Entrevista com Mike Tramp (ex-White Lion)

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ENTREVISTA EXCLUSIVA COM MIKE TRAMP (EX-WHITE LION)

“É seu trabalho descobrir quem sou e o que faço”, diz a bio do Instagram de Mike Tramp. Pode até ser que isso se aplique a quem não for do hard rock – Tramp e o White Lion são currículo básico do curso –, mas, definitivamente, não se aplica a mim. Sou fã da banda – e do cara – desde antes de começar a escrever (bem) sobre música. Em 2008, lá estava eu, 18 anos de idade, na grade de um Circo Voador esvaziado, às três da manhã, munido da pouca energia que me restava após os shows inesquecíveis de House of Lords e Tyketto na segunda e última edição do saudoso festival Hard in Rio. Nunca que àquela altura eu poderia imaginar que uma década depois estaria conversando com Mike. Dosar profissionalismo e empolgação foi tarefa árdua, mas acho que consegui. Com disco novo na praça, o muito bom “Second Time Around” (leia a resenha aqui no site), Tramp atendeu o Metal Na Lata diretamente de sua casa na Dinamarca. O resultado você confere abaixo!

Por Marcelo Vieira
Transcrição e tradução: Gustavo Maiato
Fotos: Divulgação

 

Metal Na Lata: Seu novo álbum, “Second Time Around”, é basicamente uma regravação de “Mike Tramp & The Rock ‘N’ Roll Circuz” (2009). Por que revisitar esse disco uma década depois?

Mike Tramp: O “Rock ‘N’ Roll Circuz” havia sido lançado apenas na Dinamarca, e desde a turnê de “Cobblestone Street” (2013) eu vinha sentindo um vazio no meu repertório ao vivo, sentindo falta de [poder tocar] algumas músicas importantes. Um dia, vasculhando meus arquivos, encontrei as demos desse disco e elas trouxeram inúmeras boas lembranças. Mas aí, quando comecei a analisar essas músicas, percebi que queria mudar algumas coisas [nelas] e queria que o mundo soubesse o quanto esse material é importante para mim. Ele foi lançado na sequência da minha tentativa de reviver o White Lion; algo que eu nunca quis fazer, mas que não fui forte o bastante [na época] para dizer não.

A verdade é que meus álbuns solo – “Recovering the Wasted Years” (2002), “More to Life Than This” (2003) e “Songs I Left Behind” (2004) – não vinham repercutindo tanto, e muita gente me dizia que se eu lançasse algo como White Lion novamente, eu poderia até pensar em voltar a tocar em festivais, em casas de shows maiores. Tomei isso como verdade. Então, nos intervalos entre uma turnê e outra como White Lion, eu compus as músicas que acabaram no “Rock ‘N’ Roll Circuz”. Isso é a maior prova de que por mais que eu estivesse fazendo o White Lion na época, o verdadeiro Mike Tramp solo continuava existindo.

 

Metal Na Lata: Mas você só regravou dez das treze músicas do disco. Por que deixou “Enter the Circuz”, “Sunshine” e “Wiseman” de fora?

Mike Tramp: Do “Cobblestone Street” em diante, todos os meus discos passaram a ter sempre dez músicas. Acho que o disco perfeito não pode ter mais do que isso. Mesmo que o CD nos permita ter até oitenta minutos de música, isso não necessariamente faz um álbum ser bom. No tempo do LP, você não tinha como colocar mais do que vinte e dois minutos de música em cada lado. Acredito que, sem essas três músicas, o repertório fluiu melhor.

 

Metal Na Lata: Na minha resenha do “Second Time Around” para o Metal Na Lata, escrevi: “Ainda que a roupagem classic rock com forte acento southern seja um barato de se ouvir, o diferencial está no dom que Mike tem para contar histórias e manifestar emoções universais a partir de conteúdos essencialmente autobiográficos.” Como cantor e compositor, quais são os seus principais objetivos?

