mas isso tomou muito tempo da gente.

Nós miramos na música perfeita com a sonoridade perfeita e nós tentamos ser inspirados por nossa própria música, mas também pela época em que nós estamos vivendo. A música está mudando constantemente e as demandas mudam. Nós gostaríamos de criar um disco tão rico quanto o “A Night At The Opera” ou “Beyond The Red Mirror” com uma sonoridade limpa que deixaria eles compreensíveis para todos, esse é nosso objetivo para o futuro, ter um álbum que contém todos os elementos que nós estabelecemos nos últimos 20 anos e ser um álbum tranquilo.

Isso pode ser que não seja possível, mas nós queremos ter mais dinâmicas, é algo que aprendemos durante a feitura de “Legacy of the Dark Lands”. Obviamente, trabalhar com uma orquestra significa lidar com dinâmicas diferentes, eles são muito mais capazes do que uma banda de metal pode ser. Isso é algo que nós queremos incluir nos discos regulares do Blind Guardian. Nós queremos fazer algo melhor, às vezes tem coisas que são atraentes por causa do contexto da época, mas ao longo do tempo nosso gosto mudou, as demandas do público mudaram.

Metal Na Lata: Eu fiquei curioso sobre a ideia por trás deste álbum. Quero dizer, por que não tirar o melhor proveito dos seus maiores sucessos no formato orquestral ou fazer um álbum conceitual sobre uma saga consagrada, como O Senhor dos Anéis ou Crônicas de Gelo e Fogo? Por que a banda decidiu apostar o tema lírico na sequência de um trabalho que poucos fãs tiveram acesso, como o livro “Die Dunklen Land”?

Hansi Kürsh: A razão porque nós não fomos em direção a fazer um disco de clássicos do Blind Guardian em um formato orquestrado é simplesmente devido a origem de todo esse processo de composição do “Legacy of the Dark Lands”. Por coincidência, nós compusemos duas músicas durante o “Nightfall on the Middle-Earth”: “This Storm” e “Dark Cloud´s Rising”. Elas soaram diferente para a gente, soam diferente sem a banda. Elas seriam parte do “Nighfall…” e nós decidimos depois que não queríamos a banda de metal envolvida. Pelo contrário, queríamos estabelecer uma nova sonoridade, basicamente um novo estilo, pois ninguém nunca fez nada parecido. Esse foi o desafio e a tentação para nós. Nós sabíamos que ter essas músicas novas com orquestra, com um estilo de composição de metal, mas sem ter a banda junto, iria ser a coisa mais atraente de tudo.

Isso não iria acontecer se nós tivéssemos feito com “Theater of Pain” ou “Mirror Mirror”, ou qualquer outra música. Então, essa decisão foi feita facilmente há mais de 20 anos. Nós temos habilidade para criar essas músicas, nós sentimos que as músicas estavam crescendo e a qualidade delas talvez até seja maior do que as canções regulares do Blind Guardian e nós nos divertimos muito em trabalhar nelas. Foi uma coisa natural fazer o disco e levou muito mais tempo do que nós achávamos que levaria.

Em relação à história, quando começamos com isso em 1996 ou 1997, com “This Storm” e “Dark Cloud´s Rising”, bem… “This Storm” tinha o título de “Gondor”, então a intenção era ir para algo relacionado ao mundo de Tolkien, como o “Nightfall On Middle Earth” foi inspirado pelo Tolkien e pelo menos por uns 4 ou 5 anos nós consideramos colocar esse disco em um formato de orquestra também, mas os filmes do Senhor dos Anéis foram lançados com uma trilha sonora e isso virou uma hype gigante, essa ideia perdeu a força para nós.

Eu comecei a pensar em um assunto que se encaixasse para esse projeto orquestrado de longo tempo e concluí que era melhor não ir em nenhuma direção que já tivesse sido explorada. E sim vir com uma nova história e isso daria espaço para o público criar seu próprio mindset, suas próprias imagens nas suas mentes. É para ser inspirador, sem imagens que você possa ter de histórias que já existam em filmes. Isso foi uma das coisas. Então pensamos no Markus Heitz, um autor alemão que se tornou conhecido, é um dos meus autores favoritos. Eu achei que ele seria a escolha certa para o disco.

