Metal na Lata

Entrevista com Kevin Riddles (Tytan)

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ENTREVISTA COM KEVIN RIDDLES (TYTAN)

Um efeito secundário da chamada New Wave Of Traditional Heavy Metal (NWOTHM) foi despertar no público mais jovem um repentino interesse nos grupos que fizeram pare da New Wave Of British Heavy Metal (NWOBHM), surgida quatro décadas atrás. À sombra dos grandes nomes, cujo alcance mundial se traduziu em discos de ouro e platina e na dádiva da longevidade, muitas bandas menores, por mais breve que tenham sido suas carreiras à época, também fizeram bonito. Nos anos 80, a trajetória do Tytan se resumiu a somente um disco – o excelente “Rough Justice” (1985 – leia a resenha) – e seu legado, menos importante ou impactante que futuras empreitadas de alguns de seus ex-integrantes, como o vocalista Kal Swan (que obteria sucesso moderado na América à frente do Lion e, posteriormente, do Bad Moon Rising) e o baterista Simon Wright, que pediu as contas para juntar-se ao AC/DC. Avancemos no tempo e encontremos o grupo, sob o comando do baixista Kevin Riddles (ex-Angel Witch), retomando as atividades em caráter permanente com um trabalho feito sob medida para os saudosistas – “Justice: Served!” (2017 – leia a resenha) – e muita lenha para queimar. De sua base no Reino Unido, Kevin fez uma retrospectiva do Tytan exclusiva para o Metal Na Lata. Boa leitura!

Por Marcelo Vieira
Fotos: Divulgação

Metal Na Lata: Na biografia do Tytan presente no encarte a edição de 30 anos de “Rough Justice”, você diz que “deixar o Angel Witch para trás foi difícil e libertador”. Você poderia explicar isso melhor?

Kevin Riddles: Deixar o Angel Witch foi difícil porque ficamos juntos por muito tempo e nos tornamos grandes amigos, então dizer adeus foi como perder um ente querido… mas foi libertador para mim, porque agora eu poderia me envolver mais na composição das músicas, e mover o Tytan na direção que eu quisesse seguir.

 

Metal Na Lata: De alguma maneira, o vínculo com o Angel Witch ajudou a gerar interesse no Tytan?

Kevin Riddles: Felizmente, muitos fãs do Angel Witch embarcaram comigo nessa jornada e permaneceram leais às duas bandas até hoje.

 

Metal Na Lata: No mesmo texto, você sugere que a passagem de Les Binks (Judas Priest) foi breve a ponto de ter sido quase irrelevante. Quanto tempo ele ficou na banda e por que ele saiu?

Kevin Riddles: Les foi trazido durante a gravação de “Rough Justice” para substituir Dave Dufort. Ele tocou em sete músicas, acredito, mas em nenhum show ao vivo, e saiu em questão de semanas. Simon terminou o álbum e ficou com o Tytan até se juntar ao AC/DC.

 

Metal Na Lata: O álbum “Rough Justice” foi lançado tarde demais para manter a banda unida. Você acredita que esse timing ruim foi a única causa da separação da banda nos anos 80? Quer dizer, você acredita que o Tytan poderia ter ido mais longe se o álbum tivesse sido lançado no momento certo e tivesse saído nos Estados Unidos e no Japão?

Kevin Riddles: Timing ruim e muita falta de sorte foram a causa principal, pois era impossível manter a banda interessada com um álbum por lançar; os produtores de eventos aguardavam o álbum antes de agendar a banda. Quanto mais tempo demorava, menos shows pudemos fazer. Um lançamento nos Estados Unidos estava nos planos da CBS, mas, novamente, a falência da nossa gravadora fez com que esse acordo fracassasse.

 

Metal Na Lata: Uma coisa que eu descobri apenas recentemente foi que você fez parte do Lion por um tempo. Você chegou a contribuir com algum material que mais tarde foi gravado pela banda e lançado em seus dois álbuns? Por que essa parceria com Kal não funcionou na época?