Mike Tramp: Antes de mais nada, obrigado pelas palavras! A grande recompensa para mim não são os discos de ouro na parede ou coisas do tipo, e sim quando alguém entende exatamente como me sinto. Minha carreira é como um livro e cada álbum [que lanço] representa um novo capítulo. Por mais que eu já meio que fizesse isso no White Lion, foi somente do [meu primeiro disco solo] “Capricorn” (1997) que comecei a contar as histórias pelo olhar do protagonista, incluindo a minha visão de mundo, as minhas experiências pessoais, os meus sentimentos, fossem eles dor, raiva, tristeza ou felicidade, e, assim, tentar estabelecer uma conexão com o meu ouvinte. Nada de rock stars em palacetes ou boates da Sunset Strip, copo de uísque na mão, mulher sentada no colo. Minhas letras são sobre um ser humano normal, lidando com coisas do dia a dia. Tudo bem que na época que o White Lion fez sucesso eu andava para cima e para baixo de limusine, mas sempre me senti mais confortável escrevendo letras mais “pé no chão”.

 

Metal Na Lata: Pode-se dizer então que você sentia vergonha dessas letras sobre mulherada, bebedeira e putaria que estavam em voga na época que o White Lion fez sucesso?

Mike Tramp: Mais desconforto do que vergonha. Não tenho nada contra quem escolhe escrever letras sobre isso. Essa bolha onde tudo é sexo não me atrai. A Dinamarca é um país com aspectos sociais muito fortes. Desde garoto eu fui apresentado à ideia de que existem outros países, outras culturas, e que o mundo é uma grande mistura. Quando cheguei aos Estados Unidos, eu queria ser como David Lee Roth e o White Lion começou tendo o Van Halen como objetivo a ser alcançado. Mas aí começamos a escrever as letras e não dava para comparar com o que escrevíamos com o que o Mötley Crüe escrevia. Musicalmente, muitas bandas eram parecidas, mas basta conferir as letras no encarte dos álbuns para ver que não tem comparação. Poison, Mötley Crüe, Cinderella, Whitesnake pós-1987; você pode colocar todas num mesmo barco. Desde o começo o White Lion nadou contra a corrente. Nós somos parte dessa geração, mas como compositores, nós queríamos chegar ao patamar do Journey.

 

Metal Na Lata: O maior sucesso do White Lion foi uma power ballad, “When the Children Cry”. Isso meio que lembra o que aconteceu posteriormente com o Extreme, que muita gente só conhece graças à “More Than Words”. Se dependesse somente de você, por qual música você gostaria que o White Lion fosse lembrado?

Mike Tramp: Veja bem, lá estava eu em Nova York, em 1986. Ronald Reagan na Casa Branca, o Muro de Berlim ainda de pé. O rock mais popular do que nunca nos Estados Unidos. Todos os nossos shows lotados. A MTV ditando as tendências. Enquanto todo mundo escrevia sobre bobagens, eu escrevi “No more presidents and all the wars will end / One united world under God”. Deve ter havido algum anjo me dizendo que esse era o caminho a se seguir, e não escrever apenas mais uma [letra] de amor. Além do mais, “When the Children Cry” se encaixa muito mais no mundo de hoje do que no de trinta e tantos anos atrás. É uma canção atemporal.

 

 

Metal Na Lata: Antes da pandemia colocar o mundo de castigo, você tinha anunciado que sairia em turnê tocando apenas músicas do White Lion. Como é para você revisitar esse material em um formato mais despojado?

Mike Tramp: Esse formato é o único motivo de eu estar fazendo isso. Quando você parte para uma abordagem acústica, a coisa toda é mais intimista. Por mais que [o guitarrista] Vito [Bratta] e eu tenhamos escrito essas músicas juntos, era sempre eu quem chegava com o esboço de como a música deveria ser. E continuou sendo assim nos meus discos solo. Mike Tramp é Mike Tramp e vice-versa. Tocar essas músicas na forma original possibilita aos fãs verem que estou em paz com o meu passado, que não estou no palco porque tenho boletos para pagar. Estou cantando músicas que têm o meu DNA, expressando sentimentos verdadeiros.

Desde que me tornei um artista solo em tempo integral, quase todos os meus shows incluem várias músicas do White Lion. Dessa vez, eu apenas decidi que daria aos fãs um repertório cem por cento White Lion, combinando clássicos com músicas mais obscuras, abrindo o baú e tocando músicas até do “Fight to Survive” (1985) que o White Lion nunca havia tocado. Ao término do show, recebo cada um dos meus fãs e vendo meus CDs.