Quando nós nos encontramos, conversamos sobre as possíveis direções para esse conceito e ele e eu concordamos que não queríamos fazer nada muito relacionado ao tipo de universo de Tolkien, e sim algo que seria relacionado com o mundo que nós vivemos. Ainda é fantasia, mas relacionado com algo que nós achamos que seria um universo interessante para esse álbum em particular.

Metal Na Lata: Uma turnê com esse projeto orquestrado certamente seria bastante caro, mas se vocês receberem um convite, para a ocasião certa, o que vocês acham de criar uma apresentação ao vivo completa deste trabalho?

Hansi Kürsh: Nós estamos trabalhando nisso nesse momento. Ao mesmo tempo, nós estamos trabalhando nas novas músicas do Blind Guardian, preparando a produção do novo disco, isso ocupará o ano de 2020. Ao mesmo tempo, estamos em contato com orquestras para ver como concretizar essa tour da melhor maneira. Esse projeto teria que acontecer em um formato teatral, precisamos de atores, grandes projetos de palco, isso deixa tudo mais complicado.

Eu tenho certeza que no final de 2021 ou no começo de 2022 nós veremos algumas performances do Blind Guardian Twilight Orchestra. Pode ser em apenas uma arena, para ser uma coisa do tipo “uma vez na vida” ou pode ser pensado para uma turnê, onde visitaríamos alguns países. Nós estamos abertos a isso, estamos trabalhando, seria um desafio para todo mundo envolvido e eu preferia ter as mesmas pessoas comigo em todos os lugares, mas acho que em relação à orquestra isso não seria possível. Nós teríamos que trabalhar com orquestras nacionais se fôssemos para a estrada.

Metal Na Lata: A cena do heavy metal tem muito preconceito contra o power metal. Eles dizem que é um estilo adolescente e muitas pessoas quando envelhecem dizem algo como: “quando eu era garoto, ouvia essas coisas de ‘dragões e espadas’, mas não mais”. Minha primeira pergunta é: o que você acha dessa maneira de pensar, como se a música de alguma forma tivesse uma cadeia de evolução e o que você acha da pressão social envolvida em pessoas adultas que ainda ouvem power metal?

Hansi Kürsh: Quando eu comecei com essa questão do power metal eu tive um debate com alguns de meus colegas como o Jon Schaffer e o André por exemplo. Essa definição é complicada. Para mim, power metal é relacionado a bandas dos EUA, como Metal Church e o Vicious Rumours. Eu não considero Blind Guardian ou Iced Earth como power metal. Nós estamos apresentando diferentes estilos, do power para o speed ou o tradicional, ou algo meio progressivo ou orquestrado. Tem um pouco de tudo, não sei se power metal se encaixa como uma definição para nós. Hoje em dia, power metal é associado também a bandas de diferentes estilos como Hammerfall, Sabaton ou Powerwolf. Mas para mim power metal são bandas como o Metal Church e não Sabaton ou Powerwolf. Eles fazem o que quer que estejam fazendo, mas não é power metal para mim! Mas é para muitas outras pessoas, então a definição depende da pessoa que você está falando.

Mas eu sei do que você está falando em geral. Eu acho que essas pessoas não estão informadas sobre o que a banda está fazendo e eles nem querem ser informados. Então, a imagem que eles criam de certas bandas em muitos casos não é correta. Todo artista precisa lidar com isso. Eu não posso convencer alguém que não quer ouvir, isso me leva para a próxima coisa. Em geral, eu acredito que a música é algo muito emotivo e captura a atenção das pessoas. Pode ter algumas pessoas que estão ficando cansadas do que nós estamos fazendo ou não querem mais embarcar na nossa e param de ouvir a gente. Não tem problema nisso, a vida é assim! Nós precisamos continuar verdadeiros conosco e eu acho que não é fácil atrair a atenção das pessoas de maneira geral. Isso é um fenômeno que eu não entendo completamente.