Kevin Riddles: Kal foi para a América para se juntar ao Lion, mas precisava de um baixista com o qual ele pudesse lidar, então me ligou, ensaiamos, compusemos um álbum inteiro de material e gravamos uma demo com Ronnie Montrose em Palo Alto, na Califórnia. Infelizmente, o empresário da banda tinha outro baixista em mente, então fui substituído e voltei para casa.

 

 

Metal Na Lata: Vamos voltar para “Rough Justice”. Mesmo depois de tanto tempo, a letra de “Blind Men and Fools” ainda soa atual, pois os poderosos continuam “sem perceber as consequências de suas decisões”. Qual a sua leitura sobre o papel que os líderes, políticos ou religiosos, têm desempenhado, especialmente durante essa crise mundial causada pelo coronavírus? Você acha que “eles estarem vivos é resultado da posição social que ocupam”?

Kevin Riddles: A situação sobre a qual escrevi em 1981 sobre política e políticos infelizmente não mudou. Só que agora os políticos têm mais coisas sobre as quais mentir enquanto enriquecem cada vez mais.

 

Metal Na Lata: Muito antes do assunto estar em evidência, você lançou uma música de cunho feminista: “Women on the Frontline”. Qual foi a reação da comunidade metal ou da imprensa? Você acha que a situação geral das mulheres na sociedade mudou desde então?

Kevin Riddles: Na verdade, acho que a maneira que a sociedade trata as mulheres melhorou um pouco, mas ainda há muitos maus tratos. Infelizmente, o respeito pelas mulheres está se mostrando tão difícil de alcançar quanto o respeito por outras raças, credos e cores. Como havia poucas jornalistas na época, a música não chegou a ser vista como um manifesto pró-feminista.

 

Metal Na Lata: Letras como a de “Rude Awakening” e “The Watcher” trazem um ingrediente oculto que me parece herdado dos tempos de Angel Witch. Alguma das músicas de “Rough Justice” data do tempo do Angel Witch?

Kevin Riddles: Não, meu amigo. Tudo isso foi escrito após o Angel Witch, embora obviamente seis anos com a banda tenham exercido alguma influência sobre mim.

 

Metal Na Lata: O primeiro disco do Angel Witch é considerado um clássico da NWOBHM; até mais do que “Rough Justice”, que, na minha humilde opinião, é muito mais bem-produzido. O que você acha desse status de cult que ambos os discos alcançaram?

 

Kevin Riddles: Tenho muito orgulho de estar associado e envolvido com ambos os álbuns, apesar de concordar que o do Tytan certamente teve uma produção muito melhor! [risos]

 

 

Metal Na Lata: Vamos avançar no tempo… A reunião do Tytan era para ter sido um show de aniversário no festival Keep It True em 2012. Ainda assim, nenhum dos membros da formação responsável por “Rough Justice” estava disponível ou mostrou interesse em fazer parte. Isso de alguma forma magoou você ou foi um incentivo a mais para encontrar novos músicos que estivessem dispostos a segurar a barra com você? Foi difícil montar uma nova formação a tempo de fazer esse show?

Kevin Riddles: Kal não tinha interesse na reunião, pois não havia dinheiro para ele nem uma passagem aérea de primeira classe! [risos] E ele não cantava há anos! Simon estava muito envolvido com o Dio e, em seguida, com o Dio Disciples e não estava disponível. Steve Mann, que tocou a maioria das guitarras, e Stevie Gibbs, aproveitaram a chance e marcaram presença no Keep It True, junto com Andrew Prestidge (Angel Witch) na bateria. Chamei Andy Thompson para recriar os teclados do “Rough Justice” ao vivo. Não houve animosidade, apenas segui em frente, como normalmente faço para entregar o melhor show possível.

 

Metal Na Lata: Podemos dizer, então, que esse show marcou o reinício das atividades do Tytan ou demorou um pouco até você decidir reativar a banda permanentemente?

Kevin Riddles: Foi um dos shows mais emocionantes e gratificantes que já fiz e a decisão de continuar foi tomada antes de sair do palco!

 

Metal Na Lata: Na ocasião, vocês tocaram onze das doze músicas do álbum, deixando de fora apenas “Ballad of Edward Case”. A propósito, quem é Edward Case?

