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Entrevista com Zhema Rodero (Vulcano)

ENTREVISTA COM ZHEMA RODERO (VULCANO)

O Vulcano é uma das maiores instituições do metal brasileiro, um verdadeiro baluarte nacional. Na ativa desde 1981 e com álbuns clássicos a nível mundial, o grupo vem há quase quatro décadas influenciando bandas de norte a sul e de leste a oeste com seu caldeirão de Black, Death e Thrash Metal. O recém-lançado “Eye In Hell” (leia a resenha aqui) dá sequência a essa discografia e já é forte candidato a um dos melhores álbuns do estilo em 2020. Conversamos com o membro fundador Zhema Rodero sobre este novo trabalho e muito mais. Confira!

Por José Henrique
Fotos: Divulgação

Metal na Lata: Obrigado por atender o Metal na Lata. Primeiramente, gostaria de parabenizá-lo pelo excelente “Eye In Hell”. Quando teve início o processo de criação e composição do álbum e como ele se desenvolveu?

Zhema Rodero: Não existe uma data ou um momento para o “start” de um novo álbum. Não funciona assim comigo, mesmo porque eu nesses últimos 39 anos nunca estive sob um contrato com gravadora e, portanto, compromissado com datas, regras e cronogramas. Em 2017 foi lançado nosso álbum “XIV” (leia a resenha aqui) e logo em seguida comecei a escrever novas músicas. Sempre faço isso porque durante a produção de um álbum eu toco e ouço centenas de vezes as suas músicas, a ponto de quando ele é lançado eu já estar de saco cheio delas. Então as músicas que você ouve no “Eye in Hell” foram criadas nesse período de 2018 a 2019. Elas já estavam gravadas e mixadas desde agosto de 2018, porém a Mighty Music tem um cronograma de lançamentos que deve ser obedecido, o que nos levou a segurar esse material até agora. A composição das músicas passa sempre por um mesmo processo, eu creio que é assim com todos os compositores; estou brincando com a guitarra e em determinado momento “sai” um “riff e eu penso “Opa! Isso é legal!” Ou eu posso desenvolvê-lo nesse exato momento ou eu gravo e guardo na minha “gaveta de riffs”. Em dias de inspiração vou até ela e escrevo uma canção, começo, meio e fim. É assim!

 

Metal na Lata: O Vulcano possui uma sequência bem regular de lançamentos. Todas as músicas do novo trabalho foram compostas para ele ou algumas delas são mais antigas e ficaram de fora de trabalhos anteriores?

Zhema Rodero: Eu sempre, sempre mesmo, componho mais músicas do que o necessário para um álbum. Somente depois eu escolho as que farão parte dele. Então a partir do “Tales from the Black Book” (2004) existem dezenas de músicas que nunca entraram em nenhum álbum. Ivan Pellicciotti tem todas essas músicas com ele no estúdio. Tem uma dessas que coloquei como bônus em algum relançamento e que creio que poucos conhecem chamada “Hexagram”. Músicas que ficam de fora eu não uso para um próximo lançamento, pois se elas ficaram de fora é porque não são boas o bastante. Para “Eye in Hell” eu escrevi dezoito músicas, das quais entraram treze músicas, o que eu acho que é até muito para um álbum, mas eu posso adiantar que três dessas cinco que sobraram são ótimas!

 

Metal Na Lata: A banda está com a mesma formação desde 2016. Isso fez o processo de composição fluir melhor? Quais características de cada integrante atual os tornam bons colegas de banda e qual foi a contribuição de cada um nas músicas de “Eye in Hell”?

Zhema Rodero: Na verdade, o Luiz Carlos Louzada (vocal) está na banda há mais de dez anos e participou seis álbuns de estúdio mais dois ao vivo. Carlos Diaz (baixo) tem mais tempo no Vulcano do que o Luiz, toca na banda desde 2006. Ele ficou fora por três anos e está de volta. O Gerson Fajardo (guitarra) está na banda há cinco anos, somente o Bruno Conrado (bateria) que ingressou em 2019, então não é uma formação tão nova assim. Cada um deles tem seu talento próprio e, portanto, produz seus próprios arranjos para as músicas. É assim que eles colaboram, fazendo seus melhores arranjos na gravação.

 

Metal Na Lata: “Eye in Hell” é um nome com duplo sentido, uma espécie de trocadilho, correto?  De onde vem a inspiração para as letras, tendo em vista que esse “lado negro” da existência é sempre abordado com conhecimento de causa?

Zhema Rodero: Não! “Eye in Hell”, tema da última música do álbum, é uma antítese no conceito filosófico da passagem de Paulo em Coríntios 9:27. São todos temas filosóficos. Eu gosto muito de Filosofia Hermética, então estou sempre lendo e tentando entender seus preceitos e conceitos e toda a metafísica envolvida de modo a conseguir trazer isso para estórias e alegorias fictícias. Mas eu penso que muitos não compreendem. Tenho lido resenhas superficiais que se referem aos temas deste álbum simplesmente pelo título das músicas; resenhistas que nem sequer tiveram a pachorra de ler cada tema.

 

Metal Na Lata: Apesar da produção e da sonoridade bem atuais, em “Eye in Hell” é possível verificar aquela tradicional veia Old School do Vulcano. Ao compor material novo, vocês buscaram inspiração no que já foi feito pelo Vulcano anteriormente? E que outros artistas ou bandas inspiraram e inspiram a banda?