 

 

Metal Na Lata: Incomoda você o fato de muita gente ainda comparar a sua carreira solo com o White Lion? Para mim, tal comparação é tão ilógica quanto perguntar se pizza é melhor do que hambúrguer! [risos]

Mike Tramp: [risos] Exatamente! São duas coisas completamente diferentes! Mas até que [as comparações] têm reduzido. Muitas pessoas já estão cientes de que agora é Mike Tramp e ponto final. Continuo sendo o cara que fundou o White Lion, mas também sou o cara que encerrou as atividades da banda.

 

Metal Na Lata: Recentemente, o último disco do White Lion, “Return of the Pride”, completou 12 anos. Olhando em retrospecto e considerando o clima mais denso em comparação aos demais álbuns da banda, você acha que foi um erro lançá-lo como White Lion?

Mike Tramp: Quando você começou a falar eu já sabia qual seria a pergunta. As músicas do “Return of the Pride” não foram compostas para o White Lion. Muitas dessas músicas foram escritas na mesma época que as do “Rock ‘N’ Roll Circuz”. Foi uma missão suicida. Na verdade, foi algo que estava destinado a dar errado desde o começo.

 

Metal Na Lata: Eu estava na grade do Circo Voador quando o White Lion tocou na segunda edição do festival Hard in Rio. O que você lembra dessa noite?

Mike Tramp: Não é como se tivéssemos tocado no Rock in Rio, né? [risos] Chegamos a pegar no sono nos bastidores, mas esse é o tipo de coisa que acontece quando a produção não repassa todas as informações para o artista. Sei que o Rio de Janeiro é uma cidade noturna, mas três da manhã não é a melhor hora para se subir ao palco. Fiquei desapontado, pois era a minha primeira vez no Brasil, tocando um setlist repleto de clássicos do White Lion. Quando tocamos em outros países da América do Sul, começamos o show às oito, nove da noite. No Brasil, com Tyketto e House of Lords, não foi o que aconteceu. No dia seguinte ao show, aliviei o estresse assistindo a uma partida de futebol no Maracanã.

 

Metal Na Lata: O desapontamento estava estampado no seu rosto. Na época rolaram alguns boatos de que você e um dos produtores locais teriam chegado às vias de fato nos bastidores. É verdade?

Mike Tramp: Nunca na minha carreira protagonizei esses barracos que você vê nos [documentários] Behind the Music da vida ou lê em autobiografias. Em determinado momento viramos para o produtor e reclamamos da hora e tal, mas as coisas nunca saíram do controle. Reflita comigo: chegamos [ao Rio de Janeiro] cinco horas antes de subir ao palco. Quando colocamos os pés lá [no Circo Voador], o House of Lords, primeira banda da noite, tinha acabado de começar o seu show.

 

Metal Na Lata: Está nos seus planos dar uma nova chance ao Brasil agora como artista solo?

Mike Tramp: Não só está como eu acho que agora, com a turnê cem por cento White Lion, seria o momento ideal. Mas não depende só de mim. Por mais que eu queira, não seria economicamente viável viajar para o Brasil com uma banda completa; a menos que me convidem para tocar no Rock in Rio! A única maneira que vejo de voltar ao Brasil seria no esquema voz e violão para duas horas e meia de clássicos do White Lion para os fãs cantarem junto e, quem sabe, até algumas músicas dos meus álbuns solo…

 

Metal Na Lata: Mudando completamente de assunto, você é um fã inveterado do Thin Lizzy. Qual a importância deles na sua vida?

Mike Tramp: Tudo que você cresce ouvindo acaba se tornando parte importante da sua formação. No começo dos anos 70, eu ouvia essas músicas com a alma. Thin Lizzy, Slade, Queen… bandas que eu gostava e que quando comecei a cantar profissionalmente se tornaram meio que minhas adversárias! Mas no começo de tudo está o Bob Dylan. Minha mãe colocava um LP dele para rodar todo dia pela manhã; era como ela me acordava para ir à escola. Minha memória musical mais antiga é essa, e é por isso que considero Bob Dylan a minha maior influência até hoje.

 

 

Metal Na Lata: Além dessa influência musical, eu observo na sua obra uma forte conexão com a história e a cultura norte-americanas. No primeiro disco do White Lion temos uma música chamada “Cherokee”, e em “Return of the Pride” temos “Battle at Little Big Horn”, por exemplo. Como começou essa conexão?

Mike Tramp: Meus horizontes se expandiram em meados dos anos 70. A história dos Estados Unidos, em especial do século XIX, teve um grande impacto em mim. Era um país jovem, mas repleto de boas histórias. Os 21 anos que vivi lá foram os melhores da minha vida. Hoje em dia, os Estados Unidos são só tristeza.