A música não tem a mesma importância para as pessoas que costumava ter no passado. Ainda tem uma maior parte das pessoas que está interessada em música, mas essa maioria está diminuindo, não é igual nos anos 90 ou 80, onde todo mundo estava conectado com música de alguma forma. Agora, apenas 60% ou 70% realmente considera a música um ingrediente importante em suas vidas. Por que isso acontece? Talvez existam outras atrações para essas pessoas, ou muita perturbação com outras coisas. O valor da música mudou e nós precisamos lidar com isso. Nós temos que aceitar, mas por outro lado, como artista, minha obrigação é entregar algo que faça com que as pessoas pensem e algo que faça diferença.

Metal Na Lata: Eu acho que a presença de um tecladista é indispensável em várias bandas. O que você acha de ter um tecladista no palco e como funciona a questão das tracks gravadas?

Hansi Kürsh: Nós trabalhamos com Michael (Schüren) como tecladista desde o “A Night at the Opera” e ele trabalhou com a gente ao vivo na época do “Imaginations From The Other Side”. Ele está conosco constantemente desde o “A Night…” porque a estrutura das músicas demanda isso. Não tem a menor chance de nós irmos para uma turnê sem um tecladista. Não importa se a música está vindo de uma track gravada, você precisa escolher quem vai executar. Você pode decidir por uma banda no palco, isso faz muita diferença, mas às vezes é difícil capturar tudo que foi gravado em uma música do Blind Guardian. Então, algumas tracks gravadas são uma opção nos dias de hoje como em “Wheel of Time” ou “Sacred Worlds” por exemplo. Nós trabalhamos com tracks adicionais.

Hoje em dia, ter um tecladista não é tão importante quanto antes. Nos anos 80 e até no começo dos anos 90 era importante que tudo no palco fosse executado no palco. Hoje, algumas bandas usam tracks gravadas, como a gente. Eu acho ok usar esse recurso, mas nosso objetivo é sempre ter a maior quantidade de performances ao vivo possível. Isso significa que todos os vocais principais serão cantados ao vivo. Se eu tiver um dia ruim, paciência! Teremos um dia ruim no quesito vocal.

O mesmo pode ser dito para todos os instrumentistas no palco. Até agora, eu considero a gente uma banda de rock and roll e será assim quando voltarmos em 2021. Então, nós temos privilégios técnicos como mídia digital para engrandecer a música e se for necessário nós usaremos, mas você pode ter certeza que a maioria das coisas será sempre tocada pelos caras no palco. Nosso privilégio são nossos fãs que sabem cada palavra que estamos cantando e eles cantam junto sempre. Nós temos o privilégio de ter os maiores backing vocals e corais do mundo!

Metal Na Lata: Vamos falar um pouco sobre “O Senhor dos Anéis”. Qual é o seu relacionamento com a saga além de cantar sobre ela e o que você espera da nova série do Senhor dos Anéis que está sendo produzida para a Amazon?

Hansi Kürsh: Eu ainda sou um grande fã e estou muito empolgado para ver essa série nova. Eu não tenho ideia sobre o que eles têm em mente, estou apenas curioso para ver o que será. Depois que o Peter Jackson fez um trabalho tão bom no Senhor dos Anéis e O Hobbit é melhor que eles não fodam com tudo! O nível está altíssimo para que eles consigam manter tudo em um nível aceitável para que todos fiquem felizes. Mas eu vou dar uma chance! Estou curioso, se não me atrair, tudo bem, mas eu sou uma pessoa fácil de ser entretida quando diz respeito a séries ou filmes. Eu não sou tão crítico quanto eu sou com livros. São coisas diferentes, mas filmes eu apenas vejo para me entreter, não sou muito crítico.