Kevin Riddles: Edward Case é todo e qualquer stalker. Na Inglaterra, chamamos as pessoas assim de “head case”. Entende agora o tom levemente humorístico da coisa?

 

 

Metal Na Lata: Perfeitamente! Enfim, vocês encerraram o show com um cover de “Find the Cost of Freedom”, do Crosby, Stills, Nash & Young. Essa escolha incomum tem a ver com a mensagem por trás da letra?

Kevin Riddles: “Find the Cost of Freedom” era o número de encerramento de todos os shows do Tytan e servia tanto como um contraste completo em relação ao que havíamos tocado antes quanto para mostrar nossas harmonias vocais fabulosas! [risos]

 

Metal Na Lata: Cinco anos se passaram entre o show no KIT XV e o lançamento de “Justice: Served!”. Eu gostaria que você explicasse o título do álbum. Você acha que alguma justiça tardia foi feita ao Tytan com o lançamento desse disco?

Kevin Riddles: O título foi uma declaração deliberada de que a sorte finalmente nos sorriu. Tínhamos uma gravadora, a High Roller Records, por trás de nós e um dos melhores produtores do mundo, Chris Tsangarides, um amigo próximo, trabalhando conosco.

 

Metal Na Lata: Inclusive, “Justice: Served!” foi um dos últimos trabalhos feitos pelo “The Dark Lord” Chris Tsangarides. Como o nome dele é muito conhecido pelo público brasileiro graças ao seu trabalho com o Angra, você poderia falar um pouco sobre ele como pessoa e produtor?

Kevin Riddles: Eu conhecia o Chris há 40 anos, mas essa foi a primeira vez que trabalhamos juntos. Ele era um dos caras mais legais e engraçados que tive o prazer de conhecer. Sempre tinha tantas histórias para contar que era difícil focar no trabalho! Sinto muita falta dele e compus uma música para ser incluída no próximo álbum dedicada a ele. Como produtor, ele era único e tinha um ouvido fantástico para a “nossa” música, e com isso quero dizer que toda a música minha que ele produziu era, também, dele.

 

Metal Na Lata: Você é autor ou coautor de onze das treze músicas do disco, e as duas que não foram escritas por você – “Midnight Sun” e “Spitfire” – são, de certa forma, ligeiramente diferentes da proposta geral do álbum. A primeira é uma balada acústica, a segunda, um arrasa-quarteirão ao estilo Motörhead. Qual a sua opinião sobre essas duas músicas e quais são os seus destaques pessoais no resto do álbum e por quê?

Kevin Riddles: “Midnight Sun” foi escrita por Tom Barna e eu quis incluí-la pelo contraste. O mesmo pode ser dito de “Spitfire”, que é um speed metal escrito e cantado por Dave Strange. Meu destaque pessoal é “Worthy of Honour”, pois é uma música que fiz com todo o meu amor para minha esposa, Jules, e a seção pesada no encerramento foi uma homenagem à música do nosso casamento, “Thank You”, do Led Zeppelin.

 

 

Metal Na Lata: O que o futuro reserva para o Tytan? Você está gravando um novo álbum, certo? O que você pode dizer em primeira mão aos leitores do Metal Na Lata?

Kevin Riddles: O novo álbum havia sido planejado para este ano, todas as músicas foram compostas e estamos prontos para gravar, mas, infelizmente, como todo mundo, o projeto está suspenso no momento. Acho que vou aproveitar o tempo para pensar em um bom título para o álbum! [risos]

 

Metal Na Lata: Muito obrigado pelo seu tempo, Kevin! Espero que você tenha gostado do nosso bate-papo! Vamos encerrar com uma mensagem para seus fãs no Brasil e para os leitores do Metal Na Lata!

Kevin Riddles: Eu gostaria de agradecer os leitores do Metal Na Lata pelo apoio e pela alegria que vocês dão às bandas que ouvem! Gostaríamos muito de vê-los e conhecer o público da América do Sul por nós mesmos. Felicidades e cuidem-se, meus amigos!

 

Mais informações:

www.facebook.com/TytanOfficial

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