 

Metal Na Lata: Sendo assim, melhor passarmos para o próximo ponto, que é o Freak of Nature. Na sua opinião, por que a banda não deu certo?

Mike Tramp: Boa pergunta. Você mora no país do futebol, então talvez entenda a minha referência. Às vezes você tem o time perfeito, repleto de craques, mas ele simplesmente não funciona dentro de campo. O Freak of Nature não tinha necessariamente os maiores craques, mas possuía todos os ingredientes necessários para ter sido uma grande banda. Escrevíamos as músicas juntos, ensaiávamos juntos, um não interferia nos arranjos do outro, todo mundo preocupado apenas em fazer a sua parte. Nos faltou infraestrutura nos Estados Unidos para fazer a coisa decolar. As gravadoras não estavam interessadas em uma banda com ex-integrantes de bandas dos anos 80. O mesmo não se pode dizer da Europa, que nos entendeu e nos aceitou. O público europeu é muito mais compreensivo que o norte-americano.

Passamos dez meses de 1993 na estrada, tocando por toda a Europa. Nosso segundo álbum, “Gathering of the Freaks” (1994), é uma obra-prima. Obtivemos ótimas resenhas nas revistas europeias, mas, por algum motivo, a turnê acabou não sendo tão boa quanto achávamos que seria. Em determinado momento, os caras [da banda] desanimaram, o que me surpreendeu, pois a maioria deles era dez anos mais nova do que eu e estava sentindo o gostinho de viver de música pela primeira vez, tocando em festivais por todo o mundo. A chama se apagou rápido demais, e eu preferi colocar um ponto final antes que a banda virasse um Whitesnake que muda de formação toda hora.

 

 

Metal Na Lata: Já que você usou a definição “obra-prima”, qual álbum você considera a sua obra-prima?

Mike Tramp: Essa é uma pergunta impossível de responder, pois cada experiência agrega um pouco da anterior e por aí vai. Se pensarmos só no White Lion, é claro que é o “Pride” (1987). Aquilo é o verdadeiro White Lion, é a banda em seu momento de maior força criativa. Gravamos [o disco] com muito amor. No “Gathering of the Freaks”, tínhamos uma banda sólida, o que era um diferencial. Solo, muita gente me diz que eu melhoro a cada disco, outros acham que “Capricorn” é o melhor que eu já fiz. Enfim, deixo essa escolha a cargo do ouvinte. Para mim, meu melhor disco solo é o “Cobblestone Street”, que é quando eu tomei a decisão de voltar às raízes. Considero ele o meu renascimento como artista. É o trabalho que ditou as regras para tudo o que fiz depois dele.

 

Metal Na Lata: Quais são os planos para depois da quarentena? Aliás, ela chegou a atrapalhar a divulgação do seu penúltimo álbum, “Stray from the Flock” (2019), também, né?

Mike Tramp: Em vários aspectos, sim. Minha turnê norte-americana prevista para abril foi remarcada para agosto, mas não tenho como saber se ela irá realmente acontecer. Tenho shows marcados na Europa em outubro, outros só na Dinamarca em novembro ou dezembro, mas mesmo esses eu não sei se acontecerão. Sei que 2021 será o ano das turnês pelo resto do mundo. Tenho em mente voltar à América do Sul, desde que eu encontre as pessoas certas para viabilizarem esse retorno. Não quero dividir espaço com bandas cover locais; chega de tocar depois de bandas tributo ao Guns N’ Roses. Quero voltar para grandes noites; grandes noites só minhas.

 

Metal Na Lata: Muito obrigado, Mike! Vamos encerrar com uma mensagem para os seus fãs no Brasil e para todos os leitores do Metal Na Lata!

Mike Tramp: Sou muito grato aos meus fãs no Brasil. Ao mesmo tempo, fico triste por ser tão complicado ir tocar aí. Farei tudo que estiver ao meu alcance para que isso mude. Guardo ótimas lembranças do Brasil; estive a passeio aí em 1981, um adolescente pegando sol em Ipanema. Mas isso é história para um outro dia. Só voltaria em 2008, e essa volta não poderia ter sido mais estranha. Espero poder voltar e consertar isso!

 

Mais informações:

www.facebook.com/MikeTrampOfficial
www.miketramp.dk/

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