Lá atrás quando começamos a trabalhar nesse projeto com orquestra, começaram os primeiros rumores sobre os filmes do Senhor dos Anéis e nós tivemos a oportunidade de apresentar nosso trabalho para o Peter Jackson, mas eu estava em turnê com o Demons & Wizards e nós não pudemos fornecer as coisas relacionadas a orquestra que nós estávamos pensando que era “This Storm” e “Dark Cloud´s Rising”. Nós não pudemos apresentar a tempo, mesmo eles dizendo que nossas chances eram difíceis porque eles estavam desenvolvendo já bem rápido as coisas com os compositores que eles já tinham em mente.

Para ser honesto, teria sido muita areia para o nosso caminhãozinho na época. Agora, eu diria que se uma empresa pedisse para nós fazermos uma trilha sonora similar a “Legacy Of The Dark Lands”, talvez até sem os meus vocais, não teria sido problema.

Metal Na Lata: Você pode nos dizer como foi cantar com Angra na música “Windos of Destination”, no disco “Temple of Shadows”? Muitos fãs de Angra ainda consideram este disco o melhor de todos os tempos. Que lembranças você tem daquele tempo?

Hansi Kürsh: Eu também acho que é um dos melhores álbuns do Angra. Eu gosto do “Holy Land” também, de alguma forma ele tem um espaço especial no meu coração. Os caras entraram em contato comigo e me mandaram a música com uma definição bem precisa do que eles queriam que eu fizesse. Eu cantei por mim mesmo em um dos muitos estúdios que visitei ao longo dos anos e eu adorei fazer isso.

Foi uma época muito boa, alguns anos depois nós tocamos juntos no Japão e eu tive o privilégio de cantar com o Angra e basicamente eu segui as instruções do Edu Falaschi. Para mim foi muito bom, porque às vezes as instruções não são muito claras, mas no Angra eles me mostraram bem o que fazer. As partes da música que eles destinaram para mim eles realmente encaixaram na minha voz. Às vezes eu preciso cantar algo que não é pensado bem para minha voz em um primeiro momento, mas não foi o caso.

Metal Na Lata: No começo do Blind Guardian você tocava baixo. Você sente falta de tocar este instrumento? Você tem planos de tocar de novo vivo ou no estúdio? Ou talvez outro instrumento…

Hansi Kürsh: Eu fiz recentemente a composição da música “Miracle Machine” no baixo, pelo menos algumas das partes. Isso foi coincidência, pois não tinha nenhum outro instrumento disponível no dia que eu tive a ideia para essa música. Mas além disso, depois que eu parei de tocar no meio dos nãos 90 eu não me arrependo dessa decisão. Eu toco violão às vezes e um pouco de piano quando eu venho com ideias de músicas, mas não no baixo.

Eu adorava tocar o baixo no começo da nossa carreira, mas eu diria que “Follow the Blind” e “Tales From The Twilight World” foram um fardo porque a composição foi muito mais orientada para os vocais e isso demandou minha atenção. Eu não senti a força e a necessidade para continuar com o baixo na mesma qualidade. Depois do “Imaginations From The Other Side” foi uma decisão clara para mim: “Eu não toco baixo de novo”. Eu foco na composição das linhas vocais e na composição de músicas em geral, mas precisamos de um baixista para prestar um tributo ao que o baixo precisa ser em uma situação ao vivo e em um CD.

Então, nós encontramos o Oliver Holzwarth e depois o Barend Courbois que foram muito melhores do que eu. Nós resolvemos o problema de uma maneira muito boa e para mim, como vocalista, foi uma mudança drástica na configuração de palco. Quando nós entramos na turnê do “Nightfall On The Middle Earth”, durou a turnê inteira para eu me ajustar, porque eu não prestei atenção no que fazer sem o baixo no palco. Isso foi um processo de aprendizado e demorou 5 ou 6 anos para eu me sentir confortável em apenas fazer o baixo no palco.

Metal Na Lata: Deixe uma mensagem para os fãs brasileiros!

Hansi Kürsh: Obrigado meus fãs brasileiros! Vocês são os fãs mais dedicados e nós vamos voltar em breve. Eu acho que vamos voltar em 2021 com o novo disco do Blind Guardian. Curtam o “Legacy Of The Dark Lands”, é um disco que pode te levar para dimensões diferentes! Foi muito bom falar com você, te vejo em 2021!

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