
“Uma banda obstinada a trair movimentos”. É assim como a própria banda Seu Juvenal se apresenta! Mas não é só discurso, pois demonstram essa afirmação em álbuns como “Rock Errado”, ou no mais recente projeto, “Maldito Rock”, onde interpretam composições dos “Malditos da MPB”. Sobre esse efervescente cenário musical, conversamos com Bruno Bastos (vocal) do Seu Juvenal. Confira!
Por Marcelo Lopes Vieira
Metal Na Lata: Comecemos pelo álbum, “Rock Errado”, que trouxe uma impressionante mistura de influências diversas e nenhum apreço às regras. Para mim esse é o rock certo! Mas se pensarmos pelos moldes duais tão em voga em nossa sociedade atual, qual é o “Rock Certo” a que vocês se opõem?
Bruno Bastos: Bom, “Rock Errado” é nosso terceiro disco, mas foi o primeiro a ter uma grande repercussão nacional. O “Rock Certo” que criticamos é o Rock burocrático, que tem receio de ousar. O Rock que tomou conta da mídia em geral. Por outro lado, sabemos que na cena independente tem muita gente fazendo coisas muito interessantes e mantendo o verdadeiro espírito do rock ainda vivo.
Metal Na Lata: Se entrarmos no mérito das composições da banda vemos territórios diferentes dentro do mundo roqueiro, dialogando de modo fluido. Como se dá o processo de composição de vocês? As misturas são minuciosamente pensadas, ou o espírito de ‘jam session’ reflete um processo criativo natural e em conjunto?
Bruno Bastos: Sim, acho que posso afirmar que o espírito de ‘jam-session’ é o que fala mais alto no processo criativo da banda. Não é algo muito planejado. Gostamos desse jeito, a coisa fica muito mais natural.
Metal Na Lata: O baterista Renato Zaca destacou que a banda Seu Juvenal não se enquadra em nenhum segmento. Isso não seria perigoso para o crescimento da banda dentro de uma cena moderna, onde nunca se consumiu tanta música, mas que se apega a rótulos dos mais estranhos para chamar a atenção tão dividida do público?
Bruno Bastos: Cara, achamos muito melhor crescermos como banda do que “crescer dentro de uma cena moderna”, tendo que seguir algum segmento e algumas regras. A liberdade deve sempre falar mais alto no Rock! Sim, é uma opção arriscada financeiramente, mas acho que encaramos isso meio que como uma missão (risos).
Metal Na Lata: O álbum, num geral, mostra uma banda que segue um traçado que vai de Itamar Assunção à Venom. Como caminhar por esta abordagem sem dar a impressão de estar tateando às cegas em busca de uma identidade?
Bruno Bastos: Bom, não sei bem como responder a isso, mas que bom que não parecemos estar tateando às cegas! Penso que pode ser pela bagagem da banda. Pode-se dizer que escutamos de quase tudo, principalmente dentro do Rock ‘n’ Roll.
Metal Na Lata: Comente um pouco sobre as faixas “Moleque Dissonante” e “Asfalto”, que refletem a ousadia da banda por maneiras diferentes.
Bruno Bastos: “Moleque” e “Asfalto” são músicas escritas há algum tempo (anos atrás). No caso de “Moleque”, o Zacca (guitarrista) a havia composto originalmente para nossa antiga banda, chamada Cachorros Mortos, e não chegamos a gravá-la. Ela tinha uma pegada totalmente diferente, bem Stoner/Punk. Quando fomos trabalhá-la para o Rock Errado os caras decidiram mudar a levada. O Renato teve a ideia de fazer algo mais para a linha de um Pixies e tal. Acabamos curtindo muito e ela virou um tipo de homenagem nossa para os caras. Asfalto também é das antigas. Ela já existia antes de eu entrar para a banda, em 2007. Enfim, o Seu Juvenal sempre teve um lado experimental bem forte.
Metal Na Lata: Confesso que na primeira audição de “Rock Errado” já atentei para pinceladas de influência da vanguarda paulista (de nomes como JardsMacalé, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé), que possui interseções com a cena “Maldita” da MPB. De onde surgiu a ideia de um show com releituras destes compositores ditos “malditos”?
Bruno Bastos: Não sei bem de onde surgiu essa ideia. Essa turma sempre foi uma influência forte pra banda. É um pessoal que acaba ficando às margens da MPB quando se trata da mídia em geral. Achamos que seria interessante apresentar este povo para o público do rock, que muitas vezes não faz nem ideia da importância deles para a música que fazemos no Brasil.
Metal Na Lata: Retomando às palavras de Renato Zaca, ele ainda diz que vocês fazem “rock do jeito errado para os padrões do politicamente correto”. Seria esse espírito o principal elo entre o Seu Juvenal e esta antiga cena “maldita” da MPB?
Bruno Bastos: Exato. Acho que isso resume bem o que seria este elo entre ambas as partes.
Metal Na Lata: Qual o direcionamento musical das releituras? Ficarão mais próximas às originais ou serão moldadas pelo Rock?
Bruno Bastos: Elas terão uma roupagem “Rock Errado” com certeza! Algumas até ficaram um pouco distante das originais.
Metal Na Lata: Poderia nos adiantar algumas das composições escolhidas para o projeto?
Bruno Bastos: Claro. Vai ter “Let’s Play That” de JardsMacalé e Torquato Neto, “Chavão Abre Porta Grande” de Itamar Assumpção, “Sunshine” de Arnaldo Batista, “Feito Gente” de Walter Franco, entre outras.
Metal Na Lata: Existe a possibilidade deste projeto evoluir para um CD com estas releituras?
Bruno Bastos: Acho que o principal motivo de isto não acontecer se deve à questão dos direitos autorais.
Metal Na Lata: Já pararam para pensar que grande parte do público de vocês será apresentada a nomes geniais da nossa música, como Sérgio Sampaio, Itamar Assunção, JardsMacalé e Walter Franco, neste projeto? Qual o sentimento da banda sobre isso?
Bruno Bastos: Pois é! Como citado anteriormente este é um dos motivos pelo qual estamos nesta empreitada!
Metal Na Lata: Por fim, agradeço a atenção com o Metal Na Lata, deixo o espaço aberto para que comentem algo que desejarem e não tenha sido abordado na entrevista, e pergunto: pode uma banda de rock tocar MPB?
Bruno Bastos: Obrigado pelo espaço! Mas é claro que sim uai, e seremos a prova viva disso (risos)!
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