Zhema Rodero: Eu já tenho 61, então eu não vejo nada que possa me inspirar atualmente. Meu “background” foi construído nos anos 70 e eu comecei a escrever música autoral nos anos 80, então não tem como mudar isso. Eu sempre colocarei essas referências em minhas músicas; é algo natural, quase um estigma, porque não há como fugir disso.

Metal Na Lata: Quais sons de “Eye in Hell” que, ao final da gravação, vocês mais curtiram? Para ajudar, digo que a minha preferida é “Cursed Babylon”!

Zhema Rodero: Eu gosto de todas, mas para responder sua pergunta eu cito “Cybernetic Beast”, “Evil Empire” e “Inferno”.

 

Metal Na Lata: Em meio a essa polarização política em nosso país, qual a visão de vocês com relação a isso tudo? Não a visão política, mas sim a visão deste cenário das pessoas estarem sempre conflitando entre si por possuírem opiniões divergentes sobre determinado assunto. Vocês já pensaram em abordar esse tema em alguma letra, ou realmente não é interessante para o Vulcano entrar nessa?

Zhema Rodero: Não, eu não me envolvo com política e tampouco coloco minha banda a favor de um lado ou de outro. Preocupo-me com os valores filosóficos da faculdade humana, o homem como um ser absoluto e não como um ser intelecto. Reforço aqui com uma passagem de Thomas More em seu livro “Utopia”: “Um governante que vive solitariamente no luxo e nos prazeres, enquanto à sua volta todos vivem em meio ao sofrimento e lamentações, estará atuando antes como carcereiro do que como um rei…”.

Metal Na Lata: Creio que o Vulcano seja uma das bandas nacionais com mais álbuns ao vivo lançados. Quais as diferenças que vocês poderiam destacar entre eles, já que foram feitos em épocas e com formações diferentes?

Zhema Rodero: Boa pergunta! Existe uma enorme diferença entre o “Live!” (1985) para os demais, “Live II Stockholm Stormed” (2014) e “Live III From Headbangers to Headbangers” (2018, leia a resenha aqui). O primeiro, apesar de ser gravado ao vivo, é composto inteiramente de músicas inéditas, ao contrário dos demais. Por esse motivo, eu o considero como meu full length de estreia. São poucas as bandas que me lembro de terem estreado com um álbum ao vivo. MC5 com “Kick Out the Jams” (1969) sendo uma delas e, eu acho, que o Jane’s Addiction autointitulado de 1987 também.

Já os Live II e III são álbuns ao vivo como a imensa maioria das bandas fazem, com músicas de seus repertórios e nenhuma inédita. O II foi gravado em Estocolmo em um show junto com o Nifelheim, onde o empresário do Nifelheim na época junto com a equipe técnica do evento gravou todo o show. Meses depois, ele me escreveu e enviou alguns pendrives com esse material e eu o lancei. Foi uma pena que ele não fez o mesmo com o show do Nifelheim.

Por fim, quanto ao III, meu amigo Wilton, da Heavy Metal Rock, o mesmo cara que esteve ao meu lado na gravação de 1985, me convidou para fazer um show comemorativo de 34 anos da loja dele. Então tivemos a ideia de repetir o evento e gravar esse terceiro ao vivo. Este álbum é muito legal porque ele dá uma geral em toda a carreira do Vulcano até então.

Metal Na Lata: Como vocês veem a influência e admiração de bandas de locais distantes como o já citado Nifelheim, da Suécia, confessos fãs do Vulcano? Que outros nomes de outros países estão entre os seus “fãs” e o que vocês acham do som que eles tocam?

Zhema Rodero: Bem, os caras do Nifelheim são amigos como os são, por exemplo, os mais próximos de mim aqui em Santos. Trocamos mensagens, frases e piadas pelo WhatsApp. Existem outros músicos, uma infinidade que encontramos nos shows pela Europa,  com os quais dividimos os camarins, bebemos cervejas, trocamos contatos etc., mas não temos aquela amizade próxima. Não me lembro bem, mas os caras do Watain, o batera do Opeth, os caras do RAM, o vocalista do Entombed, do Catherdral…! Um monte de músicos. Quem poderia responder melhor essa é o nosso tour manager, Alex Viertel.

 

Metal Na Lata: Em 2021 o Vulcano completa 40 anos. Passado esse tempo de quarentena, existe alguma intenção de vocês fazerem uma turnê comemorativa com ex-integrantes ou algum lançamento especial?

Zhema Rodero: Não! Não tenho essa intenção porque colocar em uma turnê todos os ex-integrantes seria inviável. Eu poderia então simplificar e dividir em duas formações básicas, a atual e a do “Anthropophagy” (1987) em diante, mas mesmo assim seria muito complicado reunir todas as condições para realizar uma turnê como essa.

Metal Na Lata: Obrigado pela atenção! Gostaria de pedir que você encerrasse com uma mensagem para seus fãs e leitores do Metal Na Lata!

Zhema Rodero: Agradeço ao Metal Na Lata por essa oportunidade de estar levando um pouco das ideias por trás do Vulcano e aos leitores pela paciência de chegarem até aqui em sua leitura. Keep Banging!!!!

 

Mais informações:

www.vulcanometal.com
www.facebook.com/vulcanometal

 

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